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Frio no jardim

04.07.2021

Gabriel Chalita

De onde estou, vejo o frio e vejo o silêncio.
O cansaço me tira outra visão. E o conforto de pouco me mexer me desmobiliza de ir em busca de aquecimentos.

O jardim aquietado pouco perfuma. As rosas, antes tão luminosas, se perdem na timidez dos desânimos. As árvores, podadas pelos enganos, já não se comunicam como antes.  É inverno no tempo e na alma dos irmãos meus.

Há pássaros que trazem esperanças, mas são logo espantados por gritos histéricos de vermes rastejantes. Quem deu a eles tamanho? Quem a coragem ofereceu para rasgarem os disfarces e as almas de tantos irmãos meus? São preconceitos que voltaram a ocupar o jardim. São pragas que disseminam desamor. São cadafalsos de tempos que anunciavam vir tão mais felizes.

Onde estávamos, ontem, que não limpamos antes? E por que foi que nos desmobilizamos?

Vejo o sol ao longe, mas minhas mãos desabituaram de pegar o seu brilho. Envelheci antes, certamente. Descri da chegada de algum calor. Fico aguardando que cantem por mim, enquanto vivo a mudez. Lembro de tantos que já se foram e que rasgaram as mãos, limpando a vida do que a vida ameaçava. Eram fortes pela ausência de descanso. Eram valentes pela causa que anunciavam. E a sonoridade das notas de suas vidas aqueciam todo o jardim.

De onde estou, pouca disposição tenho para me preocupar com as sementes. Erro meu. Engordo de distrações os dias que deveriam entregar, às minhas mãos, água, pá e vontade. Fecho os olhos e olho dentro de mim, procurando o que perdi. Grito para dentro, exigindo alguma reação.

Teria dado eu poder demais ao medo? Teria me convencido de que um lavrador sozinho não muda a terra? E quem disse que sozinho estaria, se me levantasse rumo à coragem? É isso que grito, de mim para mim, para que alguma lucidez espante o desânimo que me mantém vendo apenas frio.

O frio no jardim mata os desagasalhados e nada faço para agasalhar. O frio no jardim faz marchar os que pisoteiam a verdade. O frio no jardim estende os mastros da injustiça como bandeiras de um povo incauto e inculto.

Busco, nas gavetas em mim, as argamassas de tempos novos, de primaveras do conhecimento, de encontro das diferenças fazendo canção. É de cultura que falo. De cultuar e cultivar a terra, o jardim, a alma dos irmãos meus. Mesmo dos que desalmados ficaram pelo engano dos dias.

Os gritos confundem, as ameaças atormentam, e o silêncio protege os vermes que vão crescendo de tamanho e de coragem. Sei que é  inverno, mas isso nunca foi desculpa para acomodar a estação.

Ao longe, o barulho de um trem, como nos tempos em que eu saía e visitava um museu cheio das coragens dos meus antepassados. 
Estariam eles sentados na vida, enquanto vidas partem prematuramente?

Volto ao meu interior para me aquecer e ouço um pássaro que persiste cantando, mesmo em meio ao gritos dos vermes. Agora, outro pássaro. E mais um. E, então, eu me alimento dos necessários incômodos que, com o frio, haviam partido. Mais um pássaro resolve correr o risco do congelamento e canta. Canta ele, cantam eles, uma canção que me comove, que me move.

Amanhã, espero escrever de um outro lugar. Não do que vejo acomodado, mas do que desacomoda os tempos para deixar o jardim ser jardim.

Frio no jardim

04.07.2021

Gabriel Chalita

De onde estou, vejo o frio e vejo o silêncio.
O cansaço me tira outra visão. E o conforto de pouco me mexer me desmobiliza de ir em busca de aquecimentos.

O jardim aquietado pouco perfuma. As rosas, antes tão luminosas, se perdem na timidez dos desânimos. As árvores, podadas pelos enganos, já não se comunicam como antes.  É inverno no tempo e na alma dos irmãos meus.

Há pássaros que trazem esperanças, mas são logo espantados por gritos histéricos de vermes rastejantes. Quem deu a eles tamanho? Quem a coragem ofereceu para rasgarem os disfarces e as almas de tantos irmãos meus? São preconceitos que voltaram a ocupar o jardim. São pragas que disseminam desamor. São cadafalsos de tempos que anunciavam vir tão mais felizes.

Onde estávamos, ontem, que não limpamos antes? E por que foi que nos desmobilizamos?

Vejo o sol ao longe, mas minhas mãos desabituaram de pegar o seu brilho. Envelheci antes, certamente. Descri da chegada de algum calor. Fico aguardando que cantem por mim, enquanto vivo a mudez. Lembro de tantos que já se foram e que rasgaram as mãos, limpando a vida do que a vida ameaçava. Eram fortes pela ausência de descanso. Eram valentes pela causa que anunciavam. E a sonoridade das notas de suas vidas aqueciam todo o jardim.

De onde estou, pouca disposição tenho para me preocupar com as sementes. Erro meu. Engordo de distrações os dias que deveriam entregar, às minhas mãos, água, pá e vontade. Fecho os olhos e olho dentro de mim, procurando o que perdi. Grito para dentro, exigindo alguma reação.

Teria dado eu poder demais ao medo? Teria me convencido de que um lavrador sozinho não muda a terra? E quem disse que sozinho estaria, se me levantasse rumo à coragem? É isso que grito, de mim para mim, para que alguma lucidez espante o desânimo que me mantém vendo apenas frio.

O frio no jardim mata os desagasalhados e nada faço para agasalhar. O frio no jardim faz marchar os que pisoteiam a verdade. O frio no jardim estende os mastros da injustiça como bandeiras de um povo incauto e inculto.

Busco, nas gavetas em mim, as argamassas de tempos novos, de primaveras do conhecimento, de encontro das diferenças fazendo canção. É de cultura que falo. De cultuar e cultivar a terra, o jardim, a alma dos irmãos meus. Mesmo dos que desalmados ficaram pelo engano dos dias.

Os gritos confundem, as ameaças atormentam, e o silêncio protege os vermes que vão crescendo de tamanho e de coragem. Sei que é  inverno, mas isso nunca foi desculpa para acomodar a estação.

Ao longe, o barulho de um trem, como nos tempos em que eu saía e visitava um museu cheio das coragens dos meus antepassados. 
Estariam eles sentados na vida, enquanto vidas partem prematuramente?

Volto ao meu interior para me aquecer e ouço um pássaro que persiste cantando, mesmo em meio ao gritos dos vermes. Agora, outro pássaro. E mais um. E, então, eu me alimento dos necessários incômodos que, com o frio, haviam partido. Mais um pássaro resolve correr o risco do congelamento e canta. Canta ele, cantam eles, uma canção que me comove, que me move.

Amanhã, espero escrever de um outro lugar. Não do que vejo acomodado, mas do que desacomoda os tempos para deixar o jardim ser jardim.

A derrota das palavras

27.06.2021

Gabriel Chalita

Mando notícias de Berlim. Já aqui, há alguns anos, publico a vida que conquistei. 

Sou bailarino. Rasgo a tristeza nos saltos que me fazem voar. E convivo com tantos ontens que não tiveram o poder de silenciar os meus sonhos.

Sou filho duvidoso de uma mulher que frequentou os mais dilacerantes calvários. Das lembranças que ainda tenho, ela se pintava com as trêmulas mãos para ganhar algum dinheiro entregando o corpo. Meu pai eram muitos. Ouvi histórias contraditórias e mastiguei o silêncio sem disposição para mais perguntas. No enterro de minha mãe, ouvi que ela, filho, não teve nenhum. Como saber?

Um homem mais velho resolveu interceder por mim, quando já mais ninguém havia. 
Gostava ele de balé. E foi assim que, pela primeira vez, eu vi um palco e vi o exercício das danças que voavam.  Sonhei, menino, ter essa vida. 

Morreu, também, o senhor. E fui viver em uma casa de acolhimento. Conheci, nesses esconderijos humanos, faces muitas da bondade. E, também, conheci o descaso, a perversidade, o desconhecimento do amor.

Desde o único dia de um único teatro, dançava eu nos sonhos e nos cantos que me sobravam. Foi quando um instrutor me tomou pelo braço e quis saber que movimento era aquele. Eu respondi dizendo que sonhava  ser bailarino. Ele deu um tapa na minha doída infância e gritou que eu virasse homem. 

Olhei sem reação e ainda tive ouvidos para ouvir que eu nunca seria ninguém. A brutalidade daquele homem condizia nada com seu comportamento em dias de visita. Tão solícito aos que tinham poder. Tão desumano aos que mais precisavam de humanidade.

Lorena era bailarina e abriu uma escola perto de onde eu vivia. Eu vi os seus vultos por entre as cortinas e parei como se parasse o mundo. Ela me viu. Olhos ardentes e silêncio. Sorriso medroso e silêncio. Movimentos nenhum e silêncio.

“Qual é seu nome, menino?””
“Leandro, senhora”. 
“Gosta de balé”?

Com medo de apanhar, novamente, disse nada. Lorena tinha a luz mais iluminada que já acendeu em mim. Pegou em meus sonhos e me conduziu para dentro da escola. Pouco tempo depois, fui viver em sua casa. Lorena havia perdido os dois filhos em um acidente da vida. Deu me a vida aquela mulher.

Os passos desencontrados encontraram motivos. Aprendi a emoção de cada compositor, a intenção de cada coreógrafo, a razão de dançar. A adoção demorou algum tempo. Todo o meu tempo era dela. Da escola à escola. Das rotinas de livros e cadernos aos saltos nascidos da técnica e da emoção. A dor se mudou da alma para os pés. Pés de bailarino.

Lorena abriu os espaços para que eu pudesse entrar. Era isso que eu dizia a ela, enquanto ela vivia por aqui. Ela dizia ‘não’ com a cabeça e me rendia os méritos por ser o bailarino que me tornei.

Morreu Lorena, depois de me ver dançando nos principais teatros da Europa. Era inverno e eu estava com ela. As suas mãos entrelaçadas às minhas dançaram a dança final de uma vida feliz. Eu disse tudo antes da partida. Das comportas do céu que se abriram para que ela dançasse sobre a terra, da generosidade que elevou meus passos, da música que retirou as barbáries de minha história. Eu sei que ela ouviu e, sorrindo, o seu corpo permitiu à bailarina que ocupasse o dançar da eternidade. 

Mando notícias de Berlim aos irmãos meus que sofrem o que eu sofri. Visito o meu país, quando posso, e sempre que vejo uma criança sem amor componho uma sinfonia inteira dentro de mim para abrir os teatros da vida e conceder o palco da alegria a quem tem o direito de ser.

Estava errado o instrutor. Pude perceber em mim a derrota das palavras malditas que, naquele dia, ele me ofereceu. Não é correto oferecer derrotas a ninguém. Nem desamor. 

Entristeço pela tristeza do outro e danço a liberdade para espantar tudo o que escraviza no mundo em que vivo. Vivo para dançar e vivo para agradecer os olhos que me retiraram da invisibilidade do mundo.

Fui filho de ninguém e filho do mundo inteiro na inteireza de uma mulher que se fez bondade. Em cada audição. Em cada dura prova para provar meu talento, eram seus olhos ou sua lembrança que me dizia: “Confia, Leandro, você pode, vai dar certo!”.

Mando notícias de Berlim e da vitória das palavras que pavimentam caminhos e que compreendem sonhos. 

Será que eles vêm?

20.06.21

Gabriel Chalita

Claro que eu gostaria que viessem, são meus filhos. Mas já não espero com o mesmo aguardar de antes. O amor não é um aprisionamento das horas em detrimento de liberdades. Não quero que venham sentindo o peso das renúncias, quero que venham para enternecer os nossos entardeceres e para alimentar de prazer a vida deles.

Cuidei eu dos meus pais até as despedidas. E sem pesar. Minha mãe foi se desconstruindo com a doença. No final, sabia nada de mim. Eu sabia tudo dela. E responder, invariavelmente, quem era eu não retirava, em absoluto, a vontade de estar com ela.

Meu pai se foi em um dia de outono. Poucos meses depois da minha mãe. Tomamos café juntos, e ele foi até a horta limpar as pragas. E voltou. Lavou a vida nas águas que escorriam de suas mãos envelhecidas. Deu uma laranja nascida de um laranjal plantado por ele e sorriu explicando a doçura da fruta que me alimentaria. 
Foi para o quarto dizendo nada, e nada nunca mais disse. Enquanto descansava para o almoço, descansou para a eternidade.

Minha irmã e eu cuidamos de nunca deixar os ventos da solidão despentearem a felicidade dos dois. Meus filhos não são assim. E são quatro. Há algum tempo, tempo nenhum eles têm para nos ver. Julieta é quem sofre mais. É mãe. Mente contando histórias das histórias que têm eles. “São ocupados demais, David, os meninos”. Não concordo nem discordo. Estamos casados há 65 anos. Temos nossas aposentadorias e alguma reserva. Temos cuidadores que se fizeram filhos na delicada decisão de serem a terra que precisamos para brincar nossas memórias. 

Ivan é o caçula. Liga com alguma frequência e mente obrigações. Moram os quatro na mesma cidade que nós. Disseram que se preocuparam conosco nesses tempos de pausa e, então, se ausentaram para nos proteger. Desculpa. Até nas ligações são eles econômicos.

Fico pensando se o erro foi meu. Se não plantei corretamente a semente que recebi dos meus pais. Se não gastei os dias trabalhando demais. Mas e a mãe? A devotada mãe que escolheu a maternagem para a sua vida? Vejo as suas mãos virando as páginas antigas dos álbuns de ontem, vejo os risos acompanhando as lembranças, vejo o esforço para entender dessas novas mídias e ficar buscando encontrar os sorrisos, que faltam nas visitas, nas postagem que eles fazem. “Olha, David, que beleza que está a Mariana. Puxou a você. Sua neta tem os seus olhos, meu amor”. Mariana, também, não vem. Vinha quando precisava.

O fruto do meu trabalho já foi dividido entre eles. Achei por bem fazer em vida. Julieta concordou. Deixem que administrem. O que temos nos basta. E basta mesmo. Sei de tantos que, na nossa idade, ficam na dependência de outros. Fui cauteloso. E, mesmo dividindo uma soma considerável de patrimônio, ouvi de meu filho David, o mais velho, o que leva o meu nome, que a casa era grande demais para os dois. O meu olhar e o meu silêncio bastaram. Grande demais é a ambição dos que não compreendem o belo do amor.

Os livros me fazem companhia e as conversas com Julieta e os filmes que gostamos de assistir e os que aqui trabalham. “Será que eles vêm no domingo, David?” . “Vem não, meu amor. A previsão do tempo para domingo é de sol. Você acha que vão deixar a praia para vir até aqui?”.”
“Imagine, David. Eles têm é muito trabalho. São todos muito ocupados. Olha, eu vou te mostrar o que eu vi do Fernando no celular”. “Quero ver não, Julieta. Deixa eu continuar lendo a vida do Tolstói”. 

Ela se fez de entristecida, gosta de defender os filhos. Então, eu prossegui: “Meu amor, olha que bonita essa frase do Tolstói : aquele que conheceu apenas a sua mulher e a amou  sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil”. Ela pegou, então, na minha mão e apertou com as forças que ainda permaneciam. E fizemos amor de um jeito nosso, no entardecer de mais um dia. 

Eu disse que pediria para dona Isabel, que trabalha conosco, que convidasse os seus filhos para o domingo. Gosto de ensinar gamão para o Leandro, o mais velho. Luana arruma os cabelos de Julieta e a perfuma de atenção.

Reclamar da nossa vida é incorreto. As ausências se preenchem com descobertas que o tempo nos oferece quando nos permitimos limpar a sala do nosso aconchego para receber quem quer se aconchegar. E tem mais um detalhe, Julieta toca piano e eu ainda me emociono como das primeiras vezes. Ouçam, ela está tocando “O lago dos cisnes”, é lindo demais! 

Bebendo a desconfiança

13.06.2021

Gabriel Chalita

Doutora Julieta desconfia de mim. Sei disso. Talvez, tenha os seus motivos. Já foi enganada à exaustão. Por outras que, por aqui, trabalharam. Por homens que passaram por sua vida. Por vidas que despedaçaram a sua. Eu entendo. Também desconfio dela. Também eu já vivi a iminência do desistir.

Quando Roberto foi embora, sorrindo, eu olhei nos seus olhos e vi uma outra mulher desalojando os meus espaços. Dói ser trocada. Oscilamos os limites da não existência. A vontade de não mais estar. Imaginei rabiscando um solilóquio dramático de um fim. Apaguei os dias em que não existi, depois de muitos dias. E voltei a brincar de viver, desconfiando.

Confio nada nos homens. E, também, nas mulheres. Judite trabalha comigo no consultório da Doutora Julieta. Jura amizade e esconde informações. Tem medo de que eu ocupe o lugar dela. Sorrimos, ora sinceras, ora obrigadas pelas circunstâncias dos dias. Desconfio das suas histórias, dos seus vitimismos. Sempre sofrida, sempre disposta a ajudar. Sei não.

Sou de outra espécie, da que finge heroísmos. Quando disse a ela o que disse a mim o Roberto, ela quis saber por que não retruquei. Não sou de retrucar. Bebendo a desconfiança, fui matando a sede das incompreensões, fui percebendo que é dentro da gente que devem morar as melhores respostas.
 
Desconfio dos políticos. Não sem razão. A razão tem me ensinado que os egoísmos são como que uma camisa de força que nos prende à infelicidade, e que os que conseguem se libertar e abraçar alguma bondade  tornam-se grandes na humanidade. Mas quantos são assim? 

Desconfio dos que me vendem facilidades. Viver é árduo. Não se colhe o não plantado. Disfarço atenção aos que sorriem sem sinceridade. Não serei uma mulher impolida. Nem abraçarei a desagradável sentença de julgar, apressadamente, os que se aproximam. Sou cautelosa. Ou medrosa, talvez.

Gosto da mãe da doutora Julieta. Seus enfeites de vida brotada nos sacrifícios. Gosto da sinceridade com que ela desconfia e revela as desconfianças. Da própria filha, inclusive. Que quis antecipar a herança. Que quis administrar a mãe. Os olhos dela ensinam a beleza de uma velhice com sabedoria. Conversamos, há alguns dias, sobre uma amiga que morreu, “a velhice nos ensina a conviver com as despedidas”, foi o que disse, sem rancor e sem alegria.

Há muito, ela não lê jornais. Leu, em algum livro de que não se lembra, que são aperitivos de mau gosto para abrir o dia. 
Disse eu a ela, quando ainda sofria da partida de Roberto, que contava os dias para envelhecer. Que aí, sim, seria plena. Que os desejos seriam passado. Que as tormentas cederiam espaço aos silêncios aconchegantes. Ela sorriu com os olhos desconfiados e disse, como que descortinando mistérios: “respeite o tempo”. 

Tenho uma filha que é um pedaço de mim, que é o amor que me faz inteira. Lembro-me da gravidez. Dos dias que antecederam o parto. Eu que sou dada a pensamentos inusitados ficava imaginando que, depois da sua chegada, seria a pessoa mais importante da minha vida. Que muitos amores seriam ali canalizados. E estava certa. É ela que me apresenta os meus mais lindos sentimentos. Ser mãe é arrebentar as tais camisas de força dos egoísmos e entregar o nosso inteiro a uma parte inteira que sai de nós. Mas até de mim desconfio. Quando sonho por ela. Quando decido por ela a escolha da felicidade. Quando resolvo trancar os seus sofrimentos com as minhas proteções. 
Sim, desconfio de mim. Das projeções. Das expectativas. Ela não é uma parte de mim para realizar a parte que ficou faltando da minha realização. Ela é ela, Sophia, o nome do que busco a vida toda. Saber. Desconfio do que sei porque não sei se sei ou se acho apenas que sei para impressionar. 

Na clínica, vejo pessoas buscando belezas. Quisera eu me formar em uma medicina de bondades. Trabalharia com mais decisão. 
Desconfio que a desconfiança nasceu em mim no dia em que nasci. Como proteção. Como honestidade de atravessar com cuidado as margens intranquilas da vida. A ponte é muito frágil e se constrói aos poucos. Com pedaço da gente que vai ficando. Com os tempos que vão e que dão liga às vigas que percorremos e que percorreremos. 

Quero envelhecer, sim, e acalmar os olhos para enxergar com beleza o outro lado. Desconfio que deva ser lindo. 

Fui acender uma vela

06.06.2021

Gabriel Chalita

Fui acender uma vela, como minha mãe ensinou.

No dia em que uma parte de mim voou e a outra parte quis voar para me encontrar, eu senti o que é o amor. A dor era tão forte que o sol, que brilhava ao lado, não espantava a chuva que chovia só em mim. Fui sentar sem mim em um banco, em uma praça. Fiquei ali, soterrado de histórias. Algumas reais, outras, certamente, inventadas pela minha necessidade de amor.

Fui trocado, subitamente. Parecíamos eternos até o dia em que, na iminência de desaparecer os nossos laços, saí sem ouvir.  Oscilamos muitas vezes, mas tínhamos um futuro, era isso que me confortava.

Desconfortado, fiquei com o fim. Foi o primeiro fim. Não sei precisar se o mais dorido. Outros se sucederam a esse desfecho. Por mais ou por menos dias, sofri. E, depois, vivi as sobras que se encontram na caixa dos desejos que não desaparecem de nós, mesmo quando parecemos desaparecer. E, então, me lembrava da fé de minha mãe. E da vela. “Vai acender uma vela, minha filho, que tudo se acalma”.

Hoje,  penso na vela e na oração da minha mãe. Da vela, aprendi, também, que a luz que chameja ilumina e aquece e espanta a frieza do frio que mora em mim, mesmo nos dias quentes de verão. Sobre a oração, também compreendi que o seu poder é o de melhorar em mim o que eu preciso quando peço para Deus. 

Tenho tentado acender velas. Tenho tentado, aquecido, aquecer. Tenho, rabiscadas em mim, cicatrizes que me ajudam a mapear os sofrimentos do mundo. É desumano não se dobrar de joelhos e chorar pelas desumanidades. 

Aprendi, com o tempo, que voar para ir em busca da parte que parte, quando parte um amor, é mais bonito do que os voos incorretos de ódio. A vingança sempre foi uma erva amarga que não me interessou.

O plantio de minha mãe, da luz da vela que foi se consumindo até o dia da despedida, foi de um perfume que o tempo não leva e que preenche todos os espaços do meu existir. E, quando me procuro nas lembranças dela, só há verdade. Ao contrário das memórias construídas de amores que se foram.

O tempo tem um estranho brincar que desmancha as rasuras e que valoriza o belo. Talvez seja melhor assim. Sempre houve um luar acompanhado nos tempos do amor. Sempre houve um calor gostoso nos tempos do amor. E um arrepio feitor de elevações nos tempos do amor. Mas os tempos do amor são todos os tempos. Mesmo os de dor. Mesmo os de educativa dor. Se chove em nós, é para que compreendamos a chuva. E, se faz sol, é para que saibamos a diferença dos dias quentes e dos outros. Se tropeçamos e nos aliviamos depois, é para que compreendamos o dual. 

Faz um ano que minha mãe se foi e, então, eu acendi uma vela. E pude até encontrar sorriso nas lembranças dos seus ensinamentos. E, então, deixei de vasculhar em mim razões para compreender o que não se compreende.  Há véus de mistérios por todos os lados enfeitando de surpresas a vida. Querer saber demais é acabar sentindo de menos. 

Os amores todos que viveram em mim e que se foram ficaram. E, de todos eles, é a vela da minha mãe a que mais  continua a chamegar vida em mim. 

O acumulador de bondades

30.05.2021

Por Gabriel Chalita

As máscaras foram deixadas de lado no domingo de ventos e de sol. Pela janela, um som bonito de felicidade. Éramos poucos, como convém nesses tempos de pausa. George sorri com os olhos e fala, sem pausas, a alegria de viver. Gosta dos aniversários. Eu gosto, também. 

O sol forte ilumina a minha alma. Pela janela, olho a vida.Vem um pensamento de outros tempos. Morava eu nos fundos de uma casa, não muito longe de onde estou. Era jovem e era feliz.  Ronaldo era o dono da parte da casa que me cabia, era a ele que pagava, regularmente, o aluguel. Sei pouco de sua vida. Sei que ele era um acumulador.  Os móveis brigavam por espaço. As caixas, de onde vinham os móveis, também. As louças, que eu avistava pela janela, por entre os tantos guardados que quase impediam a visão,  misturavam-se a espaço nenhum. 

Na entrada, havia muitos vasos e poucas flores. Tentei falar de algum plantio. A escuridão da ignorância, entretanto, preenchia os pensamentos sisudos de Ronaldo. Ele andava carregando o peso do mundo. E sofria de  um esquecimento da condição natural de felicidade.  As roupas guardadas eram tantas, e as que usava, as mesmas. 

Não sou dono das decisões de ninguém, apenas observo e absorvo o que me inspira e o que me afasta. Decidi deixar o meu canto minimalista, enfeitado de passarinhos que me acordavam, brincando com as flores boas que eu cultivava. Lembro-me do dia em que escolhi e do dia em que parti. Da conversa com Ronaldo. Das frases soltas que jogamos. Família, ele não tinha. Nem disposição para o calor. Na ausência das relações, preenchia ele, de coisas, a vida.

O barulho de George me acorda do passado. Conta ele de uma amiga entristecida com a partida de um amor. E de seu amparo. “Sou dos que param o dia para ajudar algum amigo”, disse George. Eu concordei. Multiplicou ele as forças para, de mim, cuidar, quando me acidentei. Dias difíceis.

Era um dia assim, cheio de verão, e um caminhão acumulado de descuido me jogou fora da estrada. Desacordado, acordei sendo cuidado. Não tenho a ingenuidade de imaginar bondades nas pessoas. Sei que é mais fácil causar dor no outro do que sentir dor. Sei que há uma orla de insensatos que agride a vida destruindo sentimentos. Vejo isso nas ruas, vejo isso nas redes. Desperdiçam o prazer de falar com as pessoas para falar das pessoas.
George não é assim. Diferentemente de Ronaldo, George é um acumulador de bondades. 

No meu pé direito,  a cicatriz do acidente. No meu lado esquerdo,  a metáfora da gratidão por encontrar amigos na travessia que me compete no misterioso tempo da existência.

O bolo é de morangos. Sophia abana os rabos e brinca de latir. O vento mais atrevido atrapalha o cabelo de Maísa, que está comigo. Digo que vou embora, ele insiste para um pouco mais de permanência. Esclareço que permaneceremos sempre, que a amizade é um sopro divino que nos relembra a essência de cuidadores. Nascemos para cuidar. Nascemos para sermos cuidados.
Ele agradece contando uma das tantas histórias engraçadas que homenageiam a leveza do bom humor.

Andando de volta para casa, respiro o dia que se despede, agradecendo. 

O perfume de Rosa

23.05.2021

Gabriel Chalita

Faz tanto tempo e o perfume, ainda, preenche. Os azulejos da cozinha são os mesmos. Envelhecidos pelo ar da idade. O azul se acalmou. As minhas inquietudes, também.

Era Rosa o nome da minha avó. Rosa é mais do que um nome, é uma vocação.

Meu avô, eu conheci pequeno e, pequeno, dele me despedi. Ouvi, desde sempre, o som de uma tosse perturbadora e o som de um amor cuidador. Rosa cozia a vida para iluminar aquele quarto onde foram tão felizes.

Eu gostava de ficar imaginando o que conversavam quando tinham um futuro. Ela era mais alta do que ele. Mais decidida, decidi eu que pouco conheci seus tempos de independência.

Quando minha mãe morreu, foi com ela que escrevi os dias. Sobre lembranças, posso escrever um tratado. Da minha volta da escola. Do sono com ela, depois do almoço. Seus dedos brincando de desarrumar os meus cabelos e de cantar canções de calmaria. 

De quando quebrei o braço. Mal sabia ela que era um desejo que eu, secretamente, alimentava. De ter gesso. Das pessoas escreverem dizeres. De quando chorei por ter sido reprovado no coral da escola. A gente afina e desafina, é assim a vida. E eu enxugava o resmungo e ia viver.  

Meu avô ouvia do quarto a conversa e gritava uns sons querendo entender. 

Ela socorria os dois. E também minha tia, a mulher mais namoradeira que já conheci. Pelo menos nas falas. Todo homem tinha propensão a querer viver uma história com ela. Mas era ela muito inteligente e eles se afastavam, era o que ela explicava. “Alessandro”, vou te ensinar a vida, dizia minha tia, que pouca vida teve antes de partir. 

Minha avó enterrou as duas filhas. E enterrou a tristeza, depois de um tempo. E encerrou as incompreensões de um fardo tão carregado. E viveu os dias sem reclamos. Seu semblante me inspirava. Os seus movimentos, eu imitava brincando.

Havia um roseiral no quintal. E eu gostava de ver as podas, os cuidados, as conversas. Uma Rosa dizendo às outras rosas os seus sentimentos. 

Digo isso, hoje, porque acordei com o cheiro da torta  de maçã  que ela fazia. 

Nunca soube que as memórias cheiravam. Cheiram. Cheiram saudade. Cheiram um tempo. O tempo doce das rosas. O prazer que minha avó tinha de cortar as maçãs, de preparar a calda, de enfeitar cada instante do seu dia para alimentar a vida.

No sepultamento do meu avô, lá estava ela. Altiva. Digna. Sabedora de ter feito o necessário. Chorou a despedida e, de mãos dadas, fomos para casa. Por algum tempo, ficou sozinha no Roseiral. Eu vi da janela. Eu fotografei na minha alma. 

No dia seguinte, arrumou o quarto. Separou o que o agasalhava e agasalhou outras pessoas.

Invariavelmente, ela levava tortas de maçãs para um asilo que ficava no quarteirão onde morávamos. Eu ia junto. Cresci indo junto com ela viver a generosidade. Sei que sofrimento não é escolha, escolha é o que fazemos com o sofrimento. Aturdido por barulhos insanos, é comum gritarmos a dor. Rosa gritava a coragem ou silenciava até encontrar forças. 

Na sala em que ela guardava boa parte dos seus livros, havia um sofá confortável onde eu me deitava no seu colo e pedia conselhos. Mesmo depois de crescido. Mesmo depois de liderar centenas de funcionários em uma empresa. Tirava o paletó, os sapatos e me deitava em Rosa e me perfumava de um amor inesquecível. Ela ora apenas ouvia, ora dizia. 

Ela morreu no despedir de um dia comum.

Já não morávamos juntos. Fiz de tudo para ela ir comigo. Agradecia sempre e sempre me explicava que gostava das recordações de onde vivia. Era um dia comum, como disse. Passei cedo na sua casa,  e ela estava na cozinha fazendo a tal torta. Falamos da morte, porque uma atriz amada havia morrido. “Que privilégio morrer trabalhando”, disse Rosa. E disse mais,  que a morte era apenas uma luz que mudava de lado, um caminhante que atravessava a margem de um rio, uma primavera que devolvia perfume às flores que o inverno levava. Gostava Rosa dos livros. Gostava de ler ou contar histórias para mim. Eu disse que passaria no fim do dia. E passei.

Na poltrona, Rosa estava, confortavelmente, sentada com um livro nas mãos. Os olhos cerrados indicavam a partida. As rosas no vaso antigo enfeitavam. E a música ainda prosseguia explicando o amor. Sem dores ela se foi, aos 93 anos. O cabelo impecavelmente arrumado. A leve maquiagem. O colar de pérolas que eu dei. E o cheiro da torta de maçã sobre a mesa, preparada para comermos juntos.

Faz tanto tempo e tudo é tão ontem dentro de mim.

Entre o doce de goiaba e a banana desidratada

16.05.2021

Gabriel Chalita

Mandar no que eu como? Não. Nem os meus filhos mandam. Tenho o corpo que quero ter na idade que tenho. E isso é problema que não compete a uma agregada. Quando tiver tempo, procuro melhor o significado desta palavra: agregada.

Meu filho do meio é meio lento para a compreensão de quem presta e de quem não presta, quando se trata de paixão. 

Valéria não é grande coisa. E não me venham com o apetite de dizer que tenho ciúme do meu filho.

A Janaína, que é a mais velha, se casou com um homem que poderia ter nascido de mim, de tão parecido comigo que é. Meu genro nunca deu palpite no que eu como, pelo contrário, faz questão de me alimentar com guloseimas e com carinho.  Já disse que quero um neto igual a ele. Janaína ri desconcertada. Mas gosta dos delírios da mãe faladeira. 

O Júnior, o caçula, ainda não escolheu. Tem tempo. Espero que não siga a sina da ausência de pensamento do irmão.

Otávio pensa nada. É guiado pela veterinária. Valéria é veterinária, não sei se já disse. Diz ela que gosta de bicho, o que já ganharia de mim alguma aprovação. Bicho, ela não tem. Com a Pipoca, cachorra de casa, ela só brinca quando eu estou vendo. Pensa que eu sou cega. Me faço, às vezes.

A Tereza, que trabalha em casa, concorda comigo. Valéria tem o porte de não se importar com ninguém, além dela mesma. 

Foi, então, que eu me ressenti com o seu comentário sem pertinência. “Dona Dulce, a senhora não deveria comer tanto doce. Se quiser, eu trago um banana desidratada que faz o mesmo efeito”.

“Não quero”, pensei comigo. Não quero de jeito nenhum. Banana desidratada. Ela pode ser magra, mas beleza só o sonso do Otávio para enxergar. Sabe o que me incomoda mais, é que, toda vez que ele fala, ela interrompe. Ela sempre sabe mais do que ele. Ela sempre tem um exagero a mais do que os exageros que os outros contam.

Minha avó dizia que tem gente que sabe, tem gente que não sabe e tem gente que pensa que sabe. Esses são os piores. Essa é Valéria. Não há assunto que ela não pense que saiba. E o indefeso do Otávio diminui a voz para o nosso desprazer de ouvir a voz da Valéria.

Todo o apetite que tenho para o doce de goiaba, que não é desidratada, eu não tenho para a conversa da fulana. Já expliquei para o Otávio o que eu penso. E disse devagar para ele compreender. Ela é nervosa demais. É mandona. Dá broncas nele e isso antes do casamento.

Ele, que não é dado a discordâncias, apenas sorri para mim e diz que me ama. 

E, então, eu deixo as rasuras de lado e me apego ao principal. Um texto que nasceu de mim e que só diz bondades. Ele se forma médico o ano que vem. Trabalha com tanto afinco. Vai ser oncologista. Pesquisa o que pode para diminuir a dor do mundo. Fala sem arroubos, ouve com generosidade e une as mãos ao coração para em ninguém tocar sem deixar um tanto de amor. Um homem desses não poderia encontrar alguém que falasse menos? 

Pipoca não gosta de Valéria. O que, para mim, é uma confirmação das minhas suspeitas. Pipoca é uma cachorra sensitiva. Se ela desconfia, eu desconfio. 

Tereza disse que ouviu um barulho de Valéria reclamando de mim para o Otávio. Que faz de tudo para me agradar, mas que eu dou de ombros para os seus afagos.

Quero afago nenhum dela. Quero verdade. 

E a verdade é que eu crio os meus filhos para a felicidade.

O Otávio é muito diferente quando está sem ela. É mais leve. É despreocupado com as brincadeiras. É inteiro. A Janaína, a minha filha mais velha, que é psicóloga, diz que ou você é você em uma história ou é preciso que a razão explique para o desejo que não vale a pena prosseguir.

Eu concordo.

Perdi cedo meu marido. O câncer o levou sem compreender o vazio sem ele. Abracei meus três filhos. Chorei o que tive de vontade. E decidi viver espantando qualquer desistência. Otávio não diz, mas sei que querer prolongar a vida dos doentes é um aprendizado nascido da dor da partida do pai. 

Éramos os quatro. Meus três filhos e eu brincando de acordar os dias e enfrentar os tempos ruins. Eu levantava batendo panela no quarto deles e cantando alguma canção engraçada. E exigindo alegria. Aprendi com as minhas cicatrizes que alegria é hábito. E ensinei isso a eles. Então, por favor, vou comer o doce de goiaba que eu quiser. E, discretamente, vou rezar para que o meu menino acorde da teimosia de achar que, aos poucos, a Valéria se apruma. 

E olha que eu até acredito em milagres!

Carta para a mãe de Paulo Gustavo

09.05.2021

Gabriel Chalita

Dona Deia, hoje é dia das mães. E sei que seu coração dói. Enterrar um filho é desdizer o cordão umbilical, é inverter as lógicas, é desapropriar o direito de lamber a cria com a alma, de impedir a visão encantada de ver o fruto crescendo. 

O fruto, Paulo Gustavo, cresceu. Se fez um homem capaz de emocionar um país inteiro. O fruto abraçou a autenticidade como princípio de vida. 

Foi assim que ele fez com que pudéssemos conhecer a mãe, nas suas peculiaridades, no seu humor, no seu inegociável exercício de amar. Ele fez humor com respeito. Ele fez humor com inteligência. Ele fez humor com a pedagogia própria dos que perfumam o mundo com a sua existência. Nos perfumamos de Paulo Gustavo. No teatro, no cinema, na televisão, nas novas mídias, nas matérias que iam desvelando um pouco a sua vida.

Seu filho amou sem receios. E, sem receios,  foi se apresentando como um colecionador de verdades. Nada de máscaras. Nada de sombras. Foi a luz da sua vida que clareou tantos preconceitos. Que aliviou tantas inseguranças. 

Amou um homem, Thales, e por ele foi amado. E por ele é amado. A fotografia da história dos dois inspirou outros a não temerem as singularidades, princípio tão bonito do existir humano. Cada um é único e cada um tem o direito de ser feliz do seu jeito. De construir a sua trajetória ao lado de quem faz a travessia ser mais aconchegante. Thales também chora, hoje, a ausência do seu amor. Embora dentro dele, o amor permaneça. 

A paternidade trouxe ao seu filho novas perspectivas. Ele não estará acompanhando o crescimento do Gael e do Romeu. Mas o Gael e o Romeu crescerão sabendo do pai que distribuiu sorrisos e plantou alegrias, do pai que rompeu barreiras e que fincou a bandeira da verdade onde pôde, do pai que fez do tempo e do espaço uma eternidade de sonhos e de realizações.

Eles vão rever, muitas vezes, ao seu lado, as imagens que ficaram do Paulo Gustavo e vão aplaudir, com a vida, a vida que decidiu dar vida a eles. 

Hoje é dia das mães, Dona Deia. A senhora tem uma outra filha para beijar. A senhora tem uma história para agradecer. A senhora tem uma dor para conviver. Mas a dona Hermínia é forte. É ousada. E fez um contrato com a vida. Nada de desistências. Seu filho, que fez de tudo pela senhora, envia sinais de ternura pelas imagens e pelas frases que, miraculosamente, permanecem dentro da gente. E ele te diz: Feliz dia das mães. E ele sorri brincando de ser filho em outra estação. Uma que desconhecemos, mas que existe.

O vulcão de amor que é seu filho não acabou. Permanece onde não sabemos, apenas sentimos. Porque os sentimentos, talvez, sejam mais nobres que os pensamentos. Há muitas mães, como a senhora, que hoje gostariam de ter, no colo do cuidado, os seus filhos. E há muitos filhos que, também, se ressentem do vazio das mães que vivem na eternidade e nas memórias. 

Eu sinto muita falta da minha mãe. E, então, te abraço na alma, comungando da falta que sei que seu filho faz. O seu filho virou um pouco irmão nosso. Rezamos por ele, torcemos por ele, choramos por ele. No plano humano, lamentamos a partida. No plano da fé, simplesmente agradecemos.

No curto espaço do seu existir, Paulo Gustavo eternizou os sentimentos mais lindos que elevam a humanidade ao lugar onde ela se reconhece humana. É humano o direito de sofrer e é, também humano, o direito de agradecer vidas curtas que alongam os sentimentos do mundo.

Querida Dona Deia, um ser de luz só nasce de um ventre de luz.  Feliz, apesar da dor, dias das mães.