Fui acender uma vela

06.06.2021

Gabriel Chalita

Fui acender uma vela, como minha mãe ensinou.

No dia em que uma parte de mim voou e a outra parte quis voar para me encontrar, eu senti o que é o amor. A dor era tão forte que o sol, que brilhava ao lado, não espantava a chuva que chovia só em mim. Fui sentar sem mim em um banco, em uma praça. Fiquei ali, soterrado de histórias. Algumas reais, outras, certamente, inventadas pela minha necessidade de amor.

Fui trocado, subitamente. Parecíamos eternos até o dia em que, na iminência de desaparecer os nossos laços, saí sem ouvir.  Oscilamos muitas vezes, mas tínhamos um futuro, era isso que me confortava.

Desconfortado, fiquei com o fim. Foi o primeiro fim. Não sei precisar se o mais dorido. Outros se sucederam a esse desfecho. Por mais ou por menos dias, sofri. E, depois, vivi as sobras que se encontram na caixa dos desejos que não desaparecem de nós, mesmo quando parecemos desaparecer. E, então, me lembrava da fé de minha mãe. E da vela. “Vai acender uma vela, minha filho, que tudo se acalma”.

Hoje,  penso na vela e na oração da minha mãe. Da vela, aprendi, também, que a luz que chameja ilumina e aquece e espanta a frieza do frio que mora em mim, mesmo nos dias quentes de verão. Sobre a oração, também compreendi que o seu poder é o de melhorar em mim o que eu preciso quando peço para Deus. 

Tenho tentado acender velas. Tenho tentado, aquecido, aquecer. Tenho, rabiscadas em mim, cicatrizes que me ajudam a mapear os sofrimentos do mundo. É desumano não se dobrar de joelhos e chorar pelas desumanidades. 

Aprendi, com o tempo, que voar para ir em busca da parte que parte, quando parte um amor, é mais bonito do que os voos incorretos de ódio. A vingança sempre foi uma erva amarga que não me interessou.

O plantio de minha mãe, da luz da vela que foi se consumindo até o dia da despedida, foi de um perfume que o tempo não leva e que preenche todos os espaços do meu existir. E, quando me procuro nas lembranças dela, só há verdade. Ao contrário das memórias construídas de amores que se foram.

O tempo tem um estranho brincar que desmancha as rasuras e que valoriza o belo. Talvez seja melhor assim. Sempre houve um luar acompanhado nos tempos do amor. Sempre houve um calor gostoso nos tempos do amor. E um arrepio feitor de elevações nos tempos do amor. Mas os tempos do amor são todos os tempos. Mesmo os de dor. Mesmo os de educativa dor. Se chove em nós, é para que compreendamos a chuva. E, se faz sol, é para que saibamos a diferença dos dias quentes e dos outros. Se tropeçamos e nos aliviamos depois, é para que compreendamos o dual. 

Faz um ano que minha mãe se foi e, então, eu acendi uma vela. E pude até encontrar sorriso nas lembranças dos seus ensinamentos. E, então, deixei de vasculhar em mim razões para compreender o que não se compreende.  Há véus de mistérios por todos os lados enfeitando de surpresas a vida. Querer saber demais é acabar sentindo de menos. 

Os amores todos que viveram em mim e que se foram ficaram. E, de todos eles, é a vela da minha mãe a que mais  continua a chamegar vida em mim. 

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