Deitei o mar

25.07.21

Gabriel Chalita

Estava exaurido,quando cheguei em mim, e perscrutei o que havia me tornado. Um ser de infelicidades.

No trabalho, as asperezas do Dr. Walter. Os gritos parecem alimentar a sua ânsia de poder. Sou motorista, apenas. E ele a mim se dirige variando brincadeiras vulgares com xingamentos. E eu digo nada. Mente o Dr. Walter com a mesma regularidade com que respira. Finjo distância, mas o gordo da sua voz não deixa espaço nenhum para o silêncio. 

Preciso do trabalho. E trabalho sofrendo pela ausência de coragem de dizer ‘sim’ à liberdade de tentar outros caminhos. Dirijo carros, mas estaciono a minha vida.

No amor, a vergonha de ser trocado. Sei que acontece. Mas não sabia que doía tanto. Foram palavras poucas em um disfarce facilmente percebível. Acusações encomendadas para culpar quem fica. Fiquei eu chorando a cama vazia e a pouca vontade para um recomeçar.

Resolvi estudar. Como? Se horários não me pertencem? Como doeu, certa vez, em que o deixei em casa depois do desligar do dia. Eram 2 da manhã. Ele, vociferando brincadeiras tolas, contando vantagens da vida sexual, marcou comigo às 7 do dia seguinte. Contando o tempo da distância entre as nossas casas, o que sobrou foi para um banho e um café sem açúcar.

Cheguei, pontualmente, e ele saiu às 10. Sem uma palavra de desculpa por me deixar sem dormir. É esse o meu patrão. Gosto nada de suas piadas. Mas exerço o sacrifício do riso. Forçado. 

Pedi a um professor paciência no atraso de um trabalho. A um outro, desmarquei a prova. E, assim, vou de súplica em súplica. Alguns compreendem, outros desatendem. É assim mesmo. Sou apenas um. Sou ninguém. 

E foi assim que saí de sua casa e fui em direção ao mar. Estava contando os dias para um dia de repouso. Estava contando os dias para um dia de paz, sem que eu pensasse na dor da traição. Estava contando os dias para terminar a faculdade e dirigir minha vida sem precisar digerir indelicadezas. 

Fui em direção ao mar.  E deitei o meu cansaço na areia. E deitei o mar de barulhos que atormentavam aquele dia. Com a roupa do trabalho. Com o trabalho de acordar o mundo adormecido dentro de mim.

Adormeci e sonhei a infância. Meu pai faleceu no meu primeiro engatinhar. Minha mãe teve que cuidar de tantos. O mar. Eu pequeno, brincava com uma bola pequena, quando as ondas desavisadas do meu pouco ter engoliram. Eu tentei ter a bola de volta. Eu chorei na beira e nada pude contra o vaivém ininterrupto daquele dia, de tantos outros dias.

Perdi meu pai, quando nem sabia. Perdi uma bola imaginando ter perdido o mundo. Perdi tanto. Foi o que o meu alternar de realidade e sonho diziam no cansaço da areia.

Era um entardecer e poucas pessoas estavam na praia. Fazia frio no dia e em mim. E, mesmo no cansaço, havia um vento bom que me lembrava a graça de estar vivo.
Pensei pensamentos estranhos. Quem fez o mar? Por que o mar foi feito? E o resto, quem fez? E a injustiça não pode ter sido feita pelo mesmo Artista que fez o mar. Nem a traição. Nem os dizeres arrogantes. Quem fez? Quem foi que me fez? 

Não sei se, no sonho ou no pensamento, o menino, que um dia eu fui e que chorou apenas uma bola, conversava comigo. E me recobrava o que ele sonhava naquele dia. Um dia, ele não seria mais menino e enfrentaria as ondas descuidadas e tomaria de volta o que era seu.

Como faço para tomar de volta o que é meu? Como faço para desviver a submissão, o comodismo e reencontrar as forças do menino valente?

O sol já estava indo, quando acordei em definitivo. Decidi limpar os pesos que me prendiam ao chão que não me pertencia. 
Há beleza demais no universo para me empoeirar de vidas sem vida. Amanhã, Dr. Walter será apenas uma lembrança do que não quero jamais ser. Amanhã, a dor de amor que passou será passado. Amanhã, me formarei na escola de comunicar felicidades. É isso o que importa. 

Limpei a pouca areia teimosa e ri como riem os loucos ou os apaixonados. Falei sozinho comigo e me vesti de vontade para beijar minha mãe. Dona Elvira anda reclamando das minhas ausências. Ela vai se surpreender. 

A neblina do tempo

18.07.2021

Gabriel Chalita

É tarde e já me ocupo dos véus do esquecimento. Antes isso a rascunhar textos que já se foram. Depois da carta entregue, nada mais há a ser feito pelo carteiro, nem pelo escrevedor. As letras, fotografias daqueles instantes, já emolduraram os sentimentos. E, na escrivaninha do recebedor da carta, o espaço para a permanência ou não.

Em todas as casas, há lixeiras e, em todas as lixeiras, há passados. O passado que esqueci autorizou outra chegada.

Sou mulher de fé. Não titubeio, quando se trata de dobrar os joelhos. E de acreditar  que me transformo, quando transformo em oração as dores que me sangram.

E foi assim que, em um dia comum, na Igreja, com os olhos para dentro, ouvi uma voz em cantoria. Pedi a Deus um minutinho e abri os olhos e as esperanças e vi Breno.
O culto continuou e eu prossegui, observando. Dona de atitudes, fui dizer a ele a beleza da voz. Ele acenou agradecendo e prosseguiu para dentro.

A pastora da minha Igreja é uma distribuidora de alegrias. Foi assim que eu soube, inclusive, o nome do anjo cantador, Breno. Foi assim que eu soube, também, que ele jurava haver aposentado os seus sentimentos.  Meu silêncio provocou a pastora que sorriu decidida. “Domingo próximo, jantaremos. Eu sei que, com você, tudo tem que ser rápido”.  

Contei os dias até chegar o dia do encontro. O culto transcorreu como sempre. Cheguei antes. Não consegui explicar ao tempo que ainda faltava muito para o horário. Sentei quase na frente e nada de Bruno. Olhava sorrindo, disfarçando,  aos irmãos que se ajeitavam nos assentos. Olhava de um lado a outro e nada.

Subitamente, senti um perfume e vi o pescoço de Breno passando por mim e encontrando, no primeiro banco da Igreja, seu conforto. Meu entusiasmo foi se despedindo, quando percebi que, em nenhum momento, ele olhou para os lados, nem para trás.  Ele, decididamente, não estava na mesma espera que eu. 

Acabou o culto e eu sai sem despedidas. 
Antes de chegar em casa, o telefonema da pastora.  E, depois, o jantar e, depois, a conversa leve e, depois, um outro encontro e, depois, o impertinente medo de amar novamente.

É, por isso, que  cultivo a neblina do tempo. Faço votos repetidos de não olhar para trás e de não me permitir trancar as portas para um outro começo. Breno dedicou instantes preciosos para dizer o passado. Falou dos arrombamentos, chorou as partidas e as tentativas erradas de chegada.

Ouvi em silêncio. Sei ouvir. E falei, sem sobressaltos: “Está com medo?”. Ele ouviu e, enquanto pensava, prossegui: “Eu também”. Ele sorriu. E, depois, emendou: “E se, mais uma vez, não der certo?”. Não aliviei: “Choramos e partimos”. Mas os meus olhos explicavam que, hoje, estava dando certo. Os dele diziam a mesma coisa. E desperdiçar um instante não é prova de conhecimento da vida. 

Resolvi comer a metade da parte da pizza dele, que descansava no prato. Ele gostou, dizendo que, nessas situações, não come. Eu expliquei que era um sinal, porque eu comia em dobro. Rimos. Rir juntos é um bom começo. 

E foi assim que ele entrou em minha casa e conheceu meus filhos, meus maiores amores. E foi assim que eu entrei em sua casa e conheci sua filha, seu maior amor.
Está tudo nos inícios, mas quando me lembro de que tudo começou em uma Igreja, enquanto eu rezava e ele cantava; quando me lembro de que machucados estavam os dois, quando me lembro dos sentimentos que sentimos…

Mas nossas cartas já haviam sido entregues, por que pedir informações ao carteiro.  É o que tento me convencer, quando o passado teima em querer dizer.
Mesmo sendo tarde, os véus do esquecimento me ajudam a ver um outro cenário. Com um outro amor.

Como disse a minha pastora, viver sem amor é um desperdício que não combina com a atitude de um crente.

Bem-vindo, Breno.
Prossigo crendo. 

A idade do amar

11.07.2021

Gabriel Chalita

Ela mora em frente à minha casa. Falamos pouco. É Darcy o seu nome. O meu, também.
Não faz muito tempo, a surpreendi com um daqueles cigarros que se faz com as mãos. 
Ela, na janela. Eu, também.

Ao longe, observei o desleixo com a vida. O vestido com algum remendo. O lenço por sobre os cabelos mal colocado. A tristeza do mundo inteiro morando em um olhar.

Viúvo, também sou. Minha Adélia se foi dessa doença terrível que silenciou a humanidade. Ainda sofro a ausência do cheiro que me perfumava de alegria. Era descrente Adélia de que o vírus roubaria vidas. Era crente na fala errática dos que brincaram com a vida dos outros. Cuidou pouco de si mesma e se foi, tristemente, sem despedidas. Dizia ela que Deus ajeitaria para que nada de mal acontecesse, e eu dizia que Deus nos deu a inteligência para não cobrarmos Dele o que nós mesmos podemos fazer.

Minha Adélia levou um pedaço de mim. Éramos diferentes até nas escolhas políticas, éramos um na cumplicidade humana de amar sem exigências.  Quando doente ela ficou, preferi que fosse comigo. Desacreditei da vida, quando a vi sem vida. Choro ainda a não conversa, a não presença, o não abraço em anos de noite esquentando a mesma cama de amor. 

Darcy tem a beleza escondida nos seus mistérios. Conheci o Armando, seu marido. Homem de sussurros. Vi nada dos seus dizeres nem dos seus carinhos com a mulher. O cumprimento era com o olhar e, vez ou outra, um aceno discreto.

Fui ao enterro do falecido. E desacreditei de alguma dor maior em sua mulher. Parecia satisfeita com o desfecho. Quem sabe o que vive junto um casal? 

Darcy tem uma filha que mora fora. E que estudou com a minha filha que, também, não mora por aqui. Vive ela só. Eu, também.
Ainda tenho a idade do amar. Darcy mora no número 57. E eu no 66. A soma dá 12. Cismei que significa alguma coisa. 

Não poucas noites, acordei surpreendido com um sonho bom em que fazíamos juntos o cigarro de palha e que, depois, sorríamos como um convite. Na primeira noite, pedi desculpas para Adélia. Sei lá se os mortos entram nos sonhos da gente. Fazia uma semana que ela havia me deixado. Achei que, pelo menos, deveria esperar 12 dias para sonhar com outra mulher.

Se me perguntarem se tem Darcy atrativos que despertem uma paixão, respondo nada. Não sou das externalidades. Cultivo o que mora dentro. E, no silêncio de Darcy, há algo que barulha os meus sentimentos.

O dia em que ela estava com uma garrafa térmica de café servindo a si mesma em uma pequena xícara, fiquei observando a fumaça subindo livremente. O silêncio daquele ritual foi quebrado por um carro de som oferecendo pamonhas. 
Acenei para o vendedor e comprei duas.
Pedi que atravessasse a rua e entregasse uma a ela.  Ela pegou e negou qualquer sorriso. Não comeu na minha frente. Prosseguiu no café e no olhar misterioso. 

Há uma figueira esguia que sombreia minha janela e tenho a impressão de que é para os seus galhos que olha Darcy. Ou então, disfarça ela, de mim, os seus sentimentos.
Percebo que as plantas da entrada de sua casa estão mal cuidadas. Há algumas samambaias que, se podadas, ganhariam mais beleza. Gosto de como elas caem, despreocupadas, pintando de verde as paredes.

Sou bom no cuidar. Pensei em oferecer o que sei, mas voltei a ser o adolescente medroso de antes de Adélia aparecer e nada disse. Pensei em escrever a Darcy, explicando que, talvez, estejam Armando e Adélia conversando por lá. Achei desnecessário.  Estou esperando uma ocasião para atravessar a rua e entrar em seu silêncio. Quem sabe ela tenha uma tosse e eu corra, rapidamente, com um pote de mel?! Ou, então, eu corrija alguma goteira que, em dia de chuva mais forte, perturbe o seu teto?

Nossas idades pouco importam. Importam as carícias que temos condensadas em compartimentos possíveis de serem abertos. Sonho com um caminhar de mãos dadas até a praça que fica na rua de cima.
Sonho em desajeitar os passos para confundir os paralelepípedos que sustentam paradas as nossas vidas.

Gosto  do movimento, do sorvete e do beijo de amor. Dizia Adélia que era eu um romântico das antigas.  Dirá alguma coisa Darcy? Sei que tenho me aprumado melhor. Que voltei a comprar camisas novas e que me barbeio com finalidades maliciosas.  Quero encostar no rosto de Darcy a pureza de um amor na melhor idade.

E quem disse que não há beleza no entardecer?

E quem disse que os sorrisos, nos inícios, não podem ser para dentro?

Frio no jardim

04.07.2021

Gabriel Chalita

De onde estou, vejo o frio e vejo o silêncio.
O cansaço me tira outra visão. E o conforto de pouco me mexer me desmobiliza de ir em busca de aquecimentos.

O jardim aquietado pouco perfuma. As rosas, antes tão luminosas, se perdem na timidez dos desânimos. As árvores, podadas pelos enganos, já não se comunicam como antes.  É inverno no tempo e na alma dos irmãos meus.

Há pássaros que trazem esperanças, mas são logo espantados por gritos histéricos de vermes rastejantes. Quem deu a eles tamanho? Quem a coragem ofereceu para rasgarem os disfarces e as almas de tantos irmãos meus? São preconceitos que voltaram a ocupar o jardim. São pragas que disseminam desamor. São cadafalsos de tempos que anunciavam vir tão mais felizes.

Onde estávamos, ontem, que não limpamos antes? E por que foi que nos desmobilizamos?

Vejo o sol ao longe, mas minhas mãos desabituaram de pegar o seu brilho. Envelheci antes, certamente. Descri da chegada de algum calor. Fico aguardando que cantem por mim, enquanto vivo a mudez. Lembro de tantos que já se foram e que rasgaram as mãos, limpando a vida do que a vida ameaçava. Eram fortes pela ausência de descanso. Eram valentes pela causa que anunciavam. E a sonoridade das notas de suas vidas aqueciam todo o jardim.

De onde estou, pouca disposição tenho para me preocupar com as sementes. Erro meu. Engordo de distrações os dias que deveriam entregar, às minhas mãos, água, pá e vontade. Fecho os olhos e olho dentro de mim, procurando o que perdi. Grito para dentro, exigindo alguma reação.

Teria dado eu poder demais ao medo? Teria me convencido de que um lavrador sozinho não muda a terra? E quem disse que sozinho estaria, se me levantasse rumo à coragem? É isso que grito, de mim para mim, para que alguma lucidez espante o desânimo que me mantém vendo apenas frio.

O frio no jardim mata os desagasalhados e nada faço para agasalhar. O frio no jardim faz marchar os que pisoteiam a verdade. O frio no jardim estende os mastros da injustiça como bandeiras de um povo incauto e inculto.

Busco, nas gavetas em mim, as argamassas de tempos novos, de primaveras do conhecimento, de encontro das diferenças fazendo canção. É de cultura que falo. De cultuar e cultivar a terra, o jardim, a alma dos irmãos meus. Mesmo dos que desalmados ficaram pelo engano dos dias.

Os gritos confundem, as ameaças atormentam, e o silêncio protege os vermes que vão crescendo de tamanho e de coragem. Sei que é  inverno, mas isso nunca foi desculpa para acomodar a estação.

Ao longe, o barulho de um trem, como nos tempos em que eu saía e visitava um museu cheio das coragens dos meus antepassados. 
Estariam eles sentados na vida, enquanto vidas partem prematuramente?

Volto ao meu interior para me aquecer e ouço um pássaro que persiste cantando, mesmo em meio ao gritos dos vermes. Agora, outro pássaro. E mais um. E, então, eu me alimento dos necessários incômodos que, com o frio, haviam partido. Mais um pássaro resolve correr o risco do congelamento e canta. Canta ele, cantam eles, uma canção que me comove, que me move.

Amanhã, espero escrever de um outro lugar. Não do que vejo acomodado, mas do que desacomoda os tempos para deixar o jardim ser jardim.

Frio no jardim

04.07.2021

Gabriel Chalita

De onde estou, vejo o frio e vejo o silêncio.
O cansaço me tira outra visão. E o conforto de pouco me mexer me desmobiliza de ir em busca de aquecimentos.

O jardim aquietado pouco perfuma. As rosas, antes tão luminosas, se perdem na timidez dos desânimos. As árvores, podadas pelos enganos, já não se comunicam como antes.  É inverno no tempo e na alma dos irmãos meus.

Há pássaros que trazem esperanças, mas são logo espantados por gritos histéricos de vermes rastejantes. Quem deu a eles tamanho? Quem a coragem ofereceu para rasgarem os disfarces e as almas de tantos irmãos meus? São preconceitos que voltaram a ocupar o jardim. São pragas que disseminam desamor. São cadafalsos de tempos que anunciavam vir tão mais felizes.

Onde estávamos, ontem, que não limpamos antes? E por que foi que nos desmobilizamos?

Vejo o sol ao longe, mas minhas mãos desabituaram de pegar o seu brilho. Envelheci antes, certamente. Descri da chegada de algum calor. Fico aguardando que cantem por mim, enquanto vivo a mudez. Lembro de tantos que já se foram e que rasgaram as mãos, limpando a vida do que a vida ameaçava. Eram fortes pela ausência de descanso. Eram valentes pela causa que anunciavam. E a sonoridade das notas de suas vidas aqueciam todo o jardim.

De onde estou, pouca disposição tenho para me preocupar com as sementes. Erro meu. Engordo de distrações os dias que deveriam entregar, às minhas mãos, água, pá e vontade. Fecho os olhos e olho dentro de mim, procurando o que perdi. Grito para dentro, exigindo alguma reação.

Teria dado eu poder demais ao medo? Teria me convencido de que um lavrador sozinho não muda a terra? E quem disse que sozinho estaria, se me levantasse rumo à coragem? É isso que grito, de mim para mim, para que alguma lucidez espante o desânimo que me mantém vendo apenas frio.

O frio no jardim mata os desagasalhados e nada faço para agasalhar. O frio no jardim faz marchar os que pisoteiam a verdade. O frio no jardim estende os mastros da injustiça como bandeiras de um povo incauto e inculto.

Busco, nas gavetas em mim, as argamassas de tempos novos, de primaveras do conhecimento, de encontro das diferenças fazendo canção. É de cultura que falo. De cultuar e cultivar a terra, o jardim, a alma dos irmãos meus. Mesmo dos que desalmados ficaram pelo engano dos dias.

Os gritos confundem, as ameaças atormentam, e o silêncio protege os vermes que vão crescendo de tamanho e de coragem. Sei que é  inverno, mas isso nunca foi desculpa para acomodar a estação.

Ao longe, o barulho de um trem, como nos tempos em que eu saía e visitava um museu cheio das coragens dos meus antepassados. 
Estariam eles sentados na vida, enquanto vidas partem prematuramente?

Volto ao meu interior para me aquecer e ouço um pássaro que persiste cantando, mesmo em meio ao gritos dos vermes. Agora, outro pássaro. E mais um. E, então, eu me alimento dos necessários incômodos que, com o frio, haviam partido. Mais um pássaro resolve correr o risco do congelamento e canta. Canta ele, cantam eles, uma canção que me comove, que me move.

Amanhã, espero escrever de um outro lugar. Não do que vejo acomodado, mas do que desacomoda os tempos para deixar o jardim ser jardim.

A derrota das palavras

27.06.2021

Gabriel Chalita

Mando notícias de Berlim. Já aqui, há alguns anos, publico a vida que conquistei. 

Sou bailarino. Rasgo a tristeza nos saltos que me fazem voar. E convivo com tantos ontens que não tiveram o poder de silenciar os meus sonhos.

Sou filho duvidoso de uma mulher que frequentou os mais dilacerantes calvários. Das lembranças que ainda tenho, ela se pintava com as trêmulas mãos para ganhar algum dinheiro entregando o corpo. Meu pai eram muitos. Ouvi histórias contraditórias e mastiguei o silêncio sem disposição para mais perguntas. No enterro de minha mãe, ouvi que ela, filho, não teve nenhum. Como saber?

Um homem mais velho resolveu interceder por mim, quando já mais ninguém havia. 
Gostava ele de balé. E foi assim que, pela primeira vez, eu vi um palco e vi o exercício das danças que voavam.  Sonhei, menino, ter essa vida. 

Morreu, também, o senhor. E fui viver em uma casa de acolhimento. Conheci, nesses esconderijos humanos, faces muitas da bondade. E, também, conheci o descaso, a perversidade, o desconhecimento do amor.

Desde o único dia de um único teatro, dançava eu nos sonhos e nos cantos que me sobravam. Foi quando um instrutor me tomou pelo braço e quis saber que movimento era aquele. Eu respondi dizendo que sonhava  ser bailarino. Ele deu um tapa na minha doída infância e gritou que eu virasse homem. 

Olhei sem reação e ainda tive ouvidos para ouvir que eu nunca seria ninguém. A brutalidade daquele homem condizia nada com seu comportamento em dias de visita. Tão solícito aos que tinham poder. Tão desumano aos que mais precisavam de humanidade.

Lorena era bailarina e abriu uma escola perto de onde eu vivia. Eu vi os seus vultos por entre as cortinas e parei como se parasse o mundo. Ela me viu. Olhos ardentes e silêncio. Sorriso medroso e silêncio. Movimentos nenhum e silêncio.

“Qual é seu nome, menino?””
“Leandro, senhora”. 
“Gosta de balé”?

Com medo de apanhar, novamente, disse nada. Lorena tinha a luz mais iluminada que já acendeu em mim. Pegou em meus sonhos e me conduziu para dentro da escola. Pouco tempo depois, fui viver em sua casa. Lorena havia perdido os dois filhos em um acidente da vida. Deu me a vida aquela mulher.

Os passos desencontrados encontraram motivos. Aprendi a emoção de cada compositor, a intenção de cada coreógrafo, a razão de dançar. A adoção demorou algum tempo. Todo o meu tempo era dela. Da escola à escola. Das rotinas de livros e cadernos aos saltos nascidos da técnica e da emoção. A dor se mudou da alma para os pés. Pés de bailarino.

Lorena abriu os espaços para que eu pudesse entrar. Era isso que eu dizia a ela, enquanto ela vivia por aqui. Ela dizia ‘não’ com a cabeça e me rendia os méritos por ser o bailarino que me tornei.

Morreu Lorena, depois de me ver dançando nos principais teatros da Europa. Era inverno e eu estava com ela. As suas mãos entrelaçadas às minhas dançaram a dança final de uma vida feliz. Eu disse tudo antes da partida. Das comportas do céu que se abriram para que ela dançasse sobre a terra, da generosidade que elevou meus passos, da música que retirou as barbáries de minha história. Eu sei que ela ouviu e, sorrindo, o seu corpo permitiu à bailarina que ocupasse o dançar da eternidade. 

Mando notícias de Berlim aos irmãos meus que sofrem o que eu sofri. Visito o meu país, quando posso, e sempre que vejo uma criança sem amor componho uma sinfonia inteira dentro de mim para abrir os teatros da vida e conceder o palco da alegria a quem tem o direito de ser.

Estava errado o instrutor. Pude perceber em mim a derrota das palavras malditas que, naquele dia, ele me ofereceu. Não é correto oferecer derrotas a ninguém. Nem desamor. 

Entristeço pela tristeza do outro e danço a liberdade para espantar tudo o que escraviza no mundo em que vivo. Vivo para dançar e vivo para agradecer os olhos que me retiraram da invisibilidade do mundo.

Fui filho de ninguém e filho do mundo inteiro na inteireza de uma mulher que se fez bondade. Em cada audição. Em cada dura prova para provar meu talento, eram seus olhos ou sua lembrança que me dizia: “Confia, Leandro, você pode, vai dar certo!”.

Mando notícias de Berlim e da vitória das palavras que pavimentam caminhos e que compreendem sonhos. 

Será que eles vêm?

20.06.21

Gabriel Chalita

Claro que eu gostaria que viessem, são meus filhos. Mas já não espero com o mesmo aguardar de antes. O amor não é um aprisionamento das horas em detrimento de liberdades. Não quero que venham sentindo o peso das renúncias, quero que venham para enternecer os nossos entardeceres e para alimentar de prazer a vida deles.

Cuidei eu dos meus pais até as despedidas. E sem pesar. Minha mãe foi se desconstruindo com a doença. No final, sabia nada de mim. Eu sabia tudo dela. E responder, invariavelmente, quem era eu não retirava, em absoluto, a vontade de estar com ela.

Meu pai se foi em um dia de outono. Poucos meses depois da minha mãe. Tomamos café juntos, e ele foi até a horta limpar as pragas. E voltou. Lavou a vida nas águas que escorriam de suas mãos envelhecidas. Deu uma laranja nascida de um laranjal plantado por ele e sorriu explicando a doçura da fruta que me alimentaria. 
Foi para o quarto dizendo nada, e nada nunca mais disse. Enquanto descansava para o almoço, descansou para a eternidade.

Minha irmã e eu cuidamos de nunca deixar os ventos da solidão despentearem a felicidade dos dois. Meus filhos não são assim. E são quatro. Há algum tempo, tempo nenhum eles têm para nos ver. Julieta é quem sofre mais. É mãe. Mente contando histórias das histórias que têm eles. “São ocupados demais, David, os meninos”. Não concordo nem discordo. Estamos casados há 65 anos. Temos nossas aposentadorias e alguma reserva. Temos cuidadores que se fizeram filhos na delicada decisão de serem a terra que precisamos para brincar nossas memórias. 

Ivan é o caçula. Liga com alguma frequência e mente obrigações. Moram os quatro na mesma cidade que nós. Disseram que se preocuparam conosco nesses tempos de pausa e, então, se ausentaram para nos proteger. Desculpa. Até nas ligações são eles econômicos.

Fico pensando se o erro foi meu. Se não plantei corretamente a semente que recebi dos meus pais. Se não gastei os dias trabalhando demais. Mas e a mãe? A devotada mãe que escolheu a maternagem para a sua vida? Vejo as suas mãos virando as páginas antigas dos álbuns de ontem, vejo os risos acompanhando as lembranças, vejo o esforço para entender dessas novas mídias e ficar buscando encontrar os sorrisos, que faltam nas visitas, nas postagem que eles fazem. “Olha, David, que beleza que está a Mariana. Puxou a você. Sua neta tem os seus olhos, meu amor”. Mariana, também, não vem. Vinha quando precisava.

O fruto do meu trabalho já foi dividido entre eles. Achei por bem fazer em vida. Julieta concordou. Deixem que administrem. O que temos nos basta. E basta mesmo. Sei de tantos que, na nossa idade, ficam na dependência de outros. Fui cauteloso. E, mesmo dividindo uma soma considerável de patrimônio, ouvi de meu filho David, o mais velho, o que leva o meu nome, que a casa era grande demais para os dois. O meu olhar e o meu silêncio bastaram. Grande demais é a ambição dos que não compreendem o belo do amor.

Os livros me fazem companhia e as conversas com Julieta e os filmes que gostamos de assistir e os que aqui trabalham. “Será que eles vêm no domingo, David?” . “Vem não, meu amor. A previsão do tempo para domingo é de sol. Você acha que vão deixar a praia para vir até aqui?”.”
“Imagine, David. Eles têm é muito trabalho. São todos muito ocupados. Olha, eu vou te mostrar o que eu vi do Fernando no celular”. “Quero ver não, Julieta. Deixa eu continuar lendo a vida do Tolstói”. 

Ela se fez de entristecida, gosta de defender os filhos. Então, eu prossegui: “Meu amor, olha que bonita essa frase do Tolstói : aquele que conheceu apenas a sua mulher e a amou  sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil”. Ela pegou, então, na minha mão e apertou com as forças que ainda permaneciam. E fizemos amor de um jeito nosso, no entardecer de mais um dia. 

Eu disse que pediria para dona Isabel, que trabalha conosco, que convidasse os seus filhos para o domingo. Gosto de ensinar gamão para o Leandro, o mais velho. Luana arruma os cabelos de Julieta e a perfuma de atenção.

Reclamar da nossa vida é incorreto. As ausências se preenchem com descobertas que o tempo nos oferece quando nos permitimos limpar a sala do nosso aconchego para receber quem quer se aconchegar. E tem mais um detalhe, Julieta toca piano e eu ainda me emociono como das primeiras vezes. Ouçam, ela está tocando “O lago dos cisnes”, é lindo demais! 

Bebendo a desconfiança

13.06.2021

Gabriel Chalita

Doutora Julieta desconfia de mim. Sei disso. Talvez, tenha os seus motivos. Já foi enganada à exaustão. Por outras que, por aqui, trabalharam. Por homens que passaram por sua vida. Por vidas que despedaçaram a sua. Eu entendo. Também desconfio dela. Também eu já vivi a iminência do desistir.

Quando Roberto foi embora, sorrindo, eu olhei nos seus olhos e vi uma outra mulher desalojando os meus espaços. Dói ser trocada. Oscilamos os limites da não existência. A vontade de não mais estar. Imaginei rabiscando um solilóquio dramático de um fim. Apaguei os dias em que não existi, depois de muitos dias. E voltei a brincar de viver, desconfiando.

Confio nada nos homens. E, também, nas mulheres. Judite trabalha comigo no consultório da Doutora Julieta. Jura amizade e esconde informações. Tem medo de que eu ocupe o lugar dela. Sorrimos, ora sinceras, ora obrigadas pelas circunstâncias dos dias. Desconfio das suas histórias, dos seus vitimismos. Sempre sofrida, sempre disposta a ajudar. Sei não.

Sou de outra espécie, da que finge heroísmos. Quando disse a ela o que disse a mim o Roberto, ela quis saber por que não retruquei. Não sou de retrucar. Bebendo a desconfiança, fui matando a sede das incompreensões, fui percebendo que é dentro da gente que devem morar as melhores respostas.
 
Desconfio dos políticos. Não sem razão. A razão tem me ensinado que os egoísmos são como que uma camisa de força que nos prende à infelicidade, e que os que conseguem se libertar e abraçar alguma bondade  tornam-se grandes na humanidade. Mas quantos são assim? 

Desconfio dos que me vendem facilidades. Viver é árduo. Não se colhe o não plantado. Disfarço atenção aos que sorriem sem sinceridade. Não serei uma mulher impolida. Nem abraçarei a desagradável sentença de julgar, apressadamente, os que se aproximam. Sou cautelosa. Ou medrosa, talvez.

Gosto da mãe da doutora Julieta. Seus enfeites de vida brotada nos sacrifícios. Gosto da sinceridade com que ela desconfia e revela as desconfianças. Da própria filha, inclusive. Que quis antecipar a herança. Que quis administrar a mãe. Os olhos dela ensinam a beleza de uma velhice com sabedoria. Conversamos, há alguns dias, sobre uma amiga que morreu, “a velhice nos ensina a conviver com as despedidas”, foi o que disse, sem rancor e sem alegria.

Há muito, ela não lê jornais. Leu, em algum livro de que não se lembra, que são aperitivos de mau gosto para abrir o dia. 
Disse eu a ela, quando ainda sofria da partida de Roberto, que contava os dias para envelhecer. Que aí, sim, seria plena. Que os desejos seriam passado. Que as tormentas cederiam espaço aos silêncios aconchegantes. Ela sorriu com os olhos desconfiados e disse, como que descortinando mistérios: “respeite o tempo”. 

Tenho uma filha que é um pedaço de mim, que é o amor que me faz inteira. Lembro-me da gravidez. Dos dias que antecederam o parto. Eu que sou dada a pensamentos inusitados ficava imaginando que, depois da sua chegada, seria a pessoa mais importante da minha vida. Que muitos amores seriam ali canalizados. E estava certa. É ela que me apresenta os meus mais lindos sentimentos. Ser mãe é arrebentar as tais camisas de força dos egoísmos e entregar o nosso inteiro a uma parte inteira que sai de nós. Mas até de mim desconfio. Quando sonho por ela. Quando decido por ela a escolha da felicidade. Quando resolvo trancar os seus sofrimentos com as minhas proteções. 
Sim, desconfio de mim. Das projeções. Das expectativas. Ela não é uma parte de mim para realizar a parte que ficou faltando da minha realização. Ela é ela, Sophia, o nome do que busco a vida toda. Saber. Desconfio do que sei porque não sei se sei ou se acho apenas que sei para impressionar. 

Na clínica, vejo pessoas buscando belezas. Quisera eu me formar em uma medicina de bondades. Trabalharia com mais decisão. 
Desconfio que a desconfiança nasceu em mim no dia em que nasci. Como proteção. Como honestidade de atravessar com cuidado as margens intranquilas da vida. A ponte é muito frágil e se constrói aos poucos. Com pedaço da gente que vai ficando. Com os tempos que vão e que dão liga às vigas que percorremos e que percorreremos. 

Quero envelhecer, sim, e acalmar os olhos para enxergar com beleza o outro lado. Desconfio que deva ser lindo. 

Fui acender uma vela

06.06.2021

Gabriel Chalita

Fui acender uma vela, como minha mãe ensinou.

No dia em que uma parte de mim voou e a outra parte quis voar para me encontrar, eu senti o que é o amor. A dor era tão forte que o sol, que brilhava ao lado, não espantava a chuva que chovia só em mim. Fui sentar sem mim em um banco, em uma praça. Fiquei ali, soterrado de histórias. Algumas reais, outras, certamente, inventadas pela minha necessidade de amor.

Fui trocado, subitamente. Parecíamos eternos até o dia em que, na iminência de desaparecer os nossos laços, saí sem ouvir.  Oscilamos muitas vezes, mas tínhamos um futuro, era isso que me confortava.

Desconfortado, fiquei com o fim. Foi o primeiro fim. Não sei precisar se o mais dorido. Outros se sucederam a esse desfecho. Por mais ou por menos dias, sofri. E, depois, vivi as sobras que se encontram na caixa dos desejos que não desaparecem de nós, mesmo quando parecemos desaparecer. E, então, me lembrava da fé de minha mãe. E da vela. “Vai acender uma vela, minha filho, que tudo se acalma”.

Hoje,  penso na vela e na oração da minha mãe. Da vela, aprendi, também, que a luz que chameja ilumina e aquece e espanta a frieza do frio que mora em mim, mesmo nos dias quentes de verão. Sobre a oração, também compreendi que o seu poder é o de melhorar em mim o que eu preciso quando peço para Deus. 

Tenho tentado acender velas. Tenho tentado, aquecido, aquecer. Tenho, rabiscadas em mim, cicatrizes que me ajudam a mapear os sofrimentos do mundo. É desumano não se dobrar de joelhos e chorar pelas desumanidades. 

Aprendi, com o tempo, que voar para ir em busca da parte que parte, quando parte um amor, é mais bonito do que os voos incorretos de ódio. A vingança sempre foi uma erva amarga que não me interessou.

O plantio de minha mãe, da luz da vela que foi se consumindo até o dia da despedida, foi de um perfume que o tempo não leva e que preenche todos os espaços do meu existir. E, quando me procuro nas lembranças dela, só há verdade. Ao contrário das memórias construídas de amores que se foram.

O tempo tem um estranho brincar que desmancha as rasuras e que valoriza o belo. Talvez seja melhor assim. Sempre houve um luar acompanhado nos tempos do amor. Sempre houve um calor gostoso nos tempos do amor. E um arrepio feitor de elevações nos tempos do amor. Mas os tempos do amor são todos os tempos. Mesmo os de dor. Mesmo os de educativa dor. Se chove em nós, é para que compreendamos a chuva. E, se faz sol, é para que saibamos a diferença dos dias quentes e dos outros. Se tropeçamos e nos aliviamos depois, é para que compreendamos o dual. 

Faz um ano que minha mãe se foi e, então, eu acendi uma vela. E pude até encontrar sorriso nas lembranças dos seus ensinamentos. E, então, deixei de vasculhar em mim razões para compreender o que não se compreende.  Há véus de mistérios por todos os lados enfeitando de surpresas a vida. Querer saber demais é acabar sentindo de menos. 

Os amores todos que viveram em mim e que se foram ficaram. E, de todos eles, é a vela da minha mãe a que mais  continua a chamegar vida em mim. 

O acumulador de bondades

30.05.2021

Por Gabriel Chalita

As máscaras foram deixadas de lado no domingo de ventos e de sol. Pela janela, um som bonito de felicidade. Éramos poucos, como convém nesses tempos de pausa. George sorri com os olhos e fala, sem pausas, a alegria de viver. Gosta dos aniversários. Eu gosto, também. 

O sol forte ilumina a minha alma. Pela janela, olho a vida.Vem um pensamento de outros tempos. Morava eu nos fundos de uma casa, não muito longe de onde estou. Era jovem e era feliz.  Ronaldo era o dono da parte da casa que me cabia, era a ele que pagava, regularmente, o aluguel. Sei pouco de sua vida. Sei que ele era um acumulador.  Os móveis brigavam por espaço. As caixas, de onde vinham os móveis, também. As louças, que eu avistava pela janela, por entre os tantos guardados que quase impediam a visão,  misturavam-se a espaço nenhum. 

Na entrada, havia muitos vasos e poucas flores. Tentei falar de algum plantio. A escuridão da ignorância, entretanto, preenchia os pensamentos sisudos de Ronaldo. Ele andava carregando o peso do mundo. E sofria de  um esquecimento da condição natural de felicidade.  As roupas guardadas eram tantas, e as que usava, as mesmas. 

Não sou dono das decisões de ninguém, apenas observo e absorvo o que me inspira e o que me afasta. Decidi deixar o meu canto minimalista, enfeitado de passarinhos que me acordavam, brincando com as flores boas que eu cultivava. Lembro-me do dia em que escolhi e do dia em que parti. Da conversa com Ronaldo. Das frases soltas que jogamos. Família, ele não tinha. Nem disposição para o calor. Na ausência das relações, preenchia ele, de coisas, a vida.

O barulho de George me acorda do passado. Conta ele de uma amiga entristecida com a partida de um amor. E de seu amparo. “Sou dos que param o dia para ajudar algum amigo”, disse George. Eu concordei. Multiplicou ele as forças para, de mim, cuidar, quando me acidentei. Dias difíceis.

Era um dia assim, cheio de verão, e um caminhão acumulado de descuido me jogou fora da estrada. Desacordado, acordei sendo cuidado. Não tenho a ingenuidade de imaginar bondades nas pessoas. Sei que é mais fácil causar dor no outro do que sentir dor. Sei que há uma orla de insensatos que agride a vida destruindo sentimentos. Vejo isso nas ruas, vejo isso nas redes. Desperdiçam o prazer de falar com as pessoas para falar das pessoas.
George não é assim. Diferentemente de Ronaldo, George é um acumulador de bondades. 

No meu pé direito,  a cicatriz do acidente. No meu lado esquerdo,  a metáfora da gratidão por encontrar amigos na travessia que me compete no misterioso tempo da existência.

O bolo é de morangos. Sophia abana os rabos e brinca de latir. O vento mais atrevido atrapalha o cabelo de Maísa, que está comigo. Digo que vou embora, ele insiste para um pouco mais de permanência. Esclareço que permaneceremos sempre, que a amizade é um sopro divino que nos relembra a essência de cuidadores. Nascemos para cuidar. Nascemos para sermos cuidados.
Ele agradece contando uma das tantas histórias engraçadas que homenageiam a leveza do bom humor.

Andando de volta para casa, respiro o dia que se despede, agradecendo.