Sangue no jornal

Gabriel Chalita

Só aos domingos minha família comia carne. O dinheiro não suportava outra possibilidade. Era minha avó quem determinava a ida ao açougue. Quantos anos eu tinha na época? Sete ou oito, talvez.

Gostava nada de entrar no açougue e ver o pendurar de vidas que foram abatidas para alimentar outras vidas. Foi aí que resolvi nunca mais comer carne. Não queria, dentro de mim, aqueles sofrimentos todos. Ficava imaginando os sentimentos arrancados quando um bezerrinho se ia, quando um porco gordo já estava pronto, quando um carneiro engolia o choro para ser engolido por gente desconhecida. Desconhecemos os sentimentos, nós, os racionais, os humanos. 

Se há dor nessas lembranças, há, também, preciosidades. Eu gostava de ir ao açougue e ler o quanto podia do jornal que haveria de embrulhar a carne. O senhor Zé Geraldo me observava. Tinha pressa nenhuma. Deixava que atendesse as outras pessoas. E ia lendo, e ia ficando atento ao mundo que se escondia naquele jornal. Em casa, era difícil de ler. O sangue no jornal embaraçava a história.

Sonhei ser jornalista e jornalista sou. Deixei o interior e vim para a cidade grande. Catar letrinhas. Construir frases. Espalhar ideias. Dei muito orgulho à minha avó, antes de partir. Meu pai não conheci, e minha mãe tinha pouco tempo para me perceber crescendo. Não lamento o que não tive. O que tive foi suficiente para chegar até aqui. 

No jornal em que trabalho, ainda me preocupo com meninos descalços que ficam, em algum lugar, tentando ler. Com mentes que ainda estão em formação. E, por isso, renovo em cada artigo o contrato com a verdade. 

Dizem que sangue no jornal aumenta a venda. Não sei. Desconfio dessas estatísticas. Dizem que é bom inventar algum escândalo. Sou jornalista, não sou inventor. Lamento que colegas de profissão cedam ao engodo do espalhar inverdades. São irresponsabilidades que não acrescento ao meu currículo. Vejo alguns querendo proteger uns em troca de desonestidades. Outros abraçam o erro por preconceito. E há os que são precipitados. Querendo dar o “furo”, cospem inverdades e sujam vidas que são corretas.

Talvez eu esteja ficando velho. Pode ser. Mas a velhice está me encontrando com a mesma compaixão que tinha quando via os olhos daqueles inocentes animais sem vida pendurados no açougue do senhor Zé Geraldo. Não. Ele não era um homem mau. Ele foi apenas se acostumando com a morte.

Eu escolhi a vida para escrever. E, se errei, e, certamente, errei muitas vezes, tive a honra de me desculpar e de prosseguir tentando fazer o certo. Sei do poder que tenho, que nós, jornalistas, temos de povoar as mentes de informações e de conceitos. E, por isso, digo ‘não’ a todo tipo de trama que nasça da perversidade.

Dia desses um assessor de político me trouxe, em êxtase, um dossiê contra o seu opositor. Ofereceu algum presente. Pediu pressa. Apressado fiquei eu em me desvencilhar dessa teia. São doentes os que saem a elaborar astúcias para atingir o outro. Por que não lutamos no campo das ideias? Por que não sugerimos sonhos em vez de lamas? 

Os que comigo trabalham gostam de me render homenagens, mas nem sempre homenageiam com seus atos os valores que tento deixar de herança. Prossigo, entretanto, semeando.

Já não sou o mesmo de ontem, cheio de certezas de que um jornalista seria capaz de mudar o mundo. Já não tenho a mesma aptidão para ouvir desavenças. Sou cuidadoso com o tempo que ainda me resta. Reservo para contar histórias que histórias construam e para amar a que construí com minha mulher, meus filhos e netos. Muito não temos. E, por isso, agradeço. O excesso de coisas torna a viagem mais pesada, mais desconfortável. Já o excesso de conhecimento só alivia a alma, os dias, a vida. 

Aos domingos, minha família conta história e se alimenta de vida.

Publicado pelo jornal O DIA, em 01.11.2020

Olga do céu

            Amanheceu domingo dia de São Francisco. Por aqui, a notícia. No céu, a chegada. Irmã Olga de Sá completava o poema e se integrava ao Eterno.

            Era um início de fevereiro e fazia calor. Eu estava sentado em uma das cadeiras do tradicional seminário dos salesianos, em Lorena. Queria ser padre. Queria ser ponte entre o humano e o Sagrado. Era menino ainda, e ela entrou. Uma freira iria nos ensinar Introdução à Filosofia. Olhou um a um e iniciou sua viagem pelos filósofos da liberdade. Nunca me esqueci desse início. Eu copiava com medo de que a palavra se perdesse, de que o esquecimento roubasse um saber tão novo e  iluminador. O ano foi me apaixonando e eu, ainda hoje, abraço os filósofos que ela me apresentou.

            Era talvez setembro, e eu estava triste. Um jovem com o seu martelar interno. Tudo era construção e desconstrução. Possibilidade e medo. Segurança ou voo. E foi ela, a que antes havia me apaixonado no saber, que cuidava de mim, na psicologia dos sentimentos. Foram tardes de cultivos. Enquanto descansava em uma poltrona quase divã, via a exuberância dos ipês amarelos que explicavam que a vida prosseguia. E, então, parti do interior em busca das inseguranças da imensa cidade. 

            Era novembro e fazia calor. E um frio havia se apossado de mim. Estava sentado em uma escada, na universidade que tinha escolhido para prosseguir. Olhava para janelas de um dia que terminava e sofria o medo de não dar certo. Um professor havia rabiscado meus sonhos. E eu tinha medo de não conseguir prosseguir. E, então, ela passou andando com seus livros e sua paz. E nos vimos. E eu me despedacei em palavras desconectadas. Ela estendeu a mão e todo o resto para que caminhássemos juntos. E, assim, eu prossegui.

            Não poucas vezes, sentávamos-nos para viver o dia. E a palavra ganhava significado. Foi me orientando, enquanto eu crescia, palmilhando sabedorias na minha inquietude. 

            Era ela uma mulher de vasto conhecimento. E, também, do silêncio dos que se alimentam de oração. Quando a via na capela olhando para o alto e para dentro, eu compreendia. A sabedoria transcende o humano. A ponte com os homens é mais sólida, quando as bases nascem de uma crença de humanidade que nos relembra o essencial. 

            Ela ouvia minha certezas e se certificava de que era insegurança. Uma ou outra pergunta já me desconcertava. Então, fui sendo simples. Lia os meus textos e comentava dizeres sinceros. E me ajudava a celebrar a autenticidade. Foi ela um punhado de Deus na minha vida. De um Deus inteiro que ultrapassa tudo o que se pensa saber. Tola arrogância humana tão sem luz, tão sem razão. 

            Íamos juntos ao teatro celebrar a arte, víamos os filmes e suas narrativas de encantamentos, alimentávamo-nos em jantares que rasgavam as noites e traziam o sabor do saber. 

            E, então, ela completou o poema. 

            Viveu para a educação e para a serenização das almas. Viveu para falar de Tereza D’Avila e Clarice Lispector, de Agostinho de Hipona e de Goethe, da Bíblia e do Grande Sertão, como ensina Adelia. Viveu para a sua congregação, as filhas de Maria Auxiliadora, as mulheres missionárias de amor profundo pela razão e pelos afetos, como queria Dom Bosco.

            Viver é uma despedida. Todos os dias, dos dias nos despedimos. Todas as horas, das horas nos despedimos. E um dia, então, chega. Um dia em que nem o dia nem a hora escapam de nós. Entregamo-nos inteiros ao Amor que é maior do que o tempo e do que o espaço. 

            No espaço da minha vida, ela estará sempre, como gratidão, como entendimento de que bebi dos seus poemas para poetizar também. E, um dia, nos reencontraremos. Não sei se por lá os Ipês amarelos florescem apenas na primavera ou se será eternamente primavera. Ou se nem de primavera precisaremos. Não sei se haverá abraços nem prosas. O que sei é o que o mistério é um véu que só descortino quando escrevo nos dias a simplicidade. Mesmo assim, parcialmente. Não nos foi dado conhecer o que vem depois do ventre. Nem quando aqui chegamos nem ao daqui nos despedirmos. 

            Amanheceu domingo dia de São Francisco, e Olga já sorri o sorriso que nunca termina…

Publicado dia 11 de outubro de 2020, no jornal O Dia (RJ). 

É quase natal

Estou um pouco perdido no tempo, mas sei que é quase natal. Há movimentos que rasgam a rotina dos dias. Eles gostam de nos dar o que não temos. Ao menos, no natal. 

Não. Não posso ser injusto. Sou bem tratado aqui. E sempre há alguém para preencher o que nos falta. Falta em mim a memória necessária para contar quem vem. Esqueço nomes e me confundo em perguntas, cujas respostas já me foram tantas vezes dadas. Coleciono alguns medos antigos e outros que foram chegando e se aninhando em mim. Tenho medo de chuva. E não tinha. Tenho medo da noite. E da noite gostava, quando saía acompanhado ou quando buscava, nos dias de alma fria, algum aconchego. Tenho medo das quedas. Que bobagem! Caí tantas vezes e me limpei e prossegui. Mas hoje é diferente. A memória me falta e, então, não posso explicar. Tenho um filho, apenas. Devia ter tido mais. Ou não. Não sei. O que mora no ontem, no ontem mora, e já não podemos mudar. 

Na casa do meu passado, vivia uma mulher linda e um filho cheio de tudo. E dias felizes. Como tive pouco, porque meus pais pouco tinham para me dar, dei em exageros ao meu filho. Bastava um desejo, e eu estava ali para resolver. Na minha infância, era um brinquedo de natal, apenas. Na dele, era uma vastidão de embrulhos para serem abertos e desprezados. Nada o satisfazia. Queria mais. E assim eu atendia. Minha mulher dizia que eu o educava mal. Mas era meu único filho. Eu queria que nada faltasse. Eu queria que ele fosse o mais feliz dos homens. Eu queria tanto. E ele queria tão pouco, foi o que me disse em uma das últimas vezes que esteve por aqui. Não me lembro de tudo. Lembro que ele pediu que eu parasse de pedir que ligassem. Que nada estava me faltando. E se foi, sem beijos. Eu o beijava tanto. Dizia dele aos meus, que era meu orgulho, que era meu príncipe, que era o melhor nisso e naquilo. E ele se fez homem. E tem seus filhos. Dois. Que também nunca vêm. Eu tenho as fotos. 

Tive doenças que me fizeram incapaz de controlar a mim mesmo. Foi quando ele decidiu que era melhor eu viver aqui. Eu concordei. Estava frágil demais para comandar o dia. Assinei o que ele me pediu. Era melhor que ele administrasse tudo. Tudo o que eu construí com anos de entrega. Fui da escassez ao exagero. Da casa simples dos primeiros anos de amor com minha mulher a uma mansão cheia de tudo para que meu filho fosse feliz. Entendia nada de felicidade naquele tempo. Viajou para longe de mim o menino que eduquei com erros. Aprendi rasgado que não se deve dizer “sim” aos luxos desnecessários. Sementes não jorram de mãos enluvadas. É preciso o calo dos plantadores para que os jardins floresçam dignidade. Sem esforço, não há flor nem fruto, nem beleza nem alimento. 

Meu filho é um homem que gosta de dar ordens. E que me culpa por pecados que ele decidiu. A mãe morreu pouco antes das minhas recentes fragilidades. Não sei quanto tempo faz, exatamente. Nem sei se tudo o que eu digo é como realmente foi. Sei que tenho saudade. 

Ontem, um jovem que nos visita e a quem sempre eu pergunto o nome, me perguntou sobre um presente de natal. Eu respondi, “Meu filho!”. Ele tocou as minhas mãos e sorriu com os olhos. “Que meu filho venha me ver, que meu filho me dê um beijo, que meu filho diga que me ama”. O jovem nada disse. Decerto vai ligar para o meu filho. Decerto, se meu filho vier, será para me repreender. De certo, eu não sei nada. Só sei que não vivo na casa dos meus sonhos. Nem na mansão nem na pequena casa dos inícios onde minha mulher e eu sentávamos no chão e montávamos uma desequilibrada árvore cheia de simplicidades para o natal, e um presépio de papel “alguma coisa”, não lembro o nome. E fazíamos amor no chão. Jovens que éramos. 

Meu filho não viveu essas delícias. Talvez eu seja o culpado. No seu tempo, era tudo arranjado para que nada faltasse. Faltou uma canção desafinada, faltou um bolo um pouco queimado, faltou um brinquedo só. Eu não sei. Sobre os erros, só se sabe depois. Difícil escolha a de viver. Quem foi que inventou a liberdade? De acúmulos em acúmulos, fui percebendo o que falta. Nesses tempos de despedidas, as lembranças que me preenchem não são de coisas, são de pessoas, são de momentos, são de sabores. Que sabor tem uma vida sem amor? Por que minha mulher ficou doente e se foi? Se ao menos estivéssemos juntos, esse canto em que me sento seria encantado. E faríamos amor novamente. Nem que fosse com os olhos. 

Estou um pouco perdido em mim. Tenho esquecimentos e lembranças. Que se revezam. O que permanece sempre é a saudade, acho que já disse isso. Se eu pudesse voltar, eu não impediria as frutas de amadurecerem sozinhas. De correrem os riscos necessários. De caírem e permanecerem intactas ou com algum arranhão, por que não? 

Quem sabe meu filho leia os meus pensamentos e me perdoe os erros e venha me ver no natal. Sempre acreditei em milagre. 

Publicado dia 22 de dezembro, no jornal O Dia (RJ). 

Comi a saudade

Nenhum dos meus amigos viveu a guerra. Eu vivi. Era um menino pobre de um país pobre de tanta dor. Minha terra chorava dia e noite. Mães atormentadas por sirenes com medo de mais um enterro. Os enterros se sucediam. As lágrimas desciam montanhas abaixo, sonhando germinar um novo tempo. Eu era um menino que ganhava algumas moedas vendendo doces ou limpando cabelo em uma barbearia. Moedas que não eram suficientes para comprar o sanduíche de que eu mais gostava. Minha mãe e meus quatro irmãos estavam na mesma situação. Nas calçadas da penúria, no caminhar em busca de paz. 

Calçada era onde me sentava do outro lado da rua para ver os que tinham dinheiro comprarem e comerem o sanduíche de Falafel. Um vazio me abria naquele corpo tão menino. Reclamar? Como? Minha mãe era muitas para lidar com a sobrevivência de tantos. 

Em uma viagem de saudades e acenos, viemos para o Brasil. 

Os inícios, por aqui, também foram duros. De pedra em pedra, fui construindo minha história. Sem nunca abandonar as minhas raízes. Fiz família. Mulher e filhas que preenchem os meus mais lindos instantes. 

E, um dia, voltei ao Líbano e à rua do sanduíche de Falafel e ao tempo que, dentro de mim, trazia lembranças. 

Era outro o vendedor, era outra a paisagem. O sol queimava o dia e eu aquecia o meu coração comprando cinco sanduíches de Falafel. Sem muita explicação, quis sentar na calçada e comer um a um. Eu estava comendo a saudade. Eu estava comendo a gratidão de ter sobrevivido, de ter viajado, de ter plantado em terras de paz. As lágrimas iam despencando, não de medo das sirenes ou das mortes de quem perdíamos. Eram lágrimas da emoção do curso da vida. Das tantas dores passageiras. Das cicatrizes com as quais aprendemos a conviver. 

Conto aos meus amigos que me ouvem com poesia. As privações podem nos empoeirar de tantas maneiras. E podem nos impedir de prosseguir. Não foi o que aconteceu comigo. O que tenho de mais precioso não é o dinheiro para comprar os cinco sanduíches. O que tenho de mais precioso são os sentimentos que foram regados por tantas pessoas que fui aprendendo a amar. 

E, se pensam que conhecem da grande felicidade, esperem o nascimento dos netos. Meus netos são como milagres que brotaram de um Cedro do Líbano que teve a grandeza de nunca desistir de acreditar. 

Quando os abraço, relembro o menino que fui e agradeço a Deus por ter chegado até aqui. 

Publicado dia 05  de janeiro, no jornal O Dia 

Seja bem-vindo, 2020!

As horas estão inquietas. E, com elas, nossas sensações de que o tempo vai escapulindo. O ano já se despede. Já se tornou partida, enquanto o outro está à espreita, observando desejos e propósitos. Há lágrimas que se misturam a uma certeza de que vai melhorar. De que é preciso melhorar. 

Eu vivo nesse quinhão da história e dele me alimento. 
Olho o que se foi e encontro razões para agradecer. E também para resmungar comigo mesmo. Deixei escapulir dias de alegria em troca de preocupações desnecessárias. Deixei de compreender a efemeridade das coisas e, por isso, me permiti a tristeza. Esqueci de cultivar os amigos por medo de suas ausências. E assim fui me ausentando de pessoas que me colorem a alma com a tinta do amor. 

Vivi decepções. E não foi privilégio meu. Há tantos que se perdem no ano. Mas que não podem traçar a régua das nossas crenças. Creio no ser humano como complemento meu no existir. Creio como quem crê que laços não se desmancham por decretos de outros. Quero entrar no ano novo de mãos dadas. Comigo e com os que não se importam com os tantos defeitos de que ainda não pude renunciar. 

Reconheço os amigos por detalhes que aprendi a reparar. Se olham nos olhos, se escutam as dores, se sorriem com sinceridade, se se dão bem com o silêncio. 
E, então, eu vou me entregando. E revelando, pouco a pouco, os textos que escrevi preenchendo as lacunas do mundo. Do meu mundo. Ou do mundo que se alarga, quando dou autorização para que outros possam entrar. 

Os outros anos e este que se encerra foram me ensinando a ser mais cuidadoso. Não sou das brigas. Não gosto dos gritos que exigem reparação, mesmo quando sinto que tenho razão. A razão me convence a partir e a aprender com os erros dos outros e com o meus próprios. 

Errei muito neste ano que se despede. E, certamente, errarei no que ainda nem nasceu. Mas também acertei na convicção de que não desistirei de cultivar os afetos, de me entregar ao amor, de chorar nas despedidas, e de receber descalço os que quiserem caminhar comigo. 

Com os pés no chão, olharei para o que vem pela frente. Se não conseguir ver, imaginarei. Sonhos movimentam gentes. E mudam mundos. Quero um mundo novo no novo ano. O meu e o de todo mundo. Quero me ausentar das confusões dos perversos e me sentar nas relvas simples para ouvir histórias. E aprender. 

Sempre gostei dos fazedores de história. Ninguém faz história sem prestar atenção. Ninguém muda o mundo sem prestar atenção. Quero me livrar dos desatentos. Por favor, não me entendam como um desprezador de gentes. Não é isso. É que o tempo é tão caprichoso que só nos permite escolher alguns acompanhantes. E foi ele mesmo, o tempo, que foi me ensinando a perceber que esses acompanhantes me ajudarão a conhecer a paisagem. E a me levantar quando necessário para nela interferir. E me convidarão a passear, sem pressa, pelos tempos que me fizeram ser quem sou, quem somos. E estarão comigo, em silêncio, ouvindo o sol se despedir. 
E a saber retirar a poesia do cheiro da chuva que beija a terra e que alimenta o que nem vemos. 

Quero voltar a conjugar o verbo agradecer. Conheci a gratidão, quando ainda vivia em um interior e via as lágrimas dos cultivadores da esperança dobrarem os joelhos e acenderem a fé. Procissões lindas. Orações de quem acredita. 

Será melhor. A vida será melhor depois dessa passagem. Os acúmulos de aprendizagens nos ajudarão a errar menos. E, se errarmos, que não seja um erro que traga dor a quem amamos ou a quem deveríamos amar. 

Troquemos de roupa, então. E nos perfumemos com a limpeza necessária de quem só quer fazer o bem. 
E preparemos uns dizeres novos para o ano novo que está nascendo. 

Seja bem-vindo, 2020, há muita gente esperando por você. 

Publicado dia 28 de dezembro, no jornal O Dia (RJ). 

A longa travessia

Será que alguém vai me ajudar? Nessas épocas, é gente demais atravessando. E o tempo é curto. Quando se vê, já fechou. E é preciso esperar. Esperar para que se abra novamente. 

Não faz muito tempo e eu conseguia atravessar sozinha. Ou acompanhada de quem sabia quem eu era. Os meus já se foram. E eu sobrevivi. Hoje, tenho pouca gente. Algumas velhas amigas que, também viúvas, vivem de aguardar. 

Há muitas coisas que já não mais faço. Meu andar é lento. É por isso que redobro os meus cuidados. Uma queda pode levar algum prazer que ainda ficou. Prazeres foram indo um a um. 

Um dia, acordei velha. Assim mesmo. Sempre fui vaidosa. Não sou dessas que admitem que o tempo decida a cor do cabelo. Sempre saí arrumada. Aprendi com minha mãe que aprendeu com a mãe dela. Pequenos apetrechos que destacam o que temos de melhor. Um brinco delicado, um colar que combine com o dia, uma maquiagem que não carregue, mas que alivie as horas. 

Um dia, percebi que os anos que em mim se acumulavam eram mais fortes do que qualquer batom ou pó ou base, ou seja lá o que eu usasse. As rugas que alguns dizem que nos enfeitam de sabedoria começaram a me incomodar. E não tem volta. É assim que é. Não é uma ferida que cicatriza, são os anos que vão se acumulando em saliências no meu próprio corpo. 

Olho as antigas fotografias e me pergunto por que tudo passou. Por que a travessia é longa e tão curta. A linda menina já se foi. Os elogios vão encontrando outras palavras. Deixei de ser bela para ser agradável ou simpática ou inteligente ou boa conselheira. Os olhos já não me olhavam como antes. 
Desejos foram se rarefazendo. E eu não compreendi. E confesso que desconfio de quem diz que compreende. 

É triste não se sentir desejada. Desde que enviuvei, não conheci outro calor. Até tentei. Mas, quando gostei, não gostaram; quando gostaram, não gostei. Por que é assim? Por que é tão difícil encaixar? 

Encaixotei as esperanças de viver uma outra história e resolvi sorver os afetos com amigas que, como eu, continuavam a travessia. E, agora, olho para esses movimentos todos. Há uma avenida a ser atravessada. E há tantos e não há ninguém capaz de perceber que eu preciso. 

Tenho um certo incômodo com as palavras. Elas sobram dentro de mim e se ausentam quando preciso dizer. Como é difícil gritar que preciso de ajuda, que preciso de amor, que preciso de que alguém me veja. Não. Eles não me veem. Estão pensando neles mesmos. Como vão me ver? Como vão perceber que preciso de alguém para essa travessia? Alguém que tenha a gentileza de pegar a minha mão e me fazer sentir amada. Nem que seja por esses poucos minutos que moram nessa longa travessia. Os barulhos estão aí para dificultar a compreensão. Com os barulhos, é mais difícil de se ver. 

Saudade dos silêncios acompanhados. Ah, o que é uma vida sem amor? O que é um prêmio sem um abraço do amado? O que é um dormir sem um desejar boa noite? O que é um acordar sem esperar alguém que diga que o dia vai ser lindo? Sempre gostei de cuidar e de me sentir cuidada. Meu marido não era um homem fácil. Mas quem é? As manias vão nos dificultando o conviver. As exigências vão nos afastando de quem pode nos amar. Desperdício é cultivar o que nos separa. Sempre há algo que nos diz que há razões para permanecer. Como foi difícil reaprender a dormir sem ele. Gostava quando ele me procurava. Quentura boa. Dias que se foram. 

Tenho medo de ser atropelada nesses dias que me restam. É por isso que fico parada. Sem ação. Sem coragem de dizer o que preciso. Não que não tenha alguma esperança. 

De repente surge uma música no barulho do dia. De repente, surge uma dança e, mesmo vagarosamente, eu me permito. Queria terminar os meus dias dançando. Ah, preciso confessar que o meu sonho de bailarina nunca foi realizado. Mas ainda estou viva. Quem sabe? 

Os olhos ainda não me faltam. Vejo bem. E parece que, do outro lado, vem alguém sorrindo pra mim. 

Apesar do barulho, o dia está lindo. Apesar do barulho, eu ainda ouço quem sou. 

Publicado dia 15 de dezembro, no jornal O Dia (RJ). 

Aniversário do meu pai

É mais um dia de aniversário. E ele não está. Já se foi há algum tempo. Meu pai não mora comigo, nem em casa nenhuma. Mora onde moram aqueles que esculpiram vidas com a própria vida. Era ele um cuidador de gentes. Se há moradas na casa do Pai, preparadas para quem amou, é lá que ele está. E é aqui, também. Em um turbilhão de recordações. De ditos que ainda ecoam dentro de mim. 

Sou carente, confesso. Abraço lembranças e fico em silêncio, pensando. Olho o passado, com alguma frequência, e cultivo a saudade sem melancolias. O tempo vai se esquecendo de que gostamos de permanecer e, quando vemos, não podemos mais ver. Não com os olhos. 

Vejo meu pai em mim em gestos que aprendi. Gostava, quando criança, de brincar com suas mãos. Grandes. Tenho eu mãos grandes, também. Gostava das histórias que ele me contava. Gostava de quando ele ria das palavras que eu inventava. Mas o que eu mais gostava era da forma com que ele tratava as pessoas. Meu pai era um homem bom. 

Exerceu ele, tantas vezes, o ofício de curar destinos, de espalhar belezas, de ouvir por amor. Quando ele morreu, eu sabia que não era a morte suficientemente forte para terminar um sentimento tão lindo. Quando ele morreu, abracei minha mãe como quem busca um poder de amaciar a dor. E choramos sem pressa. 

Hoje, acordei pensando nele. Mais uma vez. Na antiga loja que tínhamos, eu o observava observando as pessoas. Havia uma mulher que, invariavelmente, fazia perguntas e narrava histórias e nada comprava. E ele ouvia. Sem exigências práticas. Apenas ouvia. E compreendia que ela estava ali para aliviar a solidão. Um outro foi explicar sobre uma dívida não saldada, e ele, pacientemente, acalmou-o, explicando que esperaria. Quem faz isso? Quem compreende. 

Demorou meu pai a se casar. E, quando se casou, espalhou romantismos sem economias. Minha mãe, ainda hoje, recorda-se dos gestos daquele cavalheiro, daquele viajante que a viu em uma calçada e decidiu que era com ela que haveria de aquecer a vida. Não sei, se há, ou não, essa história de alma gêmea ou de amor único, só sei que, desde o início, eles se amaram. Nas diferenças. E, no encanto da unicidade, fizeram a viagem juntos. Até o dia da despedida. 

A casa da minha infância já esteve cheia de tristeza e já viveu pintada de alegria. Morreram irmãos meus. Morreram os pais dos meus pais. A morte nunca vem sem estranhamentos. Morreu uma Rosa que esteve sempre a cuidar de nós. É difícil nos acostumarmos às despedidas. Preferimos sempre as chegadas. Por isso há tanta festa quando alguém vem. Um filho vem. Um amor vem. 

Doce lembrança dos primeiros beijos em uma pessoa amada. Do aguardado reencontro. Minha mãe fala da timidez daquele tempo. Do namorar acompanhado. Do sonhar com que o dia cumpra o seu dever e o entardecer traga ele de volta. Mesmo que com os pais sentados juntos na sala de estar. Estavam ali desenhando um amanhã, com os olhos, com os sorrisos e com um desejo de permanência. 

Nos aniversários do meu pai, havia muita movimentação. Minha mãe sempre gostou de festa. Inda mais da festa do seu amor. Era bonito de ver os dois sendo um. E cada um sendo o melhor que podia para que os dois fossem felizes. Ele ria do nervosismo dela. Ela brincava de dar ordens. Ele brincava de obedecer. E assim fui crescendo. 

Teve um ano que eu dei a ele um livro de presente. Sobre a sua história. Escrevi com o teclado dos sentimentos. E ele gostou. E ele chorou. E ele, novamente, leu e se viu. Dor a dor. Frio e flor. Estações que foram se sucedendo e concedendo a ele o dom de viver. 

No aniversário deste ano, só posso dar de presente sua presença em mim. Acordei triste, confesso. Mas confesso, também, que conheço a tristeza. E a cultivo como parte de quem sou. Ela me humaniza, me explica que eu preciso de colo. E que, se choro, é porque aprendi que a lágrima é uma delicadeza da alma para acalmar os meus sentimentos. 

Meu pai amado. Feliz aniversário. Não sei como é a festa na morada em que você vive. Só sei que você vive. Aí e em mim. E, fica tranquilo, daqui a pouco o choro vai embora, e eu volto ao que você me ensinou. Viver. Gostar de viver. 

Publicado dia 08 de dezembro, no jornal O Dia (RJ)

SOBRE MINHA FILHA

Criei minha filha como pude. Entre inexperiências e decisão, ela foi florescendo. Menina, adolescente, mulher. 

Tenho uma única filha. Nasceu de uma história fugidia de amor. Éramos jovens demais para compreender o que deveríamos ter compreendido. Abandonar as roupas que ontem nos enfeitaram para viver a responsabilidade de dividir. E foi assim que ele se foi, em um vento de medo que levou, avassalador, o que eu tinha até então. 

 
Promessas delicadas, entre beijos, foram esquecidas. Noites de amor permaneciam em mim, na memória que vivi ou que construí. Fantasias adolescentes que demoram a se desmanchar. Faz tanto tempo e eu ainda me lembro. 

Criei minha filha como pude. Entre inexperiências e decisão, ela foi florescendo. Menina, adolescente, mulher. Tenho um companheiro que gosta mais do silêncio que da participação. É o jeito dele. Mas me faz bem. É bom saber que há alguém. Falo de conquistas rotineiras do trabalho, e ele me escuta. Conto histórias de gente do bairro, e ele acena com a cabeça em sinal de atenção. Vez ou outra, traz alguma notícia. Resumida. Cortada pelo tal silêncio. Tento adivinhar o restante. E ele concorda comigo. Mas não é ele que me preocupa. É minha filha. Há nela uma tristeza que não entendo. Reclama do seu corpo e dos excessos. Come mais do que deve e anda menos do que é necessário para alguém que quer alcançar algum lugar. Estuda por estudar. Faz a faculdade que é mais perto e o curso que é mais curto. Volta logo para casa e se tranca. 

Em alguns dias, tenho a sensação de que vivo em um cemitério de emoções. Meu marido olha ao longe e pensa nem sei em quê. Só muda o olhar, quando eu passo; aí, ele acompanha os meus movimentos. Minha filha olha para um computador que acorda e adormece em seu colo. Quando peço, ela me ajuda. Sem reclamações nem alegria. Há sempre um pacote de alguma coisa que ela come sem prestar atenção. Mastiga como se mastigasse a dor de estar viva. E é assim que gasta os dias. O que pode uma mãe fazer? Pergunto de namorados e ela desvia. Não me sinto no direito de invadir. Mas sou mãe. Sofro com o seu sofrimento. 

O ano que vem, ela se forma. Os trabalhos que faz são nada. Quando era menor, gostava de dizer que nunca se casaria, que viveria comigo para sempre, cicatrizando as minhas dores. Ora, não sei de onde ela aprendeu esse texto. Não sou acumuladora de dores. Trabalho o dia todo, gosto da dança, das conversas de rua, das festas que frequentamos por aqui. Antes, ela ia. Agora, vamos eu e o João. Ele, quieto, mas presente. 

Hoje, acordei com a certeza de que ela precisa de um amor. E foi isso que eu disse, quando acordávamos o dia, tomando café. Ela me olhou como se olha alguém que vive da ignorância. “Sou gorda, mãe, quem vai me querer?”. E se levantou. Da mesa, apenas; não do cansaço. Fui atrás. Nos abraçamos e choramos juntas. Brinquei nos seus cabelos. Disse elogios. Falei dos encontros necessários. Dos sofrimentos que nós duas vivemos. Nos lembramos da fala da infância. Ela queria aliviar-me as dores. E, hoje, sou eu a tentar abrir a porta. E ela me ouviu. Balançando negativamente a cabeça. E eu insisti que ela falasse. O que quisesse. A dor compartilhada tem mais chance de ir embora. Mas ela prosseguia falando para dentro. O que pode uma mãe fazer, insistia eu, comigo mesma. Proibir a comida em excesso, obrigar a caminhar por outras estradas, espantar o medo do amar? É preciso amar, “Qualquer forma de amor vale a pena”, cantarolei. 

Quando nasceu, dei a ela o nome de Lúcia. Lúcia vem de luz, me disseram. E ela pode ser iluminadora, ainda, se se levantar. Meu marido se aproxima do quarto e apenas nos olha, perguntando, sem dizer, se precisamos de ajuda. Dizendo, agradeço. Ele se vai e ficamos nós duas. E vou caçando palavras em mim para que ela compreenda que há vida fora das prisões que criamos. E que a chave não depende nem do corpo nem dos outros. Basta uma atitude, pelo menos para os inícios. Eu sei que vamos conseguir, foi o que eu disse. Eu sei que ainda haveremos de rir muito, juntas. Eu não sei como, eu não sei quando, mas eu sei que não vamos desistir. E, então, ela me abraçou por conta própria. E, depois, acariciou o meu rosto. E, depois, me avisou que iria tomar banho. E se levantou, cantarolando a música que lembrei. Não quero ser precipitada, mas alguma coisa acendeu em mim a esperança de que os dias que virão, depois de hoje, serão melhores. 

GRITOS DE INSENSATEZ

“Fui com minha esposa a um restaurante, aqui, bem perto de onde nos construímos. Fazemos isso, de quando em vez, e gostamos.” 

 
Fui com minha esposa a um restaurante, aqui, bem perto de onde nos construímos. Fazemos isso, de quando em vez, e gostamos. Só nós dois. Os filhos, crescidos, voam os seus voos. E ficamos nós, desafiando o tempo e cultuando o romantismo. Sentamos e nos olhamos como sempre. E pedimos o que comer. E nos olhamos novamente. 
Era uma noite calma. Eram calmos os sentimentos de amor. Nunca fui de rompantes. Ouço histórias de brigas e agressões e de reencontros apaixonados. Discordo. Onde não há paz, não há amor. Nos lapidamos sem fogo, fomos mudando o necessário, nos acostumando com as imperfeições e com o prazer. 

 
Não foi sempre assim. Nos inícios, nos estranhamos e ela me deixou. Eu tinha medo, talvez. Queria e não queria. E ela, insegura, partiu. Partiu e me partiu. Sofri a ausência e tive que ter paciência com a saudade. Os entreatos nos fizeram sentir que era melhor ficarmos juntos. E, desde então, estamos. 

 
No romantismo daquela noite, ouvimos gritos. Era uma mesa dizendo impropérios a alguém que estava sentado ao longe. Não entendi no início. Depois vi que se tratava de política. Os da mesa xingavam de ladrões os da outra mesa. Uma mulher se levantou e gritou com tamanho ódio que movimentou aquele pacato lugar. Alguns defendiam, outros atacavam. Os gritos assustaram o amor. Os namorados que ali estavam já não mais estavam. Os ruídos ameaçavam agressões físicas. Minha mulher comentou comigo se já eram conhecidos de algum lugar ou se apenas se sentiam no direito de agredir quem conheciam por notícias ou espalhamentos de redes sociais. Um homem queria que o casal fosse embora e portava uma faca. Os garçons interferiram. Meu coração disparava de horror. 

 
Era para ser mais uma entre tantas noites românticas da minha vida. De repente, aquele restaurante se transformou no lugar mais frio do mundo. Desentendimentos que foram gerando desentendimentos. Pensei em dizer alguma coisa, pensei em lamentar o fato de a poesia não ter sido apresentada a essa gente. A minha gente. Somos todos filhos do mesmo barro e comungamos uma pátria, uma língua, uns tantos costumes. E por que, então, nos agredimos? 

 
A comida ficou sozinha nos pratos. A fome que brotava nos insensatos era outra. A de destruir o diferente. Somos todos diferentes, ora. Então, não ficará ninguém. Minha mulher comentou sobre a tristeza que se transformou algo que deveria ser tão bonito. A política deveria ser um gesto de caridade. De pessoas que deixassem os seus confortos para cuidar do mundo. Que se obrigassem a melhorar a vida. Vidas não são melhoradas em gritos. 

 
Olhei para a minha mulher e me aproximei com desejo. Saímos abraçados. Na calçada, respiramos nossa história. Que bom ter nascido no mesmo tempo que ela e tê-la descoberto em meio a tanto barulho. Seu silêncio me desperta desejos gostosos. Nossas mãos vão se acariciando, enquanto caminhamos. Eu a indago se deveríamos ter dito alguma coisa. Ela olha como dizendo que também não sabe. O que sabemos é que esses gritos enfeiam a vida e fazem muito mal ao nosso país. 

 
A noite há de ser paciente. Vai ficar acesa por algum tempo. Queremos fazemos amor em sua poesia. 
 
 
Publicado dia 24 de novembro, no jornal O Dia (RJ). 

RECORDAR

“Faz quase nada que aprendi o significado desta palavra. Aprendi de ouvir. Tenho esta compreensão da vida: ouvir!” 

 
Faz quase nada que aprendi o significado desta palavra. Aprendi de ouvir. Tenho esta compreensão da vida: ouvir! Ouço o que me dizem, sem a pressa dos que muito sabem. Ou pensam que sabem. Ou, apressados que são, sequer pensam. 

 
Eu ouço porque ouvir é amar. É se esvaziar de argumentos e aguardar os ditos de alguém até o fim. É amaciar o dia com a voz que precisa dizer. A voz que se enfeita com as palavras. Palavras que são retalhos de poder. Que ora embelezam, ora afugentam o dia. Dias fugidios são os que nos retiram de nós mesmos. E ficamos a esmo a sofrer de um sofrimento que nem sabemos de onde vem. Quando sabemos, é mais fácil arrumar. 

 
Acordei antes do dia. E pensamentos começaram a decidir o fim do descanso. Só os olhos continuavam fechados. O resto se abria com palavras que iam se derramando sem economias. E que significavam coisas que ficaram por fazer ou que trouxeram dor. Os dias passados continuam morando no dia em que estamos vivendo. E podem nos incomodar. 

 
Foi, então, que me lembrei do que ouvi. De um tal Henrique, amigo de um filho meu, resistente no sonho de ser professor de literatura. “A literatura é a história dos sentimentos. Das expressões de amor e dor, dos encontros encomendados ou não, das palavras que ficaram guardadas em uma estante de receios e que não foram ditas. Dos desertos que têm sua finalidade. Mesmo que seja para valorizarmos a água que não é miragem e que ameniza a sede”. 

 
Com sede, resolvi me levantar. Tomei alguma água. E sentei no que me incomodava. E me lembrei de Henrique e de seu texto no final do jantar. “Recordar é voltar a passar pelo coração”, foi mais ou menos isso o que ele disse. “Re” vem de memória, e “cor” vem de coração. 

 
Dizia ele que os romanos achavam que a memória morava no coração e não no cérebro. Não sei onde mora a memória. Sei que, em algumas noites, ela persiste em roubar as minhas pausas. E não me faz bem. 
 
Pois bem, resolvi experimentar. Sentada que estava nas lembranças ruins, ousei um outro sentir. Comecei, então, a recordar. E assim fui fazendo as pazes com os ontens. Sem muito esforço, me encontrei sorrindo. Notícias belas estavam em mim. Escondidas, talvez, em meio a tantos outros anúncios. Fui procurando. Meus filhos brincando de crescer. Um dia de sol em uma praia qualquer. Um pedido inesperado. Um luar. Lembrei de minha mãe e de seus textos de sabedoria. Da paciência, que é outra palavra que me encanta. Tento com sucesso espantar o indesejável com momentos lindos que ainda vivem em mim. E, assim, me deito. E volto ao sono. E sonho um sonho bom. E me desperto melhor. 

 
Enquanto preparo o café, sinto o cheiro do que me faz bem. Ouço vozes que vêm do quarto dos meus filhos. Coloco o pão para esquentar. Há sempre uma flor nova enfeitando. A mesa está posta. E, de novo, me recordo que sou mãe. E que mãe sou por decisão. Meu marido não vive mais por aqui. Faz algum tempo. Mas nada de lamentar a troca. Fez o que desejou fazer. Enquanto esteve, foi bom. E é isso que me resta pensar. Chegam eles, os dois, cheios de amanhãs. Um meio sonado, o outro mais falante. Como não celebrar? 

 
Até a chuva que anunciava que ficaria se foi, me recordando que sempre, escondido ou não, há sol. 
 
Publicado no dia 17 de novembro, no jornal O Dia (RJ).