Entre o doce de goiaba e a banana desidratada

Gabriel Chalita (16.05.2021)

Mandar no que eu como? Não. Nem os meus filhos mandam. Tenho o corpo que quero ter na idade que tenho. E isso é problema que não compete a uma agregada. Quando tiver tempo, procuro melhor o significado desta palavra: agregada.

Meu filho do meio é meio lento para a compreensão de quem presta e de quem não presta, quando se trata de paixão. 
Valéria não é grande coisa. E não me venham com o apetite de dizer que tenho ciúme do meu filho.

A Janaína, que é a mais velha, se casou com um homem que poderia ter nascido de mim, de tão parecido comigo que é. Meu genro nunca deu palpite no que eu como, pelo contrário, faz questão de me alimentar com guloseimas e com carinho.  Já disse que quero um neto igual a ele. Janaína ri desconcertada. Mas gosta dos delírios da mãe faladeira. 

O Júnior, o caçula, ainda não escolheu. Tem tempo. Espero que não siga a sina da ausência de pensamento do irmão.
Otávio pensa nada. É guiado pela veterinária. Valéria é veterinária, não sei se já disse. Diz ela que gosta de bicho, o que já ganharia de mim alguma aprovação. Bicho, ela não tem. Com a Pipoca, cachorra de casa, ela só brinca quando eu estou vendo. Pensa que eu sou cega. Me faço, às vezes.

A Tereza, que trabalha em casa, concorda comigo. Valéria tem o porte de não se importar com ninguém, além dela mesma. 
Foi, então, que eu me ressenti com o seu comentário sem pertinência. “Dona Dulce, a senhora não deveria comer tanto doce. Se quiser, eu trago um banana desidratada que faz o mesmo efeito”.

“Não quero”, pensei comigo. Não quero de jeito nenhum. Banana desidratada. Ela pode ser magra, mas beleza só o sonso do Otávio para enxergar. Sabe o que me incomoda mais, é que, toda vez que ele fala, ela interrompe. Ela sempre sabe mais do que ele. Ela sempre tem um exagero a mais do que os exageros que os outros contam.

Minha avó dizia que tem gente que sabe, tem gente que não sabe e tem gente que pensa que sabe. Esses são os piores. Essa é Valéria. Não há assunto que ela não pense que saiba. E o indefeso do Otávio diminui a voz para o nosso desprazer de ouvir a voz da Valéria.

Todo o apetite que tenho para o doce de goiaba, que não é desidratada, eu não tenho para a conversa da fulana. Já expliquei para o Otávio o que eu penso. E disse devagar para ele compreender. Ela é nervosa demais. É mandona. Dá broncas nele e isso antes do casamento.

Ele, que não é dado a discordâncias, apenas sorri para mim e diz que me ama. 
E, então, eu deixo as rasuras de lado e me apego ao principal. Um texto que nasceu de mim e que só diz bondades. Ele se forma médico o ano que vem. Trabalha com tanto afinco. Vai ser oncologista. Pesquisa o que pode para diminuir a dor do mundo. Fala sem arroubos, ouve com generosidade e une as mãos ao coração para em ninguém tocar sem deixar um tanto de amor. Um homem desses não poderia encontrar alguém que falasse menos? 

Pipoca não gosta de Valéria. O que, para mim, é uma confirmação das minhas suspeitas. Pipoca é uma cachorra sensitiva. Se ela desconfia, eu desconfio. 
Tereza disse que ouviu um barulho de Valéria reclamando de mim para o Otávio. Que faz de tudo para me agradar, mas que eu dou de ombros para os seus afagos.
Quero afago nenhum dela. Quero verdade. 
E a verdade é que eu crio os meus filhos para a felicidade.

O Otávio é muito diferente quando está sem ela. É mais leve. É despreocupado com as brincadeiras. É inteiro. A Janaína, a minha filha mais velha, que é psicóloga, diz que ou você é você em uma história ou é preciso que a razão explique para o desejo que não vale a pena prosseguir.
Eu concordo.

Perdi cedo meu marido. O câncer o levou sem compreender o vazio sem ele. Abracei meus três filhos. Chorei o que tive de vontade. E decidi viver espantando qualquer desistência. Otávio não diz, mas sei que querer prolongar a vida dos doentes é um aprendizado nascido da dor da partida do pai. 

Éramos os quatro. Meus três filhos e eu brincando de acordar os dias e enfrentar os tempos ruins. Eu levantava batendo panela no quarto deles e cantando alguma canção engraçada. E exigindo alegria. Aprendi com as minhas cicatrizes que alegria é hábito. E ensinei isso a eles. Então, por favor, vou comer o doce de goiaba que eu quiser. E, discretamente, vou rezar para que o meu menino acorde da teimosia de achar que, aos poucos, a Valéria se apruma. 

E olha que eu até acredito em milagres!

Carta para a mãe do Paulo Gustavo

Gabriel Chalita (09.05.2021)

Dona Deia, hoje é dia das mães. E sei que seu coração dói. Enterrar um filho é desdizer o cordão umbilical, é inverter as lógicas, é desapropriar o direito de lamber a cria com a alma, de impedir a visão encantada de ver o fruto crescendo. 

O fruto, Paulo Gustavo, cresceu. Se fez um homem capaz de emocionar um país inteiro. O fruto abraçou a autenticidade como princípio de vida. 

Foi assim que ele fez com que pudéssemos conhecer a mãe, nas suas peculiaridades, no seu humor, no seu inegociável exercício de amar. Ele fez humor com respeito. Ele fez humor com inteligência. Ele fez humor com a pedagogia própria dos que perfumam o mundo com a sua existência. Nos perfumamos de Paulo Gustavo. No teatro, no cinema, na televisão, nas novas mídias, nas matérias que iam desvelando um pouco a sua vida.

Seu filho amou sem receios. E, sem receios,  foi se apresentando como um colecionador de verdades. Nada de máscaras. Nada de sombras. Foi a luz da sua vida que clareou tantos preconceitos. Que aliviou tantas inseguranças. 

Amou um homem, Thales, e por ele foi amado. E por ele é amado. A fotografia da história dos dois inspirou outros a não temerem as singularidades, princípio tão bonito do existir humano. Cada um é único e cada um tem o direito de ser feliz do seu jeito. De construir a sua trajetória ao lado de quem faz a travessia ser mais aconchegante. Thales também chora, hoje, a ausência do seu amor. Embora dentro dele, o amor permaneça. 

A paternidade trouxe ao seu filho novas perspectivas. Ele não estará acompanhando o crescimento do Gael e do Romeu. Mas o Gael e o Romeu crescerão sabendo do pai que distribuiu sorrisos e plantou alegrias, do pai que rompeu barreiras e que fincou a bandeira da verdade onde pôde, do pai que fez do tempo e do espaço uma eternidade de sonhos e de realizações.

Eles vão rever, muitas vezes, ao seu lado, as imagens que ficaram do Paulo Gustavo e vão aplaudir, com a vida, a vida que decidiu dar vida a eles. 

Hoje é dia das mães, Dona Deia. A senhora tem uma outra filha para beijar. A senhora tem uma história para agradecer. A senhora tem uma dor para conviver. Mas a dona Hermínia é forte. É ousada. E fez um contrato com a vida. Nada de desistências. Seu filho, que fez de tudo pela senhora, envia sinais de ternura pelas imagens e pelas frases que, miraculosamente, permanecem dentro da gente. E ele te diz: Feliz dia das mães. E ele sorri brincando de ser filho em outra estação. Uma que desconhecemos, mas que existe.

O vulcão de amor que é seu filho não acabou. Permanece onde não sabemos, apenas sentimos. Porque os sentimentos, talvez, sejam mais nobres que os pensamentos. Há muitas mães, como a senhora, que hoje gostariam de ter, no colo do cuidado, os seus filhos. E há muitos filhos que, também, se ressentem do vazio das mães que vivem na eternidade e nas memórias. 

Eu sinto muita falta da minha mãe. E, então, te abraço na alma, comungando da falta que sei que seu filho faz. O seu filho virou um pouco irmão nosso. Rezamos por ele, torcemos por ele, choramos por ele. No plano humano, lamentamos a partida. No plano da fé, simplesmente agradecemos.

No curto espaço do seu existir, Paulo Gustavo eternizou os sentimentos mais lindos que elevam a humanidade ao lugar onde ela se reconhece humana. É humano o direito de sofrer e é, também humano, o direito de agradecer vidas curtas que alongam os sentimentos do mundo.

Querida Dona Deia, um ser de luz só nasce de um ventre de luz.  Feliz, apesar da dor, dias das mães.

Folhas de abril

Gabriel Chalita (02.05.2021)

As folhas de abril já se foram. Inclusive, algumas da árvore que vejo enquanto escrevo.  Caem uma a uma. As folhas do calendário, inventado por mente humana, também.

Abril não esperou mais do que o esperado. E se foi. Encerrei abril, fazendo aniversário. Acordei, antes do dia, e cambaleei tateando lembranças. 

É de minha mãe que mais sinto falta. No abril passado, ela era presente. Dei, em pedaços, um bolo grande que ganhei. De uma cama de hospital, ela sorriu inteira. E contou, com a voz já ensaiando despedidas, os lindos abris que vivemos juntos.

Juntos lembramos de meu pai que, há muito, já não nos abraçava nos nossos aniversários, a não ser dentro de nós, nos aconchegos da lembrança. Enfermeiras ouviam em atenção. Um filho alimentando sua mãe que o alimentou sem pausas, em todo o seu existir. 

E se foi abril. E permaneceu a consciência de que, em nenhum outro abril, eu teria a minha mãe como tive antes.

As folhas caem e forram os chãos da memória. O vento leva para longe quem amamos. As raízes permanecem. O cordão umbilical que une terra e firmeza não se desfaz. A seiva de amor percorre as veias dos sentimentos e prossegue nutrindo de vida a vida que ainda há. 

Sou um com minha mãe onde quer que ela esteja. Sou um com as folhas que já estiveram em mim e que foram partindo, uma a uma.  Sou um com os dias de ontem que ergueram o hoje que prosseguirá erguendo, enquanto houver um amanhã. Sou um com os olhos que me permitem ver a árvore que vejo, enquanto escrevo, e sou um com os mistérios que só vejo com o espírito aberto ao não tentar compreender. 

Sou razão, gosto dos argumentos e das peneiras que me emprestam discernimento para elaborar antes de concluir. Sou silêncio, crente de que, além da razão, moram mundos inteiros que desconheço, que sequer posso ver, porque há entre nós uma cortina costurada na imensidão que se chama mistério. 

Onde moram, hoje, minha mãe e meu pai? 
Onde moram os meus irmão que, prematuramente, se foram? Onde moram as folhas que me enfeitaram por tempos e que os ventos decidiram levar? Como saber? Se a razão tentar racionalizar,  despedaça-se em pedaços caídos da árvore que não vejo. Só sei que os sinto em mim. E, se os sinto, é porque eles cabem em mim. Cabem na parte inteira de mim que não conheço. 

Estão vivos, eu sei! Como sei? Não sei. Só sei que sei. E que sei, porque há uma seiva que transcende o que há em mim e que, ao mesmo tempo, há em mim, e que ao não me explicar me explica que é lindo, mesmo sem saber, acreditar.

As folhas que voam das árvores de abril e dos outros meses não se perdem, não deixam de existir. Voam os voos elevados dos que rompem invernos e acedem primaveras em tempos e espaços encantados. 

As religiões trazem lâmpadas para que possamos enxergar com a alma. A minha foi enroscada no bocal da fé, desde os tempos em que eu corria despreocupado ao redor da árvore e arriscava apanhar algum fruto para alimentar de alegria a vida. Os pensamentos eram puros como quem de nada desconfia, porque ainda só conhecia a cicatrização dos joelhos e das mãos raladas em terra por algum descuido infantil.

Hoje é minha alma que dói. E alma dói? Dói. Dói da tristeza das ausências. Dói das decepções dos ausentes de sentimentos. Dói do tempo fugidio incapaz de permanecer. Dor de alma também tem seiva alimentadora, fortalecedora.

Um aniversário é um ritual de agradecimento. A vida prossegue vencendo. Vagarosa e plena. Ou apressada e também plena.  Plena como a árvore que recebe chuva e calmaria, silêncio e barulho de revoadas. Plena como cada dia do calendário tem que ser. 
O abril que se foi , não se foi. Vive em mim.

Agora, é maio. Daqui a pouco, vou chorar o dia das mães sem mãe. Eu tenho mãe. Preciso me lembrar disso. No mistério que mora fora e dentro de mim, eu tenho mãe. O colo não tenho, é fato. 

Colo, então, nessa imagem, de um dia nem frio nem quente, de um dia em que o vento perturba pouco a árvore, em que passarinhos, que não pensam o que eu penso, cantam para cumprir o seu estar no mundo.

As flores, também, se abrem sem pensar. 
Quisera eu apenas cantar ou me abrir para enfeitar de generosidade o mundo… 

As folhas de abril já se foram, os meus pensamentos permanecem.

Um céu para Anna

“Um céu para Anna” é o título de minha crônica publicada,  hoje, no Jornal O Dia RJ:

Um céu para Anna

Gabriel Chalita

Eram os dias finais do ano que já se findou quando recebi a notícia. Nesse dia, estava de folga, ajeitando a vida, que deixo de lado, quando estou no hospital.

Sou enfermeira e, no cuidar, descobri o meu lugar no mundo. E foi assim que conheci Anna Maria Martins, a escritora.

O primeiro dizer daquela bela mulher de 96 anos foi, “Minha querida, estou sendo muito bem tratada aqui, agradeço a amabilidade de todos, mas, infelizmente, vou ter que ir embora, compreende?”. A filha sorria com o dizer da mãe. As palavras, companheiras de toda uma vida, não aconteciam sem cerimônias. Eram pensadas antes de ganharem vida. 

Acho linda a vida de um escritor e quis saber mais. Um pouco ela mesma me disse, feliz com minha curiosidade. Outro tanto fui pesquisando e me encantando com aquela mulher. O marido era, também, escritor. E, também, a filha. Ela gostava de dirigir a vida, inclusive. Mas me contou que, aos 90, ainda ia interior afora visitar parentes. E gostava da liberdade. E ria dizendo que, vez ou outra, extrapolava os limites da velocidade, “Que minha filha não me ouça!”, soletrava brincadeiras. 

Os livros tomavam horas de seus dias. Era ciosa na arte de traduzir, engenhosa na arte de inventar personagens ou de relatar acontecimentos. Os seus pares a tinham como a dama da elegância ou da delicadeza ou da generosidade. Meu Deus, por que demorei tanto para conhecer essa mulher?

Já disse que gosto do cuidar, e esse é o meu manifesto de que não desisti da humanidade. Mas me pego absorvida de horror quando vejo as violências. Há mulheres que chegam ao hospital rabiscadas de um escrito covarde que agride partes do corpo e que diminui a alma. A alma, vocacionada para as grandezas. Brigas tolas que geram ferimentos, por homens armados de ódio. No trânsito. Na vizinhança. No bar. 

Há outras provas da violência onde trabalho. Os abandonados. Os que melhorariam mais rapidamente se tivessem o amor dos seus. Essas imagens sempre me visitaram. E me entristeceram. E, jamais, me desanimaram. 

Meu ânimo hoje é outro. A tristeza da despedida de Anna e a certeza de que o que ela falou era mais profundo do que ir para casa. “Agradeço a amabilidade de todos, mas, infelizmente, vou ter que ir embora”.

Ela foi embora. Infelizmente, ela foi embora. Embora tenha ido feliz. Não que a vida não a tivesse ferido, mas tinha ela, na gentileza, o poder cicatrizante dos dias.
Quem a conheceu,  há mais tempo, dizia que os dias ao lado dela eram mais leves. Que ela plantou delicadezas em todos os palcos em que representou com mestria o viver pela palavra.

“Sou uma escritora”, dizia ela, “Sou da literatura, sou das histórias bem contadas, dos laços que unem vidas e que proporcionam felicidades”.

Decidi que vou ler mais em gratidão aos poucos dias em que pude ouvir a sonoridade da sua voz dizendo belezas.
Fico imaginando como deve ser um céu para Anna. Terá ela um clube de leituras para explicar o amor, a amizade, a bondade? Terá ela outros escritores para inspirar os dias? Terá ela alguma enfermeira como eu para acariciar a alma cuidando e sendo cuidada?

Sou uma mulher de fé. E isso me basta para dizer que não sei como é a vida depois que a vida se despede. Só sei que não pode ser ruim para quem foi bom. 
Anna, ainda nos encontraremos…

“Enfim, casados”

“Enfim, casados” é o título de minha crônica publicada, hoje, no Jornal O Dia RJ:

Enfim, casados

(Gabriel Chalita)

Conheci a mulher da minha vida há 12 anos. Foi em uma canção de música de espera. Linda, sentada à minha frente, em uma faculdade de direito. 

As primeiras conversas foram cuidadosas. Não sou homem de muitas palavras. Gosto dos olhares. 

Gabrielle foi aceitando caminhar comigo. Somos do interior. Temos costumes um pouco vagarosos para tempos tão apressados. Quando conto que, do primeiro olhar ao primeiro beijo, aguardei um ano, parece coisa de antigamente. 

Guardo momentos de conversas, guardo gestos de autorização, guardo carícias de jovens amadurecendo no amor. O primeiro beijo ainda mora em mim. Valeu a espera!

Os anos foram se passando, e os amigos brincavam da demora. Não houve demora. O amor nunca deixou de estar presente. 
E, então,  12 anos depois, com os cuidados dos dias difíceis que estamos vivendo, ela entrou na Igreja, entrando ainda mais na minha vida. Sou tímido; às vezes, demoro a dizer sentimentos. Minha mãe não disfarçava a emoção. E, também, a mãe da mulher que amo. E, também, o pai. E, também, o meu pai. Chorei devagar. Emocionado. 

Combinamos muito. Fui o seu primeiro e único namorado. Fui com a delicadeza necessária para tornar mágico cada pequeno toque entre os nossos corpos. 
Sentir o seu cheiro é perfumar de amor os meus dias. 

O dia teve chuva e teve sol. Reparei pouco nas temperaturas. E nos enfeites que acompanhavam os seus passos decididos em busca do altar, onde eu estava inteiro para ela.

Tenho amigos que se orgulham das conquistas irrepetidas. Das mulheres que se têm e se descartam. Ouço as histórias e digo nada. Cada um mora na casa que decidiu. A minha é de concreto firme, de base inquebrantável. Que venham os ventos e as outras naturezas. Estaremos juntos. Que venha algum estranhamento, longe de mim plantar perfeições. Em mim, mora o que nela mora, uma decisão de enlace, uma despreocupação com outras paisagens, um sorriso de quem acompanha os dias acompanhado. 

Na roça, gosto de arrancar o mato para deixar a terra limpa para fazer brotar o que enfeita e o que alimenta. Quero ter a mesma disposição na vida de casado. Faz só uma semana do beijo do altar, das músicas das núpcias, do dormir sentindo o céu em nós. 

E, em todos os poucos dias que se seguiram, eu pude olhar para ela e dizer que o amor existe e que a felicidade daquele primeiro dia, daquela faculdade de direito, endireitou os nossos caminhos. 

O que são 12 anos em um sentimento que os poetas já decidiram eterno? Em nós, a escritura do amor foi feita com a arte de uma matéria-prima que nunca se acaba.

Lavei e passei 2020

“Lavei e passei 2020” é o título de minha crônica publicada,  hoje, no Jornal O Dia – RJ:

Lavei e passei 2020

(Gabriel Chalita)

Quero começar bem o novo ano. Fiquei sozinha em casa, com receio das festas sem necessidades que fizeram por aí.

Foi um ano difícil. Perdi muita gente. Aqui da comunidade mesmo. E vi muita gente, que eu via espalhando bondade, indo embora. Achei injusto. 

Minha única filha mora longe, tem as coisas dela, é importante, até secretária tem. Pouco tempo gasta comigo. Mas compreendo. Em uma mãe, cabem muitas explicações. Que seja feliz com os seus, do seu jeito. 

Depois que o pai dela morreu, só tive uma história de amor. E foi tumultuada. E onde é que se acha coragem para deixar o erro e ir adiante? Eu o amei.  Amei muito. Eu o recolhi das cinzas mais de uma vez. E, mais de uma vez, eu disse que deveria ir, para não ficar. E fiquei. Foram anos duros, de agressões e de vazios. E, então, me vesti de dignidade e fui cuidar do que restou de mim.

Sou lavadeira. E gosto do que eu faço. Criei minha filha com o dinheiro do meu trabalho. Até faculdade, paguei. Na noite da formatura, chorei para dentro, para não incomodar.

Ela ligou na passagem do ano. Estava com pressa, mas disse que, quando as coisas se ajeitassem, viria me ver.

Choveu muito por aqui. Em dias sem sol, as roupas têm que aguardar. Lavei e passei 2020 antes da virada. Decidi limpar tudo. Em mim, também. Vejo gente dizendo das sujeiras do mundo. Também digo. Mas sei ver as sujeiras em mim.

As minhas implicâncias, a minha falta de vontade de viver – vez em quando, tenho isso. Os meus reclamos com a solidão. Não é fácil uma mulher da minha idade encontrar alguém. E não é fácil viver sem ninguém. Escrevi em mim que a grande felicidade da vida é ser amada por alguém. E não encontrei ninguém para ler. Nem minha filha com seus amigos importantes. Não. Não vou remoer em roupa lavada e passada. Vou rezar para os dias que virão, vou encontrar outras calçadas para caminhar, vou viver a novidade que posso, enquanto posso.

É ano novo. E há um broto de flor se abrindo em mim, enquanto ouço os passarinhos que cantam aqui na comunidade.

Tenho amigas e amigos que me amam, sei disso. Tenho alguma beleza, todo mundo tem. Tenho olhos de ver as transitoriedades e as permanências. 
Permaneço disposta ao trabalho de lavar do mundo as injustiças, as perversidades, as arrogâncias, a insensibilidade. Prefiro chorar a saudade de quem partiu a partir alguém. 

Gosto de música. E, modestamente, posso dizer, tenho alma de bailarina, desde sempre. Acompanhada ou na solidão, danço o amor. Visto de roupas que eu mesma preparei e acalmo a tristeza dançando ou danço com ela, quando ela grita.E aí me deito com as janelas abertas para ser despertada no primeiro raiar de luz.

Acordei, hoje, com o riso acompanhando a lembrança de que estou viva. Vou, no cair da tarde, tomar café na casa de Maria.
De lá é bonito de se ver o pôr do sol, o primeiro pôr do sol de 2021. Gosto do sol se despedindo, porque sei que é só uma pausa. 

E, como é domingo, vou aproveitar para bordar. Bordar sentimentos novos em roupa lavada e passada e com cheiro de baile.

Ah, memórias bonitas que moram em mim. Mesmo as que não existiram.

Sangue no jornal

Gabriel Chalita

Só aos domingos minha família comia carne. O dinheiro não suportava outra possibilidade. Era minha avó quem determinava a ida ao açougue. Quantos anos eu tinha na época? Sete ou oito, talvez.

Gostava nada de entrar no açougue e ver o pendurar de vidas que foram abatidas para alimentar outras vidas. Foi aí que resolvi nunca mais comer carne. Não queria, dentro de mim, aqueles sofrimentos todos. Ficava imaginando os sentimentos arrancados quando um bezerrinho se ia, quando um porco gordo já estava pronto, quando um carneiro engolia o choro para ser engolido por gente desconhecida. Desconhecemos os sentimentos, nós, os racionais, os humanos. 

Se há dor nessas lembranças, há, também, preciosidades. Eu gostava de ir ao açougue e ler o quanto podia do jornal que haveria de embrulhar a carne. O senhor Zé Geraldo me observava. Tinha pressa nenhuma. Deixava que atendesse as outras pessoas. E ia lendo, e ia ficando atento ao mundo que se escondia naquele jornal. Em casa, era difícil de ler. O sangue no jornal embaraçava a história.

Sonhei ser jornalista e jornalista sou. Deixei o interior e vim para a cidade grande. Catar letrinhas. Construir frases. Espalhar ideias. Dei muito orgulho à minha avó, antes de partir. Meu pai não conheci, e minha mãe tinha pouco tempo para me perceber crescendo. Não lamento o que não tive. O que tive foi suficiente para chegar até aqui. 

No jornal em que trabalho, ainda me preocupo com meninos descalços que ficam, em algum lugar, tentando ler. Com mentes que ainda estão em formação. E, por isso, renovo em cada artigo o contrato com a verdade. 

Dizem que sangue no jornal aumenta a venda. Não sei. Desconfio dessas estatísticas. Dizem que é bom inventar algum escândalo. Sou jornalista, não sou inventor. Lamento que colegas de profissão cedam ao engodo do espalhar inverdades. São irresponsabilidades que não acrescento ao meu currículo. Vejo alguns querendo proteger uns em troca de desonestidades. Outros abraçam o erro por preconceito. E há os que são precipitados. Querendo dar o “furo”, cospem inverdades e sujam vidas que são corretas.

Talvez eu esteja ficando velho. Pode ser. Mas a velhice está me encontrando com a mesma compaixão que tinha quando via os olhos daqueles inocentes animais sem vida pendurados no açougue do senhor Zé Geraldo. Não. Ele não era um homem mau. Ele foi apenas se acostumando com a morte.

Eu escolhi a vida para escrever. E, se errei, e, certamente, errei muitas vezes, tive a honra de me desculpar e de prosseguir tentando fazer o certo. Sei do poder que tenho, que nós, jornalistas, temos de povoar as mentes de informações e de conceitos. E, por isso, digo ‘não’ a todo tipo de trama que nasça da perversidade.

Dia desses um assessor de político me trouxe, em êxtase, um dossiê contra o seu opositor. Ofereceu algum presente. Pediu pressa. Apressado fiquei eu em me desvencilhar dessa teia. São doentes os que saem a elaborar astúcias para atingir o outro. Por que não lutamos no campo das ideias? Por que não sugerimos sonhos em vez de lamas? 

Os que comigo trabalham gostam de me render homenagens, mas nem sempre homenageiam com seus atos os valores que tento deixar de herança. Prossigo, entretanto, semeando.

Já não sou o mesmo de ontem, cheio de certezas de que um jornalista seria capaz de mudar o mundo. Já não tenho a mesma aptidão para ouvir desavenças. Sou cuidadoso com o tempo que ainda me resta. Reservo para contar histórias que histórias construam e para amar a que construí com minha mulher, meus filhos e netos. Muito não temos. E, por isso, agradeço. O excesso de coisas torna a viagem mais pesada, mais desconfortável. Já o excesso de conhecimento só alivia a alma, os dias, a vida. 

Aos domingos, minha família conta história e se alimenta de vida.

Publicado pelo jornal O DIA, em 01.11.2020

Olga do céu

            Amanheceu domingo dia de São Francisco. Por aqui, a notícia. No céu, a chegada. Irmã Olga de Sá completava o poema e se integrava ao Eterno.

            Era um início de fevereiro e fazia calor. Eu estava sentado em uma das cadeiras do tradicional seminário dos salesianos, em Lorena. Queria ser padre. Queria ser ponte entre o humano e o Sagrado. Era menino ainda, e ela entrou. Uma freira iria nos ensinar Introdução à Filosofia. Olhou um a um e iniciou sua viagem pelos filósofos da liberdade. Nunca me esqueci desse início. Eu copiava com medo de que a palavra se perdesse, de que o esquecimento roubasse um saber tão novo e  iluminador. O ano foi me apaixonando e eu, ainda hoje, abraço os filósofos que ela me apresentou.

            Era talvez setembro, e eu estava triste. Um jovem com o seu martelar interno. Tudo era construção e desconstrução. Possibilidade e medo. Segurança ou voo. E foi ela, a que antes havia me apaixonado no saber, que cuidava de mim, na psicologia dos sentimentos. Foram tardes de cultivos. Enquanto descansava em uma poltrona quase divã, via a exuberância dos ipês amarelos que explicavam que a vida prosseguia. E, então, parti do interior em busca das inseguranças da imensa cidade. 

            Era novembro e fazia calor. E um frio havia se apossado de mim. Estava sentado em uma escada, na universidade que tinha escolhido para prosseguir. Olhava para janelas de um dia que terminava e sofria o medo de não dar certo. Um professor havia rabiscado meus sonhos. E eu tinha medo de não conseguir prosseguir. E, então, ela passou andando com seus livros e sua paz. E nos vimos. E eu me despedacei em palavras desconectadas. Ela estendeu a mão e todo o resto para que caminhássemos juntos. E, assim, eu prossegui.

            Não poucas vezes, sentávamos-nos para viver o dia. E a palavra ganhava significado. Foi me orientando, enquanto eu crescia, palmilhando sabedorias na minha inquietude. 

            Era ela uma mulher de vasto conhecimento. E, também, do silêncio dos que se alimentam de oração. Quando a via na capela olhando para o alto e para dentro, eu compreendia. A sabedoria transcende o humano. A ponte com os homens é mais sólida, quando as bases nascem de uma crença de humanidade que nos relembra o essencial. 

            Ela ouvia minha certezas e se certificava de que era insegurança. Uma ou outra pergunta já me desconcertava. Então, fui sendo simples. Lia os meus textos e comentava dizeres sinceros. E me ajudava a celebrar a autenticidade. Foi ela um punhado de Deus na minha vida. De um Deus inteiro que ultrapassa tudo o que se pensa saber. Tola arrogância humana tão sem luz, tão sem razão. 

            Íamos juntos ao teatro celebrar a arte, víamos os filmes e suas narrativas de encantamentos, alimentávamo-nos em jantares que rasgavam as noites e traziam o sabor do saber. 

            E, então, ela completou o poema. 

            Viveu para a educação e para a serenização das almas. Viveu para falar de Tereza D’Avila e Clarice Lispector, de Agostinho de Hipona e de Goethe, da Bíblia e do Grande Sertão, como ensina Adelia. Viveu para a sua congregação, as filhas de Maria Auxiliadora, as mulheres missionárias de amor profundo pela razão e pelos afetos, como queria Dom Bosco.

            Viver é uma despedida. Todos os dias, dos dias nos despedimos. Todas as horas, das horas nos despedimos. E um dia, então, chega. Um dia em que nem o dia nem a hora escapam de nós. Entregamo-nos inteiros ao Amor que é maior do que o tempo e do que o espaço. 

            No espaço da minha vida, ela estará sempre, como gratidão, como entendimento de que bebi dos seus poemas para poetizar também. E, um dia, nos reencontraremos. Não sei se por lá os Ipês amarelos florescem apenas na primavera ou se será eternamente primavera. Ou se nem de primavera precisaremos. Não sei se haverá abraços nem prosas. O que sei é o que o mistério é um véu que só descortino quando escrevo nos dias a simplicidade. Mesmo assim, parcialmente. Não nos foi dado conhecer o que vem depois do ventre. Nem quando aqui chegamos nem ao daqui nos despedirmos. 

            Amanheceu domingo dia de São Francisco, e Olga já sorri o sorriso que nunca termina…

Publicado dia 11 de outubro de 2020, no jornal O Dia (RJ). 

É quase natal

Estou um pouco perdido no tempo, mas sei que é quase natal. Há movimentos que rasgam a rotina dos dias. Eles gostam de nos dar o que não temos. Ao menos, no natal. 

Não. Não posso ser injusto. Sou bem tratado aqui. E sempre há alguém para preencher o que nos falta. Falta em mim a memória necessária para contar quem vem. Esqueço nomes e me confundo em perguntas, cujas respostas já me foram tantas vezes dadas. Coleciono alguns medos antigos e outros que foram chegando e se aninhando em mim. Tenho medo de chuva. E não tinha. Tenho medo da noite. E da noite gostava, quando saía acompanhado ou quando buscava, nos dias de alma fria, algum aconchego. Tenho medo das quedas. Que bobagem! Caí tantas vezes e me limpei e prossegui. Mas hoje é diferente. A memória me falta e, então, não posso explicar. Tenho um filho, apenas. Devia ter tido mais. Ou não. Não sei. O que mora no ontem, no ontem mora, e já não podemos mudar. 

Na casa do meu passado, vivia uma mulher linda e um filho cheio de tudo. E dias felizes. Como tive pouco, porque meus pais pouco tinham para me dar, dei em exageros ao meu filho. Bastava um desejo, e eu estava ali para resolver. Na minha infância, era um brinquedo de natal, apenas. Na dele, era uma vastidão de embrulhos para serem abertos e desprezados. Nada o satisfazia. Queria mais. E assim eu atendia. Minha mulher dizia que eu o educava mal. Mas era meu único filho. Eu queria que nada faltasse. Eu queria que ele fosse o mais feliz dos homens. Eu queria tanto. E ele queria tão pouco, foi o que me disse em uma das últimas vezes que esteve por aqui. Não me lembro de tudo. Lembro que ele pediu que eu parasse de pedir que ligassem. Que nada estava me faltando. E se foi, sem beijos. Eu o beijava tanto. Dizia dele aos meus, que era meu orgulho, que era meu príncipe, que era o melhor nisso e naquilo. E ele se fez homem. E tem seus filhos. Dois. Que também nunca vêm. Eu tenho as fotos. 

Tive doenças que me fizeram incapaz de controlar a mim mesmo. Foi quando ele decidiu que era melhor eu viver aqui. Eu concordei. Estava frágil demais para comandar o dia. Assinei o que ele me pediu. Era melhor que ele administrasse tudo. Tudo o que eu construí com anos de entrega. Fui da escassez ao exagero. Da casa simples dos primeiros anos de amor com minha mulher a uma mansão cheia de tudo para que meu filho fosse feliz. Entendia nada de felicidade naquele tempo. Viajou para longe de mim o menino que eduquei com erros. Aprendi rasgado que não se deve dizer “sim” aos luxos desnecessários. Sementes não jorram de mãos enluvadas. É preciso o calo dos plantadores para que os jardins floresçam dignidade. Sem esforço, não há flor nem fruto, nem beleza nem alimento. 

Meu filho é um homem que gosta de dar ordens. E que me culpa por pecados que ele decidiu. A mãe morreu pouco antes das minhas recentes fragilidades. Não sei quanto tempo faz, exatamente. Nem sei se tudo o que eu digo é como realmente foi. Sei que tenho saudade. 

Ontem, um jovem que nos visita e a quem sempre eu pergunto o nome, me perguntou sobre um presente de natal. Eu respondi, “Meu filho!”. Ele tocou as minhas mãos e sorriu com os olhos. “Que meu filho venha me ver, que meu filho me dê um beijo, que meu filho diga que me ama”. O jovem nada disse. Decerto vai ligar para o meu filho. Decerto, se meu filho vier, será para me repreender. De certo, eu não sei nada. Só sei que não vivo na casa dos meus sonhos. Nem na mansão nem na pequena casa dos inícios onde minha mulher e eu sentávamos no chão e montávamos uma desequilibrada árvore cheia de simplicidades para o natal, e um presépio de papel “alguma coisa”, não lembro o nome. E fazíamos amor no chão. Jovens que éramos. 

Meu filho não viveu essas delícias. Talvez eu seja o culpado. No seu tempo, era tudo arranjado para que nada faltasse. Faltou uma canção desafinada, faltou um bolo um pouco queimado, faltou um brinquedo só. Eu não sei. Sobre os erros, só se sabe depois. Difícil escolha a de viver. Quem foi que inventou a liberdade? De acúmulos em acúmulos, fui percebendo o que falta. Nesses tempos de despedidas, as lembranças que me preenchem não são de coisas, são de pessoas, são de momentos, são de sabores. Que sabor tem uma vida sem amor? Por que minha mulher ficou doente e se foi? Se ao menos estivéssemos juntos, esse canto em que me sento seria encantado. E faríamos amor novamente. Nem que fosse com os olhos. 

Estou um pouco perdido em mim. Tenho esquecimentos e lembranças. Que se revezam. O que permanece sempre é a saudade, acho que já disse isso. Se eu pudesse voltar, eu não impediria as frutas de amadurecerem sozinhas. De correrem os riscos necessários. De caírem e permanecerem intactas ou com algum arranhão, por que não? 

Quem sabe meu filho leia os meus pensamentos e me perdoe os erros e venha me ver no natal. Sempre acreditei em milagre. 

Publicado dia 22 de dezembro, no jornal O Dia (RJ). 

Comi a saudade

Nenhum dos meus amigos viveu a guerra. Eu vivi. Era um menino pobre de um país pobre de tanta dor. Minha terra chorava dia e noite. Mães atormentadas por sirenes com medo de mais um enterro. Os enterros se sucediam. As lágrimas desciam montanhas abaixo, sonhando germinar um novo tempo. Eu era um menino que ganhava algumas moedas vendendo doces ou limpando cabelo em uma barbearia. Moedas que não eram suficientes para comprar o sanduíche de que eu mais gostava. Minha mãe e meus quatro irmãos estavam na mesma situação. Nas calçadas da penúria, no caminhar em busca de paz. 

Calçada era onde me sentava do outro lado da rua para ver os que tinham dinheiro comprarem e comerem o sanduíche de Falafel. Um vazio me abria naquele corpo tão menino. Reclamar? Como? Minha mãe era muitas para lidar com a sobrevivência de tantos. 

Em uma viagem de saudades e acenos, viemos para o Brasil. 

Os inícios, por aqui, também foram duros. De pedra em pedra, fui construindo minha história. Sem nunca abandonar as minhas raízes. Fiz família. Mulher e filhas que preenchem os meus mais lindos instantes. 

E, um dia, voltei ao Líbano e à rua do sanduíche de Falafel e ao tempo que, dentro de mim, trazia lembranças. 

Era outro o vendedor, era outra a paisagem. O sol queimava o dia e eu aquecia o meu coração comprando cinco sanduíches de Falafel. Sem muita explicação, quis sentar na calçada e comer um a um. Eu estava comendo a saudade. Eu estava comendo a gratidão de ter sobrevivido, de ter viajado, de ter plantado em terras de paz. As lágrimas iam despencando, não de medo das sirenes ou das mortes de quem perdíamos. Eram lágrimas da emoção do curso da vida. Das tantas dores passageiras. Das cicatrizes com as quais aprendemos a conviver. 

Conto aos meus amigos que me ouvem com poesia. As privações podem nos empoeirar de tantas maneiras. E podem nos impedir de prosseguir. Não foi o que aconteceu comigo. O que tenho de mais precioso não é o dinheiro para comprar os cinco sanduíches. O que tenho de mais precioso são os sentimentos que foram regados por tantas pessoas que fui aprendendo a amar. 

E, se pensam que conhecem da grande felicidade, esperem o nascimento dos netos. Meus netos são como milagres que brotaram de um Cedro do Líbano que teve a grandeza de nunca desistir de acreditar. 

Quando os abraço, relembro o menino que fui e agradeço a Deus por ter chegado até aqui. 

Publicado dia 05  de janeiro, no jornal O Dia