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Um céu para Anna

“Um céu para Anna” é o título de minha crônica publicada,  hoje, no Jornal O Dia RJ:

Um céu para Anna

Gabriel Chalita

Eram os dias finais do ano que já se findou quando recebi a notícia. Nesse dia, estava de folga, ajeitando a vida, que deixo de lado, quando estou no hospital.

Sou enfermeira e, no cuidar, descobri o meu lugar no mundo. E foi assim que conheci Anna Maria Martins, a escritora.

O primeiro dizer daquela bela mulher de 96 anos foi, “Minha querida, estou sendo muito bem tratada aqui, agradeço a amabilidade de todos, mas, infelizmente, vou ter que ir embora, compreende?”. A filha sorria com o dizer da mãe. As palavras, companheiras de toda uma vida, não aconteciam sem cerimônias. Eram pensadas antes de ganharem vida. 

Acho linda a vida de um escritor e quis saber mais. Um pouco ela mesma me disse, feliz com minha curiosidade. Outro tanto fui pesquisando e me encantando com aquela mulher. O marido era, também, escritor. E, também, a filha. Ela gostava de dirigir a vida, inclusive. Mas me contou que, aos 90, ainda ia interior afora visitar parentes. E gostava da liberdade. E ria dizendo que, vez ou outra, extrapolava os limites da velocidade, “Que minha filha não me ouça!”, soletrava brincadeiras. 

Os livros tomavam horas de seus dias. Era ciosa na arte de traduzir, engenhosa na arte de inventar personagens ou de relatar acontecimentos. Os seus pares a tinham como a dama da elegância ou da delicadeza ou da generosidade. Meu Deus, por que demorei tanto para conhecer essa mulher?

Já disse que gosto do cuidar, e esse é o meu manifesto de que não desisti da humanidade. Mas me pego absorvida de horror quando vejo as violências. Há mulheres que chegam ao hospital rabiscadas de um escrito covarde que agride partes do corpo e que diminui a alma. A alma, vocacionada para as grandezas. Brigas tolas que geram ferimentos, por homens armados de ódio. No trânsito. Na vizinhança. No bar. 

Há outras provas da violência onde trabalho. Os abandonados. Os que melhorariam mais rapidamente se tivessem o amor dos seus. Essas imagens sempre me visitaram. E me entristeceram. E, jamais, me desanimaram. 

Meu ânimo hoje é outro. A tristeza da despedida de Anna e a certeza de que o que ela falou era mais profundo do que ir para casa. “Agradeço a amabilidade de todos, mas, infelizmente, vou ter que ir embora”.

Ela foi embora. Infelizmente, ela foi embora. Embora tenha ido feliz. Não que a vida não a tivesse ferido, mas tinha ela, na gentileza, o poder cicatrizante dos dias.
Quem a conheceu,  há mais tempo, dizia que os dias ao lado dela eram mais leves. Que ela plantou delicadezas em todos os palcos em que representou com mestria o viver pela palavra.

“Sou uma escritora”, dizia ela, “Sou da literatura, sou das histórias bem contadas, dos laços que unem vidas e que proporcionam felicidades”.

Decidi que vou ler mais em gratidão aos poucos dias em que pude ouvir a sonoridade da sua voz dizendo belezas.
Fico imaginando como deve ser um céu para Anna. Terá ela um clube de leituras para explicar o amor, a amizade, a bondade? Terá ela outros escritores para inspirar os dias? Terá ela alguma enfermeira como eu para acariciar a alma cuidando e sendo cuidada?

Sou uma mulher de fé. E isso me basta para dizer que não sei como é a vida depois que a vida se despede. Só sei que não pode ser ruim para quem foi bom. 
Anna, ainda nos encontraremos…

“Enfim, casados”

“Enfim, casados” é o título de minha crônica publicada, hoje, no Jornal O Dia RJ:

Enfim, casados

(Gabriel Chalita)

Conheci a mulher da minha vida há 12 anos. Foi em uma canção de música de espera. Linda, sentada à minha frente, em uma faculdade de direito. 

As primeiras conversas foram cuidadosas. Não sou homem de muitas palavras. Gosto dos olhares. 

Gabrielle foi aceitando caminhar comigo. Somos do interior. Temos costumes um pouco vagarosos para tempos tão apressados. Quando conto que, do primeiro olhar ao primeiro beijo, aguardei um ano, parece coisa de antigamente. 

Guardo momentos de conversas, guardo gestos de autorização, guardo carícias de jovens amadurecendo no amor. O primeiro beijo ainda mora em mim. Valeu a espera!

Os anos foram se passando, e os amigos brincavam da demora. Não houve demora. O amor nunca deixou de estar presente. 
E, então,  12 anos depois, com os cuidados dos dias difíceis que estamos vivendo, ela entrou na Igreja, entrando ainda mais na minha vida. Sou tímido; às vezes, demoro a dizer sentimentos. Minha mãe não disfarçava a emoção. E, também, a mãe da mulher que amo. E, também, o pai. E, também, o meu pai. Chorei devagar. Emocionado. 

Combinamos muito. Fui o seu primeiro e único namorado. Fui com a delicadeza necessária para tornar mágico cada pequeno toque entre os nossos corpos. 
Sentir o seu cheiro é perfumar de amor os meus dias. 

O dia teve chuva e teve sol. Reparei pouco nas temperaturas. E nos enfeites que acompanhavam os seus passos decididos em busca do altar, onde eu estava inteiro para ela.

Tenho amigos que se orgulham das conquistas irrepetidas. Das mulheres que se têm e se descartam. Ouço as histórias e digo nada. Cada um mora na casa que decidiu. A minha é de concreto firme, de base inquebrantável. Que venham os ventos e as outras naturezas. Estaremos juntos. Que venha algum estranhamento, longe de mim plantar perfeições. Em mim, mora o que nela mora, uma decisão de enlace, uma despreocupação com outras paisagens, um sorriso de quem acompanha os dias acompanhado. 

Na roça, gosto de arrancar o mato para deixar a terra limpa para fazer brotar o que enfeita e o que alimenta. Quero ter a mesma disposição na vida de casado. Faz só uma semana do beijo do altar, das músicas das núpcias, do dormir sentindo o céu em nós. 

E, em todos os poucos dias que se seguiram, eu pude olhar para ela e dizer que o amor existe e que a felicidade daquele primeiro dia, daquela faculdade de direito, endireitou os nossos caminhos. 

O que são 12 anos em um sentimento que os poetas já decidiram eterno? Em nós, a escritura do amor foi feita com a arte de uma matéria-prima que nunca se acaba.

Lavei e passei 2020

“Lavei e passei 2020” é o título de minha crônica publicada,  hoje, no Jornal O Dia – RJ:

Lavei e passei 2020

(Gabriel Chalita)

Quero começar bem o novo ano. Fiquei sozinha em casa, com receio das festas sem necessidades que fizeram por aí.

Foi um ano difícil. Perdi muita gente. Aqui da comunidade mesmo. E vi muita gente, que eu via espalhando bondade, indo embora. Achei injusto. 

Minha única filha mora longe, tem as coisas dela, é importante, até secretária tem. Pouco tempo gasta comigo. Mas compreendo. Em uma mãe, cabem muitas explicações. Que seja feliz com os seus, do seu jeito. 

Depois que o pai dela morreu, só tive uma história de amor. E foi tumultuada. E onde é que se acha coragem para deixar o erro e ir adiante? Eu o amei.  Amei muito. Eu o recolhi das cinzas mais de uma vez. E, mais de uma vez, eu disse que deveria ir, para não ficar. E fiquei. Foram anos duros, de agressões e de vazios. E, então, me vesti de dignidade e fui cuidar do que restou de mim.

Sou lavadeira. E gosto do que eu faço. Criei minha filha com o dinheiro do meu trabalho. Até faculdade, paguei. Na noite da formatura, chorei para dentro, para não incomodar.

Ela ligou na passagem do ano. Estava com pressa, mas disse que, quando as coisas se ajeitassem, viria me ver.

Choveu muito por aqui. Em dias sem sol, as roupas têm que aguardar. Lavei e passei 2020 antes da virada. Decidi limpar tudo. Em mim, também. Vejo gente dizendo das sujeiras do mundo. Também digo. Mas sei ver as sujeiras em mim.

As minhas implicâncias, a minha falta de vontade de viver – vez em quando, tenho isso. Os meus reclamos com a solidão. Não é fácil uma mulher da minha idade encontrar alguém. E não é fácil viver sem ninguém. Escrevi em mim que a grande felicidade da vida é ser amada por alguém. E não encontrei ninguém para ler. Nem minha filha com seus amigos importantes. Não. Não vou remoer em roupa lavada e passada. Vou rezar para os dias que virão, vou encontrar outras calçadas para caminhar, vou viver a novidade que posso, enquanto posso.

É ano novo. E há um broto de flor se abrindo em mim, enquanto ouço os passarinhos que cantam aqui na comunidade.

Tenho amigas e amigos que me amam, sei disso. Tenho alguma beleza, todo mundo tem. Tenho olhos de ver as transitoriedades e as permanências. 
Permaneço disposta ao trabalho de lavar do mundo as injustiças, as perversidades, as arrogâncias, a insensibilidade. Prefiro chorar a saudade de quem partiu a partir alguém. 

Gosto de música. E, modestamente, posso dizer, tenho alma de bailarina, desde sempre. Acompanhada ou na solidão, danço o amor. Visto de roupas que eu mesma preparei e acalmo a tristeza dançando ou danço com ela, quando ela grita.E aí me deito com as janelas abertas para ser despertada no primeiro raiar de luz.

Acordei, hoje, com o riso acompanhando a lembrança de que estou viva. Vou, no cair da tarde, tomar café na casa de Maria.
De lá é bonito de se ver o pôr do sol, o primeiro pôr do sol de 2021. Gosto do sol se despedindo, porque sei que é só uma pausa. 

E, como é domingo, vou aproveitar para bordar. Bordar sentimentos novos em roupa lavada e passada e com cheiro de baile.

Ah, memórias bonitas que moram em mim. Mesmo as que não existiram.

SOBRE MINHA FILHA

Criei minha filha como pude. Entre inexperiências e decisão, ela foi florescendo. Menina, adolescente, mulher. 

Tenho uma única filha. Nasceu de uma história fugidia de amor. Éramos jovens demais para compreender o que deveríamos ter compreendido. Abandonar as roupas que ontem nos enfeitaram para viver a responsabilidade de dividir. E foi assim que ele se foi, em um vento de medo que levou, avassalador, o que eu tinha até então. 

 
Promessas delicadas, entre beijos, foram esquecidas. Noites de amor permaneciam em mim, na memória que vivi ou que construí. Fantasias adolescentes que demoram a se desmanchar. Faz tanto tempo e eu ainda me lembro. 

Criei minha filha como pude. Entre inexperiências e decisão, ela foi florescendo. Menina, adolescente, mulher. Tenho um companheiro que gosta mais do silêncio que da participação. É o jeito dele. Mas me faz bem. É bom saber que há alguém. Falo de conquistas rotineiras do trabalho, e ele me escuta. Conto histórias de gente do bairro, e ele acena com a cabeça em sinal de atenção. Vez ou outra, traz alguma notícia. Resumida. Cortada pelo tal silêncio. Tento adivinhar o restante. E ele concorda comigo. Mas não é ele que me preocupa. É minha filha. Há nela uma tristeza que não entendo. Reclama do seu corpo e dos excessos. Come mais do que deve e anda menos do que é necessário para alguém que quer alcançar algum lugar. Estuda por estudar. Faz a faculdade que é mais perto e o curso que é mais curto. Volta logo para casa e se tranca. 

Em alguns dias, tenho a sensação de que vivo em um cemitério de emoções. Meu marido olha ao longe e pensa nem sei em quê. Só muda o olhar, quando eu passo; aí, ele acompanha os meus movimentos. Minha filha olha para um computador que acorda e adormece em seu colo. Quando peço, ela me ajuda. Sem reclamações nem alegria. Há sempre um pacote de alguma coisa que ela come sem prestar atenção. Mastiga como se mastigasse a dor de estar viva. E é assim que gasta os dias. O que pode uma mãe fazer? Pergunto de namorados e ela desvia. Não me sinto no direito de invadir. Mas sou mãe. Sofro com o seu sofrimento. 

O ano que vem, ela se forma. Os trabalhos que faz são nada. Quando era menor, gostava de dizer que nunca se casaria, que viveria comigo para sempre, cicatrizando as minhas dores. Ora, não sei de onde ela aprendeu esse texto. Não sou acumuladora de dores. Trabalho o dia todo, gosto da dança, das conversas de rua, das festas que frequentamos por aqui. Antes, ela ia. Agora, vamos eu e o João. Ele, quieto, mas presente. 

Hoje, acordei com a certeza de que ela precisa de um amor. E foi isso que eu disse, quando acordávamos o dia, tomando café. Ela me olhou como se olha alguém que vive da ignorância. “Sou gorda, mãe, quem vai me querer?”. E se levantou. Da mesa, apenas; não do cansaço. Fui atrás. Nos abraçamos e choramos juntas. Brinquei nos seus cabelos. Disse elogios. Falei dos encontros necessários. Dos sofrimentos que nós duas vivemos. Nos lembramos da fala da infância. Ela queria aliviar-me as dores. E, hoje, sou eu a tentar abrir a porta. E ela me ouviu. Balançando negativamente a cabeça. E eu insisti que ela falasse. O que quisesse. A dor compartilhada tem mais chance de ir embora. Mas ela prosseguia falando para dentro. O que pode uma mãe fazer, insistia eu, comigo mesma. Proibir a comida em excesso, obrigar a caminhar por outras estradas, espantar o medo do amar? É preciso amar, “Qualquer forma de amor vale a pena”, cantarolei. 

Quando nasceu, dei a ela o nome de Lúcia. Lúcia vem de luz, me disseram. E ela pode ser iluminadora, ainda, se se levantar. Meu marido se aproxima do quarto e apenas nos olha, perguntando, sem dizer, se precisamos de ajuda. Dizendo, agradeço. Ele se vai e ficamos nós duas. E vou caçando palavras em mim para que ela compreenda que há vida fora das prisões que criamos. E que a chave não depende nem do corpo nem dos outros. Basta uma atitude, pelo menos para os inícios. Eu sei que vamos conseguir, foi o que eu disse. Eu sei que ainda haveremos de rir muito, juntas. Eu não sei como, eu não sei quando, mas eu sei que não vamos desistir. E, então, ela me abraçou por conta própria. E, depois, acariciou o meu rosto. E, depois, me avisou que iria tomar banho. E se levantou, cantarolando a música que lembrei. Não quero ser precipitada, mas alguma coisa acendeu em mim a esperança de que os dias que virão, depois de hoje, serão melhores. 

GRITOS DE INSENSATEZ

“Fui com minha esposa a um restaurante, aqui, bem perto de onde nos construímos. Fazemos isso, de quando em vez, e gostamos.” 

 
Fui com minha esposa a um restaurante, aqui, bem perto de onde nos construímos. Fazemos isso, de quando em vez, e gostamos. Só nós dois. Os filhos, crescidos, voam os seus voos. E ficamos nós, desafiando o tempo e cultuando o romantismo. Sentamos e nos olhamos como sempre. E pedimos o que comer. E nos olhamos novamente. 
Era uma noite calma. Eram calmos os sentimentos de amor. Nunca fui de rompantes. Ouço histórias de brigas e agressões e de reencontros apaixonados. Discordo. Onde não há paz, não há amor. Nos lapidamos sem fogo, fomos mudando o necessário, nos acostumando com as imperfeições e com o prazer. 

 
Não foi sempre assim. Nos inícios, nos estranhamos e ela me deixou. Eu tinha medo, talvez. Queria e não queria. E ela, insegura, partiu. Partiu e me partiu. Sofri a ausência e tive que ter paciência com a saudade. Os entreatos nos fizeram sentir que era melhor ficarmos juntos. E, desde então, estamos. 

 
No romantismo daquela noite, ouvimos gritos. Era uma mesa dizendo impropérios a alguém que estava sentado ao longe. Não entendi no início. Depois vi que se tratava de política. Os da mesa xingavam de ladrões os da outra mesa. Uma mulher se levantou e gritou com tamanho ódio que movimentou aquele pacato lugar. Alguns defendiam, outros atacavam. Os gritos assustaram o amor. Os namorados que ali estavam já não mais estavam. Os ruídos ameaçavam agressões físicas. Minha mulher comentou comigo se já eram conhecidos de algum lugar ou se apenas se sentiam no direito de agredir quem conheciam por notícias ou espalhamentos de redes sociais. Um homem queria que o casal fosse embora e portava uma faca. Os garçons interferiram. Meu coração disparava de horror. 

 
Era para ser mais uma entre tantas noites românticas da minha vida. De repente, aquele restaurante se transformou no lugar mais frio do mundo. Desentendimentos que foram gerando desentendimentos. Pensei em dizer alguma coisa, pensei em lamentar o fato de a poesia não ter sido apresentada a essa gente. A minha gente. Somos todos filhos do mesmo barro e comungamos uma pátria, uma língua, uns tantos costumes. E por que, então, nos agredimos? 

 
A comida ficou sozinha nos pratos. A fome que brotava nos insensatos era outra. A de destruir o diferente. Somos todos diferentes, ora. Então, não ficará ninguém. Minha mulher comentou sobre a tristeza que se transformou algo que deveria ser tão bonito. A política deveria ser um gesto de caridade. De pessoas que deixassem os seus confortos para cuidar do mundo. Que se obrigassem a melhorar a vida. Vidas não são melhoradas em gritos. 

 
Olhei para a minha mulher e me aproximei com desejo. Saímos abraçados. Na calçada, respiramos nossa história. Que bom ter nascido no mesmo tempo que ela e tê-la descoberto em meio a tanto barulho. Seu silêncio me desperta desejos gostosos. Nossas mãos vão se acariciando, enquanto caminhamos. Eu a indago se deveríamos ter dito alguma coisa. Ela olha como dizendo que também não sabe. O que sabemos é que esses gritos enfeiam a vida e fazem muito mal ao nosso país. 

 
A noite há de ser paciente. Vai ficar acesa por algum tempo. Queremos fazemos amor em sua poesia. 
 
 
Publicado dia 24 de novembro, no jornal O Dia (RJ). 

RECORDAR

“Faz quase nada que aprendi o significado desta palavra. Aprendi de ouvir. Tenho esta compreensão da vida: ouvir!” 

 
Faz quase nada que aprendi o significado desta palavra. Aprendi de ouvir. Tenho esta compreensão da vida: ouvir! Ouço o que me dizem, sem a pressa dos que muito sabem. Ou pensam que sabem. Ou, apressados que são, sequer pensam. 

 
Eu ouço porque ouvir é amar. É se esvaziar de argumentos e aguardar os ditos de alguém até o fim. É amaciar o dia com a voz que precisa dizer. A voz que se enfeita com as palavras. Palavras que são retalhos de poder. Que ora embelezam, ora afugentam o dia. Dias fugidios são os que nos retiram de nós mesmos. E ficamos a esmo a sofrer de um sofrimento que nem sabemos de onde vem. Quando sabemos, é mais fácil arrumar. 

 
Acordei antes do dia. E pensamentos começaram a decidir o fim do descanso. Só os olhos continuavam fechados. O resto se abria com palavras que iam se derramando sem economias. E que significavam coisas que ficaram por fazer ou que trouxeram dor. Os dias passados continuam morando no dia em que estamos vivendo. E podem nos incomodar. 

 
Foi, então, que me lembrei do que ouvi. De um tal Henrique, amigo de um filho meu, resistente no sonho de ser professor de literatura. “A literatura é a história dos sentimentos. Das expressões de amor e dor, dos encontros encomendados ou não, das palavras que ficaram guardadas em uma estante de receios e que não foram ditas. Dos desertos que têm sua finalidade. Mesmo que seja para valorizarmos a água que não é miragem e que ameniza a sede”. 

 
Com sede, resolvi me levantar. Tomei alguma água. E sentei no que me incomodava. E me lembrei de Henrique e de seu texto no final do jantar. “Recordar é voltar a passar pelo coração”, foi mais ou menos isso o que ele disse. “Re” vem de memória, e “cor” vem de coração. 

 
Dizia ele que os romanos achavam que a memória morava no coração e não no cérebro. Não sei onde mora a memória. Sei que, em algumas noites, ela persiste em roubar as minhas pausas. E não me faz bem. 
 
Pois bem, resolvi experimentar. Sentada que estava nas lembranças ruins, ousei um outro sentir. Comecei, então, a recordar. E assim fui fazendo as pazes com os ontens. Sem muito esforço, me encontrei sorrindo. Notícias belas estavam em mim. Escondidas, talvez, em meio a tantos outros anúncios. Fui procurando. Meus filhos brincando de crescer. Um dia de sol em uma praia qualquer. Um pedido inesperado. Um luar. Lembrei de minha mãe e de seus textos de sabedoria. Da paciência, que é outra palavra que me encanta. Tento com sucesso espantar o indesejável com momentos lindos que ainda vivem em mim. E, assim, me deito. E volto ao sono. E sonho um sonho bom. E me desperto melhor. 

 
Enquanto preparo o café, sinto o cheiro do que me faz bem. Ouço vozes que vêm do quarto dos meus filhos. Coloco o pão para esquentar. Há sempre uma flor nova enfeitando. A mesa está posta. E, de novo, me recordo que sou mãe. E que mãe sou por decisão. Meu marido não vive mais por aqui. Faz algum tempo. Mas nada de lamentar a troca. Fez o que desejou fazer. Enquanto esteve, foi bom. E é isso que me resta pensar. Chegam eles, os dois, cheios de amanhãs. Um meio sonado, o outro mais falante. Como não celebrar? 

 
Até a chuva que anunciava que ficaria se foi, me recordando que sempre, escondido ou não, há sol. 
 
Publicado no dia 17 de novembro, no jornal O Dia (RJ). 

O comprador de verdades

Sempre estranhei os que trabalham com pessoas que não admiram. Gastam parte da vida em ausências de realizações. Transformam a rotina em horror. 

Ele acelerou o dia para desdizer o que eu havia dito. Foi feroz, como sempre. Olhou para o nada e falou comigo. Tenho a impressão de que meu nome não mora em seu receituário de gentes. Nem os meus olhos. Fala, olhando para o alto. E termina sem terminar. Vai andando, atropelando a delicadeza. 

Fico no emprego, porque preciso. Não gosto, mas tenho que admitir. Sempre estranhei os que trabalham com pessoas que não admiram. Gastam parte da vida em ausências de realizações. Transformam a rotina em horror. Eu sempre disse isso. E, agora, faço o mesmo. 

Ele entra no escritório desincumbido de um cumprimento. E se tranca em uma sala onde coleciona verdades. Ele tem o hábito de comprar verdades à vista. Principalmente, se a verdade que está à venda significa algo contra alguém. Se, ao menos, parcelasse. Se, ao menos, esperasse algum tempo para saber. E, com as verdades em mãos, vai em direção ao ataque. 

É usual onde trabalhamos vermos as vergonhas misturadas aos ódios em formas de lágrimas. Falamos pouco. Ele já advertiu que todo o ambiente tem olhos. Olhos de ver o que ele não vê, se apenas olhasse. Se abaixasse um pouco a cabeça e percebesse que não somos inimigos. Foi isso o que ele mesmo disse depois de um dito sem cuidado, “Empregado é inimigo pago, nenhum presta”. E se foi. Ruminando a certeza de que gente é um produto que não deu certo. 

Em reuniões com externos, ele se transveste de bondade. Sorrisos são distribuídos sem economia. Conversas de quem gosta de conversar. Acenos na porta e esperança de reencontros. Já sozinho, despe-se do que não é seu e se põe a novamente agredir. 

“O seu texto está errado”. Com cuidado, expliquei que se tratava de uma citação de um clássico. “Gosto da citação, mas ela está errada! Copie novamente, com mais cuidado”. Em sussurros medrosos, fui mostrar o livro com a citação. Estava certa. “Então, tira a citação. Não gosto da citação”. E, ao perguntar o que ele gostaria que eu colocasse no lugar, gritou impropérios e se trancou novamente. 

Chego em casa em esforço repetido de não rasurar uma história de amor ainda nos inícios. Sou pai recente. Sou marido apaixonado. Sou riso fácil, quando se trata de falar da vida. A mulher que amo é, também, leve. Choramos juntos em filmes singelos. Nos amamos sem hora certa. Basta um respiro e nos fazemos um. Somos um. Um e mais um que chegou propagandeando que gente é um produto de amor. Que dá certo quando se compreende o amor. 

Refaço as contas das horas que faltam para voltar ao trabalho e tenho vergonha de mim. Não fosse meu filho, esperaria nada para dizer que não, para agradecer as ofensas, para aguardar outro emprego. Mas não posso. Filhos mudam tudo. E ser pai é um florescer que sempre desejei. 

Quando conversava sobre o filho que chegaria com um amigo no trabalho, ele veio em nossa direção e balançou a cabeça em desaprovação. “Que estupidez, tem gente demais no mundo”. E saiu sem nunca ter chegado. Quem o educou? O que fizeram dele? Que lodo sujou seu percurso? 

Olho para a minha mulher amamentando nosso filho e uma paz me explica que a paciência saberá me dizer o que fazer. No tempo do fazer. Por enquanto, eu posso agradecer a lua que acaba de iluminar os meus mundos, invadindo delicadamente nossa janela. Minha mulher percebe que é amada e apenas sorri. É essa a nossa verdade. E não foi comprada. Foi em um anoitecer de abril. 

Publicado no dia 10 de novembro, no jornal O Dia (RJ). 

A IRMÃ MORTE

“Era Francisco, o santo de Assis, que chamava a morte de irmã. Demorei para entender o que ele queria dizer.” 

 
Era Francisco, o santo de Assis, que chamava a morte de irmã. Demorei para entender o que ele queria dizer. 
Sou uma mulher de quem o tempo levou muitos sorrisos. Enterrei dois filhos. E, ainda ontem, no cemitério, cobri de flores a saudade que nunca deixou de ser dor. Quando eles morreram, ouvia nada do que me diziam. Vasculhava em mim os barulhos que me tentavam convencer de que não era a morte suficientemente poderosa para pôr fim a um sentimento tão grande. 

 
Saíram os dois, um dia, para irem à escola. Fui eu quem preparou suas coisas. Ele se arrumava sozinho. Já era um homem feito aos 15 anos. Ela pedia minhas mãos para que os cabelos se ajeitassem. E assim se foram. E os últimos beijos no portão de casa. E o toque da campainha. E a notícia do assalto. E o choro mais doído de minha alma. 
Eu tive três filhos. Permaneceu comigo a Mirela. E, hoje, sou avó de 5 netos. E não posso dizer que a alegria nunca mais se sentou comigo. Mas tenho que confessar que Miguel e Mariana estão aqui, nos meus pensamentos todos os dias. Os quartos demoraram para serem arrumados. Minha alma ainda vive o dual dos desarrumos com as novidades que chegaram. Sei quantos anos eles teriam hoje. Imagino como seria a nossa casa, se à mesa não coubesse tanto amor. Não poucas vezes, levo o choro para o interior do quarto e fico a me fazer perguntas. 

 
Sou uma mulher de fé. Mas tenho dúvidas. Indaguei a quem achei que devia onde deviam eles estar. Sei que a morte não é o fim. Há mais do que o visível aos nossos olhos. Há um mistério nas estações. É por isso que o que morre no inverno ressurge pleno na primavera. 

 
Conheço quem não acredita em nada. Antes, eu andava pelo dia escolhendo palavras para insistir que acreditassem. Era o meu jeito de acreditar também. De espantar a lentidão do dia, quando a saudade aumentava o seu volume. 
Ouço o barulho dos meus netos e ouço a voz silenciosa dos meus filhos que faltam. Conversei, muitas vezes, com mães que, como eu, enterraram seus filhos. Sorrimos juntas para comum tristeza. Falamos do que faziam. E imaginamos o que não puderam fazer. 

 
Lá se vão quase cinquenta anos sem eles. E o tempo vai me explicando que nos encontraremos em pouco tempo. O tempo da colheita não é o mesmo. Alguns se vão ainda perto do início. Outros cumprem um ciclo maior. Os entendimentos humanos são nada para entender. O que nos compete é viver. 

 
Aos poucos, foi florescendo em mim o que Francisco queria ensinar ao chamar a morte de irmã. Ela existe. Ela virá. Não depende de nós decidir. Depende saber. E, sabendo, viver. A despedida de uma rosa não espanta a sua essência. Ela enfeita, enquanto está. E, quando não está, haverá outra rosa a dar delicadeza ao mundo. E é o seu perfume que distrai, inclusive os que não acreditam, das solidões. 
A vida é bela. Eu sei disso. E soube reaprender a sorrir. Se vou ao cemitério, é mais por uma tradição. Miguel e Mariana já vivem no amor que nada é capaz de ferir ou desfazer. Mirela deu seus nomes a dois de seus filhos. Fiquei feliz. 

 
Sou uma mulher feliz. Sei dizer o que falta, mas sei celebrar o que me preenche. Nos passos vagarosos de hoje, a lembrança traz mais sorrisos que lágrimas. Eram engraçados aqueles dois. Devem estar rindo juntos ainda. 
Se a lágrima é uma delicadeza da dor, o sorriso é um sopro de beleza. Belo é poder lembrar. Lembrar é fazer permanecer. Nunca fui de acumular as maldades que me fizeram. Pouco falo sobre isso. Mas o que foi lindo continua em mim e continuará para sempre. Sou como Francisco, acredito que o fim é uma ideia que só existe na cabeça dos apressados. 
 
Publicado no dia 03 de novembro, no jornal O Dia (RJ). 

O FIO DO AMOR

“ Minha avó gastava parte do dia com as agulhas e o fio de novelo preparando calor. Com seu tricô, viajava nas imaginações e nos fazia blusas, cachecóis, mantas, gorros e o que julgasse necessário para espantar o frio. E fazia com o prazer consciente de quem já sabia que a vida não dá tréguas e que é a coragem que nos faz compreender que aquecer os outros é nosso melhor propósito. 

 
Minha avó gastava parte do dia com as agulhas e o fio de novelo preparando calor. Com seu tricô, viajava nas imaginações e nos fazia blusas, cachecóis, mantas, gorros e o que julgasse necessário para espantar o frio. E fazia com o prazer consciente de quem já sabia que a vida não dá tréguas e que é a coragem que nos faz compreender que aquecer os outros é nosso melhor propósito. 

 
Sofreu ela de partidas dolorosas. Deixou suas infâncias e teve que ser adulta. Deixou sua terra e descobriu a saudade. E foi vivendo. Falou muda, não poucas vezes. Chorou para dentro, para não se manifestar. Mas resistiu. Essas histórias, eu soube em seu colo. Eu insistia em ouvir novamente. Queria detalhes da longa viagem no navio. Queria saber quem acenou no porto da partida. Até o tempo do choro me interessava. E ela contava com vagar. Depois, eu ia para a escola e ela voltava à sua tessitura. 

 
Houve um dia em que ela olhou, com alguma divagação, uma blusa que estava quase pronta. Olhou e não aprovou. E foi desfazendo com um fio que ia formando um novelo disposto a receber tudo o que já havia sido investido no que traria calor. Para, depois, começar novamente. Sem receios dos erros de ontem. 

 
Ainda ontem, um amor se foi. E, novamente, meu coração engasgou. Vivemos juntos o tempo das cobertas. Parecíamos prontos para permanecer. Tentei arrumar uns pequenos buracos que sentia no que nos cobria e ele disse nada. Apenas se foi. Tentei um aceno como aqueles que os irmãos da minha avó fizeram no porto da despedida. Ele disse outras coisas. Estava apressado para o almoço e não era eu o suficiente para espantar sua fome. E se foi. O sentimento de pouca importância tomou conta de mim. A pressa era tanta que a mensagem me significava ausência de amor. 

 
Não é a primeira vez que sinto o que sinto, mas, enquanto sinto, sei que será o frio o meu companheiro. É hora de recolher o fio. É hora de aguardar o tempo do reinício. O que aprendi, entretanto, é prosseguir sempre. Com as mãos doídas ou não. Com as desilusões de mais um amor que não resistiu. Apenas, prosseguir. 
Minha avó fechou os olhos, há algum tempo. E eu, de olhos abertos, vejo o passado e o futuro. E os fios que se embaralham nos meus sentimentos. Percebo os meus erros, eles vivem em mim. Percebo a pressa dos que não compreendem que eu posso me arrumar. Percebo, também, os erros dos outros e as minhas implicâncias. Longe de mim, a ideia de perfeição. Não há terreno amigável nas terras em que piso. Meus pés já sangraram muito. Mas meus olhos jamais perderam o poder de ver. O horizonte da vida é convidativo. Há paisagens por todos os lados. Algumas se repetem; outras, não. Todas, entretanto, nos surpreendem. Isso quando saímos a caminhar. Ou a dançar, mais uma vez, com as mãos que preparam um outro agasalhar. 

 
Sei que a educação na infância nos confere amarras para a vida toda e nos prepara os pés para os tais terrenos difíceis de caminhar. Hoje, me abraço a uma velha blusa e me lembro da minha avó e me lembro de que o amanhã existe. 
 
Publicado domingo, 27 de outubro, no jornal O Dia (RJ). 

DULCE MÊS DE OUTUBRO

“Irmã Dulce é, agora, santa. Agora, não. Sempre foi. Mesmo imperfeita como todos os humanos. Mesmo caminhante de um barro empoeirado que nos faz chorar choros doídos.” 

 
Irmã Dulce é, agora, santa. Agora, não. Sempre foi. Mesmo imperfeita como todos os humanos. Mesmo caminhante de um barro empoeirado que nos faz chorar choros doídos. 

 
Foi atacada não poucas vezes. Soube compreender e ensinar: “As pessoas que espalham amor não têm tempo nem disposição para jogar pedras”. Espalhar amor foi sua decisão de vida. Inspirada em outras vidas. Como as de outros santos do mês de outubro. 

 
Teresinha é a santa da delicadeza. A que pedia ao Senhor que, quando partisse, pudesse enviar uma chuva de rosas para acalmar os ânimos dos que vivem por aqui. Francisco é o que sai de Assis para ensinar ao mundo a fraternidade. Irmão Sol, irmã Lua, irmão Dia, irmã Noite, irmãos cantantes em um cenário em construção. Foi ele o defensor da vida e da natureza. 

 
O que têm em comum Dulce, Teresinha e Francisco? Antes de ousar um entendimento, trago a lembrança daquela que apareceu para sinalizar que os que sofriam também eram feitos do tal barro humano. 

 
De um barro, em um rio, surge um sinal. A mãe de Jesus se faz Aparecida. Em sua casa, os choros se multiplicavam e, depois, partiam. E os sorrisos, mesmo que provisórios, acendiam vidas. Em sua casa, correntes que prendiam escravos se partiam e partiam os corações dos que começavam a compreender que ninguém pode ser dono de ninguém. Francisco deixou até as ricas vestes para se sentir livre. Teresinha orou pelo mundo sem nunca titubear na profissão de esperançar. 

 
E Dulce? A doce Dulce dos pobres. A enérgica Dulce dos que teimavam em humilhar. Irmãos seus não nasceram para o abandono. Em cada pobre jogado, um desafio. Em cada vida desperdiçada por vidas insensíveis, um convite à ação. Foi ela curadora de muitos destinos. Foram eles curadores de muitas histórias. E um bocado de vida ia surgindo. E o mundo ia sendo obrigado à gentileza. Mesmo que o mundo de algumas pessoas, apenas. Não importa. Eram os três capazes de amaciar conversar e de incendiar injustiças. Doces e duros. Colhiam a luz da oração para pintar um outro quadro da vida humana. Menos injusto e mais próximo do sonho primeiro do Artista. 

 
Em Aparecida, prosseguem os peregrinos. A simplicidade abre as portas para uma humanidade humana. Os joelhos se dobram para que se escutem as verdades. Não. Ninguém deveria jogar pedras. Não. Ninguém deveria ensurdecer o sorriso. Não. Ninguém deveria esquecer o amor, o amar. 

 
O que têm em comum, então, Dulce, Teresinha e Francisco? Se ainda não brotou uma resposta, prossiga plantando. São eles inspiradores. E como são necessários! Há quem acredite no dual do existir. Que, sem o mal, não compreendemos o bem, assim como, sem a noite, não compreendemos o dia. Há quem acredite que não é assim. Que, em essencial, só há o bem, o mal é um nome que se dá às ausências. Ninguém conhecendo o bem opta por não fazê-lo. Então, está certo que precisamos de inspiradores. Para que não desistamos. Para que não nos esqueçamos de que um fósforo apenas é capaz de trazer calmaria a um medo, mas é, também, capaz de causar medo a uma valente floresta. Há muitos incendiadores por aí. E quanto mal fazem com seus discursos de ódio e com suas esquizofrênicas relações. Chamemos, pois, os iluminadores. Que permaneçam. Em nossa “casa comum”. A casa, tantas vezes, assaltada pelas faltas. 

 
O fato é que ainda nascem crianças. O fato é que a vida não é dada a desistências. O fato é que outubro é apenas um mês, mas, nos outros meses, também precisamos compreender. E, compreendendo, sentir. Ou, sentindo, compreender. Pouco importa. O que importa mesmo é se importar. Foi assim com Dulce, Teresinha e Francisco. Importando-se, mudaram eles o mundo. 
 
Publicado no dia 20 de outubro, no jornal O Dia (RJ)