Será que eles vêm?

20.06.21

Gabriel Chalita

Claro que eu gostaria que viessem, são meus filhos. Mas já não espero com o mesmo aguardar de antes. O amor não é um aprisionamento das horas em detrimento de liberdades. Não quero que venham sentindo o peso das renúncias, quero que venham para enternecer os nossos entardeceres e para alimentar de prazer a vida deles.

Cuidei eu dos meus pais até as despedidas. E sem pesar. Minha mãe foi se desconstruindo com a doença. No final, sabia nada de mim. Eu sabia tudo dela. E responder, invariavelmente, quem era eu não retirava, em absoluto, a vontade de estar com ela.

Meu pai se foi em um dia de outono. Poucos meses depois da minha mãe. Tomamos café juntos, e ele foi até a horta limpar as pragas. E voltou. Lavou a vida nas águas que escorriam de suas mãos envelhecidas. Deu uma laranja nascida de um laranjal plantado por ele e sorriu explicando a doçura da fruta que me alimentaria. 
Foi para o quarto dizendo nada, e nada nunca mais disse. Enquanto descansava para o almoço, descansou para a eternidade.

Minha irmã e eu cuidamos de nunca deixar os ventos da solidão despentearem a felicidade dos dois. Meus filhos não são assim. E são quatro. Há algum tempo, tempo nenhum eles têm para nos ver. Julieta é quem sofre mais. É mãe. Mente contando histórias das histórias que têm eles. “São ocupados demais, David, os meninos”. Não concordo nem discordo. Estamos casados há 65 anos. Temos nossas aposentadorias e alguma reserva. Temos cuidadores que se fizeram filhos na delicada decisão de serem a terra que precisamos para brincar nossas memórias. 

Ivan é o caçula. Liga com alguma frequência e mente obrigações. Moram os quatro na mesma cidade que nós. Disseram que se preocuparam conosco nesses tempos de pausa e, então, se ausentaram para nos proteger. Desculpa. Até nas ligações são eles econômicos.

Fico pensando se o erro foi meu. Se não plantei corretamente a semente que recebi dos meus pais. Se não gastei os dias trabalhando demais. Mas e a mãe? A devotada mãe que escolheu a maternagem para a sua vida? Vejo as suas mãos virando as páginas antigas dos álbuns de ontem, vejo os risos acompanhando as lembranças, vejo o esforço para entender dessas novas mídias e ficar buscando encontrar os sorrisos, que faltam nas visitas, nas postagem que eles fazem. “Olha, David, que beleza que está a Mariana. Puxou a você. Sua neta tem os seus olhos, meu amor”. Mariana, também, não vem. Vinha quando precisava.

O fruto do meu trabalho já foi dividido entre eles. Achei por bem fazer em vida. Julieta concordou. Deixem que administrem. O que temos nos basta. E basta mesmo. Sei de tantos que, na nossa idade, ficam na dependência de outros. Fui cauteloso. E, mesmo dividindo uma soma considerável de patrimônio, ouvi de meu filho David, o mais velho, o que leva o meu nome, que a casa era grande demais para os dois. O meu olhar e o meu silêncio bastaram. Grande demais é a ambição dos que não compreendem o belo do amor.

Os livros me fazem companhia e as conversas com Julieta e os filmes que gostamos de assistir e os que aqui trabalham. “Será que eles vêm no domingo, David?” . “Vem não, meu amor. A previsão do tempo para domingo é de sol. Você acha que vão deixar a praia para vir até aqui?”.”
“Imagine, David. Eles têm é muito trabalho. São todos muito ocupados. Olha, eu vou te mostrar o que eu vi do Fernando no celular”. “Quero ver não, Julieta. Deixa eu continuar lendo a vida do Tolstói”. 

Ela se fez de entristecida, gosta de defender os filhos. Então, eu prossegui: “Meu amor, olha que bonita essa frase do Tolstói : aquele que conheceu apenas a sua mulher e a amou  sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil”. Ela pegou, então, na minha mão e apertou com as forças que ainda permaneciam. E fizemos amor de um jeito nosso, no entardecer de mais um dia. 

Eu disse que pediria para dona Isabel, que trabalha conosco, que convidasse os seus filhos para o domingo. Gosto de ensinar gamão para o Leandro, o mais velho. Luana arruma os cabelos de Julieta e a perfuma de atenção.

Reclamar da nossa vida é incorreto. As ausências se preenchem com descobertas que o tempo nos oferece quando nos permitimos limpar a sala do nosso aconchego para receber quem quer se aconchegar. E tem mais um detalhe, Julieta toca piano e eu ainda me emociono como das primeiras vezes. Ouçam, ela está tocando “O lago dos cisnes”, é lindo demais! 

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