A derrota das palavras

27.06.2021

Gabriel Chalita

Mando notícias de Berlim. Já aqui, há alguns anos, publico a vida que conquistei. 

Sou bailarino. Rasgo a tristeza nos saltos que me fazem voar. E convivo com tantos ontens que não tiveram o poder de silenciar os meus sonhos.

Sou filho duvidoso de uma mulher que frequentou os mais dilacerantes calvários. Das lembranças que ainda tenho, ela se pintava com as trêmulas mãos para ganhar algum dinheiro entregando o corpo. Meu pai eram muitos. Ouvi histórias contraditórias e mastiguei o silêncio sem disposição para mais perguntas. No enterro de minha mãe, ouvi que ela, filho, não teve nenhum. Como saber?

Um homem mais velho resolveu interceder por mim, quando já mais ninguém havia. 
Gostava ele de balé. E foi assim que, pela primeira vez, eu vi um palco e vi o exercício das danças que voavam.  Sonhei, menino, ter essa vida. 

Morreu, também, o senhor. E fui viver em uma casa de acolhimento. Conheci, nesses esconderijos humanos, faces muitas da bondade. E, também, conheci o descaso, a perversidade, o desconhecimento do amor.

Desde o único dia de um único teatro, dançava eu nos sonhos e nos cantos que me sobravam. Foi quando um instrutor me tomou pelo braço e quis saber que movimento era aquele. Eu respondi dizendo que sonhava  ser bailarino. Ele deu um tapa na minha doída infância e gritou que eu virasse homem. 

Olhei sem reação e ainda tive ouvidos para ouvir que eu nunca seria ninguém. A brutalidade daquele homem condizia nada com seu comportamento em dias de visita. Tão solícito aos que tinham poder. Tão desumano aos que mais precisavam de humanidade.

Lorena era bailarina e abriu uma escola perto de onde eu vivia. Eu vi os seus vultos por entre as cortinas e parei como se parasse o mundo. Ela me viu. Olhos ardentes e silêncio. Sorriso medroso e silêncio. Movimentos nenhum e silêncio.

“Qual é seu nome, menino?””
“Leandro, senhora”. 
“Gosta de balé”?

Com medo de apanhar, novamente, disse nada. Lorena tinha a luz mais iluminada que já acendeu em mim. Pegou em meus sonhos e me conduziu para dentro da escola. Pouco tempo depois, fui viver em sua casa. Lorena havia perdido os dois filhos em um acidente da vida. Deu me a vida aquela mulher.

Os passos desencontrados encontraram motivos. Aprendi a emoção de cada compositor, a intenção de cada coreógrafo, a razão de dançar. A adoção demorou algum tempo. Todo o meu tempo era dela. Da escola à escola. Das rotinas de livros e cadernos aos saltos nascidos da técnica e da emoção. A dor se mudou da alma para os pés. Pés de bailarino.

Lorena abriu os espaços para que eu pudesse entrar. Era isso que eu dizia a ela, enquanto ela vivia por aqui. Ela dizia ‘não’ com a cabeça e me rendia os méritos por ser o bailarino que me tornei.

Morreu Lorena, depois de me ver dançando nos principais teatros da Europa. Era inverno e eu estava com ela. As suas mãos entrelaçadas às minhas dançaram a dança final de uma vida feliz. Eu disse tudo antes da partida. Das comportas do céu que se abriram para que ela dançasse sobre a terra, da generosidade que elevou meus passos, da música que retirou as barbáries de minha história. Eu sei que ela ouviu e, sorrindo, o seu corpo permitiu à bailarina que ocupasse o dançar da eternidade. 

Mando notícias de Berlim aos irmãos meus que sofrem o que eu sofri. Visito o meu país, quando posso, e sempre que vejo uma criança sem amor componho uma sinfonia inteira dentro de mim para abrir os teatros da vida e conceder o palco da alegria a quem tem o direito de ser.

Estava errado o instrutor. Pude perceber em mim a derrota das palavras malditas que, naquele dia, ele me ofereceu. Não é correto oferecer derrotas a ninguém. Nem desamor. 

Entristeço pela tristeza do outro e danço a liberdade para espantar tudo o que escraviza no mundo em que vivo. Vivo para dançar e vivo para agradecer os olhos que me retiraram da invisibilidade do mundo.

Fui filho de ninguém e filho do mundo inteiro na inteireza de uma mulher que se fez bondade. Em cada audição. Em cada dura prova para provar meu talento, eram seus olhos ou sua lembrança que me dizia: “Confia, Leandro, você pode, vai dar certo!”.

Mando notícias de Berlim e da vitória das palavras que pavimentam caminhos e que compreendem sonhos. 

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