Artigos

Domingo de Páscoa

A vida venceu a morte, a liberdade venceu a escravidão, o bem venceu o mal. A Páscoa é a mais importante festa do calendário cristão. Ela reacende as chamas da nossa esperança. Há um sinal que merece ser revisitado. O túmulo está vazio. A vida se apresenta apresentando a paz.

Os barulhos horrendos que tão mal fizeram não foram suficientemente fortes para estancar o som prazeroso do amanhecer único. Era um domingo. Era um dia de festa. Lembravam eles da saída do Egito, do povo que ousou deixar de lado a ração medida da escravidão e partir em busca do incerto. O certo é que acreditavam em uma terra prometida, onde jorrariam alegrias e liberdade. Essa é a Páscoa dos Judeus. A passagem de uma situação para a outra. Seguindo a inspiração de Moisés, não temeram o Mar Vermelho nem o que viria depois.

Jesus morreu um pouco antes dessa festa. Os homens preferiram soltar um criminoso confesso, Barrabás, a libertar o semeador do amor.

Dias difíceis. Judas, o que caminhava com ele, o traiu. Preferiu algum dinheiro e o traiu. Ou talvez tenha se frustrado ao ver que o poder que ele queria não era o mesmo que Jesus pregava. Pedro, o amigo, o discípulo, negou-o três vezes. Fingiu que não o conhecia. Teve medo, certamente. E os outros que o aclamavam tantas vezes se afastaram. Não havia o que fazer. As mulheres, as discriminadas, foram as que acompanharam os seus últimos passos. A cruz e o seu peso. As quedas. A dor. A humilhação. Mas tudo isso foi antes de hoje.

Hoje é Páscoa. A morte já não domina. Ele está vivo. E a sua vida é um convite a que vençamos a morte também. Que morram os orgulhos e as arrogâncias, que morram as avarezas e os pretensões, que morram os julgamentos sem amor. É domingo de Páscoa.

O túmulo já não guarda o seu corpo. Foi pequeno demais. O Amor é grande. Alguns apressados queriam que a vitória ocorresse no Gólgota, o local da crucificação. Imaginavam que com o poder que Jesus tinha de fazer milagres, de curar leprosos, de devolver a vida a Lázaro, de caminhar sobre as águas, de multiplicar os pães, entre tantos outros, Ele poderia soprar e destruir aqueles homens que o matavam.

Destruir? Não! Ele veio para construir. Foi fiel à sua missão até o fim. Bebeu do cálice amargo. Amargou a solidão. E morreu. Morreu para nos ensinar a morrer. E venceu a morte para nos ensinar a, também, vencê-la.

É Páscoa. A vida está de volta. Há esperança, sim. A ponte foi construída. Basta enfrentarmos a sua travessia. Mesmo que calvários cruzem o nosso caminho, serão apenas trechos de uma jornada maior. Não nos acovardemos diante deles. É preciso prosseguir. As feridas só doem por um tempo. A pele tem o poder da recuperação. Na alma, é assim também. Não cultivemos as traições e as chibatadas. Elas ficaram para o ontem e para os dias que o antecederam.

Hoje é Páscoa. Amanhã, também. E, também, depois de amanhã.

Afinal,a vida venceu a morte, a liberdade venceu a escravidão, o bem venceu o mal. Celebremos, pois!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/03/2016

Paixão de Cristo

Hoje é sexta-feira. Sexta-feira Santa. O pregador do amor foi pregado na cruz. Foi humilhado, insultado, desprezado, traído. Deixou de amar? Não. Sua essência é o amor. Amando, venceu a morte e mudou a história.

Havia razões para que o condenassem? Mesmo que não houvesse, quem quer condenar inventa razões. Ele representava algum perigo? Nenhum, mas quem quer o poder espalha perigos e invade tempos serenos com dizeres incorretos. Jesus morreu. Assim estava escrito antes. Profetas falaram de sua vinda. Usaram a expressão “na plenitude dos tempos”. E Jesus veio. Caminhou entre pecadores. Caminhou, também, entre aqueles que não se achavam pecadores – esses eram os mais perigosos.

Falou de um reino diferente do reino que eles conheciam. “Meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que eles me prendessem”. Esteve diante de Pilatos. Pilatos teve medo do povo e, por isso, lavou as mãos. O povo já estava contaminado. Na cruz, Jesus ainda teve tempo de perdoar os que o ofenderam. “Eles não sabem o que fazem”. Ensinou a seus seguidores o valor do perdão, do perdão que liberta: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará…”.

Todas as vezes que revivo a semana santa, emociono-me. Desde a minha infância, tento compreender os que “não sabem o que fazem” e, por isso, optam pelo ódio. Aquele menino que foi educado por um carpinteiro e por uma mãe amorosa, que foi crescendo e vivendo a sua missão, que chamou os pescadores para que se dedicassem a cuidar de homens, aquele menino incomodou. Por quê? Por que a violência? Por que a ausência de compaixão? A celebração da morte de Jesus, a procissão do enterro, as cenas da paixão. É tudo muito tocante. Explicações racionais, não há. O melhor a fazer é saber que também eu sou pecador e aprender com Ele que, mesmo na cruz, não desistiu de amar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/03/2016

Domingo de Ramos

O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa. Uma liturgia riquíssima nos ajuda a celebrar, a reviver, a reapreender com os fatos marcantes da vida de Jesus.

Jesus entra em Jerusalém e é saudado pelo povo. Foi uma comoção. Estavam ansiosos pela sua chegada. O profeta, pensavam alguns; o Filho de Deus, certificavam-se outros. “Hosana ao Filho de Davi” era o coro daquela gente que também acenava com ramos de oliveiras. Alguns jogavam as próprias vestes para que o Messias pudesse passar.

Jesus entra na cidade em um jumento. Há nesse gesto um sentido. Enquanto o cavalo simbolizava, para eles, o poder da guerra, o jumento simbolizava o poder da paz.Jesus chega na cidade como o “príncipe da paz”.

Mas por que aqueles homens o receberam com tanta festa? Por que tamanha euforia? Talvez porque carecessem de um líder, de um inspirador. Ou talvez pela fama que corria toda a região. Do homem bom que fazia milagres, que curava os doentes, que ensinava por meio de parábolas. A curiosidade era muita. O desejo de vê-lo entusiasmava a multidão. Como seria esse homem? O que Ele traria de tão especial?

E, então, a festa. E, então, os gritos eufóricos de que um príncipe ou um rei seriam merecedores.

O que houve com essa multidão que, alguns dias depois, mudou o grito? Estavam eufóricos também. Também faziam barulhos. Mas o som que se ouvia era outro: Crucifica-o! Crucifica-o!

Ora, mas não era o mesmo povo que O queria? Que desejava ouvir as suas histórias? Que aguardava para ser curado pelos seus milagres? O que houve?

Em tão pouco tempo, o “príncipe da paz” havia se transformado em um perigo para os que não compreendiam a sua mensagem. Ele era bom demais. Gostava demais das pessoas, inclusive daquelas de que ninguém gostava muito. Ele não tinha preconceitos. Ele trazia uma nova lei, um novo mandamento. Simples de entender. Difícil de viver. O mandamento do amor. O seu reino era o reino do amor e não o das intrigas, do ódio, do despejar de pedras.

E Jesus foi condenado. Deram ao povo a opção de libertá-lo, mas eles queriam sangue, queriam vê-lo carregando a cruz, caindo, tropeçando, chorando. Mas por que tanta perversidade? O que fez Jesus de tão grave? Nem sabiam dizer, mas foram convencidos pelos homens da lei e pelos líderes religiosos. Mas os homens da lei são capazes de inverter a verdade, de perseguir um inocente, de destruir a vida de alguém? E os líderes religiosos? Por que incitariam o povo para o ódio, para a histeria coletiva, para o desejo nada humano de pregar um homem na cruz.

Não se compadeceram ao verem as lágrimas de Maria, sua mãe? Já não viam mais. Os olhos estavam cegados pela mentira espalhada com sutileza e precisão. Era preciso acabar com o líder, com aquele que invertia a lógica dos poderosos. O menino de Nazaré, feito homem, poderia desconstruir os seus ricos castelos; então, o melhor era eliminá-lo.

É o início de mais uma Semana Santa. Tempo propício para a oração e para o aprendizado. Orar por tempos de paz. E aprender a discernir as vozes. Vozes de ódio serão sempre um perigo. É a paz que nos santifica, que nos une, que nos faz iniciar essa e outras semanas da nossa vida com a disposição para lembrar o maior acontecimento da história: Jesus, o Filho de Deus, a ponte que o Pai nos deu para que pudéssemos conhecer a Eternidade do Amor. Sobre isso, falaremos na semana que vem, na Páscoa, na Ressurreição. Uma santa Semana Santa.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/03/2016

Thiago de Mello, os homens e a natureza

São Paulo celebrou, nesta semana, os 90 anos de vida do poeta Thiago de Mello. Vida de poesia. Vida de amor à palavra. Vida plena de significados. Diz o poeta: “Já fiz mais do que podia / Nem sei como foi que fiz. /Muita vez nem quis a vida/ A vida foi quem me quis.” Thiago, o filho da Amazônia. Thiago, o caminhante das florestas. Thiago, o amigo de Pablo Neruda. Sobre o que conversavam os dois poetas? Vidas que se cruzaram nos horrores de suas perseguições, justo eles que perseguiam a beleza estética dos dizeres que inspirariam gerações.

Thiago foi preso, exilado, arrancado de sua selva pela selva humana. Por que os homens têm esses rompantes? De tempos em tempos ou, talvez, em todos os tempos, perversos aparecem como obstáculos da paz. Os poetas nascem em placentas de paz. Não há como deles retirar o vínculo com o que transcende o efêmero. Olham para o alto e do alto lançam cordas de solidariedade aos que tiverem a coragem de subir. De deixar o irrelevante das disputas mesquinhas pelo poder, o irrelevante dos ódios contra o outro por comparações ou competições. O poeta é incorrigivelmente livre.

Thiago escreveu os “Estatutos do homem”, obra prima de relevância permanente. Decretou em parágrafo único: “O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino”. Dizeres que acentuam a disposição para tempos novos, para que recobremos o juízo, os sentidos reais de nosso existir. Somos da selva. Não da que guerreia. Mas da que bebe a água limpa dos rios ainda não poluídos, da que descansa na sombra das árvores ainda não derrubadas, da que canta o canto dos pássaros ainda não aprisionados. A selva que guarda os milagres da vida.

Thiago, um milagre que surge para poetizar os milagres que nos esquecemos de ver. Nas selvas e nas cidades. Mas que há, há.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/03/2016

Opção pela vida

O tema da pena de morte sempre volta às rodas de conversa, principalmente quando o alimento é alguma ação bárbara de algum criminoso.

É comum os defensores da pena de morte apelarem para o individual e para as emoções geradas nas dores individuais. Deixe-me esclarecer um pouco melhor o que quero dizer com indivíduos e emoções. Uma mãe que sabe que seu filho foi assassinado por causa de um celular terá razões de sobra para desejar a morte de quem a morte trouxe para o seu filho. Um pai que teve uma filha violentada teria razões para querer matar quem roubou a inocência da filha. Os defensores da pena de morte vão além. Dizem que são favoráveis à pena de morte apenas em alguns casos. Casos graves. Casos que trouxeram dor. Dor ocasionada por quem não tem solução.

Os contrários à pena de morte têm outros argumentos. Citam figuras históricas vítimas da pena de morte. Jesus Cristo e seus apóstolos, Joana D’ Arc, Tiradentes e até Sócrates. Citam erros no judiciário. E como erram os nossos operadores do Direito! Pessoas que, injustamente, são condenadas. Precisam elas do tempo para trazer a verdade. Se forem mortas, não terão esse tempo. Fatos assim ocorreram aos montes em países que, ao perceberem o erro, indenizaram as famílias. Imaginem uma mãe recebendo uma indenização pelo erro da justiça que levou à morte do filho!

Há outros argumentos contrários à pena de morte. Se por um lado é compreensível que um pai queira se vingar de quem matou o seu filho, exatamente para que isso não ocorra é que há o Estado. Se todas as pessoas resolvessem se vingar da injustiça que sofreram, o Estado perderia sua razão de existir e a sociedade se transformaria em um caos.

O papa Francisco, recentemente, pediu aos governos que busquem caminhos mais inteligentes para a punição e a recuperação das pessoas. Pediu o papa que, em nenhum lugar do planeta, exista a pena de morte. Falou o pontífice em misericórdia. Mesmo que alguém tenha cometido uma atrocidade, há caminhos, por quem faz uma opção pela vida, mais eficientes do que eliminar essa pessoa. Um erro não justifica outro. Justiceiros são antagônicos aos justos. A justiça precisa de serenidade, de conceitos corretos, de tempo para as arrumações que se fazem necessárias após o erro.

Inocentes são mortos por criminosos, isto é fato. Mas o Estado não pode agir da mesma forma. Punir esses criminosos ajuda a pacificar as relações sociais. Tem a pena o caráter da recuperação, mas tem, também, o do exemplo. A impunidade é um caminho ruim para que outros cidadãos se percam nas mesmas sombras. O Sol da justiça precisa brilhar mais forte. Sem ódio. Sem exageros. Apenas para afinar o que está desafinado. É preciso tomar muito cuidado com discursos simplistas na solução de problemas complexos. Eliminar vidas nunca será o melhor caminho.

O papa Francisco demonstra mais uma vez sabedoria e coragem. Sabedoria do pastor que opta pela vida de seu rebanho. E coragem por tocar em um tema que divide muito as pessoas. Há muito ódio sendo disseminado. Falar de perdão, de misericórdia, de amor parece desconhecimento do lamaçal que nos oprime. Mas qual o caminho, então? Lama não se limpa com lama.

Cuidemos dos nossos sentimentos. Eles têm o poder de nos elevar ou de nos apequenar. Cuidado com o barulho intermitente dos que gritam como gritaram aqueles homens do passado ao mais limpo de todos os homens: “Crucifica-O”. Espelhemo-nos nesse mesmo Homem que, assim, respondeu: “Pai, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/03/2016

Ainda sobre a mulher

O dia 8 de março foi o Dia Internacional da Mulher. Comemorações e lamentações marcaram a data. Há muito a se comemorar. As mulheres estão ocupando espaços, estão conduzindo a nau das próprias vidas, estão decididas a não abraçar a subserviência sob nenhum argumento. Liderando organizações ou dialogando com maturidade dentro de casa. Celebrando a palavra respeito como um alimento saudável que fortalece as relações desde que se renove todos os dias. Mas há lamentações. Os machismos, os radicalismos, os vícios de uma postura de poder infame continuam a frequentar o público e o privado. 

 No público, há mais disfarces. Embora piadas que parecem ter a finalidade única do divertir continuem trazendo à tona a superioridade que alguns homens imaginam ter. Há necessidade de correções salariais, de cuidado contínuo das relações de trabalho. Diferenças não podem significar injustiça. No privado, a dor parece maior. Os índices da violência contra a mulher são assustadores. A violência doméstica não dá trégua. Não há justificativas para que um homem agrida sua mulher ou sua filha ou sua enteada ou sua irmã ou sua mãe ou quem quer que seja. Covardias que parecem não dar espaços ao respeito de que falamos. Há homens que tentam uma explicação. Frases toscas. “Tudo o que fiz foi por amor”. Por amor? Espancamento por amor? Humilhação por amor? Revisitemos os dicionários. Nas bibliotecas e na vida. Amor é campo de plantio celestial. O que floresce enfeita e perfuma a vida. Amor é chuva que ameniza a aridez dos dias e que antecipa o paraíso. Amor é encontro nos desencontros que, por alguma razão, somos levados a viver. Não. Definitivamente ninguém humilha por amor ou agride por amor ou destrói por amor.

Cuidemos dos valores essenciais para o viver e o conviver. Com o entendimento de que as diferenças nos melhoram. Quem sabe um dia compreendamos a tal antecipação do paraíso. Amar, respeitar, plantar e colher. Quem sabe um dia…

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/03/2016

Delicadezas do amor

Um amigo trouxe-me esta sua história depois de ler o meu artigo, no domingo passado, no Diário de São Paulo, que falava também sobre o amor. Começou a conversa em tom de confissão.

– Eu preciso desabafar. Fui delicado demais e me arranhei.

Eu quis entender o que houve.

– Eu a conheci e a respeitei.

Dizia e dava alguma pausa como se quisesse escarafunchar, em alguma razão, a razão que não encontrava. Ou isso ou a tentativa de amenizar os incômodos para me incomodar menos.

 Eu não estava incomodado. Estava atento. Não reclamo do privilégio de ouvir histórias. Ao contrário, gosto de ouvi-las e me interesso por elas. E, também, por quem as diz. As ricas prosas que nos tomam em esquinas que frequentamos. As histórias que se repetem e são sempre únicas. O tempo atemporal e universal do amor. E das dores que o acompanham.

– Eu a conheci há muito tempo. Nunca mais nos vimos e faz algumas semanas que nos reencontramos.

Mais uma pausa.

– Ela estava muito diferente. Virou uma mulher. Como eu não reparei antes? Talvez seja isso. Talvez ela tivesse algum interesse por mim, naquela época, e eu não percebi. Sempre fui desatento. Ou, então, ela pode ter um namorado. Estavam brigados. Empolgou-se comigo e depois a briga passou. Quem sabe?!

Histórias de amor têm licença poética para serem entrecortadas. Eu ficava caçando sentido nas palavras que ele jogava. Não queria insistir em um enredo certeiro, que respeitasse os acontecimentos no tempo para facilitar a compreensão. Deixei que as palavras pululassem como pululava o seu sentir.

– Eu a convidei para jantar algumas vezes. Jantar romântico. Levei flores uma vez. Na outra, descobri o restaurante de que ela gostava. Levei-a de carro até sua cidade. E voltei na mesma noite. Estava cansado, mas o meu interesse em surpreendê-la era mais forte do que o desejo do descanso. Foram dias exitosos, julgo eu. E ela demonstrava interesse. E respondia às mensagens alimentando-me de possibilidades.

Nova pausa. Como essa fora um pouco mais demorada, entrei na história perguntando detalhes desses encontros. Ele não demorou muito para descrever os assuntos, os sorrisos, as lembranças de outros tempos em que eram próximos e distantes. As mudanças no corpo. As profissões que abraçaram. Jovens ainda, mas repletos de histórias. Toda a narrativa parecia promissora. E eu ainda não havia entendido o ocorrido. E perguntei sobre a tal da delicadeza em excesso e o tal do arranhão.

– Depois de três semanas em que sorrisos não nos abandonavam, em que pensamentos já traziam prazer, em que nos reencontramos, ela simplesmente me disse que era melhor dar um tempo.

Eu fazia um outro comentário para ajudar na narrativa. Apenas isso.

– Um tempo? Depois de tanto tempo? Depois de tão pouco tempo?

Foi o que ele disse. O “depois de tanto tempo” referia-se ao longo tempo em que não se viram. “O pouco tempo” era sobre o tempo do reencontro.

Mas o que isso tem a ver com a delicadeza?

– Quando não sou carinhoso, não sou gentil, parece que as mulheres me valorizam  mais. São elas que se esforçam por mim. E eu confesso que, geralmente, fico incomodado. E elas reclamam da minha frieza ou da forma com que descarto uma relação que, para mim, nem havia se iniciado. Agora, quando faço tudo certo, ela faz isso comigo.

A conversa prosseguiu. Vale a pena fazer tudo certo? Vale a pena amar mesmo quando o amor não é correspondido? Tentei fazê-lo enxergar a beleza do movimento do amor. Que é delicado. Que é respeitoso. Que é cuidadoso. Se o outro não correspondeu, é problema do outro. Entender as razões para não enlaçar as vidas nem sempre é possível.

Haverá outras possibilidades. Certamente, haverá. E o aprendizado não deve ser o de não ser delicado com o amor. Será ruim se as desconfianças construírem armaduras. Amores pisam nus nos solos da entrega. Leves. Dispostos a construções e desconstruções. A pleonasmos e até paradoxos. Quem entende?

Será que ela tinha outro? Será que ela teve medo de um passado em que faltou correspondência? Quem sabe? Perder tempo em excesso tentando entender é desperdiçar o tempo de entender que o amor não tem muito explicação. A explicação que me coube é que as delicadezas do amor são sempre bem-vindas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/03/2016

Barulho de chuva

O silêncio afina as nossas emoções e nos traz imagens que nos servem de alimento. Era o silêncio e havia chuva. Eu estava na casa de uma amiga. Fui ao banheiro e quando voltei ela estava de olhos fechados. Achei que ela havia adormecido e sentei-me com cuidado para não fazer barulho. Decidi esperar um pouco para ver se ela acordaria ou, então, eu deixaria um bilhete. 

“Está ouvindo o barulho da chuva”?

“Pensei que você estivesse dormindo”.

“Não. Eu gosto de fechar os olhos para ouvir melhor o barulho da chuva”.

 Essa minha amiga é escritora. Uma senhora escritora. Começamos a discorrer sobre barulhos e sobre o silêncio. O silêncio é depositário de melodias. De singelas melodias. De melodias que nos embalam e que nos preparam para os barulhos. Não podemos evitá-los. Podemos, entretanto, impedir que eles nos desgastem mais do que o necessário. Desperdiçamos a musicalidade do silêncio. Os seus segredos sussurrados. As suas recordações. Disse-me ela de Fernando Pessoa: “Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva não faz ruído senão com sossego. Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva do que não sabe, o sentimento é cego. Chove. Meu ser (quem sou) renego…Tão calma é a chuva que se solta no ar (Nem parece de nuvens) que parece que não é chuva, mas um sussurrar que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece. Chove. Nada apetece…”

O sussurro das chuvas sempre esteve presente. Seu barulho ritmado. Reaprender a ouvir o seu canto é recordar de momentos que se foram, mas que nos fizeram bem. Fiquei me lembrando da primeira casa em que vivi. E das chuvas. E dos medos quando o trovão desafiava o silêncio. Das lendas que me contavam. Ela me disse de outras. Vive há muito mais tempo do que eu. Tem mais histórias. Tarde agradável aquela. Chovia lá fora e nos aquecíamos com prosa e com silêncio no cômodo que escolhemos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/03/2016

Cecília e a arte de ser bondosa

Cecília quer ser cantora. É o que ela mesma me disse. Cantora e defensora das crianças. Ela conhece muitas que sofrem muito. Cecília tem 4 anos de idade.

Era um evento em uma escola para falar do combate ao mosquito Aedes aegypti.  Houve apresentação de teatro para explicar os riscos de não combater possíveis criadouros. Houve distribuição de cartilhas. Muitas explicações foram dadas sobre o que cada um pode fazer para proteger a vida, a saúde das pessoas. Mas foi Cecília quem mais me chamou a atenção.

Disse ela: “Eu nasci bonita, feliz e com saúde. Meu irmão também tem esse direito”. Com a voz decidida prosseguiu: “Água parada não pode. Não pode”, insistiu.

As atividades prosseguiam e eu fiquei reparando em Cecília. Ela conversou comigo, falou dos problemas do mundo. Explicou que as crianças não podem apanhar dos pais. E que os pais que bebem são os que mais batem. E que bebida não é coisa boa. Falou dos alunos que não obedecem aos professores. E explicou que faltou a eles a educação de casa. Ela ia dizendo e dizendo e a professora ao lado olhava com orgulho para a aluna. Eu queria saber mais. Perguntei sobre os seus pais. Ela disse que a mãe estava chegando e que o pai não vivia com elas. “Fez a sua escolha”, ela disse. E não faz tanto tempo assim. Mas ela compreende. Quem precisa da sua força é a mãe, que é linda, fez questão de frisar.

 E a mãe chegou e Cecília foi correndo ao seu encontro. E a trouxe para me conhecer. A mãe espera um filho. Está quase chegando. Cecília beija a barriga grande e me explica que também nasceu dali. E que por isso ela está preocupada com as famílias que não tomam conta do próprio quintal. O irmão tem que nascer com saúde. Perguntei sobre o nome e ela mesma respondeu: “Francisco”. E me explicou que gosta muito do santo que gostava dos animais.

Enquanto falava, ficava abraçada à perna da mãe. A mãe a acariciava nos cabelos. Olhei aquela fotografia. Fiquei imaginando a partida do pai. Elas pouco falaram sobre isso a não ser a explicação de Cecília, “ele fez a sua escolha”.

A mãe me disse que o filho deve nascer em alguns dias. E que está muito feliz apesar dos problemas. “Quem não tem problemas?”, completou Cecília.

Eu elogiei a menina e a mãe me disse que ela educava a filha com uma única preocupação, “que ela seja bondosa”. E continuou dizendo que o resto era mais fácil. As conquistas na vida dependem de esforço, de compreensão, de pessoas que aparecem e nos ajudam porque são boas. A mãe elogiou a escola e a professora. A professora falou do prazer de ter alunos e alunas como a Cecília.

Essa narrativa pode até parecer ingênua. Todo mundo feliz com o que faz. Não. A vida é dura e nos deparamos com pessoas ruins o tempo todo. Há muita mentira, agressividade, violência. Não é à toa que Cecília disse que crianças não podem apanhar dos pais. Ela deve saber de histórias assim e conviver com crianças que, desde cedo, tropeçam nos tropeços dos adultos. Ela já sabe dos riscos das drogas. Tudo isso aos 4 anos. Porque tem uma mãe ciosa de suas responsabilidades. Que também experimentou a partida de um amor. Mas nem por isso fechou as janelas da alegria. Cecília, Francisco e Maria. Maria é a mãe. “E que mãe!”, explicou a professora.

Cecília,  na sua tenra idade, deu a bonita explicação para cuidar dos quintais. As crianças têm direito à beleza, à saúde, à felicidade. Nos nossos quintais não deve haver agua parada por causa do mosquito, mas nos nossos quintais também não deve haver lixos que colocam em risco o nosso futuro. Lixos produzidos pelo nosso comportamento e pelo nosso pouco apreço pela vida. Limpemos os nossos quintais, e os jardins da entrada serão mais acolhedores para pessoas boas que ainda existem por aí.  

Quem sabe um dia encontremos Cecília cantando nos palcos da vida. Cantando e defendendo o direito das crianças.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/02/2016

Gentileza gera gentileza

Já houve um poeta chamado Gentileza. Um poeta das ruas do Rio de Janeiro cuja história virou música de Gonzaguinha, Marisa Monte e de tantos outros artistas. Suas frases ficaram famosas. Gentileza era o mote do texto de sua vida.  Quando menino, ele trabalhava puxando uma carroça. Aprendeu a amansar os burros para o transporte de carga. Já nas ruas, como profeta Gentileza, dizia ele ser um “amansador dos burros homens da cidade que não tinham esclarecimento”. 

Por que os “burros homens da cidade” não percebem que a vida com gentileza fica muito melhor? As pessoas se acotovelam por espaços, desrespeitando o outro. Enxergam pouco. Esforçam-se pouco quando o assunto é ceder a vez. Cenas cotidianas mostram estresse no trânsito, nos transportes públicos, nas calçadas, em pontos comerciais e até nas igrejas. Por que é tão difícil perceber que “gentileza gera gentileza”? Alguns podem responder que a vida é dura. Que Drummond tinha razão. Que há sempre uma pedra no meio do caminho. E que tal imaginarmos um caminho no meio da pedra? Um caminho de gentileza?

 Ainda é possível encontrar pessoas gentis. Elas são inspiradoras. Quando as encontramos, ficamos felizes. Porque nos tratam bem. Porque nos acolhem. Porque nos enxergam. Não seria inteligente fazer a mesma coisa, seguir o exemplo do profeta que andarilhava oferecendo palavras de bondade, de amor? Naturalmente, essas pessoas gentis se sentem bem por assim agirem. “Gentileza gera gentileza”. Em uma fila de banco ou em um banco na praça. Na entrada de um ônibus ou na saída de um show. No caixa da padaria ou na caixa de papelão em uma calçada que abriga alguém como o poeta Gentileza, andador das ruas. Aos pais, uma sugestão: “gentileza gera gentileza”. Aos professores, a mesma sugestão “gentileza gera gentileza” e também aos cidadãos todos, para que não se esqueçam de que “gentileza gera gentileza”. Como dizia o poeta gentil “Amor, palavra que liberta”. Não economizemos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/02/2016