Thiago de Mello, os homens e a natureza

São Paulo celebrou, nesta semana, os 90 anos de vida do poeta Thiago de Mello. Vida de poesia. Vida de amor à palavra. Vida plena de significados. Diz o poeta: “Já fiz mais do que podia / Nem sei como foi que fiz. /Muita vez nem quis a vida/ A vida foi quem me quis.” Thiago, o filho da Amazônia. Thiago, o caminhante das florestas. Thiago, o amigo de Pablo Neruda. Sobre o que conversavam os dois poetas? Vidas que se cruzaram nos horrores de suas perseguições, justo eles que perseguiam a beleza estética dos dizeres que inspirariam gerações.

Thiago foi preso, exilado, arrancado de sua selva pela selva humana. Por que os homens têm esses rompantes? De tempos em tempos ou, talvez, em todos os tempos, perversos aparecem como obstáculos da paz. Os poetas nascem em placentas de paz. Não há como deles retirar o vínculo com o que transcende o efêmero. Olham para o alto e do alto lançam cordas de solidariedade aos que tiverem a coragem de subir. De deixar o irrelevante das disputas mesquinhas pelo poder, o irrelevante dos ódios contra o outro por comparações ou competições. O poeta é incorrigivelmente livre.

Thiago escreveu os “Estatutos do homem”, obra prima de relevância permanente. Decretou em parágrafo único: “O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino”. Dizeres que acentuam a disposição para tempos novos, para que recobremos o juízo, os sentidos reais de nosso existir. Somos da selva. Não da que guerreia. Mas da que bebe a água limpa dos rios ainda não poluídos, da que descansa na sombra das árvores ainda não derrubadas, da que canta o canto dos pássaros ainda não aprisionados. A selva que guarda os milagres da vida.

Thiago, um milagre que surge para poetizar os milagres que nos esquecemos de ver. Nas selvas e nas cidades. Mas que há, há.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/03/2016

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