O silêncio afina as nossas emoções e nos traz imagens que nos servem de alimento. Era o silêncio e havia chuva. Eu estava na casa de uma amiga. Fui ao banheiro e quando voltei ela estava de olhos fechados. Achei que ela havia adormecido e sentei-me com cuidado para não fazer barulho. Decidi esperar um pouco para ver se ela acordaria ou, então, eu deixaria um bilhete.
“Está ouvindo o barulho da chuva”?
“Pensei que você estivesse dormindo”.
“Não. Eu gosto de fechar os olhos para ouvir melhor o barulho da chuva”.
Essa minha amiga é escritora. Uma senhora escritora. Começamos a discorrer sobre barulhos e sobre o silêncio. O silêncio é depositário de melodias. De singelas melodias. De melodias que nos embalam e que nos preparam para os barulhos. Não podemos evitá-los. Podemos, entretanto, impedir que eles nos desgastem mais do que o necessário. Desperdiçamos a musicalidade do silêncio. Os seus segredos sussurrados. As suas recordações. Disse-me ela de Fernando Pessoa: “Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva não faz ruído senão com sossego. Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva do que não sabe, o sentimento é cego. Chove. Meu ser (quem sou) renego…Tão calma é a chuva que se solta no ar (Nem parece de nuvens) que parece que não é chuva, mas um sussurrar que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece. Chove. Nada apetece…”
O sussurro das chuvas sempre esteve presente. Seu barulho ritmado. Reaprender a ouvir o seu canto é recordar de momentos que se foram, mas que nos fizeram bem. Fiquei me lembrando da primeira casa em que vivi. E das chuvas. E dos medos quando o trovão desafiava o silêncio. Das lendas que me contavam. Ela me disse de outras. Vive há muito mais tempo do que eu. Tem mais histórias. Tarde agradável aquela. Chovia lá fora e nos aquecíamos com prosa e com silêncio no cômodo que escolhemos.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/03/2016
