“Eu já disse que te amo?”.  Foi essa a frase que deu início ao esfriamento do amor. Quem disse foi um homem apaixonado por uma mulher. Ela respondeu. “Eu também te amo”.

Poderia ter terminado assim. Poderiam ter aproveitado o enlevo da poética das frases e iniciado outros escritos. Mas ele, inseguro, prosseguiu: “Eu sei que você não me ama como eu te amo. Eu sei que sempre, em uma relação, um ama mais do que o outro”. Ela ficou ouvindo e não disse nada. Ele continuou: “Por que você não disse nada? Porque concorda comigo, não é?” Ela disse: “É você quem está dizendo, meu amor!” Ele não se satisfez: “Esse ‘meu amor’ não foi natural, foi forçado. Eu te conheço bem”.

Ela tentou dizer alguma coisa, mas a ânsia das teorias dele não lhe deu espaço, e ele pontificou: “Eu sei que, na vida, a gente só tem um grande amor. E eu sei quem foi o seu grande amor. E sei que não fui eu. Já, no meu caso, você é meu grande amor. É por isso que eu não te cobro nada. Nada. Eu entendo isso”. Ela respondeu: “Nossa, você tem muitas certezas, e isso me sufoca um pouco”.

 A conversa continuou.  Terá a relação sobrevivido? Por que sabotamos instantes preciosos de nossa vida? Por que sabotamos a felicidade? Por que buscamos problemas quando tudo parece bem?

Poderíamos pensar que, se essa mulher fosse mais enfática na resposta, talvez ele se aquietasse. Se ela dissesse que era ele o seu grande amor, o problema teria sido resolvido. Mas por que ela é obrigada a dizer o que ele decidiu ser o texto adequado para se provar que há amor? Por que ele pode ter teorias robustas sobre “amor único”? Por que ele a conhece mais do que ela mesma?

Há histórias que findam por sufocamento. Um dos dois não consegue sentir saudade, porque o outro não deixa. Os desejos vão se realizando sem esforço algum e, sem esforço algum, perdem a razão de existir. E o cotidiano que poderia ser desafiador torna-se indesejado.

Uma história de amor é sempre um desafio porque não controlamos os sentimentos dos outros nem os nossos. Não temos esse poder. E nos enganamos com frequência. Misturamos amor com obsessão. Lemos sinais que não existem. E, por outro lado, desistimos do que não precisaríamos desistir com medo do fracasso. Com medo de que o amor já tenho ido embora. E o amor estava ali, do seu jeito, por vezes um pouco tímido, mas ali. 

Buscar pessoas perfeitas nos leva ao solitário mundo das esperas. Não que não se possa cultivar o amor dos amigos, das ideias, dos sonhos comuns. Há muitos que se realizam assim. Mas aos que buscam uma alma para serenar a sua, é preciso compreender que o amor idealizado, como diz o nome, mora no mundo das ideias. A pele que vemos é frequentada por cicatrizes e queimaduras, tem saliências e tons que nem sempre são os mesmos. Ou nos apaixonamos por ela ou é melhor folhear rostos em livros, cujas expressão e espessura não mudarão.

A resposta ao “eu te amo” foi o que aquela mulher pode dar aquele homem. Do seu jeito. Com o seu tom. Banhado com o olhar que ela possuía no momento. Era isso que ele poderia desfrutar em vez de se lambuzar em dúvidas desnecessárias. “Será que ela me amará amanhã?” Era o que o angustiava. Quem é o dono do amanhã? Quem sabe quem deixará de amar primeiro? 

Regras não há. Quem entra nas águas do amor sabe do risco que corre, mas sabe das sensações únicas que esses banhos proporcionam. Nada, sem nada garantir. O instante vale, aos nadadores, prazeres especiais.  E se um dos dois sair primeiro das águas, o tempo haverá de secar o necessário. E se houver um pouco de coragem, quem sabe surja outro amor para mais um banho! Sem comparações. Bocas abertas para muitos dizeres atrapalham as braçadas dos nadadores. E, nessas águas, afogamentos não são bem-vindos.

“Eu te amo”  é nobre demais para ser desperdiçado.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/02/2016

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