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O Amor e as Imperfeições

Era um dia qualquer. Hora do jantar. A filha, quase adolescente, tinha os olhos marejados. Chorara solitária lamentando algum erro.

A mãe e o pai, atentos, perceberam logo. A mãe disse à filha que depois conversariam. O pai quis saber o que ocorrera. Entre eles havia diálogo. E ternura.

O irmão mais velho estava apressado. Mas guardou sua pressa e permitiu que a irmã dissesse algo. Ela não quis dizer. Pediu desculpas, mas preferia o silêncio e, se possível, ir para o quarto. O pai lhe disse que poderia ir, mas, se ela não dissesse o que estava acontecendo, ele ficaria muito triste. Ela era sua filha, o seu amor. E ele estava ali para emprestar a sua ternura, qualquer que fosse o ocorrido.

A filha chorou e, entre soluços, soltou: “Eu errei”. E não conseguiu prosseguir. O pai a abraçou e emendou: “Eu também”. A filha olhou para o pai e quis saber quando. O pai prosseguiu: “Hoje”. Deu uma pausa e seguiu: “Ah, ontem, também”. E mais um silêncio e uma troca de olhares: “E, também, antes de ontem”. A filha sorriu. “Pai, estou falando sério. Tirei nota baixa. Isso nunca tinha acontecido. Fiquei nervosa. Não sei o que aconteceu. Era prova oral. Eu…”. O pai interrompeu a filha e levantou o copo com suco. “Vamos brindar”. “Brindar?!”, estranhou a esposa. “Brindar a imperfeição da nossa filha. Ela é como nós. Ela erra. Que bom. Ela é humana”. A filha abraçou o pai, sorrindo.

Cena do cotidiano de uma família. Poderia ter tido outro desfecho. Há pais que projetam nos filhos o sucesso que não obtiveram na vida. Há pais que sonham com filhos perfeitos. Que não erram jamais. Que não demonstram nenhuma fragilidade. Que sejam heróis. Os heróis de verdade não são os que não cometem erros. Os heróis de verdade são os que se preocupam com os erros dos outros e com os próprios e que se põem a caminhar fraternalmente. Nas quedas, é bom encontrar uma mão que nos ajude a levantar e um abraço que nos ajude a perceber que não estamos sós. Nas quedas, é bom saber que a vida prossegue. E que os instantes se sucedem nos explicando que o tempo do amor tem o poder de cicatrizar a dor.

O problema da menina pode parecer simples. Uma nota baixa. Mas um vulcão de medo a tomou desprevenida. Medo de não dar certo na vida. Medo do erro. Medo de não ser amada por isso. O pai mostrou o cenário correto. Todos nós erramos. E os erros nos humanizam! Os erros nos aproximam. Os erros nos preparam para o acerto maior. Ter um norte na vida. Um tema. Uma disposição para cuidar e ser cuidado. Amar e ser amado. Generosamente. Brindemos a família, então. A que erra. A que ama.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia) | Data: 11/09/2016.

E por falar em amor

“Eu já disse que te amo?”.  Foi essa a frase que deu início ao esfriamento do amor. Quem disse foi um homem apaixonado por uma mulher. Ela respondeu. “Eu também te amo”.

Poderia ter terminado assim. Poderiam ter aproveitado o enlevo da poética das frases e iniciado outros escritos. Mas ele, inseguro, prosseguiu: “Eu sei que você não me ama como eu te amo. Eu sei que sempre, em uma relação, um ama mais do que o outro”. Ela ficou ouvindo e não disse nada. Ele continuou: “Por que você não disse nada? Porque concorda comigo, não é?” Ela disse: “É você quem está dizendo, meu amor!” Ele não se satisfez: “Esse ‘meu amor’ não foi natural, foi forçado. Eu te conheço bem”.

Ela tentou dizer alguma coisa, mas a ânsia das teorias dele não lhe deu espaço, e ele pontificou: “Eu sei que, na vida, a gente só tem um grande amor. E eu sei quem foi o seu grande amor. E sei que não fui eu. Já, no meu caso, você é meu grande amor. É por isso que eu não te cobro nada. Nada. Eu entendo isso”. Ela respondeu: “Nossa, você tem muitas certezas, e isso me sufoca um pouco”.

 A conversa continuou.  Terá a relação sobrevivido? Por que sabotamos instantes preciosos de nossa vida? Por que sabotamos a felicidade? Por que buscamos problemas quando tudo parece bem?

Poderíamos pensar que, se essa mulher fosse mais enfática na resposta, talvez ele se aquietasse. Se ela dissesse que era ele o seu grande amor, o problema teria sido resolvido. Mas por que ela é obrigada a dizer o que ele decidiu ser o texto adequado para se provar que há amor? Por que ele pode ter teorias robustas sobre “amor único”? Por que ele a conhece mais do que ela mesma?

Há histórias que findam por sufocamento. Um dos dois não consegue sentir saudade, porque o outro não deixa. Os desejos vão se realizando sem esforço algum e, sem esforço algum, perdem a razão de existir. E o cotidiano que poderia ser desafiador torna-se indesejado.

Uma história de amor é sempre um desafio porque não controlamos os sentimentos dos outros nem os nossos. Não temos esse poder. E nos enganamos com frequência. Misturamos amor com obsessão. Lemos sinais que não existem. E, por outro lado, desistimos do que não precisaríamos desistir com medo do fracasso. Com medo de que o amor já tenho ido embora. E o amor estava ali, do seu jeito, por vezes um pouco tímido, mas ali. 

Buscar pessoas perfeitas nos leva ao solitário mundo das esperas. Não que não se possa cultivar o amor dos amigos, das ideias, dos sonhos comuns. Há muitos que se realizam assim. Mas aos que buscam uma alma para serenar a sua, é preciso compreender que o amor idealizado, como diz o nome, mora no mundo das ideias. A pele que vemos é frequentada por cicatrizes e queimaduras, tem saliências e tons que nem sempre são os mesmos. Ou nos apaixonamos por ela ou é melhor folhear rostos em livros, cujas expressão e espessura não mudarão.

A resposta ao “eu te amo” foi o que aquela mulher pode dar aquele homem. Do seu jeito. Com o seu tom. Banhado com o olhar que ela possuía no momento. Era isso que ele poderia desfrutar em vez de se lambuzar em dúvidas desnecessárias. “Será que ela me amará amanhã?” Era o que o angustiava. Quem é o dono do amanhã? Quem sabe quem deixará de amar primeiro? 

Regras não há. Quem entra nas águas do amor sabe do risco que corre, mas sabe das sensações únicas que esses banhos proporcionam. Nada, sem nada garantir. O instante vale, aos nadadores, prazeres especiais.  E se um dos dois sair primeiro das águas, o tempo haverá de secar o necessário. E se houver um pouco de coragem, quem sabe surja outro amor para mais um banho! Sem comparações. Bocas abertas para muitos dizeres atrapalham as braçadas dos nadadores. E, nessas águas, afogamentos não são bem-vindos.

“Eu te amo”  é nobre demais para ser desperdiçado.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/02/2016

Feliz Natal

Feliz natal para todos os que sabem o significado desse dia.

Feliz natal para os que precisam aprender e para os que nunca terão tempo de pensar sobre isso.

Feliz natal para os que já tiveram uma experiência de amor com o Menino nascido para ensinar a amar.

Feliz natal para os que nunca abriram os olhos para essas imagens.

 Feliz natal para os que sabem o valor da solidariedade e se desdobraram para ajudar alguém a ser mais feliz como um presente ao aniversariante.

Feliz natal para os que desconhecem o prazer do cuidar, do partilhar o que se é e o que se tem com quem precisa.

Feliz natal para os que caminham de mãos dadas, para os que aceitam ir mais devagar quando o outro está machucado ou precisando de descanso.

Feliz natal para os que preferem ir sozinhos, competindo o tempo todo para mostrar que são velozes e vitoriosos e perfeitos.

Feliz natal para os que veem beleza nas imperfeições e que se descobrem crescendo a cada dia.

Feliz natal para os que não entendem dessas coisas e cobram de si e dos outros que só tenham certezas.

Feliz natal para aqueles que não escondem as lágrimas e os afetos e as demonstrações de amor.

Feliz natal para os que temem borrar a maquiagem ou demonstrar alguma fraqueza.

Feliz natal para os que se assumem fracos e carentes e necessitados dos outros.

Feliz natal para os que resistem a deitar em um colo de mãe e agradecer.

Feliz natal para todos os que entoam canções de gratidão e prosseguem, independentemente das dores e das despedidas.

Feliz natal para os que emudecem e tentam emudecer os outros com o seu grito de arrogância.

Feliz natal para os que creem em Deus e no ser humano e que fazem da vida um projeto de amor.

Feliz natal para aqueles que precisam isso descobrir, se formos capazes de os convencer.

Feliz natal.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/12/2015

Amores partidos

Uma mulher escreveu para o meu programa de TV, na Rede Vida, falando sobre sua decisão de partir. Contou, com dignidade, sua história de amor e de recomeço. “Fiz tudo pelo meu namorado. Tudo. Vivi por ele. Cuidei dele. Imaginei um mundo lindo ao lado dele. Até a velhice. Mas acabou. A pedra que ele me atirou ainda dói. Mas sou decidida. Acabou, acabou!”. Esse é um trecho de uma longa narrativa. 

 Lembrei-me da antiga canção, composta por Herivelto Martins e David Nasser, que diz “Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem”. Pedras machucam. As reais e as imaginárias. Pedras causam perdas. Perdas nos tiram o que gostaríamos de ter. Pessoas. Momentos. Vida. Gosto de encontrar gente decidida. Mesmo na dor.

 

Histórias de amor chegam ao fim por várias circunstâncias. Morre-se um pouco quando morre a amada ou o amado. Despede-se do corpo sem vida que tanta vida trouxe. Vida que ganhou sabor, vida que reencontrou o significado por um amor. O luto é incomodativo. Entretanto, é definitivo. Cessam-se as possibilidades. E segue-se a vida. O tempo ajuda. A dor lancinante do amado que enterrou seu amor transforma-se em saudade, lembrança boa de tempos, de canções, de enternecimentos. Findam-se as histórias por outras razões, como a da mulher que me escreveu. O amado não foi capaz de respeitá-la, não soube valorizar os dias gastos, voluntariamente, em nome do amor. E atirou a pedra. E quebrou o telhado. E feriu, sem sobre isso antes refletir, quem não desperdiçou os momentos em atenção. Desatenção, teve ele. O tempo lhe ensinou alguma coisa. Tentou voltar. Manso. No lugar das pedras, as flores. Por que não as trouxe antes? Por que não romantizou os momentos enquanto estavam juntos? Por que brincou de conquistador compulsivo, necessitado de informar aos outros os feitos heroicos de macho? 

 E ela, no início, não acreditou. Esperou confirmação. Sofreu as notícias ditas por estranhos. Sim. Porque o íntimo era ele. O que recebia o seu devotado amor. Pensou ela em segui-lo. Não o fez. Teve dignidade. Por outros caminhos, reconheceu suas mentiras. É uma mulher, diz o texto, cultora da verdade. Vê a mentira como o lodo imundo da humanidade. Aprendeu a ser verdade. Decidiu seguir a aprendizagem. E isso lhe deu seguranças para decidir partir. Mesmo que partida. Mesmo que o amor não tenha dito a ele quanto tempo ainda há de permanecer remoendo seus sentidos. Não deixamos de pensar em alguém quando decidimos. Paciência. Não é a primeira nem será a última pessoa a sofrer de amor. Um dia, ela há de abrir as janelas, respirar fundo, e perceber que os incômodos da paixão indevida se foram. E aí a vida recomeça.

E é assim com todo mundo. Melhor isso do que não amar. Melhor a dor de uma paixão não correspondida ou a ferida de um amor que se foi do que a triste constatação de que as portas para o amor foram trancadas desde sempre. E a chave não está disponível para abri-la.

Vinicius de Moraes, o poeta que amou por decisão de vida, crê em uma eternidade no tempo do amor:

 

De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

 

(Soneto da Fidelidade)

 

A mulher que me escreveu inspirou-se nesse texto. Amanhã, ela estará melhor, certamente. E um outro amor haverá de fazer sua morada em uma casa já limpa, preparada para receber.

 

Atiraste uma pedra

No peito de quem

Só te fez tanto bem

E quebraste um telhado

Perdeste um abrigo

Feriste um amigo

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/08/2015

A medida do amor

A medida do amor é amar sem medida. O que queria Santo Agostinho com essa assertiva? Amar sem medida? O que é uma medida? O amor pode ser medido? Pode-se medir o amor de uma mãe que, generosa, faz da vida dos filhos a própria vida? Que, em noites indormidas, acalenta a dor dos seus rebentos? Que se multiplica para atender a avidez por respostas dos filhos inquietos? Pode-se medir o amor de um religioso que faz de sua vida uma entrega a Deus e ao seu próximo? Que repete o ensinamento de Madre Teresa de Calcutá, a peregrina do amor, que dizia que quem julga  as pessoas não tem tempo para amá-las? Pode-se medir o amor de um cidadão comprometido com a geração que virá depois e que, por isso, cuida da Casa Comum que é o planeta em que vivemos? Pode-se medir o amor de uma mulher ou de um homem apaixonado que resolve dividir o que tem, o que sabe, o que sonha com outro alguém que chegou por alguma razão que nem a razão imagina e que permaneceu? Renúncias e encontros. Amargores e sabores. Caminhadas apedregulhadas de surpresas. Mas juntos. Juntos por uma decisão de não medir o amor. O poeta Drummond nos ajuda a compreender as “Sem-razões do amor”: Eu te amo porque te amo, /Não precisas ser amante,/ e nem sempre sabes sê-lo./ Eu te amo porque te amo./ Amor é estado de graça e com amor não se paga.

Amigos também amam. Professores também. Médicos. Juízes. Atores e atrizes, senhores das emoções. Amam os que se põem a conhecer melhor os outros. Porque quem não conhece não é capaz de amar. E quem conhece, verdadeiramente, ama. Ama inclusive as imperfeições. Ama como resistência ao que é descartável ou medido. Não se mede o amor. Nem o descarta. Senão não é amor. Não é amar.

Sábio Santo Agostinho que, ainda sobre o amor, dizia: “ama e faz o quiseres”. Primeiramente, ame. O que virá depois não há como não ser bom, pois “Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/08/2015

Coragem para amar

Diz Santo Agostinho: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”. O filósofo escreveu sobre a conduta humana, sobre os erros e os acertos que cometemos em nossa trajetória. Confessou ele os dissabores que viveu. Falou de escolhas equivocadas. Dos males que a ausência de amor é capaz de causar. E nos iluminou com a esperança.

O olhar atento ao mundo talvez seja motivo para desacreditarmos do ser humano. As misérias humanas não nos surpreendem mais. Acostumamo-nos com a maldade, com a mentira, com a injustiça, o que é triste e demonstra que estamos negando nossa própria essência. Perdemos nossa capacidade de indignação. Acovardamo-nos diante da vida. Cada vez menos falamos de valores como generosidade,companheirismo, respeito e compaixão. Interesses pouco humanos estão transformando as nossas relações em palcos de guerra. Guerreamos contra o diferente ou contra o semelhante que pode ocupar o nosso espaço – tosca impressão, porque nada nos pertence. Partiremos, um dia, como chegamos: carregando apenas uma chama inapagável que se chama amor. É o amor que nos identifica, que nos retira da multidão, que nos faz únicos. Entretanto, com essas turbulências todas, é preciso coragem para amar, para não se deixar levar pelos equívocos de um aplauso rápido por ter atingido alguém com a pedra da crueldade. A vítima é um irmão meu. Um irmão é como uma parte de um mesmo corpo. Quando atingido, o corpo todo dói. Talvez por isso uma dor comum nos adoeça. Doentes ficamos todos quando não nos indignamos ao ver as injustiças contra o nosso irmão. Fechar os olhos não resolve a dor alheia nem a nossa.

Coragem. Se não temos o poder de mudar o mundo, mudemos o mundo que nos cerca. Comecemos uma silenciosa revolução no nosso entorno, mostrando que somos capazes de fazer as escolhas corretas. Com aquilo que fica para sempre: Amor, amar. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/07/2015

 

Conviver

Nesta semana, lançamos o programa “Recreio nas férias”. São inúmeras atividades de lazer e aprendizagem para crianças e adolescentes. As escolas são espaços privilegiados de convivência. Estava em um CEU, quando ouvi uma mãe dizendo ao filho: “Nossa, como é difícil conviver com você, somos muito diferentes”. Olhei e vi o menino inquieto e a mãe emburrada. Conversei com os dois. Disse que ficava muito feliz em ver os pais frequentando as escolas. Que isso é fundamental, pois, por melhor que seja a escola, ela nunca substitui o espaço da família e não resolve as carências deixadas pelas ausências.

Fiquei pensando nas palavras ditas por aquela mãe a seu filho. É verdade. Conviver não é fácil. Talvez seja, exatamente, pelo fato de sermos diferentes. Todos nós. E as diferenças se alargam quando convivemos mais proximamente. Quantos amigos se estranham em viagens, quando se deparam com as surpresas do dia a dia. Quantas inquietações há nas cobranças de uma relação amorosa, se um não faz o que o outro sonhou. Da lembrança de datas especiais à desatenção na mudança de penteado. Projeto no outro o que gostaria que o outro acrescentasse em mim. Mas o outro não sou eu e, por isso, me frustro. Conviver exige compreensão das imperfeições e dos sonhos de cada um. É difícil; porém, belo. Porque exige arte. Paciência. E um pouco de sabedoria. Compreender o tempo e as escolhas individuais é uma grande aprendizagem. Mãe e filho são diferentes, mas o amor entre eles é como um cimento poderoso que resolve as saliências e edifica construções bonitas de histórias de vida. 

Conviver sem amar é um desperdício. É o amor que ressignifica as relações e cria espaços saudáveis nos ambientes tantos que temos de frequentar. Casa, escola, trabalho, espaços públicos, mundos virtuais. Conviver sem amar pode ser inóspito, desagradável e desrespeitoso. O amor amplia minha visão sobre o outro e sobre a beleza das diferenças. Convivamos, pois, com amor e respeito. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/07/2015

 

 

Belos cabelos brancos

Conheci duas senhoras numa missa. Logo que cheguei, uma delas me abriu um sorriso, dando-me boas vindas. Disse que eu era lindo. Eu retribuí. Ela disse que já era velha. Respondi que a beleza não se esvai com o tempo. Ela concordou, sorrindo, e me informou que ia completar 93 anos. A amiga já fizera 90. Contou-me que toma meia taça de vinho tinto toda noite por sugestão médica. A de 90 disse que faz o mesmo. A de 93 reagiu, dizendo que ela tomava a taça inteira e que ocultava isso do médico. A amiga riu e explicou que nem tudo deve ser dito.

Uma pessoa, no banco de trás, tossiu. A senhora de 93 ofereceu uma pastilha. Explicou-me que sempre carrega pastilhas para aliviar sua tosse e a dos outros. A missa começou. A 1a leitura era do Livro da Sabedoria sobre a honra da velhice: “mas os cabelos brancos são uma vida sensata. A de 90 olhou para a de 93 e disse, baixinho: “Viu? Estão falando da gente!”. E brincou: “E eles nem sabem que disfarçamos a brancura dos cabelos”. A missa prosseguiu. Rezaram, cantaram, comungaram e ensinaram a estar em comunhão. Ao final, conversamos um pouco mais. Confidenciaram-me o segredo de viver tanto e tão bem. A de 93 disse que havia optado pela alegria e que, por isso, “dava banho” na alma, não permitindo que nenhuma sujeira permanecesse. Nem raiva, nem ressentimento, nem frustração pelo que não acontecera. “Até porque muita coisa ainda há de acontecer, pois não tenho pressa nenhuma de morrer”. A de 90 acrescentou: “Ela sempre foi muito namoradeira”. A de 93 não se fez de rogada: “E tem graça viver sem amor”?

Belos cabelos brancos têm aquelas duas. Amigas desde a escola. Casaram. Vieram os filhos. Foram-se os maridos. Choraram o tempo certo. Deles se lembram, mas sem dor. O ritmo diminuiu. Perderam forças físicas. Tomam mais cuidado para não cair. Sabem mais de tropeços do que antes. Mas o essencial é que elas continuam achando que  viver é bom demais.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/11/2014

 

 

 

Nita e Paulo Freire, um livro sobre o amor

Nita Freire nos presenteou com os detalhes cotidianos do apaixonado Paulo Freire. Conta que estavam os dois vivendo o luto da despedida. Ela havia enviuvado, depois de um casamento de quase 30 anos. Ele havia perdido Elza, de quem fora cúmplice de sonhos e afagos durante 42 anos. Encontraram-se nos desencontros. Encantaram-se.

Os relatos trazem a adolescência da paixão nos anos de maturidade. Não há idade para amar. Nita revigora uma frase corriqueira na vida de Paulo Freire: “eu optei por viver”. Bilhetes em cardápios de avião, em guardanapos. Poemas lidos com vagar nos telefonemas apaixonados, quando estavam distantes. Paulo, o patrono da educação brasileira, era um homem romântico. Com as mulheres que amou e com as causas que abraçou.

No pouco convívio que tive com Paulo Freire, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o que mais me chamava atenção era o seu “gostar de viver”. Não pode ser educador quem não gosta de viver. Gostar de viver é permitir que o encantamento do encontro revele-se aos aprendizes e os prepare para os encontros tantos que a vida há de proporcionar. Fala Paulo Freire em esperança, em autonomia, em tolerância, em boniteza. A vida é bonita, mesmo diante das feiuras que insistimos em construir. “A vida é bonita, é bonita e é bonita”, cantava o poeta Gonzaguinha que ficava “com a pureza da resposta das crianças”. Paulo Freire é puro, sem ser ingênuo. É crente, sem ser estreito. É livre, sem ser descompromissado. Conquistou os educadores do Brasil e de tantos outros cantos do mundo. Do quintal de sua pequena Jaboatão aos quintais do mundo, sua curiosidade buscou, incansavelmente, caminhos de justiça para a concretização de seu sonho maior: uma educação igualitária. Foi criticado por aqueles que não compreenderam a dimensão dos seus ditos, o protagonismo da sua aspiração. Mas encarava com leveza: “Nita, não importa o que fazem com o que digo e com o que penso e faço. Se me distorcem, o problema não é meu, é de quem o faz!”. Críticos, há por todos os lados; Paulo Freire, não. É único. E é nosso, um brasileiro.

Queria ele uma educação libertadora. Que desse a todos as condições para o desenvolvimento do seu talento. Sem discriminação. Sem exclusão. Defendia os professores como multiplicadores dessa boa nova que é a educação. A que forma as gentes, a que prepara para os fatos corretos. Nita nos revela que Paulo Freire foi um eterno menino, até o momento de sua morte: “Paulo nunca quis perder sua alegria-menina e sua enorme tolerância com relação a fragilidades humanas. Em certos momentos, pensei que seria importante chamar-lhe a atenção sobre esse jeito sem limites de generosidade de entrega aos outros e outras, aliás, devo reconhecer, uma de suas maiores virtudes, mas ele não me dava ouvidos.” . Um homem sério, com a alma inocente e a boa fé de um menino.

Quando participo, hoje, de congressos internacionais e vejo tantas teses atuais sobre a prática educativa, sobre o sonho de uma educação para todos, sobre o amor pelo ofício de professor, lembro-me, com orgulho e respeito, de Paulo Freire. O homem que amava as coisas do povo. O homem da antevisão. Disse tanto. Fez tanto. E jamais negligenciou a responsabilidade de cuidar das pessoas. Educar é isto. É não desistir nunca do outro.

Descrição

Nós dois é um convite aos leitores de Paulo Freire e de Nita Freire, para que conheçam um pouco mais sobre a vida e a história de amor do casal. Uma reunião de cartas, bilhetes, fotos que nos ajuda a reconstruir a trajetória de encantamento que uniu os dois. Uma experiência que merece ser dividida para que mais pessoas percebam o quanto uma união calcada no respeito e na admiração pode transformar duas vidas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/11/2014

 

O amor que desafia o tempo

Encontrei, no prédio em que moro, uma senhora sorridente que me disse: “Faça o favor de me dar os parabéns! Completo, hoje, 70 anos”. Eu, imediatamente, cumprimentei-a, dizendo que a vida é um dom de Deus. Ela completou: “A vida e o amor, pois faço, hoje, 70 anos de casada!”. Quando saímos do elevador, seu marido a esperava. Conversamos um pouco. Falaram de tristes momentos da família. De entes queridos que partiram. Das dores da separação. De algum estranhamento. E, de “mãos dadas”, eles se foram. De “mãos dadas”, esse é o segredo para o amor que desafia o tempo.

O amor não exige perfeição, exige apenas o caminhar de “mãos dadas”. No início, no acender da paixão, há o medo do novo, da mudança necessária. Com o tempo, a surpresa se vai,  mas um e outro, inspirados pelo romantismo, aquecem o tempo, surpreendendo. Dizeres de amor nunca fazem mal e mantêm as chamas acesas. Estavam indo à missa, agradecer a Deus por terem se conhecido. E por terem permanecido assim: de “mãos dadas”. Depois, as outras celebrações com tantos que frequentam a sagrada convivência. Filhos crescidos acompanhados de seus filhos que, também, já têm os seus. Inspiradores de outras famílias que descendem dessa escolha de vida. Todos no mesmo vagão. Alguns há mais tempo, e outros que vêm chegando. Com o respeito de quem tem um modelo com que aprender. “Que Deus abençoe minha família, tão grande, tão bonita!”, despediu-se de mim o marido apaixonado há 70 anos.

Permanecer é desafiador. Quantos casais desistem diante da primeira dificuldade! Quantos optam por destruir os enlaces em busca de aventura! Justificam-se pelo prazer. O melhor prazer está no surpreender o amor. O amor que dá significado à vida. O que vale a vitória quando, ao vencedor, falta a cumplicidade do abraço amado? Quando o prêmio carece de alguém para dividir? Há muitas formas de amor. O desperdício é viver sem amar.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/09/2014