Não conheço as crianças mortas em uma escola no Paquistão. Não sei sequer os seus nomes. Não conheço suas famílias, suas casas. Como não conheço os professores também mortos nesse horrendo atentado. Mas sei de algumas coisas. Vivemos em um mesmo mundo, em uma mesma época. O Sol que aquece esse lado é o mesmo que aquece o outro lado. A Lua que nos inspira a escrever, a namorar, certamente inspirou os seus pais, em algum momento, mas não inspirará essas crianças que, em um dia comum, saíram de casa para aprender algo bom e não voltaram.
A dor dessas famílias não se descreve em pedaços de papel. Os quartos com os ausentes. As lembranças de ontem, quando eles ainda estavam ali, alimentando de vida os seus, prometendo cumprir o ofício de crescer e de prosseguir, mesmo diante de alguns percalços em uma região tão triturada pelo desamor. Crianças, apenas. É o que eram. Vítimas de radicalismos, de ódios que segregam, de bestialidade humana. Não há religião que justifique ações dessa natureza.
Imagino os professores em suas salas de aula. Cada qual ensinando o que lhe competia. Dizendo sobre histórias, geografias, letras, números, gentes. Olhando para os seus alunos e oferecendo a eles o conhecimento como passaporte para dias melhores. Escolheram ser professores por fazerem uma opção pela vida, por acreditarem na generosidade dos saberes e dos encontros. Foram-se eles também. Prematuramente, partiram sem entender as razões. Razão não há para atitudes assim. Nem lá. Nem aqui. Nem em qualquer tempo ou espaço. É de vida que precisamos. E a vida se plenifica na paz. A paz que nasce no coração dos homens e que harmoniza a convivência.
Que as crianças que não voltaram nos alimentem de intenções e de ações de amor. Ou isso ou a barbárie.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/12/2014
