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A escolha do amor

Por Gabriel Chalita (Revista Canção Nova)

Todos os dias fazemos escolhas em nossas vidas. Algumas escolhas são mais simples; outras, mais complexas. Escolhemos a roupa, o sapato, a alimentação, o trajeto. Escolhemos a escola, o trabalho, as prioridades. Como não é possível resolver todos os problemas de uma única vez, vamos escolhendo aqueles que precisam ser solucionados antes. Escolhemos no supermercado, na loja, a forma de pagamento.

Algumas escolhas simples ficam complicadas quando complicamos a vida. Fazer um almoço se torna um calvário para quem está angustiado. Ter de escolher o que fazer e que agrade às outras pessoas da família parece um trabalho insano. Escolher a escola dos filhos. Escolher a mudança de emprego. Aos poucos as escolhas vão exigindo mais reflexão e o resultado da escolha vai ficando mais sério. Uma coisa é escolher a comida errada no cardápio e decidir que não vai pedir mais aquele prato. Outra coisa é perceber que casou com a pessoa errada. A escolha do casamento tem de ser mais demorada do que a do produto de uma prateleira em um supermercado.

Como somos imperfeitos, a dúvida sempre fará parte de nossas escolhas. E é diante da dúvida que amadurecemos. Pessoas que têm certezas absolutas erram mais e sofrem mais com isso. A dúvida nos torna mais humildes, mais abertos ao diálogo.Nesses momentos é que percebemos a nossa maturidade frente aos obstáculos. Os mais concretos ou os mais abstratos.

Nesse início de ano, uma modesta sugestão: diante das dúvidas que surgirem, escolha o amor. Diante de sentimentos mesquinhos como a inveja, o ciúme, a vingança; escolha o amor. Antes de falar, pense. Mas pense com amor. Antes de agredir, lembre-se de que o tempo da cicatriz é mais demorado do que o tempo do comedimento. Antes de usar a palavra como instrumento de maldizer, lembre-se de que o silêncio é o grande amigo e de que, na dúvida, o outro deve receber a sua compaixão. Diante do comodismo, da alienação, escolha o amor em ação. Assim fizeram os apóstolos, mesmo sabendo que seriam incompreendidos; assim fez Francisco de Assis quando ousou chamar a todos de irmãos; ou João Bosco com os jovens que só se aquietavam quando se sentiam amados.

Assim fez Madre Tereza de Calcutá que fazia a escolha do amor diante de cada próximo que dela precisasse.

Diante da boa dúvida, é bom pedir ajuda. Para os irmãos e para Deus, a Essência do Amor.
Os desafios são muitos. É por isso que sozinho fica difícil. Como diz a canção:
Eu pensei que podia viver, por mim mesmo. Eu pensei que as coisas do mundo não iriam me derrubar. 

E a oração continua e, com ela, nossa certeza: Tudo é do Pai. Toda honra e toda glória. É Dele a vitória alcançada em minha vida.
Que sejamos responsáveis em nossas escolhas mais simples ou mais complexas.
Mais uma vez, com amor, tudo fica mais fácil e mais bonito!

Ternura na receita

Por Gabriel Chalita (Revista Canção Nova)

Mais um Natal se aproxima. A festa da natividade do menino Jesus reúne as famílias ao redor da mesa. Nesses encontros, muitas vezes, as diferenças aparecem e o sonho da celebração do amor se converte em pesadelo. A família é o espaço privilegiado da convivência. Seus membros são diferentes. Cada um carrega dons, traumas, esperança. Cada um luta, a seu modo, para buscar a perfeição. Entretanto, imperfeitos são todos.

Algumas crianças choram por brinquedos mais caros. Alguns pais fazem dívidas para satisfazer os mimos dos filhos. Fazem mal. Vale mais a sinceridade: “filho, eu não tenho dinheiro para comprar esse presente – você merece, mas fica para outra ocasião”Lembro-me de uma história em que uma filha queria uma vitrola. O pai sentou-a no colo e disse, “como eu não tinha dinheiro para comprar a vitrola, comprei o filhinho dela”, e entregou um rádio pequeno à filha. A menina, hoje mulher crescida, nunca se esqueceu. Talvez, se tivesse recebido a vitrola, já não mais se lembrasse.

As diferenças aparecem em natais em que se come demais e se bebe demais. Acusações surgem entre irmãos. Os pais sofrem. Brigas entre marido e mulher. Os filhos sofrem. Famílias insatisfeitas, doentes. E o espaço para compartilhar se transforma em palco de um teatro cujo espetáculo não combina com a festa. Afinal, quem é o aniversariante?

Na plenitude dos tempos, segundo as escrituras, nasceu o menino Jesus. A manjedoura de Belém foi seu primeiro berço. As canções de vida foram entoadas por Maria, a mulher escolhida por Deus, e José, o carpinteiro devotado ao respeito humano. Em sua infância, o menino brincou, ouviu histórias, aprendeu, ensinou, surpreendeu. Foi criança, enfim. Em sua adolescência, viveu a essência da família, ao lado dos pais. Fortaleceu-se para o exercício de sua missão. E partiu, permanecendo. Como devem fazer os filhos. Cada um nasce para um voo diferente, mas o ninho da ternura é lugar do aconchego.

A festa de aniversário é do Menino Jesus. Portanto, sua simplicidade deve inspirar o encontro. Exageros não combinam com a manjedoura. Na receita da ceia, não pode faltar ternura; o resto é menos importante. Presentes podem ser distribuídos. Abraços. Conversas. O ideal é que, na preparação, alguma ação solidária seja feita pelos pais e filhos. Um presente para o filho e um outro para um menino sem lar. Uma história contada em casa e uma outra para os velhinhos de um asilo esquecidos pelos seus. Uma visita aos parentes e uma outra para um hospital com crianças com câncer. Pequenas ações que cumprem o sonho do Menino aniversariante. “…porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu, e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim” (Mt 25,35-36)

Que o Natal seja um tributo à solidariedade. Os pais dão o exemplo e os filhos aprendem. Que a alegria ao Menino seja concedida por uma família que vive e celebra o amor.

Fazei a experiência, diz o Senhor dos exércitos, e vereis se não vos abro os reservatórios do céu e se não derramo a minha bênção sobre vós muito além do necessário. A palavra está em Malaquias. Está em nós, nessa preparação para o Natal. Façamos a experiência da solidariedade, do respeito, da ternura. E a nossa noite será o prenúncio de um novo ano abençoado. Feliz natal!

Projovem: utopia transformadora

Por Gabriel Chalita (Revista Linha Direta – MG)

Conhecido no mundo todo como o Andarilho da Esperança, Paulo Freire defendia uma educação libertária em que o sonho e a utopia, sustentáculos de um futuro transformador, deveriam lançar à frente os educadores, inspirando-os e norteando-os na constante superação das dificuldades que persistem na divisão de um mundo entre os que dele participam e os que são delegados à margem.

Esse magistral educador falava de utopia não como algo que inexiste, distante da realidade, própria da fértil imaginação de um mero sonhador, mas como algo que apenas a educação é capaz de viabilizar: a transformação do ser humano que, por meio de sua práxis, vai construindo uma realidade social mais acolhedora e justa. Um “vir-a-ser”, antevisto pelo pensamento, pelo desejo de mudança. O “Desejo-o, mais do que espero”, de Thomas Morus, referindo-se ao desejo de felicidade capaz de qualificar uma “comunidade de vida”. Essa transformação, aliada a um processo de conscientização e compreensão do mundo que o cerca, revela – paulatinamente – ao homem o mundo e a sociedade que ele deve ser responsável por construir.

A educação deve ser facilitadora dessa conscientização. A conscientização do ser, do mundo, das possibilidades, da esperança da transformação. Era dessa utopia que falava Paulo Freire. Um mundo em que as pessoas, todas as pessoas, gozem de liberdade, liberdade de escolha, liberdade de mudança, liberdade de expressão. Luta libertária, motor propulsor da difícil missão educativa. A busca de “ser mais”, na expressão freiriana. “Há uma esperança, não importa que nem sempre audaz, nas esquinas das ruas, no corpo de cada um e de cada uma de nós”.

Na ânsia de poder cumprir a tarefa de reconstrução social, Minas Gerais instalou, em 70 cidades, o programa Projovem Trabalhador – Juventude Cidadã, assumindo o compromisso de ensinar um ofício, funções alternativas geradoras de renda, a jovens que vivem à margem do processo educacional e do mercado de trabalho e, consequentemente, alijados da sociedade e do exercício de sua cidadania. Acolhendo jovens dos 18 aos 29 anos de idade, advindos de famílias cujas rendas não ultrapassem um salário mínimo per capita, o programa se compromete com a formação integral do indivíduo. Durante seis meses, os alunos aprendem noções básicas de valores humanos, ética e cidadania, educação ambiental, higiene pessoal e promoção da qualidade de vida, entre outros. Totalmente voltado à inserção do jovem na sociedade e considerando as aptidões de cada aluno, o programa prioriza a formação de jovens aptos a suprirem as necessidades locais, atuando de forma participativa na comunidade, justificando o conceito de inclusão social e não apenas da integração no mercado de trabalho, o que já seria de todo significativo.

Instituído pelo Ministério do Trabalho e Renda , o Projovem Trabalhador em Minas Gerais, fruto de uma parceria com o Estado, sob a coordenação do sistema Sedvan/Idene, é prova de que a utopia não é solitária, mas social, conjunta, comparte. É a utopia concretizada que emancipa, liberta, anuncia um novo horizonte. Sua concepção pode ser individual, mas a ação prescinde da união de forças. Assim se faz a educação de um povo. Por meio de compromissada ação social.

Revigoremos o pensamento esperançoso do educador, “Não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã. A esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica.” O Projovem de Minas Gerais é o exemplo disso, o princípio da emancipação do ser humano e da construção de sua nova história.

A negação da humanidade

Por Gabriel Chalita (Jornal A Tribuna)

O debate sobre o toque de recolher para jovens menores de idade já virou polêmica em várias cidades do Estado. Fernandópolis, Itapura e Ilha Solteira recorreram à medida como política de segurança pública no combate à violência juvenil. Em todo o país, 13 cidades a adotaram. Outros vinte municípios estariam discutindo seguir o mesmo caminho. Em Birigui, Santópolis do Aguapeí, Coroados, Clementina e Brejo Alegre, a restrição vale somente para jovens em conflito com a Lei. Sete cidades da região noroeste adotam medidas como fechar o comércio à meia noite. 

Um estrangeiro ao ler estas linhas poderia perfeitamente sentir-se diante de uma sociedade em guerra civil. O sentimento se transformaria quase em certeza se ele soubesse que, nos últimos 30 anos, mais de 1 milhão de pessoas foram mortas em todo o país, na maioria jovens e muitas, menores de idade.

Quando lembramos que o Estatuto da Criança e do Adolescente já vigora há 19 anos, é inevitável imaginar quão maior não seria o número de homicídios sem ele. Pior ainda é pensar que talvez nem tanto, pois quem mata à revelia da lei o faz como se ela não existisse.

Dados do Conselho Tutelar de Pereira Barreto mostram que depois do fechamento do comércio à meia-noite, há dois meses, as infrações de menor porte caíram em 24%. Na mesma cidade, a Polícia Civil aponta que furtos e roubos diminuíram pela metade, enquanto a violência doméstica caiu 60%.

Mesmo assim, as restrições dividem opiniões. O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conama) critica as medidas, dizendo que elas ferem a Constituição e o ECA. O Conselho Nacional de Justiça e juristas de renome nacional defendem as medidas. O Conselho se pronunciou em favor da decisão de uma magistrada em Nova Andradina sobre o funcionamento de bares e restaurantes até mais tarde.

Por enquanto, o assunto é de caráter administrativo, pois foi instituído por portarias das prefeituras. E o parecer do CNJ refere-se exclusivamente à competência de uma juíza em determinar o toque de recolher. A esperança do Conanda é de que o julgamento do mérito suspenda a decisão judicial de Andradina e as portarias das demais cidades. Por fim, sempre haverá a possibilidade de recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Mas o que me importa como educador, e a vocês como pais, é o futuro de seus filhos. Se por um lado a aplicação das medidas tem obtido resultados satisfatórios em algumas cidades, por outro não há como negar a ocorrência de constrangimentos e o desrespeito, sim, ao direito constitucional de ir e vir.

Em alguns casos, é verdade, o toque vale para menores encontrados nas ruas sem a companhia dos pais, onde o encaminhamento a suas residências tem caráter protetor. Seja como for, voltando a pensar no futuro das crianças e adolescentes abordados pela autoridade policial nas ruas de cidades pequenas, onde todos se conhecem, impossível não lamentar tais situações.

Como secretário estadual da Juventude, e depois da Educação, sempre me ocupei da questão educacional num enfoque humano e afetivo. Com o devido respeito à interpretação jurídica em nome da segurança e integridade física da juventude, tenho profunda preocupação com o perfil de ser humano que estamos formando. Temo pelo equilíbrio emocional e psicológico de futuros adultos com um passado de privações geradoras de medo, desrespeito e revolta para com o Estado, na figura da autoridade policial, que pode aumentar, ainda, o risco de confrontos nas ruas das mesmas cidades.

A violência que acomete nossa juventude muitas vezes está dentro da própria escola, ou do lar, e em horários que nenhum toque de recolher resolve. Por isso apresentei o projeto que já virou lei, sobre o bullying escolar. A expressão inglesa de que trata a nova lei refere-se a todo o tipo de provocação, preconceito ou molestamento que uma criança ou um jovem pode sofrer no ambiente escolar, que muitas vezes evolui para a violência física e causa mortes.

Chega de jovens morrendo em São Paulo! Junto com a Lei do Bullying, propus criação do cargo de psicopedagogos nas escolas da rede pública municipal para atendimento específico a este tipo de caso. A idéia, mais do que assegurar a integridade da pessoa agredida, é garantir o futuro de seu caráter e personalidade. De que adianta o ótimo nível de ensino que sempre buscamos sem alunos felizes?

O filósofo francês La Boétie, no seu “Discurso da servidão voluntária”, já reclamava, na terra das liberdades totais, que o absolutismo impusesse tanto medo e tirania ao povo. Para ele, o homem nega sua essência ao deixar de ser livre. Negar a liberdade é negar nossa humanidade.

Guardadas as proporções, pondero em nome do bom senso e do equilíbrio, enquanto a Justiça não cria uma jurisprudência adequada ao tema. Do contrário, quem terá razão será o estrangeiro a achar que vivemos em uma guerra civil.


(*) Gabriel Chalita, escritor, educador, vereador de São Paulo, e ex-secretário de Estado da Juventude, Esporte e Lazer, e da Educação

Discurso de posse na ABE

Por Gabriel Chalita
Discurso de posse na ABE – Academia Brasileira de Educação

Estimado Presidente da Academia Brasileira de Educação,
Professor Carlos Alberto Serpa de Oliveira.
Prezados Acadêmicos,
Autoridades,
Senhoras e Senhores,

   Eis me aqui para cumprir o meu oficio de gratidão e renovar minha profissão de amor à educação.
   Gratidão à generosidade das senhoras e dos senhores que me permitem comungar deste espaço e aprender nesta ágora contemporânea.
   A Ágora era o palco da liberdade. O palco do compromisso, em que a hermenêutica e a heurística talhavam os grandes homens. Discurso sem interpretação dos fatos e sem preocupação com a verdade, era demagogia. A ética ia tomando forma discursiva e embelezava as relações sagradas de ensino e aprendizagem. A peripatética socrática, a academia platônica e o liceu aristotélico constituíam a trilogia clássica da Paidéia. O sonho da integralidade na profissão de amor à cidade ou, por que não, à humanidade.
   Eram professores esses sábios. Professavam no antropocentrismo nascente a fidelidade aos valores maiores. Sócrates foi condenado à cicuta por persistir em sua profissão. O preconceito roubou-lhe a vida.
   A ausência de conhecimento pode gerar o preconceito e ainda o aprisionamento. Um repertório ampliado é um mundo ampliado. São pontes que se abrem como uma dialética continuada. É o conhecimento gerando a liberdade.
   Liberdade era o sonho do patrono da cadeira de número 34, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, autor do Hino à Bandeira, o poeta Olavo Bilac. Parnasiano, e também romântico, o príncipe dos poetas brasileiros sussurrava sonetos confessionais:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Repito:
“Só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

   Minha antecessora, a saudosa Esther de Figueiredo Ferraz, tinha ouvidos assim, era capaz de ouvir e de entender estrelas. E, ao ouvi-las e entendê-las, construiu uma notável trajetória de mulher brasileira. Pioneira, numerosas vezes. Foi a primeira mulher a assumir a cátedra na tradicional Faculdade de Direito das Arcadas. A primeira mulher a atuar no tribunal do júri. A primeira a ser reitora de uma universidade, a Universidade Presbiteriana Mackenzie. Primeira a ser, também, Ministra de Estado. Mas a sua glória maior não foi essa, como ela confessou ao tomar posse, em 1971, no cargo de Secretária da Educação do Estado de São Paulo:

[…] o de que me envaideço não será, podem crê-lo, haver atingido o ápice dessa carreira no desempenho de minhas atividades universitárias, mas sim em tê-la iniciado por onde a iniciei, numa pequena classe do Grupo Escolar de Santo Amaro, onde meninos descalços, de roupas remendadas e umedecidas pela garoa do planalto, tiritando de frio ou cheirando a suor, disputavam o privilégio de enfeitar com uma flor (provavelmente arrancada ao jardim da pracinha fronteira), a minha tosca mesa de trabalho.

   Sua profissão era a de uma mulher livre. Livre das arrogâncias que muitas vezes o poder empresta aos desavisados. Livre das síndromes da usurpação de privilégios de cargos que enfeiam a travessia.
   Conheci Esther em São Paulo. Frequentei atento as suas histórias. Privilegiado, acompanhei, muitas vezes, a prosa elegante de nossa mestra. Assim Miguel Reale a saudou em nossa Academia Paulista de Letras:

   Nenhuma profissão, tanto como a docente, tem a virtude de projetar quem a exerce muito além de suas próprias obras, graças à aventura de vaidosamente poder compartilhar das realizações e triunfos de seus discípulos. É claro que as criações, no campo literário, artístico ou científico, podem perpetuar, por menor ou maior tempo, o nome de seus autores, mas se trata de uma projeção no plano objetivo do processo cultural, enquanto o exercício do magistério transcende a pessoa do professor numa linha de marcada subjetividade mediante os valores alcançados por seus antigos alunos.

   Quão doce prazer sente o mestre pelas conquistas de seus alunos. Não há professor que não se emocione ao vê-los galgando o cume do saber e do fazer.
   O primeiro ocupante desta cadeira foi o também Ministro Pedro Calmon Muniz de Bittencourt. Nascido em Amargosa, Bahia, foi professor, reitor da Universidade do Brasil, Ministro da Educação e Saúde do governo Dutra, orador impecável. Foi presidente da Academia Brasileira de Letras, tendo publicado mais de 50 obras nas áreas de biografia e literatura histórica, história e direito. Doutor honoris causa das Universidades de Coimbra, Quito, Nova Iorque, San Marcos e da Universidade Nacional do México. Dentre outros, escreveu, História de Dom Pedro II, em 5 volumes; História do Brasil na poesia do povo e Vida e amores de Castro Alves.
   Castro Alves, o poeta da liberdade, ou como ele mesmo dizia, poeta da musa libérrima. Membro da escola de morrer cedo, em Navio Negreiro orou:

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança…
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

   Nasci em uma cidade pequena no interior de São Paulo, Cachoeira Paulista. Desde a infância, eu exercia o meu magistério, aos meus avós, em um quadro verde, presente de algum aniversário. Era inquieto quando os via quietos. Queria atenção. Afinal, aquele era um momento de celebração.
   Nas primeiras aulas, nas escolas públicas da minha cidade, intuitivamente, aplicava Paulo Freire:

   Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza. Sou professor a favor da boniteza de minha própria prática, boniteza que dela some se não cuido do saber que devo ensinar…

   Os meus alunos não eram tábulas rasas. Eram condores à espera de oportunidades para as alturas. Nas faculdades em que lecionei e leciono, os desafios continuam. Trocas de impressões, partilhas de razões ou meras idéias que vão formando uma teia. Somos cúmplices de um tempo em construção. Estamos em construção, pois essa é a razão da liberdade. Somos livres para restaurar as preciosidades internas que foram rasuradas com ou sem o nosso consentimento.

   É livre quem deixou de ser escravo de si mesmo, ensinava Sêneca, insistente nesse percurso doloroso que se dá no interior humano.

   Aproveito esse conceito para professar minha indignação contra qualquer tipo de preconceito. O tosco, horrípilo preconceito que diminui e arranca do outro a esperança. A educação e o preconceito não frequentam os mesmos altares.

   No livro do Eclesiástico, a fonte para a derrocada do preconceito:
Quando eu era ainda jovem, antes de ter viajado, busquei abertamente a sabedoria na oração: pedi-a a Deus, no templo, e buscá-la-ei até o fim da minha vida. Ela floresceu como uma videira precoce e meu coração alegrou-se nela. Meus pés andaram por caminho reto: desde a minha juventude tenho procurado encontrá-la. (Eclo 51, 18-20)
Um pouco mais adiante, prossegue:
Desde o inicio, graças a ela, possuí o meu coração (Eclo 51, 28a).

   Graças à sabedoria é possível possuir o próprio coração. O que não é tarefa simples. Embriagamo-nos de falsas impressões. Desprezamos a verdade e julgamos o outro com meras opiniões. Preconceito. O que me dá o direito de ostentar uma postura arrogante? O educador é um servidor. E para isso tem de ser sábio.

   Einstein acreditava no trabalhar em liberdade para a criação grande e inspiradora e Gandhi explicava que A liberdade não tem qualquer valor se não inclui a liberdade de errar.

   É a morte do preconceito, meus amigos. Insisto, porque lamento os dogmatismos acentuados que separam os que sabem dos que não sabem, os que têm dos que não têm; os que são dos que não são. Ora, quanta ignorância! É inimaginável que depois de tantas descobertas não percebamos a heterogeneidade das inteligências. Trata-se de oportunidade apenas. É dar o bastão ao corredor e ensinar a ele o traçado e olhá-lo com a confiante ternura.
E é isso. A boa educação é moeda de ouro, em toda parte tem valor, afirmava o padre dos sermões, Antônio Vieira.

   Senhoras acadêmicas, senhores acadêmicos.
   Rousseau era um gênio autodidata do Iluminismo. Perdeu a mãe cedo, o pai não cuidou dele. E ele não cuidou dos cinco filhos que teve, abandonando-os em um orfanato. Entrementes as agruras de uma vida tumultuada, escreveu uma das maiores obras da psicologia do desenvolvimento, Emílio ou da educação.
   Na obra, Rousseau constrói uma experiência educacional imaginária para mostrar que era possível criar um indivíduo que pudesse agir com retidão independentemente da ordem política ilegítima, das escolas e faculdades irremediavelmente corruptas. Para isso, ele retirava professor e aluno da sociedade e construía um enfoque consistentemente naturalista para a educação de Emílio.

Tudo é bom quando sai das mãos do Autor das coisas;tudo degenera nas mãos do homem.

   Essa assertiva mostra o quanto Rousseau prolatava a bondade original e, ao mesmo tempo, a corrupção que a sociedade das competições, e não das cooperações, gerava. O bem é natural.

   É de Kant a preciosidade:
Como então buscar a perfeição? Onde fica a nossa esperança? Na educação e em nada mais.

   Filósofo alemão, sintetizador do empirismo e do racionalismo, é um dos fundadores da filosofia contemporânea. Embora não tenha escrito uma obra especificamente sobre educação, Kant faz um paralelo entre a esfera da natureza e a esfera da moralidade e concebe a educação como um processo que une as duas. O objetivo último da educação deveria ser a formação do caráter moral ou, em outras palavras, a admiração e a execução de um ato íntegro. A criança não é boa nem má, para Kant. A criança é amoral. Não imoral. Sua amoralidade deriva do fato de não saber o que é certo ou errado. Não ter condições de discernir o que recebe de casa e da escola. É como se a criança não tivesse condições de peneirar as sujeiras que lhe são lançadas. E reproduz, assim, os equívocos dos pais e professores. Kant sonha com uma educação que dê autonomia para que, em toda a vida, os ditames morais definam os passos humanos. É uma lei universal que se apreende e se constrói.

   Da retórica à práxis. As reflexões históricas sobre educação são mais do que conhecidas. O percurso das escolas de ontem até aqui, também. Desde a educação tribal, passando pelo Egito, Macedônia, Grécia; freqüentando as escolas medievais, renascentistas ou contemporâneas, muito já se falou sobre os valores da educação na formação de um homem livre. Teorias divergiram quanto à forma, mas creditavam sempre à educação o resultado do sucesso humano.

   Ao ingressar nesta Academia, quero apregoar alguns valores que a minha modesta experiência docente e de gestor público me ensinou.
   Defendo a escola de tempo integral para as redes públicas visando diminuir a distância entre aqueles que têm e aqueles que não têm. Em um país, com a complexidade econômica e social como o nosso, é difícil imaginar que em casa os alunos haverão de completar os seus estudos.
   Defendo que o currículo privilegie habilidades cognitivas, sociais e emocionais. O aluno é complexo e não pode ser tratado como um mero repetidor de conteúdos e fórmulas desprovidas de significado. Defendo a obrigatoriedade do Ensino Médio. O jovem precisa ser cuidado para que seu potencial se reverta em benefício próprio e em benefício do país. Não se combate violência com violência. Combate-se com inteligência. É preciso, também, trazer a família para a escola. O lar é o primeiro Liceu. É o espaço privilegiado em que as emoções começam a ser organizadas.
   A didática tem de ser condizente aos alunos acostumados à tecnologia e à velocidade. As atenções são outras. A arquitetura da sala de aula tem de privilegiar as diferenças, sem a presunção incorreta de que os alunos aprenderão as mesmas coisas, ao mesmo tempo. O encantamento das letras, das histórias que perpetuam em livros o existir humano, não pode ser substituído por um conjunto de regras que dissociam saber de sabor. Essas palavras de mesma origem incendeiam os aprendizes com calor e luminosidade. A educação é convidada a transpor os muros e ditar comportamentos na urbe. A civilidade do brasileiro, a cordialidade dos filhos desta terra, como estudada por Sérgio Buarque de Holanda, não podem ser trancafiadas em individualismos e violências. É preciso significar as teorias com comportamentos adequados.
   Defendo os mestres. As professoras e os professores que se constituem como a alma do processo educativo. Não são as máquinas, nem as antigas nem as modernas, que formarão as pessoas. Não são as construções maiores e mais arrojadas que desenharão o molde das ações humanas. Os que professam na vida o amor ao outro é que farão a diferença. Os alunos precisam de vínculo, carecem de referenciais. E aí estão os mestres cumprindo o seu ofício.
   Se há uma glória a que posso me atribuir sem receios é a de ter, durante os quase cinco anos em que estive Secretário em São Paulo no competente governo de Geraldo Alckmin, comungado dúvidas e certezas com os professores. Construímos uma rede de respeito. Trocamos idéias, cedemos informações, atravessamos à outra margem para conversar com mais vagar. Renunciamos dogmatismos e crescemos. Entro com tranqüilidade em uma escola e reverencio os seus professores. Há falhas? Certamente. Há descaso dos que deveriam ensinar? Como em todas as profissões. Não julguemos o todo pelas partes. É de Aristóteles o axioma de que a generalização é o primeiro caminho para a injustiça. Sejamos justos. Nas salas de aula deste país, faltam políticas públicas eficientes e continuadas e sobram sonhos. Alguns agentes públicos ousam destruir os feitos de seus antecessores com o intento egóico de fincar uma bandeira. Tosca ventura desrespeitosa. Somos ocupantes provisórios de espaços definitivos. Nada de personalismos. É de personalidade que precisamos. Partir em busca da liberdade de fazer livre aquele que chega.
   Procuro ser educador em tudo o que faço. Publico livros sobre biografias de pessoas fascinantes para aprender com elas. Fabrico ilusões em romances e contos para engendrar histórias de vida. Vivifico minhas verdades em livros infanto-juvenis. Amo a filosofia como quebra continuada de paradigmas. E sobre ela, escrevo. Sou um discípulo da literatura como história dos sentimentos. Sentimentos que são lapidados em outras arenas. Educo na televisão e no rádio.
   A Comunidade Canção Nova educou-me desde pequeno com seu magistral fundador Monsenhor Jonas Abib e ampliou minha voz e imagem para levar o que sei e o que estou descobrindo a milhões de lares. Só me pedem fidelidade à dignidade humana, ao exercício continuado de formar mulheres e homens novos para um mundo novo. Ou então mulheres e homens educados, livres. Quão doce é a liberdade! Dela nasce o gosto pela ventura da vida. Sem gaiolas, mesmo as de ouro. Sem medo do medo. Brincantes com as possibilidades. Imersos em valores corretos e caminheiros.
   A educação é o estandarte da liberdade. Ela faz transmutar a perspectiva de vida. É por isso que os pais devem se preocupar em deixar esse legado aos seus filhos.
   Meu pai não está aqui. Mas sua imagem percorre os meus conceitos. Ele habita em mim com sua tenra expressão de gentileza. Soube compreender as minhas escolhas e aplaudir minhas decisões. Sem conhecer correntes pedagógicas, inspirou-me a compreender os tempos e os espaços alheios. Minha mãe conformou-se com minha decisão de trocar o seu sonho de um filho médico pelo discurso inquieto do professor.
   Completo este ano minhas bodas de prata do magistério. Tenho 40 anos. Comecei a dar aulas em escolas aos 15. E não estou cansado. Ao contrário. Sinto um gosto de novidade cada vez que encontro uma nova turma. É o desafio da ação na sedução. São eles os novos convivas ao banquete do saber. É preciso entender o que servir e como servir para que voltem esperançosos. Não quero vê-los subnutridos nem obesos. É o meio-termo que educa melhor. E mais, longe de mim eternizar as minhas verdades em mentes alheias. É dialogal nossa profissão. Quebramos e construímos. Rasgamos e emendamos. Sem pestanejar. E tudo isso com a certeza de que nossa jornada não será vã:

   Só há uma coisa neste mundo à qual vale a pena dedicar toda a sua vida. É a criação de mais amor entre os povos e a destruição das barreiras que existem entre eles, ensina Tolstoi.

   Acredito que a aspiração dá sentido às nossas escolhas. Não é possível voar sem ter antes o destino. É no mínimo incauta a embarcação que parte sem rumo.
   Eduquemos para a competência, a coragem e o amor. Essa é a razão da nossa existência e a manifestação da nossa essência. O amor é a estrela desenhada no firmamento que pode ser avistada de qualquer parte. Basta apenas uma educação que nos ensine a olhar para o alto e prosseguir.
   Professor Serpa, em seu nome, agradeço, mais uma vez, a esta douta academia. Conhecemos-nos e nos encontramos. Sua gentileza e generosidade enfeitam sua profissão. Em cada espaço, o respeito. E, no respeito, o encantamento.
   Recebi desta academia o prêmio de Educador do Ano de 2004. Recebo, hoje, a grata satisfação de freqüentá-la como membro. O fardão é a responsabilidade que assumo com humildade e o colar, o enfeite para continuar a entoar os acordes da pedagogia do amor.

Minhas amigas e meus amigos,

   Termino com gratidão esta minha chegada. Agradeço a Deus pelos talentos que abundantemente Ele derrama sobre nós; agradeço a Ele os milagres cotidianos, singelos, que às vezes nem temos tempo de reparar. E, ainda, o dom da cortesia. Agradeço aos meus amigos que aqui e em outras arenas emprestam conhecimento e poesia à minha vida.

   Poetizemos, enfim, com Bilac: Amemos. As estrelas estão por aí para serem ouvidas e compreendidas.
Amemos!
Obrigado,
Gabriel Chalita

Os valores da educação árabe

Por Gabriel Chalita

Os dias contemporâneos assistem a um fascinante diálogo universal. Rompemos as barreiras da distância e do tempo com a tecnologia que disponibiliza a informação e atiça a curiosidade. Em um passado não muito distante, as notícias vinham a navio, os mitos dificultavam o contato com culturas diferentes. Estávamos em ilhas continentais vencidas por braços imigrantes. Os árabes, quando chegaram por aqui, vieram como tantos outros em busca da terra da esperança. Não conheciam o idioma, a cultura. Não tinham ideia do clima, dos desafios que estavam por vir. Partiam do Porto de Beirute, deixando para trás as raízes e trazendo na bagagem a herança de um povo acostumado a acolher.

As famílias árabes são reconhecidas pela generosidade em alimentar sem economias os amigos, os conhecidos. A música, a dança, o sorriso, a deliciosa comida fazem com que o sabor da convivência acalante a boa prosa. Os árabes são excelentes contadores de história. Sherazade e suas mil e uma noites atestam o valor da contação para que a inteligência vença a prepotência, e o amor vença o ódio. Os árabes têm muitos provérbios. Comungam de valores corretos sob a luz de uma cultura milenar. Aprenderam a conviver com a guerra, a dor, o sofrimento. “Somos todos prisioneiros, mas alguns de nós estão em celas com janelas, e outros sem.” (G.K.Gibran).

São vencedores porque não temem o desafio da reconstrução, das paredes destruídas pelo outro nem a provocação da alma alquebrada pela dor.

A educação árabe traz como paradigma o amor à família. Choram juntos e riem juntos. Respeitam os velhos, ciosos da abnegação de retribuir ao amor partilhado e cientes de que a sabedoria da vida tem tanto ou mais importância que a dos livros. Em geral, trazem a religião como valor inegociável. Evidentemente, há os fundamentalistas extremos, mas são exceção. A regra está na cordialidade de pais que professam a fé e o amor, desfraldando as sombras do medo para o voo necessário da geração que está florindo.

Ontem, a ousadia dos desbravadores; hoje, a paciência dos reconstrutores; amanhã, a bênção dos iluminadores. É de luz que precisa a educação. Luz que ilumina e aquece como um bom abraço árabe.

Educação nas telas

Por Sérgio Rizzo (Revista Educação)

No Rio de Janeiro, uma professora de escola pública protege um aluno perseguido ao mesmo tempo por uma quadrilha de traficantes de drogas e por policiais corruptos. Também no Rio, um projeto de ensino de música transforma a vida de jovens de comunidades carentes. Em Paris, um professor de língua francesa em uma escola da periferia, freqüentada por muitos filhos de imigrantes, se esforça para dar conta do programa e convencer os alunos da importância de se dedicar aos estudos.

E, em Nova York, a diretora de uma escola católica suspeita que o padre da paróquia, também professor, cometeu assédio contra um aluno. Essas quatro histórias trazem de volta aos cinemas o olhar sobre a educação, tanto no ensino formal quanto no informal, bem como sobre os educadores e seu papel na sociedade contemporânea. Os brasileiros Verônica, de Maurício Farias, e Contratempo, de Malu Mader e Mini Kerti, se juntam ao francês Entre os muros da escola, de Laurent Cantet, e ao norte-americano Dúvida, de John Patrick Shanley, nessa leva recente de filmes – alguns baseados em fatos verídicos, outros apenas inspirados neles – que contribuem para ampliar o debate social sobre temas educacionais, alcançando um público mais amplo do que o de profissionais da área. Em Verônica, o filho de um contador que trabalha para o tráfico (Matheus de Sá) sobrevive ao massacre da família porque estava na escola. Como os pais não aparecem para buscá-lo, sua professora (Andréa Beltrão) se oferece para levá-lo até sua casa, em uma favela. Ao descobrir que os pais foram mortos e os traficantes procuram o menino, decide protegê-lo e se recusa também a entregá-lo às autoridades porque o pen drive que o pai confiou ao filho traz um vídeo com imagens que incriminam policiais ligados ao tráfico. Verônica não confia nem mesmo no ex-marido (Marco Ricca), policial que talvez mantenha relações com colegas corruptos. Farias diz que participou de duas sessões promovidas exclusivamente para profissionais da educação – uma em São Paulo (que também reuniu alunos), realizada pelo Sistema Anglo de Ensino, um dos patrocinadores do filme, e outra no Rio de Janeiro, no Clube do Professor do Unibanco Arteplex. “Foi maravilhoso, espetacular”, lembra o cineasta, que dirigiu também O coronel e o lobisomem (2005) e A grande família – O filme (2007). “Vi cenas incríveis, professoras chorando. A identificação foi muito forte e o filme as tocou bastante. Não tínhamos a preo­cupação de abordar isso (as condições de trabalho do professor) em primeiro plano, mas a realidade é muito forte.” A detalhada caracterização da personagem e a interpretação de Andréa Beltrão ajudam, de fato, a provocar identificação imediata com todo espectador que conheça, ainda que superficialmente, o cotidiano de milhares de professoras da Educação Básica na rede pública do país. Verônica trabalha muito, em condições às vezes impróprias, e se esvai física e mentalmente por causa disso; leva tarefas para casa, o que aumenta o desgaste e contribui para que negligencie a vida pessoal; o salário permite que sobreviva dignamente, mas não muito mais do que isso – a personagem mora em uma quitinete, em bairro popular do Rio, e não tem acesso a canais de TV paga, o que deixa o filho do contador estupefato, pois ele mora na favela e tem (“TV a gato”, como bem observa Verônica). O cenário social de Verônica é muito semelhante ao do documentário Contratempo, que acompanha a rotina de jovens que participavam, em 2006, do projeto Villa-Lobinhos. Recrutados em favelas do Rio de Janeiro, eles freqüentavam aulas de música e faziam apresentações, promovidas também no âmbito de outros grupos dos quais participavam. Alguns deles, por exemplo, vão tocar em um concerto beneficente em Nova York. Com isso, ganham perspectiva de futuro que, sem a dedicação à música, dificilmente teriam. Há, no entanto, quem fique pelo caminho, e ao menos uma das histórias – a do rapaz que abre o filme, cujo desfecho é revelado apenas no final – é especialmente dramática ao ilustrar o que a sociedade brasileira reserva a milhares de jovens. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado e candidato ao Oscar-2009 de melhor filme estrangeiro, Entre os muros da escola se inspira na “tragicomédia ordinária de um professor de francês”, o romance Entre les murs, com lançamento no Brasil previsto para março, simultaneamente à chegada do filme ao país. O autor, François Bégaudeau, se baseou em suas próprias experiências em uma escola na periferia de Paris para “divisar o discurso por meio dos fatos, as idéias pelos gestos” – e, assim, “apenas documentar o trabalho cotidiano” de um educador hoje na França. Diretor de A agenda (2001), que também lança um olhar semidocumental sobre o mundo do trabalho (e a perda de identidade representada pelo desemprego), Cantet recrutou o próprio Bégaudeau para interpretar o papel do professor e adotou o princípio de observar a escola como uma espécie de câmera de eco da sociedade – tudo o que ocorre ali, entre muros, é apenas reverberação do que acontece no entorno. O extraordinário trabalho com os adolescentes que interpretam os alunos, todos usando seus nomes verdadeiros, faz o espectador acreditar que havia câmeras ocultas dentro da sala de aula e em outros ambientes da escola. Entre os muros da escola já se configura, tanto pelos métodos de realização quanto pelo diagnóstico da escola como instituição em crise profunda, como um dos grandes filmes em torno da relação ensino-aprendizagem e da responsabilidade social que se atribui ao trabalho dos educadores. Esses temas aparecem também em Dúvida, baseado em peça do próprio Shanley ambientada em 1964. Para educadores, o interesse se concentra na descrição da gestão autoritária de uma escola religiosa por uma freira (Meryl Streep) que procura controlar tudo à sua volta e nos dilemas de uma jovem professora (Amy Adams) pressionada a denunciar um padre (Philip Seymour Hoffman).

Bullying, o crime do desamor

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

O motorista que, no trânsito, por estar a bordo de um carro novo e possante, encosta no veículo da frente e exige passagem, deseducadamente, piscando os faróis, buzinando, pressionando, está praticando um ato de violência. O político que se acha mais importante do que o resto do mundo e trata as pessoas com arrogância, está sendo, de algum modo, violento. Podemos dizer o mesmo do empresário que humilha seus funcionários, só porque lhes paga salário.

Essas pessoas, com atitudes que agridem ou intimidam, estão praticando o que possivelmente já praticaram em outros ambientes, inclusive na escola: o bullying. A palavra vem do adjetivo bully, que em inglês significa valentão. Quem é mais forte tiraniza, ameaça, oprime, amedronta e intimida os mais fracos. Na escola, essa atitude pode ter resultados drásticos, porque leva a vítima, muitas vezes, ao isolamento e até ao abandono. O bullying agride a alma do indivíduo, o apequena pelo medo ou pela vergonha, pela dor física ou moral.

Esse comportamento agressivo tem sido observado nas escolas, e por isso mesmo é motivo de preocupação de pais e educadores, já há algum tempo, porque demonstra que está faltando afeto nas relações entre crianças e adolescentes, possivelmente em razão de problemas familiares. A falta de diálogo e de respeito parece ser a origem da agressividade infantil e juvenil, um problema que começa a ser discutido com mais intensidade diante do aumento da violência escolar no mundo inteiro.

Em Portugal, por exemplo, pesquisa feita com sete mil alunos revelou que um em cada cinco alunos já foi vítima desse tipo de agressão. Na Espanha, o nível de incidência também já chega a 20% entre os alunos. Na Grã-Bretanha, terra dos hoolligans, aqueles torcedores que saem em grupo pelas ruas, procurando brigas e agredindo pessoas, há mais motivos ainda para apreensão: foi apurado, em pesquisa, que 37% dos alunos do primeiro grau das escolas britânicas admitiram que sofrem bullying pelo menos uma vez por semana. Nos Estados Unidos, o fenômeno atinge também um percentual muito alto – estima-se que até 35% das crianças em idade escolar estão envolvidas em alguma forma de agressão e de violência na escola. Foi nesse país, no estado do Colorado, que recentemente dois adolescentes do ensino médio usaram armas de fogo para matar treze pessoas e ferir dezenas de outras. Depois do ataque, cometeram suicídio. Descobriu-se, mais tarde, que os agressores sofriam constantes humilhações dos colegas de escola.

No Brasil, um estudo feito pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia), em 2002, no Rio de Janeiro, com 5.875 estudantes de 5ª a 8ª séries, de onze escolas fluminenses, revelou que 40,5% dos entrevistados confessaram o envolvimento direto em atos como a humilhação por causa de defeitos físicos, obesidade, cor da pele, que ocasionam seqüelas emocionais nas vítimas e contribuem para que elas não atinjam plenamente o seu desenvolvimento educacional. Como efeito, observa-se a redução do rendimento escolar, e a conseqüência mais nefasta: a vítima de bullying pode se tornar agressiva ou até mesmo passar a reproduzir essas práticas horríveis contra a pessoa e sua dignidade.

Como identificar esse tipo de desvio social?

É fundamental que, tanto em casa quanto na escola, a criança tenha liberdade para dizer o que pensa e o que sofre. O diálogo ajuda a entender o cotidiano do aprendiz. O principal sinal de perigo está naquele aluno que vai ficando apático, e que se tranca na sua dor, sem revelar os sentimentos.

E qual é a saída para corrigir o problema?

Primeiro, é fundamental desenvolver nas escolas ações de solidariedade e de resgate de valores de cidadania, tolerância, respeito mútuo entre alunos e docentes. Estimular e valorizar as individualidades do aluno. Potencializar eventuais diferenças, canalizando-as para aspectos positivos que resultem na melhoria da auto-estima do estudante.

Com toda a certeza, se a escola formar indivíduos melhores, teremos motoristas melhores, políticos melhores, empresários melhores. E cidadãos melhores.

Nélida Educadora Piñon

Por Gabriel Chalita (Jornal do Brasil)

Nélida entregou-me seu livro mais recente, no dia de seu aniversário. E quem ganhou o presente fui eu. Devorei cada linha de Aprendiz de Homero, identificando-me com o pensamento de Nélida, mas devo dizer que discordo dela em uma questão fundamental: ela se proclama aprendiz, já no título do livro, e afirma não ser uma pedagoga, e eu garanto que ela é mestra. Basta ler um dos 24 ensaios (“Descoberta do mundo”) que compõem o seu livro.

Ali, num tom memorialista mas de clara intimidade com o ofício de ensinar, Nélida apresenta um dos mais profundos e ao mesmo tempo concisos depoimentos que já li, de alguém que se dispõe a falar de educação. Modestamente, como é de seu talhe, ponderou que não tem teorias a defender, que lhe “falta o instrumental com que abordar a nmatéria educacional com isenção crítica”, e que, portanto, seus apontamentos teriam a superficialidade da amadora. Nada disso. Eu sou educador, por vocação, formação e ocupação, e posso falar de cátedra: Nélida é uma educadora perspicaz e consciente.

Uma análise do ensaio que se inicia à página 217 do livro Aprendiz de Homero permite essa afirmação. A frase inicial é uma verdadeira profissão de fé: “A experiência humana, onde quer que se manifeste, começa no coração.” A frase tem mais profundidade do que aparenta, à primeira leitura. Saber de cor, (cor, cordis, coração em latim), uma das atitudes que tradicionalmente ilustram o aprendizado, é conhecer com o coração. Diz ela: “Estou convencida de que o filtro do amor e do prazer encontra-se também nas páginas do livro.” Os que me deram a ventura de serem meus leitores conhecem o que defendo em meu livro Pedagogia do amor, síntese do meu pensamento educacional. Ali, comento o valor das histórias, contadas em casa ou na escola, a partir de livros, como apoio fundamental da educação. Costumo dizer que não há lembrança melhor, de uma infância bem vivida, do que o acalanto de uma voz querida, contando histórias, ilustrando a vida. E Nélida reconfirma, com esta assertiva: “Os livros e as palavras, inseparáveis, são os melhores inventos da raça humana.” E diz mais ainda: “Sendo ambos, por excelência, produtos rebeldes, perambulam ao lado de quem sonha, de quem se senta nos bancos escolares, de quem ensina, de quem se aflige, de quem frui a invenção, de quem se encanta com as manifestações da inteligência humana.”

Costumo dizer que o professor é a alma da escola, que sem ele a educação não ocorre. Nélida dá testemunho dessa idéia: “Enquanto leciono, sei-me destinada a queimar meu coração, a repartir minhas fibras entre anônimos, entre filhos de outros, que não são do meu sangue. A sofrer as emoções advindas de um convívio difícil, mas comovente. (…) E se em tantos momentos aparenta ser um intercâmbio ingrato, onde se abandona no outro o que a nossa natureza produz de sombrio e altaneiro, é a mais generosa das profissões.”

“A escola foi sempre benfazeja. Longe de ser um cárcere, estimulou-me a privar com o desconhecido, a lançar-me às aventuras marítimas, começando pelo litoral brasileiro e terminando do outro lado do Atlântico.”

“Os professores, por sua vez, conviviam com o temor de errar e com a ânsia de acertar.”

Complementam-se, essas duas frases, como se complementam duas mãos direitas, de amigos, a se cumprimentar. Nélida é de uma felicidade incomparável, ao dar vida, por meio das palavras, a sentimentos que afloram nos alunos e nos professores. Sentenças de quem sabe o que é aprender e sabe o que é ensinar.

E vejam mais esta: “Talvez a escola dos sonhos seja simultaneamente o território da crise e o lugar da solução.” É isto mesmo: a escola deve estimular a criatividade pelo incentivo ao raciocínio, ao enfrentamento de problemas, em suma, pela problematização. O professor não pode ser apenas um mero facilitador, um repassador de informações prontas. Nélida sabe disso, como boa educadora que é.

Sabe mais: “Educar não é empobrecer quem é pobre; não é humilhar o aluno privando-o de um saber que o pode elevar a um patamar superior; não lhe é dar a metade de uma língua que consagra os erros trazidos de casa. Educar é desconsiderar os obstáculos da miséria e do obscurantismo, e fazer a criança sonhar, o adolescente derrubar os entraves culturais, para que pleiteiem um mundo à altura da sua imaginação.”

E não posso me furtar a registrar o que talvez seja o mais feliz parágrafo do ensaio “A descoberta do mundo”: “Educar é fazer o aluno fruir dos bens do planeta em todas as suas manifestações. Para que sua fantasia, seu verbo, sua linguagem, sejam libertárias, destemidas, sem freios. É fazer do ato de pensar um feito tão natural quanto respirar. Um dom ao alcance de todos, independente de sua condição.”

E, à guisa de corolário, Nélida a pedagoga, a educadora que modestamente alega não ser, apresenta essa conclusão belíssima: “Reverenciar, hoje e sempre, a figura do professor que nos tomando pela mão, enlaçados pelo mesmo ideal, leva-nos a freqüentar o próprio mistério, o coração alheio, a visitar a memória, as civilizações pretéritas que residem em nós.”

Por essa leitura, que tive o desmesurado prazer de fazer, tomo-lhe a bênção, mestra Nélida Piñon.

O bom humor do professor

Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

O ser humano é um animal que ri. Pode parecer uma afirmativa leviana, mas o riso, a alegria, e suas manifestações, fazem diferença para que o homem seja quem é. Pesquisadores, antropólogos e escritores já analisaram essa característica, e concluíram que os homens melhoram quando riem. Henri Bergson, por exemplo, quando escreveu como tese de doutoramento “O riso – ensaio sobre a significação do cômico”. No Brasil, recentemente, Flávio Moreira da Costa compilou os cem melhores contos de humor da literatura universal, pela Ediouro. Entre eles Anton Tchekhov, um mestre na arte de fazer rir. 

O preâmbulo serve para apoiar uma reflexão sobre o papel do bom humor nas relações professor-aluno, e como o aprendizado pode ser facilitado com isso.

Alegria é algo muito próximo do prazer. E não há como discutir que o aprendizado só se dá se o processo for prazeroso.

A criança imita atitudes, no processo de construção de sua identidade. Desenvolve habilidades e competências com base no que percebe em casa, inicialmente, e na escola, quando chega o momento de freqüentar escola. Os bloqueios também começam a aparecer, muitas vezes por causa de atitudes quase sempre irrefletidas dos pais e dos educadores: apatia, indiferença, impaciência, intolerância, incompaixão. E talvez não haja nada que intimide mais uma criança do que uma carranca. Há algo mais opressor do que uma criança que não se sente à vontade para fazer perguntas ao professor porque tem medo da cara feia dele?

A atitude correta de pais e professores é a proteção. Não a proteção que engole, que apequena, que aprisiona. Mas a proteção que acolhe, que cuida, que prepara para o desenvolvimento da autonomia e do sonho. A criança tem de ser incentivada a sonhar e a realizar desde sempre. No mundo fantasioso da infância, pululam personagens e situações que não devem ser descartadas ou desprezadas. Todas com cara alegre, que cantam, que dançam, que vivem de bom humor. Quem está sempre de mau humor é o vilão, o bandido, aquele personagem que as crianças abominam e repelem. Pais contadores de histórias estimulam mais esse universo onírico, além de estarem mais presentes com os filhos. Isso é bom, desde que seja reservado espaço muito definido entre o que é bom e o que é ruim, entre o que é certo ou errado, justo ou injusto, mentiroso ou verdadeiro. Olhando para essas características, é fácil perceber que o que é ruim, errado, mentiroso e injusto, quase sempre tem cara feia, produto de tristeza e de rancor. Ao contrário, o que é certo, verdadeiro, bom e justo, tem aparência alegre.

Aí está o papel do bom humor. É amenizar o coração. E assim permitir que as pessoas tenham atitudes igualmente amenas. O sorriso no rosto reflete e até condiciona o estado de espírito. O professor que sorri certamente terá mais inclinação para fazer comentários positivos sobre as diferenças de cultura, ideologia, classe social, gênero etc.

A literatura está cheia de exemplos de bom humor. Mário Quintana é um dos mais divertidos. O escritor tem uma vocação que tem tudo a ver com o magistério. A literatura educa. E por isso vou citar uma escritora, também mestra na arte do bom humor. Lygia Fagundes Telles, no conto Eu era mudo e só, tem um trecho divertido do personagem Manuel, que se sente oprimido pelo casamento:

…”Ou a mulher fica aquele tipo de amigona e etc. e tal ou fica de fora. Se fica de fora, com a famosa sabedoria da serpente misturada à inocência da pomba, dentro de um tempo mínimo conseguirá indispor a gente de tal modo com os amigos que quando menos se espera estaremos distantes deles as vinte mil léguas submarinas. No outro caso, se ficar a tal que seria nosso amigo se fosse homem, acabará gostando tanto dos nossos amigos, mas tanto, que logo escolherá o melhor para se deitar. Quer dizer, ou vai nos trair ou chatear. Ou as duas coisas…”

Toda pessoa pode ser assertiva sem ser amarga. Toda pessoa é capaz de docilidade e de ternura. Basta desfazer as rugas da testa. Suavizar o rosto para suavizar a alma. Porque o que sentimos repercute na forma com que tratamos o outro. E, sem dúvida, a atitude do professor condiciona o resultado do aprendizado.

Há muitas informações que vão sendo oferecidas aos alunos e, aos poucos, descartadas. Isso faz parte do desenvolvimento cognitivo. Ninguém é capaz de memorizar tudo o que aprendeu desde sempre. Datas são esquecidas, nomes, lugares. Conteúdos específicos, se não utilizados, ficam armazenados em algum lugar, e não representam mais significado. Mas há algo que não sai jamais da memória: o gesto amigo, o acolhimento e o sorriso no rosto.