Nélida Educadora Piñon

Por Gabriel Chalita (Jornal do Brasil)

Nélida entregou-me seu livro mais recente, no dia de seu aniversário. E quem ganhou o presente fui eu. Devorei cada linha de Aprendiz de Homero, identificando-me com o pensamento de Nélida, mas devo dizer que discordo dela em uma questão fundamental: ela se proclama aprendiz, já no título do livro, e afirma não ser uma pedagoga, e eu garanto que ela é mestra. Basta ler um dos 24 ensaios (“Descoberta do mundo”) que compõem o seu livro.

Ali, num tom memorialista mas de clara intimidade com o ofício de ensinar, Nélida apresenta um dos mais profundos e ao mesmo tempo concisos depoimentos que já li, de alguém que se dispõe a falar de educação. Modestamente, como é de seu talhe, ponderou que não tem teorias a defender, que lhe “falta o instrumental com que abordar a nmatéria educacional com isenção crítica”, e que, portanto, seus apontamentos teriam a superficialidade da amadora. Nada disso. Eu sou educador, por vocação, formação e ocupação, e posso falar de cátedra: Nélida é uma educadora perspicaz e consciente.

Uma análise do ensaio que se inicia à página 217 do livro Aprendiz de Homero permite essa afirmação. A frase inicial é uma verdadeira profissão de fé: “A experiência humana, onde quer que se manifeste, começa no coração.” A frase tem mais profundidade do que aparenta, à primeira leitura. Saber de cor, (cor, cordis, coração em latim), uma das atitudes que tradicionalmente ilustram o aprendizado, é conhecer com o coração. Diz ela: “Estou convencida de que o filtro do amor e do prazer encontra-se também nas páginas do livro.” Os que me deram a ventura de serem meus leitores conhecem o que defendo em meu livro Pedagogia do amor, síntese do meu pensamento educacional. Ali, comento o valor das histórias, contadas em casa ou na escola, a partir de livros, como apoio fundamental da educação. Costumo dizer que não há lembrança melhor, de uma infância bem vivida, do que o acalanto de uma voz querida, contando histórias, ilustrando a vida. E Nélida reconfirma, com esta assertiva: “Os livros e as palavras, inseparáveis, são os melhores inventos da raça humana.” E diz mais ainda: “Sendo ambos, por excelência, produtos rebeldes, perambulam ao lado de quem sonha, de quem se senta nos bancos escolares, de quem ensina, de quem se aflige, de quem frui a invenção, de quem se encanta com as manifestações da inteligência humana.”

Costumo dizer que o professor é a alma da escola, que sem ele a educação não ocorre. Nélida dá testemunho dessa idéia: “Enquanto leciono, sei-me destinada a queimar meu coração, a repartir minhas fibras entre anônimos, entre filhos de outros, que não são do meu sangue. A sofrer as emoções advindas de um convívio difícil, mas comovente. (…) E se em tantos momentos aparenta ser um intercâmbio ingrato, onde se abandona no outro o que a nossa natureza produz de sombrio e altaneiro, é a mais generosa das profissões.”

“A escola foi sempre benfazeja. Longe de ser um cárcere, estimulou-me a privar com o desconhecido, a lançar-me às aventuras marítimas, começando pelo litoral brasileiro e terminando do outro lado do Atlântico.”

“Os professores, por sua vez, conviviam com o temor de errar e com a ânsia de acertar.”

Complementam-se, essas duas frases, como se complementam duas mãos direitas, de amigos, a se cumprimentar. Nélida é de uma felicidade incomparável, ao dar vida, por meio das palavras, a sentimentos que afloram nos alunos e nos professores. Sentenças de quem sabe o que é aprender e sabe o que é ensinar.

E vejam mais esta: “Talvez a escola dos sonhos seja simultaneamente o território da crise e o lugar da solução.” É isto mesmo: a escola deve estimular a criatividade pelo incentivo ao raciocínio, ao enfrentamento de problemas, em suma, pela problematização. O professor não pode ser apenas um mero facilitador, um repassador de informações prontas. Nélida sabe disso, como boa educadora que é.

Sabe mais: “Educar não é empobrecer quem é pobre; não é humilhar o aluno privando-o de um saber que o pode elevar a um patamar superior; não lhe é dar a metade de uma língua que consagra os erros trazidos de casa. Educar é desconsiderar os obstáculos da miséria e do obscurantismo, e fazer a criança sonhar, o adolescente derrubar os entraves culturais, para que pleiteiem um mundo à altura da sua imaginação.”

E não posso me furtar a registrar o que talvez seja o mais feliz parágrafo do ensaio “A descoberta do mundo”: “Educar é fazer o aluno fruir dos bens do planeta em todas as suas manifestações. Para que sua fantasia, seu verbo, sua linguagem, sejam libertárias, destemidas, sem freios. É fazer do ato de pensar um feito tão natural quanto respirar. Um dom ao alcance de todos, independente de sua condição.”

E, à guisa de corolário, Nélida a pedagoga, a educadora que modestamente alega não ser, apresenta essa conclusão belíssima: “Reverenciar, hoje e sempre, a figura do professor que nos tomando pela mão, enlaçados pelo mesmo ideal, leva-nos a freqüentar o próprio mistério, o coração alheio, a visitar a memória, as civilizações pretéritas que residem em nós.”

Por essa leitura, que tive o desmesurado prazer de fazer, tomo-lhe a bênção, mestra Nélida Piñon.

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