Por Gabriel Chalita (Revista Linha Direta – MG)
Conhecido no mundo todo como o Andarilho da Esperança, Paulo Freire defendia uma educação libertária em que o sonho e a utopia, sustentáculos de um futuro transformador, deveriam lançar à frente os educadores, inspirando-os e norteando-os na constante superação das dificuldades que persistem na divisão de um mundo entre os que dele participam e os que são delegados à margem.
Esse magistral educador falava de utopia não como algo que inexiste, distante da realidade, própria da fértil imaginação de um mero sonhador, mas como algo que apenas a educação é capaz de viabilizar: a transformação do ser humano que, por meio de sua práxis, vai construindo uma realidade social mais acolhedora e justa. Um “vir-a-ser”, antevisto pelo pensamento, pelo desejo de mudança. O “Desejo-o, mais do que espero”, de Thomas Morus, referindo-se ao desejo de felicidade capaz de qualificar uma “comunidade de vida”. Essa transformação, aliada a um processo de conscientização e compreensão do mundo que o cerca, revela – paulatinamente – ao homem o mundo e a sociedade que ele deve ser responsável por construir.
A educação deve ser facilitadora dessa conscientização. A conscientização do ser, do mundo, das possibilidades, da esperança da transformação. Era dessa utopia que falava Paulo Freire. Um mundo em que as pessoas, todas as pessoas, gozem de liberdade, liberdade de escolha, liberdade de mudança, liberdade de expressão. Luta libertária, motor propulsor da difícil missão educativa. A busca de “ser mais”, na expressão freiriana. “Há uma esperança, não importa que nem sempre audaz, nas esquinas das ruas, no corpo de cada um e de cada uma de nós”.
Na ânsia de poder cumprir a tarefa de reconstrução social, Minas Gerais instalou, em 70 cidades, o programa Projovem Trabalhador – Juventude Cidadã, assumindo o compromisso de ensinar um ofício, funções alternativas geradoras de renda, a jovens que vivem à margem do processo educacional e do mercado de trabalho e, consequentemente, alijados da sociedade e do exercício de sua cidadania. Acolhendo jovens dos 18 aos 29 anos de idade, advindos de famílias cujas rendas não ultrapassem um salário mínimo per capita, o programa se compromete com a formação integral do indivíduo. Durante seis meses, os alunos aprendem noções básicas de valores humanos, ética e cidadania, educação ambiental, higiene pessoal e promoção da qualidade de vida, entre outros. Totalmente voltado à inserção do jovem na sociedade e considerando as aptidões de cada aluno, o programa prioriza a formação de jovens aptos a suprirem as necessidades locais, atuando de forma participativa na comunidade, justificando o conceito de inclusão social e não apenas da integração no mercado de trabalho, o que já seria de todo significativo.
Instituído pelo Ministério do Trabalho e Renda , o Projovem Trabalhador em Minas Gerais, fruto de uma parceria com o Estado, sob a coordenação do sistema Sedvan/Idene, é prova de que a utopia não é solitária, mas social, conjunta, comparte. É a utopia concretizada que emancipa, liberta, anuncia um novo horizonte. Sua concepção pode ser individual, mas a ação prescinde da união de forças. Assim se faz a educação de um povo. Por meio de compromissada ação social.
Revigoremos o pensamento esperançoso do educador, “Não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã. A esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica.” O Projovem de Minas Gerais é o exemplo disso, o princípio da emancipação do ser humano e da construção de sua nova história.
