Por Gabriel Chalita (Revista Canção Nova)
Mais um Natal se aproxima. A festa da natividade do menino Jesus reúne as famílias ao redor da mesa. Nesses encontros, muitas vezes, as diferenças aparecem e o sonho da celebração do amor se converte em pesadelo. A família é o espaço privilegiado da convivência. Seus membros são diferentes. Cada um carrega dons, traumas, esperança. Cada um luta, a seu modo, para buscar a perfeição. Entretanto, imperfeitos são todos.
Algumas crianças choram por brinquedos mais caros. Alguns pais fazem dívidas para satisfazer os mimos dos filhos. Fazem mal. Vale mais a sinceridade: “filho, eu não tenho dinheiro para comprar esse presente – você merece, mas fica para outra ocasião”. Lembro-me de uma história em que uma filha queria uma vitrola. O pai sentou-a no colo e disse, “como eu não tinha dinheiro para comprar a vitrola, comprei o filhinho dela”, e entregou um rádio pequeno à filha. A menina, hoje mulher crescida, nunca se esqueceu. Talvez, se tivesse recebido a vitrola, já não mais se lembrasse.
As diferenças aparecem em natais em que se come demais e se bebe demais. Acusações surgem entre irmãos. Os pais sofrem. Brigas entre marido e mulher. Os filhos sofrem. Famílias insatisfeitas, doentes. E o espaço para compartilhar se transforma em palco de um teatro cujo espetáculo não combina com a festa. Afinal, quem é o aniversariante?
Na plenitude dos tempos, segundo as escrituras, nasceu o menino Jesus. A manjedoura de Belém foi seu primeiro berço. As canções de vida foram entoadas por Maria, a mulher escolhida por Deus, e José, o carpinteiro devotado ao respeito humano. Em sua infância, o menino brincou, ouviu histórias, aprendeu, ensinou, surpreendeu. Foi criança, enfim. Em sua adolescência, viveu a essência da família, ao lado dos pais. Fortaleceu-se para o exercício de sua missão. E partiu, permanecendo. Como devem fazer os filhos. Cada um nasce para um voo diferente, mas o ninho da ternura é lugar do aconchego.
A festa de aniversário é do Menino Jesus. Portanto, sua simplicidade deve inspirar o encontro. Exageros não combinam com a manjedoura. Na receita da ceia, não pode faltar ternura; o resto é menos importante. Presentes podem ser distribuídos. Abraços. Conversas. O ideal é que, na preparação, alguma ação solidária seja feita pelos pais e filhos. Um presente para o filho e um outro para um menino sem lar. Uma história contada em casa e uma outra para os velhinhos de um asilo esquecidos pelos seus. Uma visita aos parentes e uma outra para um hospital com crianças com câncer. Pequenas ações que cumprem o sonho do Menino aniversariante. “…porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu, e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim” (Mt 25,35-36)
Que o Natal seja um tributo à solidariedade. Os pais dão o exemplo e os filhos aprendem. Que a alegria ao Menino seja concedida por uma família que vive e celebra o amor.
Fazei a experiência, diz o Senhor dos exércitos, e vereis se não vos abro os reservatórios do céu e se não derramo a minha bênção sobre vós muito além do necessário. A palavra está em Malaquias. Está em nós, nessa preparação para o Natal. Façamos a experiência da solidariedade, do respeito, da ternura. E a nossa noite será o prenúncio de um novo ano abençoado. Feliz natal!
