Reparem ao lado. Nos acelerados. Não naqueles que, ciosos do dever, não perdem tempo e fazem o que precisa ser feito no tempo certo. Mas nos desnecessariamente acelerados. Nos perturbados. Nos que perturbam. Eles estão por todo lado. No trânsito, irritam-se com uma facilidade de arrepiar. Buzinam. Aceleram. São os senhores das ruas e das estradas. Usam o carro como uma arma. Estão em guerra. Nas filas, também. Quaisquer que sejam elas. Das rodoviárias às padarias. No banco ou no cinema. Estão se movimentando mais do que o necessário como se isso antecipasse os fatos.
Dias desses, fiquei atônito ao ver um jovem brigando com uma senhora na fila do cinema. Ela saiu da fila por alguns instantes para cumprimentar outra senhora e voltou. E o jovem se deu o direito de exigir que ela fosse para o final da fila. Aos berros, deu lições de civilidade. Feito lamentável. Alguns segundos de reflexão antes da ação ajudariam o jovem a lembrar que os lugares são marcados e que diferença alguma faria aquela senhora à sua frente ou atrás. Mas ele estava irascível. Era o dono da fila. Do mundo, talvez.
Em aeroportos, há agressões desnecessárias aos atendentes por atrasos aéreos. Vale lembrar que não são eles os donos das companhias. Que não estão no comando do avião. Nem da torre que autoriza pousos e decolagens. Mas como estão ali, é neles que os perturbadores se aliviam.Há ainda os acalorados debates sobre política ou futebol ou religião ou o que quer que seja. Há tantas certezas nesses discursos. Mentem todos para mostrar a razão. Razão?
Um pouco de calma ameniza a vida. Auxilia-nos a ter menos problemas de saúde e de convivência. Gostar desse ou daquele político não me faz menos ou mais inteligente. Torcer para um time e não para outro não me diminui nem me eleva. Acreditar nos valores religiosos que me iluminam a alma não me obscurece nem me faz melhor do que quem navega sua embarcação em outros mares. Brigar por quê? Para quê? Seja bem-vinda a serenidade. Não sei onde ela foi. Sei que faz muita falta.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/04/2016
