
Ela cantou, emocionou, tocou na alma de um jeito tão delicado.
Era um dia chuvoso. Muito trânsito. Chegou esbaforida. Mas não aliviou no intento mágico de acender os faróis da arte que todos têm, mas de que, às vezes, se esquecem. Cantou como menina tímida, um pouco envergonhada. Cantou como mulher, senhora da voz, ciente do ofício de fazer do palco a celebração da vida.
Era o CEU Quinta do Sol, na região da Penha. Ela cantou em vários CEUS, aliás. Ela e outras cantoras incríveis como Monica Salmaso, Alaíde Costa, Vânia Bastos, Fafá de Belém, Lecy Brandão, Jane Duboc, Áurea Martins, Graça Braga, Tata Godoy, Daúde, Virgínia Rosa e Letícia Sabatella. Tudo isso em homenagem à mulher. O “Março Mulher” contagiando a rede municipal de ensino de SP. Poderia falar de todas elas e das pessoas que lotavam os teatros em que elas se apresentavam. Cobraram menos pelos cachês. Aceitaram o nosso pedido de fazer com que as periferias de São Paulo tivessem esse privilégio. E foram deixando um pouco de si mesmas em suas canções.
Quero voltar à Maria Gadú. Assisti ao show dela no CEU Vila Curuçá, região de São Miguel Paulista. Gosto das suas músicas e do seu jeito livre de dizer e viver o que pensa. Admiro sua militância contra os preconceitos e a favor do belo. É bela a sua interpretação, sua composição.
Em um de seus shows, Maria Gadú soube que era tanta gente, naquele CEU, querendo vê-la cantar, que ela nos surpreendeu com sua generosidade. Fez o show. Esperou as pessoas se retirarem. Permitiu que as que não puderam assistir pela lotação do teatro entrassem e repetiu o espetáculo. Esqueceu-se do cansaço, esqueceu que já havia se entregado, como faz sempre, ao seu público, de corpo e alma. E reiniciou seu jeito elegante de fazer da canção o acender do farol. Cantou lindamente:
“Olhe só
Como a noite cresce em glória
E a distância traz
Nosso amanhecer
Deixa estar que o que for pra ser vigora
Eu sou tão feliz Vamos dividir”.
E ela dividiu. Deu o todo de si mesma para cada parte. Naquela noite, fez-se luz. Fez-se farol. Mais de uma vez. Fiz questão de escrever esse relato porque acredito que, em tempos estranhos de interesses estranhos, é saudável ser surpreendido por seres especiais. Generoso desejo de viver aquecendo vidas. Ou esfriando, se necessário for, vidas que deixaram se levar pelo ódio.
A arte é redentora. Ela é capaz de rabiscos certeiros na escritura das nossas entranhas. Rasga-nos a insensibilidade. E, exatamente por isso, tem o poder do êxodo. Nutridos por ela, saímos de nós mesmos em busca do outro. E é o outro o nosso desafio. É o outro, que será sempre diferente de nós, que de nós precisa para caminhar nas ruelas da incompreensão ou da poesia.
A poesia de Maria Gadú é livre como razão de existir. Livres podemos ser, se compreendermos os instantes preciosos que a vida nos proporciona. Todos eles. Mesmo os de dor. Mesmo os de solidão. Mesmo os de dúvidas. Quanto encanto traz essa última, a dúvida. Quanto poder ela tem. O poder de nos fazer mais humildes, o poder de nos preencher de curiosidades, de avidez por novas canções.
Fico pensando qual é minha música preferida na interpretação de Maria Gadú, São tantas. Depende de qual instante estou vivendo. Fico feliz em poder proporcionar esses instantes para essa gente tão especial que frequenta nossas escolas. Educação, arte, talento, generosidade.
Voltemos às escritas e ao seu poder. Escritas que podem traçar um outro destino para aqueles que acreditam que o destino depende dos destinados. Ou, em palavras mais claras, do livre arbítrio, da possibilidade de escolher quem queremos ser. Se tiver escuro demais para decidir, ouça uma música, leia um poema, contemple uma escultura, veja uma dança, chore ou ria em uma peça de teatro ou filme, talvez. No cantar de Maria Gadú, “Sem mais, a vida vai passando no vazio/ Estou com tudo a flutuar no rio esperando a resposta ao que chamo de amor”.
Enfim, não escolha enfrentar a escuridão sem o tal farol da arte. Com luz, fica tudo mais claro. Mais iluminado. Mais bonito.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 03/04/2016
