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Ainda sobre a mulher

O dia 8 de março foi o Dia Internacional da Mulher. Comemorações e lamentações marcaram a data. Há muito a se comemorar. As mulheres estão ocupando espaços, estão conduzindo a nau das próprias vidas, estão decididas a não abraçar a subserviência sob nenhum argumento. Liderando organizações ou dialogando com maturidade dentro de casa. Celebrando a palavra respeito como um alimento saudável que fortalece as relações desde que se renove todos os dias. Mas há lamentações. Os machismos, os radicalismos, os vícios de uma postura de poder infame continuam a frequentar o público e o privado. 

 No público, há mais disfarces. Embora piadas que parecem ter a finalidade única do divertir continuem trazendo à tona a superioridade que alguns homens imaginam ter. Há necessidade de correções salariais, de cuidado contínuo das relações de trabalho. Diferenças não podem significar injustiça. No privado, a dor parece maior. Os índices da violência contra a mulher são assustadores. A violência doméstica não dá trégua. Não há justificativas para que um homem agrida sua mulher ou sua filha ou sua enteada ou sua irmã ou sua mãe ou quem quer que seja. Covardias que parecem não dar espaços ao respeito de que falamos. Há homens que tentam uma explicação. Frases toscas. “Tudo o que fiz foi por amor”. Por amor? Espancamento por amor? Humilhação por amor? Revisitemos os dicionários. Nas bibliotecas e na vida. Amor é campo de plantio celestial. O que floresce enfeita e perfuma a vida. Amor é chuva que ameniza a aridez dos dias e que antecipa o paraíso. Amor é encontro nos desencontros que, por alguma razão, somos levados a viver. Não. Definitivamente ninguém humilha por amor ou agride por amor ou destrói por amor.

Cuidemos dos valores essenciais para o viver e o conviver. Com o entendimento de que as diferenças nos melhoram. Quem sabe um dia compreendamos a tal antecipação do paraíso. Amar, respeitar, plantar e colher. Quem sabe um dia…

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/03/2016

Delicadezas do amor

Um amigo trouxe-me esta sua história depois de ler o meu artigo, no domingo passado, no Diário de São Paulo, que falava também sobre o amor. Começou a conversa em tom de confissão.

– Eu preciso desabafar. Fui delicado demais e me arranhei.

Eu quis entender o que houve.

– Eu a conheci e a respeitei.

Dizia e dava alguma pausa como se quisesse escarafunchar, em alguma razão, a razão que não encontrava. Ou isso ou a tentativa de amenizar os incômodos para me incomodar menos.

 Eu não estava incomodado. Estava atento. Não reclamo do privilégio de ouvir histórias. Ao contrário, gosto de ouvi-las e me interesso por elas. E, também, por quem as diz. As ricas prosas que nos tomam em esquinas que frequentamos. As histórias que se repetem e são sempre únicas. O tempo atemporal e universal do amor. E das dores que o acompanham.

– Eu a conheci há muito tempo. Nunca mais nos vimos e faz algumas semanas que nos reencontramos.

Mais uma pausa.

– Ela estava muito diferente. Virou uma mulher. Como eu não reparei antes? Talvez seja isso. Talvez ela tivesse algum interesse por mim, naquela época, e eu não percebi. Sempre fui desatento. Ou, então, ela pode ter um namorado. Estavam brigados. Empolgou-se comigo e depois a briga passou. Quem sabe?!

Histórias de amor têm licença poética para serem entrecortadas. Eu ficava caçando sentido nas palavras que ele jogava. Não queria insistir em um enredo certeiro, que respeitasse os acontecimentos no tempo para facilitar a compreensão. Deixei que as palavras pululassem como pululava o seu sentir.

– Eu a convidei para jantar algumas vezes. Jantar romântico. Levei flores uma vez. Na outra, descobri o restaurante de que ela gostava. Levei-a de carro até sua cidade. E voltei na mesma noite. Estava cansado, mas o meu interesse em surpreendê-la era mais forte do que o desejo do descanso. Foram dias exitosos, julgo eu. E ela demonstrava interesse. E respondia às mensagens alimentando-me de possibilidades.

Nova pausa. Como essa fora um pouco mais demorada, entrei na história perguntando detalhes desses encontros. Ele não demorou muito para descrever os assuntos, os sorrisos, as lembranças de outros tempos em que eram próximos e distantes. As mudanças no corpo. As profissões que abraçaram. Jovens ainda, mas repletos de histórias. Toda a narrativa parecia promissora. E eu ainda não havia entendido o ocorrido. E perguntei sobre a tal da delicadeza em excesso e o tal do arranhão.

– Depois de três semanas em que sorrisos não nos abandonavam, em que pensamentos já traziam prazer, em que nos reencontramos, ela simplesmente me disse que era melhor dar um tempo.

Eu fazia um outro comentário para ajudar na narrativa. Apenas isso.

– Um tempo? Depois de tanto tempo? Depois de tão pouco tempo?

Foi o que ele disse. O “depois de tanto tempo” referia-se ao longo tempo em que não se viram. “O pouco tempo” era sobre o tempo do reencontro.

Mas o que isso tem a ver com a delicadeza?

– Quando não sou carinhoso, não sou gentil, parece que as mulheres me valorizam  mais. São elas que se esforçam por mim. E eu confesso que, geralmente, fico incomodado. E elas reclamam da minha frieza ou da forma com que descarto uma relação que, para mim, nem havia se iniciado. Agora, quando faço tudo certo, ela faz isso comigo.

A conversa prosseguiu. Vale a pena fazer tudo certo? Vale a pena amar mesmo quando o amor não é correspondido? Tentei fazê-lo enxergar a beleza do movimento do amor. Que é delicado. Que é respeitoso. Que é cuidadoso. Se o outro não correspondeu, é problema do outro. Entender as razões para não enlaçar as vidas nem sempre é possível.

Haverá outras possibilidades. Certamente, haverá. E o aprendizado não deve ser o de não ser delicado com o amor. Será ruim se as desconfianças construírem armaduras. Amores pisam nus nos solos da entrega. Leves. Dispostos a construções e desconstruções. A pleonasmos e até paradoxos. Quem entende?

Será que ela tinha outro? Será que ela teve medo de um passado em que faltou correspondência? Quem sabe? Perder tempo em excesso tentando entender é desperdiçar o tempo de entender que o amor não tem muito explicação. A explicação que me coube é que as delicadezas do amor são sempre bem-vindas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/03/2016

Barulho de chuva

O silêncio afina as nossas emoções e nos traz imagens que nos servem de alimento. Era o silêncio e havia chuva. Eu estava na casa de uma amiga. Fui ao banheiro e quando voltei ela estava de olhos fechados. Achei que ela havia adormecido e sentei-me com cuidado para não fazer barulho. Decidi esperar um pouco para ver se ela acordaria ou, então, eu deixaria um bilhete. 

“Está ouvindo o barulho da chuva”?

“Pensei que você estivesse dormindo”.

“Não. Eu gosto de fechar os olhos para ouvir melhor o barulho da chuva”.

 Essa minha amiga é escritora. Uma senhora escritora. Começamos a discorrer sobre barulhos e sobre o silêncio. O silêncio é depositário de melodias. De singelas melodias. De melodias que nos embalam e que nos preparam para os barulhos. Não podemos evitá-los. Podemos, entretanto, impedir que eles nos desgastem mais do que o necessário. Desperdiçamos a musicalidade do silêncio. Os seus segredos sussurrados. As suas recordações. Disse-me ela de Fernando Pessoa: “Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva não faz ruído senão com sossego. Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva do que não sabe, o sentimento é cego. Chove. Meu ser (quem sou) renego…Tão calma é a chuva que se solta no ar (Nem parece de nuvens) que parece que não é chuva, mas um sussurrar que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece. Chove. Nada apetece…”

O sussurro das chuvas sempre esteve presente. Seu barulho ritmado. Reaprender a ouvir o seu canto é recordar de momentos que se foram, mas que nos fizeram bem. Fiquei me lembrando da primeira casa em que vivi. E das chuvas. E dos medos quando o trovão desafiava o silêncio. Das lendas que me contavam. Ela me disse de outras. Vive há muito mais tempo do que eu. Tem mais histórias. Tarde agradável aquela. Chovia lá fora e nos aquecíamos com prosa e com silêncio no cômodo que escolhemos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/03/2016

Cecília e a arte de ser bondosa

Cecília quer ser cantora. É o que ela mesma me disse. Cantora e defensora das crianças. Ela conhece muitas que sofrem muito. Cecília tem 4 anos de idade.

Era um evento em uma escola para falar do combate ao mosquito Aedes aegypti.  Houve apresentação de teatro para explicar os riscos de não combater possíveis criadouros. Houve distribuição de cartilhas. Muitas explicações foram dadas sobre o que cada um pode fazer para proteger a vida, a saúde das pessoas. Mas foi Cecília quem mais me chamou a atenção.

Disse ela: “Eu nasci bonita, feliz e com saúde. Meu irmão também tem esse direito”. Com a voz decidida prosseguiu: “Água parada não pode. Não pode”, insistiu.

As atividades prosseguiam e eu fiquei reparando em Cecília. Ela conversou comigo, falou dos problemas do mundo. Explicou que as crianças não podem apanhar dos pais. E que os pais que bebem são os que mais batem. E que bebida não é coisa boa. Falou dos alunos que não obedecem aos professores. E explicou que faltou a eles a educação de casa. Ela ia dizendo e dizendo e a professora ao lado olhava com orgulho para a aluna. Eu queria saber mais. Perguntei sobre os seus pais. Ela disse que a mãe estava chegando e que o pai não vivia com elas. “Fez a sua escolha”, ela disse. E não faz tanto tempo assim. Mas ela compreende. Quem precisa da sua força é a mãe, que é linda, fez questão de frisar.

 E a mãe chegou e Cecília foi correndo ao seu encontro. E a trouxe para me conhecer. A mãe espera um filho. Está quase chegando. Cecília beija a barriga grande e me explica que também nasceu dali. E que por isso ela está preocupada com as famílias que não tomam conta do próprio quintal. O irmão tem que nascer com saúde. Perguntei sobre o nome e ela mesma respondeu: “Francisco”. E me explicou que gosta muito do santo que gostava dos animais.

Enquanto falava, ficava abraçada à perna da mãe. A mãe a acariciava nos cabelos. Olhei aquela fotografia. Fiquei imaginando a partida do pai. Elas pouco falaram sobre isso a não ser a explicação de Cecília, “ele fez a sua escolha”.

A mãe me disse que o filho deve nascer em alguns dias. E que está muito feliz apesar dos problemas. “Quem não tem problemas?”, completou Cecília.

Eu elogiei a menina e a mãe me disse que ela educava a filha com uma única preocupação, “que ela seja bondosa”. E continuou dizendo que o resto era mais fácil. As conquistas na vida dependem de esforço, de compreensão, de pessoas que aparecem e nos ajudam porque são boas. A mãe elogiou a escola e a professora. A professora falou do prazer de ter alunos e alunas como a Cecília.

Essa narrativa pode até parecer ingênua. Todo mundo feliz com o que faz. Não. A vida é dura e nos deparamos com pessoas ruins o tempo todo. Há muita mentira, agressividade, violência. Não é à toa que Cecília disse que crianças não podem apanhar dos pais. Ela deve saber de histórias assim e conviver com crianças que, desde cedo, tropeçam nos tropeços dos adultos. Ela já sabe dos riscos das drogas. Tudo isso aos 4 anos. Porque tem uma mãe ciosa de suas responsabilidades. Que também experimentou a partida de um amor. Mas nem por isso fechou as janelas da alegria. Cecília, Francisco e Maria. Maria é a mãe. “E que mãe!”, explicou a professora.

Cecília,  na sua tenra idade, deu a bonita explicação para cuidar dos quintais. As crianças têm direito à beleza, à saúde, à felicidade. Nos nossos quintais não deve haver agua parada por causa do mosquito, mas nos nossos quintais também não deve haver lixos que colocam em risco o nosso futuro. Lixos produzidos pelo nosso comportamento e pelo nosso pouco apreço pela vida. Limpemos os nossos quintais, e os jardins da entrada serão mais acolhedores para pessoas boas que ainda existem por aí.  

Quem sabe um dia encontremos Cecília cantando nos palcos da vida. Cantando e defendendo o direito das crianças.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/02/2016

Gentileza gera gentileza

Já houve um poeta chamado Gentileza. Um poeta das ruas do Rio de Janeiro cuja história virou música de Gonzaguinha, Marisa Monte e de tantos outros artistas. Suas frases ficaram famosas. Gentileza era o mote do texto de sua vida.  Quando menino, ele trabalhava puxando uma carroça. Aprendeu a amansar os burros para o transporte de carga. Já nas ruas, como profeta Gentileza, dizia ele ser um “amansador dos burros homens da cidade que não tinham esclarecimento”. 

Por que os “burros homens da cidade” não percebem que a vida com gentileza fica muito melhor? As pessoas se acotovelam por espaços, desrespeitando o outro. Enxergam pouco. Esforçam-se pouco quando o assunto é ceder a vez. Cenas cotidianas mostram estresse no trânsito, nos transportes públicos, nas calçadas, em pontos comerciais e até nas igrejas. Por que é tão difícil perceber que “gentileza gera gentileza”? Alguns podem responder que a vida é dura. Que Drummond tinha razão. Que há sempre uma pedra no meio do caminho. E que tal imaginarmos um caminho no meio da pedra? Um caminho de gentileza?

 Ainda é possível encontrar pessoas gentis. Elas são inspiradoras. Quando as encontramos, ficamos felizes. Porque nos tratam bem. Porque nos acolhem. Porque nos enxergam. Não seria inteligente fazer a mesma coisa, seguir o exemplo do profeta que andarilhava oferecendo palavras de bondade, de amor? Naturalmente, essas pessoas gentis se sentem bem por assim agirem. “Gentileza gera gentileza”. Em uma fila de banco ou em um banco na praça. Na entrada de um ônibus ou na saída de um show. No caixa da padaria ou na caixa de papelão em uma calçada que abriga alguém como o poeta Gentileza, andador das ruas. Aos pais, uma sugestão: “gentileza gera gentileza”. Aos professores, a mesma sugestão “gentileza gera gentileza” e também aos cidadãos todos, para que não se esqueçam de que “gentileza gera gentileza”. Como dizia o poeta gentil “Amor, palavra que liberta”. Não economizemos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/02/2016

E por falar em amor

“Eu já disse que te amo?”.  Foi essa a frase que deu início ao esfriamento do amor. Quem disse foi um homem apaixonado por uma mulher. Ela respondeu. “Eu também te amo”.

Poderia ter terminado assim. Poderiam ter aproveitado o enlevo da poética das frases e iniciado outros escritos. Mas ele, inseguro, prosseguiu: “Eu sei que você não me ama como eu te amo. Eu sei que sempre, em uma relação, um ama mais do que o outro”. Ela ficou ouvindo e não disse nada. Ele continuou: “Por que você não disse nada? Porque concorda comigo, não é?” Ela disse: “É você quem está dizendo, meu amor!” Ele não se satisfez: “Esse ‘meu amor’ não foi natural, foi forçado. Eu te conheço bem”.

Ela tentou dizer alguma coisa, mas a ânsia das teorias dele não lhe deu espaço, e ele pontificou: “Eu sei que, na vida, a gente só tem um grande amor. E eu sei quem foi o seu grande amor. E sei que não fui eu. Já, no meu caso, você é meu grande amor. É por isso que eu não te cobro nada. Nada. Eu entendo isso”. Ela respondeu: “Nossa, você tem muitas certezas, e isso me sufoca um pouco”.

 A conversa continuou.  Terá a relação sobrevivido? Por que sabotamos instantes preciosos de nossa vida? Por que sabotamos a felicidade? Por que buscamos problemas quando tudo parece bem?

Poderíamos pensar que, se essa mulher fosse mais enfática na resposta, talvez ele se aquietasse. Se ela dissesse que era ele o seu grande amor, o problema teria sido resolvido. Mas por que ela é obrigada a dizer o que ele decidiu ser o texto adequado para se provar que há amor? Por que ele pode ter teorias robustas sobre “amor único”? Por que ele a conhece mais do que ela mesma?

Há histórias que findam por sufocamento. Um dos dois não consegue sentir saudade, porque o outro não deixa. Os desejos vão se realizando sem esforço algum e, sem esforço algum, perdem a razão de existir. E o cotidiano que poderia ser desafiador torna-se indesejado.

Uma história de amor é sempre um desafio porque não controlamos os sentimentos dos outros nem os nossos. Não temos esse poder. E nos enganamos com frequência. Misturamos amor com obsessão. Lemos sinais que não existem. E, por outro lado, desistimos do que não precisaríamos desistir com medo do fracasso. Com medo de que o amor já tenho ido embora. E o amor estava ali, do seu jeito, por vezes um pouco tímido, mas ali. 

Buscar pessoas perfeitas nos leva ao solitário mundo das esperas. Não que não se possa cultivar o amor dos amigos, das ideias, dos sonhos comuns. Há muitos que se realizam assim. Mas aos que buscam uma alma para serenar a sua, é preciso compreender que o amor idealizado, como diz o nome, mora no mundo das ideias. A pele que vemos é frequentada por cicatrizes e queimaduras, tem saliências e tons que nem sempre são os mesmos. Ou nos apaixonamos por ela ou é melhor folhear rostos em livros, cujas expressão e espessura não mudarão.

A resposta ao “eu te amo” foi o que aquela mulher pode dar aquele homem. Do seu jeito. Com o seu tom. Banhado com o olhar que ela possuía no momento. Era isso que ele poderia desfrutar em vez de se lambuzar em dúvidas desnecessárias. “Será que ela me amará amanhã?” Era o que o angustiava. Quem é o dono do amanhã? Quem sabe quem deixará de amar primeiro? 

Regras não há. Quem entra nas águas do amor sabe do risco que corre, mas sabe das sensações únicas que esses banhos proporcionam. Nada, sem nada garantir. O instante vale, aos nadadores, prazeres especiais.  E se um dos dois sair primeiro das águas, o tempo haverá de secar o necessário. E se houver um pouco de coragem, quem sabe surja outro amor para mais um banho! Sem comparações. Bocas abertas para muitos dizeres atrapalham as braçadas dos nadadores. E, nessas águas, afogamentos não são bem-vindos.

“Eu te amo”  é nobre demais para ser desperdiçado.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/02/2016

Começar e Terminar

Os tempos rápidos em que vivemos ampliam uma angústia que é comum nos jovens. Cobranças de resultados. Na família. Na escola. Nas primeiras atividades profissionais. As razões são muitas.

Medo de não dar certo. De fracassar. De ter feito a escolha errada. Isso faz com que muitos pulem de galho em galho sem antes experimentar o fruto que há naquela ocupação. Assim, também, nos namoros e nas relações afetivas. Tudo muito descartável. Tudo aligeirado pelo tempo do agora. Do online. Do imediato. Do instantâneo.

 Começa-se um trabalho, em um escritório, e já se está pronto para novas empreitadas. Não há mais o tempo da permanência. Não há mais o tempo da aderência. Começa-se um curso de  inglês e, depois, muda-se para o espanhol ou mandarim sem concluir nenhum deles. Alguém disse que o mercado está buscando profissionais que tenham o domínio do mandarim? Então, o melhor a fazer é abandonar o inglês ou o alemão ou o francês. E se outra informação, em sentido contrário, vem muda-se novamente. Uma nova língua precisa de um tempo para ser assimilada. Um emprego, também. E, assim, com os cursos. É preciso terminar o que se começa. Cumprir um ciclo. Realizar um trajeto cognitivo, social e afetivo nas aprendizagens que nos propomos a absorver.

Quantos se matriculam em academias de ginástica, pagam o ano inteiro e desistem no início? Quantos iniciam um curso universitário e, depois, pedem transferência para outro ou abandonam? Quantos desistem de um amor porque não dão chance ao tempo de desvelamento do outro? Sentem-se frustrados, apressadamente, porque não era exatamente o que imaginavam! Calma. É preciso de tempo para se saber. Em todas as áreas, haverá prazeres e desgostos. É preciso estar preparado para o penoso e prosseguir. Depois das inclinações, há tempos para contemplação. O cenário que se vê, de cima do topo das nossas vocações, há de compensar o esforço. E surpreender.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/02/2016

Professores inesquecíveis

“Enfim, acabaram as férias”. Foi com essas palavras que minha professora, na escola pública de Cachoeira Paulista, iniciou mais um ano letivo. “Enfim, acabaram as férias”. Só isso já desenharia, em nossos olhares, uma obra de arte acolhedora. Ela gostava de estar ali. Gostava de ser nossa professora. Dizia isso sem apelos, sem exageros. Ela não trabalhava aguardando as férias ou finais de semana ou feriados. Gostava deles, naturalmente. É bom descansar. Bom e necessário. É bom viajar. Mas o melhor é exercer o ofício que se escolheu e que se compreende ser um instrumento para a melhoria do mundo. Ela, definitivamente, gostava de ser professora. E isso faz toda diferença.

As aulas estão começando. Os alunos vão entrando pelas salas e preenchendo, um a um, o mundo de possibilidades que esses espaços abraçam. Há escolas com mais ou menos tecnologia. Com espaços maiores ou menores para práticas esportivas ou culturais. Há escolas modestas e outras abastadas. Há algumas que ficam em grandes cidades e que possuem muitos alunos. Há outras, em cantos menores, com pouca gente. Em todas elas, há um professor. 

 Os espaços precisam ser acolhedores. A boa escola se prepara para receber os alunos. Sabe da importância estética do lugar que se frequenta buscando o novo. Espaços limpos. Frases tocantes. Ditos de entusiasmo na chegada. Como é bom chegar a algum lugar e se saber esperado, querido. Como é bom alguém nos olhar e dizer com palavras ou gestos: “Que bom que você está aqui!”, “Que bom que você existe!”, “Que bom que você me dará trabalho!” – pois foi essa a minha escolha.

Os inícios são fundamentais para o que virá depois. A autoridade do professor vai se construindo a partir do primeiro dia. Do primeiro encontro. Das primeiras atitudes. O aluno precisa se sentir seguro de que há alguém disposto a gastar com ele um pouco da própria vida para que sua vida ganhe mais significado. A atitude do educador haverá de preencher espaços essenciais da vida dos aprendizes.

Lembro-me de que, diretor de escola e iniciante, dei uma palestra aos professores da minha escola. Talvez por insegurança quis mostrar muito conteúdo. Falei de escolas pedagógicas na história e em outros países. Desfilei o que sabia para mostrar que a pouca idade não era um impedimento para que eu estivesse naquela posição. Quando terminei, uma professora mais experiente disse que havia gostado muito do que eu havia dito, mas que gostaria de dar uma modesta contribuição para outras falas. “É preciso dizer aos professores que digam ‘bom dia’, ‘boa tarde’. Que se apresentem com humildade, que prestem atenção aos alunos, que mostrem a eles o quanto é importante  estarem juntos, aprendendo”. Eu agradeci, mas disse que isso eles sabiam, que era óbvio. Ela insistiu: “É preciso dizer o óbvio; as pessoas se esquecem do que sabem ou deveriam saber”. Fiquei pensando na experiência daquela professora. Há algo que vai além dos conteúdos e que é tão ou mais importante do que eles, a atitude de quem educa.

Se revisitarmos o baú de nossas recordações, o baú afetivo do qual apenas nós temos as chaves, encontraremos, certamente, alguns professores. Talvez seja um bom exercício nos perguntarmos a razão de eles estarem ali. O que fizeram para serem professores inesquecíveis. Quais eram as suas atitudes. Essa é uma boa escola para nós que estamos nas salas de aula ensinando. Olharmos para trás e tentarmos compreender as lições do que permanece. Há professores que tropeçam nas tentativas insanas de ensinar passando o máximo de informações possível. Informações, há em toda parte. Professores, não. Os alunos terão caminhos para dirimir dúvidas sobre conteúdos, mas os exemplos dos seus professores só se encontram nos seus professores. Exemplos que ajudam a forjar o caráter, a perseguir o caminho reto, a ter apreço pela ética, pelo respeito, a compreender as diferenças, a exercer a generosidade como um mandamento de vida, a ter sonhos e persegui-los.

Educar para os valores faz toda diferença. Aquela antiga professora me dizia isso. É bom ter um repertório sofisticado, ter conhecimento, ter estudo, ter preparo, mas é melhor ainda ter tudo isso e tocar na alma das pessoas. Com leveza. Com simplicidade. Com um “bom dia” que significa muito, que significa tudo.

“Enfim, acabaram as férias”. Depois dessa frase, ela disse outras na mesma direção. “É uma honra ser professora de vocês. Será um ano muito bom. Vamos aprender juntos. Vocês vão ver como é bom aprender coisas novas. Quero começar contando uma história. Uma história que eu aprendi com uma professora quando tinha a idade de vocês e que eu nunca mais esqueci. A história de um menino que achava que não ia conseguir aprender…”.

Pronto. Já revisitei meu baú de recordações. Já posso entrar na sala de aula e encontrar meus novos alunos. Estou feliz por conhecê-los. Farão parte da minha vida neste novo ano e, certamente, permanecerão…

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/02/2016

O aprendizado das “cinzas”

A quarta-feira de cinzas tem um significado especial no calendário litúrgico. Ela inaugura o tempo da Quaresma, o tempo de preparação para a Páscoa. Na celebração, o sacerdote diz, enquanto faz um sinal da cruz com as cinzas nas testas dos fiéis: “Lembra-te que és pós e que ao pó voltarás”.

As cinzas nos trazem um aprendizado essencial. A humildade. A consciência de que não temos o direito de nos sentirmos superiores a ninguém. Viemos e voltaremos, sem levarmos bens ou glórias. Toda nossa aparente força ou poder se vai no instante em que os nossos órgãos vitais deixarem de nos sustentar. Uma doença. Um acidente. Uma queda. Mais ou menos jovens. Em dias chuvosos ou ensolarados. Depois de alguma incursão triste ou feliz. Partiremos. E não há poder que nos faça prosseguir nesta vida. Podemos cuidar e prolongar nossa permanência. Mas, um dia, voltaremos ao pó.

 Essa certeza deveria nos ajudar a viver melhor. A saber que excessos não contribuem para uma jornada mais feliz. A não desperdiçamos tempo ou forças com nada que nos prenda. O pó é tão livre que escapa sem muito esforço de nossas mãos e vai ao sabor do vento, quando há vento. Os ventos não nos fragilizam quando sabemos nos deixar levar. Choramos nossos mortos. Sentimos as despedidas, mesmo sabendo que a regra é esta. Partir. E partir sem nada. Sem nada material. O que podemos é partir com o acúmulo de amores, de felicidades construídas na generosidade das convivências. Mas partir. Como as cinzas. Sem nada.

Todas as vezes em que me pego envolto em preocupações exageradas, em problemas que com o tempo não serão nada, cinzas talvez, tento me convencer desses ditos. Dessas celebrações que me embalam para errar menos e me preparar mais para o que acredito. Somos cinza e, ao mesmo tempo, somos amor. Sobre isso, já escrevi: “Matérias-primas de que somos feitos são duas, paradoxalmente duas: pó e amor! O pó nos iguala. O amor nos identifica.”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/02/2016

É mais um carnaval

Há tantas canções que nos embalam nesses dias de folia. Há algumas, de antigamente, que nos trazem nostalgia. De velhos carnavais. De amores que se foram. De sonhos esmaecidos. De inocências que, talvez, tenhamos perdido.

Blocos de rua, escolas de samba, clubes, brincadeiras de criança. Fantasias. Passávamos um mês em torno da fantasia. Os tempos vão mudando. Os significados  da alegria, também. 

 Lembro-me dos meus carnavais do interior. Do desejo de ficar adulto logo para entrar no clube à noite. Crianças frequentavam as matinês. Há uma idade em que não somos crianças  nem adultos. E toda a ebulição nos leva a querer antecipar o tempo. Há outros tempos em que, se pudéssemos, pararíamos ou, ao  menos, pediríamos que passasse mais lentamente. Não temos esse poder. Mas essa é uma outra história.

Lembro-me da primeira vez que, na cidade grande, vi um desfile inteiro de escolas de samba. E desde a primeira vez, fiquei impressionado com a capacidade de contarem, na avenida, a história de alguém ou de alguéns. De um tema. De um lugar. De uma época. E os foliões tomando a avenida e fazendo parte de um dos mais belos espetáculos da terra. 

Gosto das músicas antigas de carnaval. Talvez porque me tragam recordações de pessoas e momentos que não voltam mais. Volta-me a alegria da infância, a inquietude menina que ansiava pelos 4 dias de festa na cidade. Mas gosto também das atuais. É preciso compreender o belo, nos tempos diversos, e aceitar as novas formas de fazer arte. Gosto da alegria dos foliões. E este ano São Paulo vive um lindo carnaval. Até aqui, este domingo, poucas histórias de violência e muitas narrativas de blocos, tomando a cidade. A alegria, lentamente, parece emudecer a dor. Talvez. Brincar é a lei. Afinal, hoje é carnaval! “Ó, quanto riso. Ó quanta alegria!”, descreve a canção. 

E a metrópole se colore, tomada pelas pessoas. Com responsabilidade. Com pertencimento. Acompanhei alguns blocos. Vi jovens de todas as idades cantando, dançando , sambando – quem diz que paulista não samba? Samba, sim!

É bonito de se ver avenidas inteiras povoada pelas gentes que querem quebrar os concretos com gingas de alegria. A pauliceia desvairada não é só do trabalho. Mas o carnaval, também, gera muito trabalho. O que é bom. O que nos ajuda. Olhar o turismo como grande potencial de emprego e renda é fundamental para todo governante.

Alguns lamurientos criticam essa alegria toda, dizendo que depois tudo volta ao normal. E que, em tempos de crise, não faz sentido celebrar nada. Discordo. Venceremos as crises trabalhando e celebrando. Convivendo, enfim. E o carnaval pode nos ensinar a vencer a sisudez com algum charme especial. Com algum bloco de otimismo. Com alguma escola da criatividade. Com algum gole de esperança.

Antigos ou novos carnavais são uma oportunidade a mais para expressar o prazer de viver. Os exageros são ruins. Drogas.  Bebidas em excesso. Desrespeitos aos desejos do outro. Atrevimentos deselegantes. Tirando esses desvios, o desfile é bom. 

É mais um carnaval. Talvez uma nova oportunidade para aprender o canto da alegria. Alegria que só é possível quando palhaços, colombinas, pierrôs e tantos outros se encontram longe das perversidades. Quando o riso sincero se apresenta e convida outros risos para celebrar.

¨Vai passar nessa avenida o samba popular. Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar¨ . E assim vai…

Bom carnaval.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/02/2016