Um amigo trouxe-me esta sua história depois de ler o meu artigo, no domingo passado, no Diário de São Paulo, que falava também sobre o amor. Começou a conversa em tom de confissão.
– Eu preciso desabafar. Fui delicado demais e me arranhei.
Eu quis entender o que houve.
– Eu a conheci e a respeitei.
Dizia e dava alguma pausa como se quisesse escarafunchar, em alguma razão, a razão que não encontrava. Ou isso ou a tentativa de amenizar os incômodos para me incomodar menos.
Eu não estava incomodado. Estava atento. Não reclamo do privilégio de ouvir histórias. Ao contrário, gosto de ouvi-las e me interesso por elas. E, também, por quem as diz. As ricas prosas que nos tomam em esquinas que frequentamos. As histórias que se repetem e são sempre únicas. O tempo atemporal e universal do amor. E das dores que o acompanham.
– Eu a conheci há muito tempo. Nunca mais nos vimos e faz algumas semanas que nos reencontramos.
Mais uma pausa.
– Ela estava muito diferente. Virou uma mulher. Como eu não reparei antes? Talvez seja isso. Talvez ela tivesse algum interesse por mim, naquela época, e eu não percebi. Sempre fui desatento. Ou, então, ela pode ter um namorado. Estavam brigados. Empolgou-se comigo e depois a briga passou. Quem sabe?!
Histórias de amor têm licença poética para serem entrecortadas. Eu ficava caçando sentido nas palavras que ele jogava. Não queria insistir em um enredo certeiro, que respeitasse os acontecimentos no tempo para facilitar a compreensão. Deixei que as palavras pululassem como pululava o seu sentir.
– Eu a convidei para jantar algumas vezes. Jantar romântico. Levei flores uma vez. Na outra, descobri o restaurante de que ela gostava. Levei-a de carro até sua cidade. E voltei na mesma noite. Estava cansado, mas o meu interesse em surpreendê-la era mais forte do que o desejo do descanso. Foram dias exitosos, julgo eu. E ela demonstrava interesse. E respondia às mensagens alimentando-me de possibilidades.
Nova pausa. Como essa fora um pouco mais demorada, entrei na história perguntando detalhes desses encontros. Ele não demorou muito para descrever os assuntos, os sorrisos, as lembranças de outros tempos em que eram próximos e distantes. As mudanças no corpo. As profissões que abraçaram. Jovens ainda, mas repletos de histórias. Toda a narrativa parecia promissora. E eu ainda não havia entendido o ocorrido. E perguntei sobre a tal da delicadeza em excesso e o tal do arranhão.
– Depois de três semanas em que sorrisos não nos abandonavam, em que pensamentos já traziam prazer, em que nos reencontramos, ela simplesmente me disse que era melhor dar um tempo.
Eu fazia um outro comentário para ajudar na narrativa. Apenas isso.
– Um tempo? Depois de tanto tempo? Depois de tão pouco tempo?
Foi o que ele disse. O “depois de tanto tempo” referia-se ao longo tempo em que não se viram. “O pouco tempo” era sobre o tempo do reencontro.
Mas o que isso tem a ver com a delicadeza?
– Quando não sou carinhoso, não sou gentil, parece que as mulheres me valorizam mais. São elas que se esforçam por mim. E eu confesso que, geralmente, fico incomodado. E elas reclamam da minha frieza ou da forma com que descarto uma relação que, para mim, nem havia se iniciado. Agora, quando faço tudo certo, ela faz isso comigo.
A conversa prosseguiu. Vale a pena fazer tudo certo? Vale a pena amar mesmo quando o amor não é correspondido? Tentei fazê-lo enxergar a beleza do movimento do amor. Que é delicado. Que é respeitoso. Que é cuidadoso. Se o outro não correspondeu, é problema do outro. Entender as razões para não enlaçar as vidas nem sempre é possível.
Haverá outras possibilidades. Certamente, haverá. E o aprendizado não deve ser o de não ser delicado com o amor. Será ruim se as desconfianças construírem armaduras. Amores pisam nus nos solos da entrega. Leves. Dispostos a construções e desconstruções. A pleonasmos e até paradoxos. Quem entende?
Será que ela tinha outro? Será que ela teve medo de um passado em que faltou correspondência? Quem sabe? Perder tempo em excesso tentando entender é desperdiçar o tempo de entender que o amor não tem muito explicação. A explicação que me coube é que as delicadezas do amor são sempre bem-vindas.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/03/2016