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Os reis e o rei

A tradição da festa de reis é antiga. Há países, no Oriente, em que a troca de presentes se dá no dia de reis e não no natal, porque foi nesse dia que o Menino Jesus recebeu os presentes carregados de simbolismo: o ouro, o incenso e a mirra.
Quem eram esses reis?  Seus nomes eram Belchior, Baltazar e Gaspar. Vieram do Oriente. Dentro deles, havia sonhos. Não se sabe muito sobre os seus povos, os seus reinados, sabe-se que, guiados por uma estrela, perseguiam eles a esperança.
Esses reis do Oriente se encontraram com um outro rei, Herodes. Quem era esse rei? Fraco, medroso, cruel, perverso. Herodes, quando soube que os reis vieram adorar um Menino e que esse Menino não pertencia a sua família e que aquele desconhecido poderia colocar em risco o seu poder, resolveu matar o Menino.
Disse aos reis que, se encontrassem o Menino, lhes comunicassem porque também ele queria prestar sua homenagem. Eis outras características de Herodes: dissimulado, falso, mentiroso.

 Esse encontro é muito significativo. Ele se repete nos nossos dias. Esqueçamos a coroa. Falemos de pessoas.
Quantas são aquelas que vibram pela novidade de alguém que traz alguma boa nova, uma boa notícia? E quantas gostariam de eliminar aquela boa notícia porque não advém de seu poder, e temem que outros o roubem? Quantas têm a generosidade de vibrar pelo sucesso do outro e quantos se incomodam com isso? Quantos aplaudem e quantos buscam apequenar?

Esses sentimentos, os bons e os ruins, vivem com a gente. É melhor saber cultivar os que, de fato, nos elevam. O tempo é um bom juiz. O que diz a história sobre Herodes? A estrela que guiou aqueles reis ainda existe. Mora alto, não nas baixezas dos falsos poderes, mas na simplicidade, na generosidade de quem acredita que um Menino bom nasce todos os dias para nos lembrar de que ser bom ainda é o melhor reinado.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/01/2016

Agradecer

É início de mais um ano.

As culturas diferentes propõem diferentes comemorações.

Celebramos rituais desejando ter um ano melhor. O ano velho já se foi. Agora, é o ano novo que nos desafia. É isso o que dizem.

Mas é bom olhar para trás e agradecer.

Permitam-me, neste primeiro domingo do ano, fazer alguns agradecimentos a vocês que me dão a honra de ler histórias e ideias que escrevo por aqui.

2015 foi um ano muito bom.

 Agradeço o privilégio de escrever duas vezes por semana no Diário de São Paulo.

Agradeço a toda equipe do Jornal.

Agradeço a Rede Vida de Televisão pelo meu programa. É bom entrar na casa das pessoas e conversar com elas. E saber que, modestamente, podemos contribuir para que elas sejam mais felizes.

Nesse ano, lancei 5 novos livros, a coleção “Filosofia e Vida” para crianças.

Lancei o meu primeiro livro traduzido para o árabe, “Sócrates e Tomas More – correspondências imaginárias”.

Tive a honra de ser um dos escritores convidados para escrever uma carta a Deus na obra “CARTAS A DIOS DESDE AMÉRICA LATINA”, de CÁRITAS AMÉRICA LATINA Y EL CARIBE.

Vivi a emoção de ter duas peças minhas em cartaz. Uma, no Rio de Janeiro, a adaptação de um conto meu chamado “O menino que queria ver o sol”, e a outra, em São Paulo, “O Semeador”, dirigido pelo competente Hudson Glauber e que teve as atuações impecáveis de Genézio de Barros e Thiago Mendonça.

Nesse ano, recebi o convite do prefeito Fernando Haddad para ser secretário da educação do Município de São Paulo. Cargo que já foi ocupado, além de outros grandes nomes, por Paulo Freire. Percorri a cidade ouvindo e aprendendo com os professores, dialogando com pais e alunos, trabalhando por uma educação melhor. Conseguimos quase 40 mil novas vagas de creches. O número é surpreendente. 40 mil crianças que estavam fora das escolas agora podem estudar. E não descansaremos enquanto não tivermos condições de cuidar de todas. Criamos programas significativos como o “Na mesma mesma” em que professores e alunos partilham juntos a refeição e o “Canta São Paulo” que traz a música para todas as escolas da rede municipal. Construímos juntos um currículo de tempo integral. Mais de 100 escolas (entre EMEFs e EMEIs ) serão de tempo integral neste novo ano. Há muito a se fazer para melhorar a educação, e o único caminho é um agir coletivo, democrático,.

Na Academia Paulista de Letras, conseguimos, com vários outros parceiros, criar o EMIL  – Encontro Mundial de Invenção Literária,  com mais de 200 horas de programação em 4 dias com 120 escritores de quatro continentes.

Agradeço aos amigos que partilharam comigo esses e outros projetos. Nada é possível se não caminharmos de mãos dadas. Para um programa ir ao ar, é preciso tanta gente. Para um livro ser feito, também. Para construirmos projetos, são reuniões e equipes e debates e sonhos se realizando.

Também tive dias difíceis nesse ano. Os perversos são incansáveis. Sofri mentiras que verdades já haviam enterrado. As injustiças são dolorosas. Mas estão aí. Não apenas comigo. Não sou melhor do que ninguém para  passar ao largo dos maus. Eles existem, mas continuo acreditando na bondade como decisão de vida.

Nesse ano, tive também a honra de acompanhar o prefeito Fernando Haddad em um encontro com o papa Francisco. Pude estar ao lado dele, ouvi-lo falando sobre a “globalização da indiferença” e sobre a destruição de nossa casa comum. Bebi de sua simplicidade e sabedoria. Que homem bom!

Foi um ano de amizades boas, como todos os anos. Um ano em que, por causa da secretaria de educação, viajei menos para dar palestras. Mas as que pude dar foram gratificantes. O Brasil é incrivelmente fascinante. Que honra saber que as pessoas saem de casa para me ouvir falar. E quantas. E quanto carinho.

Perdi amigos queridos nesse ano. As ausências são sempre dolorosas. Amigos que deixaram o seu legado e partiram para a eternidade.

Aprendi muito com as gentes que me surpreendem no cotidiano. Gosto de observar as pessoas, de conviver com elas, de ouvir suas histórias e suas impressões sobre o mundo.

Agradecer é um valor do qual não podemos abrir mão. É bom olharmos para trás e compreendermos os caminhos necessários para chegarmos até aqui. E os caminhantes que nos fizeram companhia. E prosseguir.

Que nesse novo ano, continuemos juntos. Sofrendo. Sorrindo. Celebrando a vida. E preenchendo o tempo com o que dá, ao tempo, significado.

Para, quem sabe, dizermos como Clarice Lispector: “Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito”.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 03/01/2016

 

Ano novo

Que seja um ano bom.

Que saibamos ressignificar gestos simples que nos trouxeram e nos trarão alegria.

Que encontremos mais razões para fincar raízes na solidez dos afetos que nos mantêm firmes.

Neste novo ano, também teremos dores, também sofreremos ausências, também choraremos as despedidas ou as emoções. Mas será diferente. Sempre é diferente.

Que estejamos mais maduros. Esse é um presente que o tempo nos dá.

 Que sejamos mais fortes depois de termos experimentado o que parecíamos não suportar. Suportamos.

Que compreendamos mais as nossas limitações. Sem perder a ânsia de voar.

A liberdade é uma experiência que precisa ser vivida todos os anos. Quebrar correntes ou gaiolas ou grades que nos prendem é essencial.

Que tenhamos a coragem de dizer palavras de amor.

Que tenhamos a delicadeza de abrir as portas de nosso recanto e convidar outros amigos para a celebração da vida.

Que tomemos a água da bondade, todos os dias, sem comedimentos.

Vencer o mal é uma necessidade que urge. Eles estarão por aí, neste novo ano, tentando roubar nossa preciosa paz. Resistamos.

Que amanheçamos decididos a caminhar, mesmo em dias de ausência de sol.

Que compreendamos os entardeceres e até agradeçamos o dia que se despede.

Que possamos dormir sonos bons e que sonhemos com cirandas de gente.

A arte pode ser uma boa companheira para resgatarmos a sensibilidade perdida. Para que encontremos prazer no ver, no sentir, no experimentar.

É mais um ano e isso importa muito.

Estamos aqui.

Permanecemos.

Permaneçamos com as boas aprendizagens e reinventemos o que for necessário para prosseguir.

Feliz 2016.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/01/2016

 

Vai dar tudo certo

Contou-me um amigo esta história. Conto-a, agora, a vocês.

Estava ele em uma farmácia, aguardando para comprar remédios. Pensava distante. Olhava para dentro de si mesmo e lamentava o diagnóstico. Teria de se medicar. Teria de mudar alguns hábitos. Seria preciso cuidar da saúde. O tempo passa e cobra o seu preço.  Pensava também em outras coisas. Na avó que estava doente e que já não reconhecia as pessoas que dela se aproximavam. Pensava em um amigo que se acidentou em uma moto e que ainda aguardava sua vez de se submeter a uma cirurgia e salvar sua perna. Problemas da saúde pública, pensava ele no calor. E tentava se lembrar em que lugar lera que esse verão será mais quente do que o outro. Sempre gostou do calor, mas, com tantos problemas, mudou de opinião.  Não havia espelhos para que visse sua expressão. Não percebera se, de fato, o seu olhar revelara alguma coisa. Foi quando uma senhora se aproximou e disse:

 

– Vai dar tudo certo.

– Como? – ele quis saber.

– Vai dar tudo certo. Às vezes, demora um pouco. Não é no nosso tempo. Mas vai dar tudo certo.

 

Ele não expressou grande reação. Olhou para aquela mulher com as pernas grossas, cheias de varizes, acima do peso, um pouco suada, e com uma beleza nos olhos de dar gosto.

 

 – Vai dar tudo certo? – ele perguntou.

– Vai sim. No fim, dá certo. É preciso apenas um pouco de paciência, filho.

 

Filho. Meu amigo não tem mãe. Tem apenas avó. Fazia muito tempo que ninguém o chamava de filho. E com aquela candura no olhar. Ficou pensando nos problemas daquela mulher. Seria bom se ela operasse as varizes. Voltou a pensar no amigo. Talvez ela também esteja em alguma fila, aguardando a sua vez.  Pensou em dizer a ela que deveria cuidar melhor da alimentação. Excesso de peso não faz bem. Ainda mais no calor. Desistiu de dizer esse texto. Nem sabe de onde tirou essa ideia.

 

– Cada um tem uma doença, filho. Às vezes, imaginamos que só nós temos problemas. Os problemas são democráticos. Pertencem a todos.

– É que uns são maiores do que os outros, a senhora não acha?

– Não sei, filho. Só sei que sempre dá certo para quem é bom. E você é bom.

– Eu sou bom? Como a senhora sabe?

– Seus olhos.

 

Roubou-me um sorriso aquela mulher. Sorri sem receios. Sorri em retribuição ao afeto. Paguei os meus remédios, abracei aquela mulher e voltei para o meu mundo. Naquele dia, pelo menos, meus pensamentos viajaram para outras paisagens.

Minha avó, que agora diz pouca coisa, dizia que nossa ansiedade faz com que soframos antes de o sofrimento chegar. É preciso aguardar. E acreditar que vai dar tudo certo. Fico pensando em quantos sofrimentos nos atingiram pelos medos dos sofrimentos que nem vieram. Quantos sorrisos desperdiçados por não conseguirmos limpar os nossos pensamentos. Vão eles se acumulando de desnecessárias preocupações. Está nos evangelhos a linda reflexão sobre as aves do céu e os lírios do campo. Não se preocupam com o amanhã. E tem o que comer e se vestem com uma beleza sem igual. Evidentemente, temos de planejar nossa vida com responsabilidade. Mas sem exageros. Sem excessos de lamentações pelo que não veio ou pelo que poderá não vir.

Agradeça e, se possível, faça como fez aquela senhora ao meu amigo na farmácia. Roube um sorriso de alguém. Ajude a retirar o cargo que pesa. Porque vai dar tudo certo. Um detalhe desde que a intenção e a ação sejam boas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/12/2015

Feliz Natal

Feliz natal para todos os que sabem o significado desse dia.

Feliz natal para os que precisam aprender e para os que nunca terão tempo de pensar sobre isso.

Feliz natal para os que já tiveram uma experiência de amor com o Menino nascido para ensinar a amar.

Feliz natal para os que nunca abriram os olhos para essas imagens.

 Feliz natal para os que sabem o valor da solidariedade e se desdobraram para ajudar alguém a ser mais feliz como um presente ao aniversariante.

Feliz natal para os que desconhecem o prazer do cuidar, do partilhar o que se é e o que se tem com quem precisa.

Feliz natal para os que caminham de mãos dadas, para os que aceitam ir mais devagar quando o outro está machucado ou precisando de descanso.

Feliz natal para os que preferem ir sozinhos, competindo o tempo todo para mostrar que são velozes e vitoriosos e perfeitos.

Feliz natal para os que veem beleza nas imperfeições e que se descobrem crescendo a cada dia.

Feliz natal para os que não entendem dessas coisas e cobram de si e dos outros que só tenham certezas.

Feliz natal para aqueles que não escondem as lágrimas e os afetos e as demonstrações de amor.

Feliz natal para os que temem borrar a maquiagem ou demonstrar alguma fraqueza.

Feliz natal para os que se assumem fracos e carentes e necessitados dos outros.

Feliz natal para os que resistem a deitar em um colo de mãe e agradecer.

Feliz natal para todos os que entoam canções de gratidão e prosseguem, independentemente das dores e das despedidas.

Feliz natal para os que emudecem e tentam emudecer os outros com o seu grito de arrogância.

Feliz natal para os que creem em Deus e no ser humano e que fazem da vida um projeto de amor.

Feliz natal para aqueles que precisam isso descobrir, se formos capazes de os convencer.

Feliz natal.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/12/2015

É quase Natal

Mais um aniversário para o Menino Jesus. Mais uma oportunidade para olhar para a manjedoura e ressignificar a vida. Vida brotada de um sopro de amor do Criador. Vida nascida de águas santas que jorram a esperança de um curso mais limpo. A natureza é prova disso. Das nascentes, prova-se água pura;  no percurso, os entulhos, as poluições, os pedaços de insanidades, vão deformando a pureza do que, antes, se bebia.

Com os homens, também é assim. Nascem as crianças e os seus entornos cuidam de roubar delas os futuros bons. Mas é mais um Natal que se aproxima. Quem sabe das lamas bolorentas de tantos ódios jorrados sem compaixão brotem algumas nascentes, miraculosas nascentes com o intuito de limpar o rio. Quem sabe nos ressignificados possíveis olhemos sem pressa para a manjedoura e nos afeiçoemos com a imagem do Amor feito menino. Menino que riu, que chorou, que surpreendeu, que se assustou, que se inspirou na carpintaria do mundo pelas mãos habilidosas de seu pai. Um bom José.

 Menino feito homem que ouviu de sua mãe, Maria, que havia acabado vinho naquela festa. Que havia acabado alegria. Sabia ela que, tudo guardava no coração, que sua missão era restabelecer a alegria. Ele fez o que devia ter feito. E surpreendeu.

Que o natal nos surpreenda. Não nas expectativas do que os outros possam trazer para as nossas vidas. Não nas esperas de milagres que limpem as águas cujas nascentes eram belas, como dissemos. Que o natal nos surpreenda pela nossa capacidade de compreender o poder que temos de dar às nossas vidas o verdadeiro sentido do natal. Uma vida que surge e que surpreende um mundo marcado por guerras, ódios, intolerâncias, perversidade. Era assim no tempo de Jesus. É assim nos nossos tempos.

Mulheres eram apedrejadas. Mulheres são apedrejadas. Mentiras eram espalhadas. Mentiras são espalhadas. Ausências de amor traziam dor. Ausências de amor trazem dor. E o mundo não compreendeu Jesus. Alguns queriam vê-Lo no poder. No tipo de poder que acreditavam. Outros O desprezaram quando mentiras foram espalhadas sobre Ele. Outros apenas assistiram sem entender o real significado da compaixão.

É mais um Natal. Tempo da alegria. Tempo do nascimento. Tempo de presentes que trazem significado. Tempo de ser presente nas ausências e de dar ao menino o presente que ele merece. 

Razões há para o pessimismo, o curso está sujo;  razões há para o desânimo, mulheres e homens não se cuidam mutuamente e o rio segue distante da nascente. Mas é Natal. Deixemos de lado o que causou estranheza e prossigamos. Lembrando a pureza da nascente, da vida brotada do Sopro do Criador, do Menino rindo e chorando, nascendo. É aniversário do Menino Jesus. Deixemos que Sua simplicidade inspire o encontro. Exageros não combinam com a manjedoura. Na receita da ceia, não pode faltar ternura; o resto é menos importante. 

Renasçamos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/12/2015

Raízes

Estou no Líbano. Terra dos meus avós. Terra tantas vezes arrasada pela ação errática dos homens. Guerras. Ódios fermentando uma massa amarga que não alimenta a ninguém. Alimento-me aqui nesses dias. De uma saudade estranha. Bonita. Encantada.

Entrei na casa em que meus avós viveram. Em Baakafra. A mais alta cidade do Líbano. Meu pai nunca esteve aqui, mas contou-me tudo o que sabia do que os seus pais contavam. As montanhas geladas da cidade que fica próxima do Cedro do Líbano. A cidade de São Charbel, o santo que optou pela bondade, pelo amor incondicional, pela experiência de ser inteiro de Deus. Do seu interior brotava Deus. Brotam inspirações desse lugar.

Meus avós precisaram partir. Partiram partidos, deixando amores por aqui. Partiram em busca de vida, e vidas foram geradas no país em que nasci. O Brasil acolheu a eles e a tantos outros que chegaram entre lágrimas e sonhos. Corajosos. Trabalhadores. Amorosos.

 Não conheci meus avós. Minha avó morreu antes de eu nascer. Meu avô só teve tempo de celebrar minha chegada e partir. Agradeceu a Deus por mais um neto e, um ano depois, foi encontrar sua amada no reino dos céus. 

O céu de Baakafra é céu de montanha. Mais puro. Mais limpo. Mais poético. 

Meu pai fez da sua vida uma poesia. Singelas eram suas palavras. Seu sofrimento não o embruteceu. Fez-se homem amoroso e semeou em nós os valores que de seus pais recebeu.

Saudade do meu pai.

Vim ao Líbano convidado para uma série de encontros educacionais, culturais e políticos. Conversas proveitosas sobre um país que investe em educação. Aqui todas as crianças estudam em escola de tempo integral e, além do árabe, aprendem inglês e francês. Aqui, eles valorizam a educação como a grande oportunidade para serem quem decidirem ser. 

Lancei meu primeiro livro em árabe. Uma editora traduziu o meu livro “Sócrates e Tomas More – correspondências imaginárias” para o árabe. Não leio árabe. Mas fiquei virando as páginas do livro como se lesse as páginas da minha história até chegar à minha raiz. Minha mãe leu a capa e chorou de emoção. Ela nasceu na Síria. Também partiu partida por ter que deixar a terra, por ter que irem busca de um porto seguro. 

Quis trazê-la comigo. Preferiu não vir. Vieram o meu irmão e meus sobrinhos. Encontrei parentes por aqui. Amigos. Experiências de acolhimento.

Os libaneses têm três características que me fascinam: a coragem, o trabalho e o amor. Amam sem economias, choram os seus ausentes e abraçam os que chegam. Servem do que têm para alimentar os seus. Trabalham como necessidade e opção. Gostam de empreender. E o fazem com coragem ímpar.

Já lancei outros livros meus em outros países. Cada um me trouxe uma emoção diferente. É uma honra. Um privilégio. Mas aqui. Aqui foi diferente. Gostaria de olhar na plateia e ver meu pai. Meu pai estava na plateia. Ouviu o que eu falei. Nesta semana, ele completaria 99 anos de vida. 

Árvore que nega raiz tem vida frágil. Tenho orgulho das minhas raízes. Dos meus antepassados. Do colo que me alimentou de esperança e que me apresentou a vida como um presente de Deus e uma missão de não deixar as páginas em branco. 

Escrevo porque assim contribuo modestamente para o mundo que acredito. Escrevo porque creio no ser humano e em uma educação que amplie a sua visão fazendo com que enxergue que o amor é mais nobre que a perversidade, que a fraternidade é mais livre que o egoísmo, que o cuidar é o exercício que nos realiza e que a saudade nos faz muito bem.

Saudade dos meus avós que não conheci, saudade do meu pai que está em mim, saudade de um tempo que poderia ser melhor se as pessoas tivessem raízes. Raízes boas. Raízes belas. Belo Cedro do Líbano.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/12/2015

Os filhos do meu filho

“Trabalho nesta escola desde menina. Já poderia me aposentar, mas quero continuar aqui, ver de perto os filhos do meu filho”. Foi assim o início da conversa com uma mulher de vassoura na mão e muita disposição para o cuidar. Ela nunca estudou. O filho estudou até o ensino médio. Casou cedo. Cedo, deixou a mulher para viver com outra. Cedo, fez-se ausente com os filhos. Cedo, partiu em uma briga que não consegui saber ao certo porque as lágrimas daquela funcionária não permitiram. Com a voz embargada, ela optou por algum silêncio. Mas, depois, prosseguiu: “O que foi, foi. Não há como refazer o passado”. Cuida agora dos netos. Dos três. Todos estudam na escola e vivem com ela. A mãe dos meninos arrumou outro companheiro e se mudou.

A funcionária não tem marido. Faleceu de doença. Não viu a morte do filho. “São maravilhosos meus netos, mas gosto de cuidar de perto, o mundo está muito hostil,  muito hostil”, insistiu.

 Eu quis conhecê-los. Dois gêmeos, uma menina e um menino e mais um com diferença de um ano, apenas. Adolescentes. Cheios de possibilidades. Educados, cumprimentaram-me e pediram uma foto.

Disseram-me rapidamente os seus sonhos. Os gêmeos querem ser médicos. “Vão cuidar de mim”, disse ela sorrindo. E o outro neto quer ser juiz de direito. “Quer corrigir as injustiças”, explicou-me a falante avó. 

O carinho daquela mulher com seus netos era enternecedor. Sabe o significado do descuido. Sente-se um pouco responsável pelos erros do filho. Da nora que partiu, não disse muito. Com os netos não quer errar. Não dá para saber tudo num encontro apenas. Pareceu-me que ali o plantio está correto. Plantios corretos florescem paisagens corretas, belas, encantadas.

Dois médicos e um juiz – sonham eles. Sonha aquela senhora que não quer se aposentar. Melhor assim. Com tanta disposição para cuidar, ela limpa sujeiras que podem roubar vida de seus netos, de outros adolescentes que ali se preparam para prosseguir.

Funcionários da limpeza, da cozinha, da secretaria também educam. Também plantam. Também preenchem espaços de aconchego.

Aconchego, é disso que precisam os que se preparam para assumir o comando. Escolas são espaços de preparação. “Volte sempre, professor, a casa é sua”. Foi assim que nos despedimos. Foi assim que ela permaneceu.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/12/2015

Para Gustavo e Matheo

Gustavo tem 11 e Matheo, 12. Dois jovens talentos da rede pública municipal de São Paulo. Tive a honra de conhecer os dois nesta semana. Recebi de presente os seus livros. Sim. São escritores. O livro de Gustavo Gomes chama-se “Meu universo” e o de Matheo Angelo, “Via Láctea e Andrômeda”.

Li os dois. Com curiosidade. Com esperança. Nos seus textos, há dizeres sérios e há experiências intrigantes para tão pouca idade. Gustavo diz que “escreve um poema por dia, para criar alegria”. O mundo anda triste demais, segundo o jovem autor. E combate a discriminação racial com  competência e convicção. Gustavo é negro e tem orgulho disso.

 

“Se por dentro somos todos iguais

Por que existir discriminação?

O que importa não é a cor da pele

Mas sim o caráter e o coração”.

 

Escreve ele sobre problemas e sorrisos, sobre família e a fugacidade da fama. Textos bem enredados:

 

“Anão de jardim

Não era brinquedo

E a rosa vermelha 

Amava em segredo

 

Mesmo nunca juntos

Foram separados

Ela para o buquê

Ele, para venda de usados.”

 

Isso tudo aos 11 anos! Esse é Gustavo, cujo sorriso faz a vida mais alegre, cujo esforço nos faz aplaudir seus educadores.

E tem Matheo. São amigos. Participam do mesmo “Clubinho poético”. Matheo escreve contos, crônicas e poesias. Gosta das galáxias. Navega pelos planetas e neles enxerga o que muitos não enxergam por aqui.

 

“Até Plutão que é um planeta anão 

Tem coração

E tem gente que não”.

 

Em outro texto, ele faz homenagem a Luiz Gonzaga. Faz poesia com a esperança. Em um pequeno conto, narra as peripécias de um menino diante do fascínio de se ver, pela primeira vez, no espelho. Descrição deliciosa de não saber quem está do outro lado. Matheo leu esse texto para uma plateia repleta de educadores no CEU Curuça. Foi aplaudido com entusiasmo. Disse de sua escrita com elegância.

Depois de ouvi-los, fiquei atento aos dizeres dos educadores sobre caminhos que precisamos percorrer para construir, pouco a pouco, uma educação que, de fato, cumpra o seu papel. Pais também puderam falar. E alunos. Eu os observava. Os dois, Gustavo e Matheo prestavam atenção a tudo. Como convém a um escritor. 

Quando falei, disse algumas coisas a eles, aos meus irmãos escritores. Disse que não seria fácil. Que muitas portas se fechariam para esse ofício de cultuar a palavra e de gestar personagens e ideias. Mas que persistissem. Também eu comecei a escrever cedo e cedo decidi que era esse o meu mundo. Escrever para alimentar de amanhãs os meus leitores. Escrever para iluminar cenas do cotidiano, escrever para partilhar minhas loucuras e sanidades, meus ditos e não ditos, meu humano jeito de teimar em humanizar os humanos.

Gustavo e Matheo e outros tantos que nascem por aí. Prossigam! Os caminhos corretos parecem mais trabalhosos, mas são os mais dignos. Em cada letra, palavra ou oração, sentimentos aquecem e enriquecem. Sejam bem-vindos. Fiquei grato de conhecê-los e grato de ler a gratidão que vocês demonstram aos mestres que lhes despertaram esse prazer pelo ler, pelo escrever.  Bravos professores, aliados de um combate honesto de um mundo que merece mais.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/12/2015

Arrume o relógio

Perguntou-me um senhor se eu sabia onde havia um relojoeiro. Disse-lhe que sabia e expliquei como chegar até ele. Agradeceu e explicou-me que, ultimamente, ninguém se preocupa em arrumar as coisas. Jogam-nas no lixo e querem novidade. O relógio que precisava de conserto era do filho. O filho queria comprar outro, e ele disse que não. “Arrume o relógio, meu filho!”.

Ouvi aquele senhor que parecia precisar de algum ouvinte. Como estava atento, ele colocou-se a falar de outros temas. Reclamava, com elegância, dos que não gostam de arrumar as coisas. “Antigamente, havia um valor afetivo em cada bem que possuíamos. Guardávamos objetos dos nossos avós, dos nossos pais com algum respeito.”

Fez gestos agradecidos pela atenção e seguiu, em passos vagarosos, rumo ao relojoeiro. Afinal, tinha um objetivo naquela manhã, quase um compromisso, arrumar um relógio.

Saí da despretensiosa prosa pensando na sua calma e no seu comedimento ao criticar a sociedade dos descartáveis em que vivemos hoje.

 Arrumar um relógio. Não. Não se tratava apenas de arrumar um relógio. Tratava-se de um olhar para os costumes, para os valores que damos às coisas. Para o tempo dispensado a recuperar um bem e não a , simplesmente, substituí-lo.

Passemos das coisas às pessoas. O que é mais fácil, arrumar uma pessoa nova e descartar a que está, em nossa opinião, estragada, ou dar-lhe a chance de consertar o que não vai bem? Arrumar pessoas é mais complexo do que arrumar relógios. Requer mais tempo. Tempo que não se mede olhando para relógios, mas para o tempo das pessoas.

Namoros são descartados com muita facilidade. Há desculpas de todas as ordens. Necessidades de conhecer outras pessoas, liberdade de curtir a vida, falta de paciência de estar na rotina do mesmo enlace. Amigos também são descartados se dão trabalho. Não há lojas que consertem amigos nem lojas que consertem relações. Não se pode deixar lá e pegar depois como se faz com um relógio. Relações são consertadas em concertos de amor. É como uma orquestra de barulhos bons que nos remete à música composta por nossas histórias comuns. Baladas tristes e alegres. Caminhos que nos fizeram desejar estar juntos. 

Descartar um amor, um amigo, um alguém, por imperfeições, demonstra desconhecimento da natureza humana. Somos imperfeitos como condição de existência. Não fosse assim, nada precisaríamos aprender. Não fosse assim, nasceríamos prontos. 

Nos relógios em que vemos as horas, contamos as que desperdiçamos com bobagens e as que usamos para cultivar os afetos que nos sinalizam os caminhos da perfeição, Somos imperfeitos em busca da perfeição. E isso é bom. É bom quando sabemos. Não apenas onde ficam os relojoeiros, mas onde ficam as aprendizagens que nos ajudam a perceber o que devemos fazer com as horas que temos para existir.

No poema “Ah! Os relógios”, roga o poeta Quintana a seus amigos:

 

Amigos, não consultem os relógios 

quando um dia eu me for de vossas vidas 

em seus fúteis problemas tão perdidas 

que até parecem mais uns necrológios… 

 

Porque o tempo é uma invenção da morte: 

não o conhece a vida – a verdadeira – 

em que basta um momento de poesia 

para nos dar a eternidade inteira. 

 

Inteira, sim, porque essa vida eterna 

somente por si mesma é dividida: 

não cabe, a cada qual, uma porção. 

 

E os Anjos entreolham-se espantados 

quando alguém – ao voltar a si da vida – 

acaso lhes indaga que horas são… 

 

(Mário Quintana, in ‘A Cor do Invisível’ )

 

Bobagem viver consultando as horas. Bobagem descartar pessoas. Farão falta. Muitas partem sem que possamos decidir. As que ficam que fiquem nos ajudando a prosseguir. Prosseguir de mãos dadas, com ou sem relógios.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/11/2015