Gustavo tem 11 e Matheo, 12. Dois jovens talentos da rede pública municipal de São Paulo. Tive a honra de conhecer os dois nesta semana. Recebi de presente os seus livros. Sim. São escritores. O livro de Gustavo Gomes chama-se “Meu universo” e o de Matheo Angelo, “Via Láctea e Andrômeda”.
Li os dois. Com curiosidade. Com esperança. Nos seus textos, há dizeres sérios e há experiências intrigantes para tão pouca idade. Gustavo diz que “escreve um poema por dia, para criar alegria”. O mundo anda triste demais, segundo o jovem autor. E combate a discriminação racial com competência e convicção. Gustavo é negro e tem orgulho disso.
“Se por dentro somos todos iguais
Por que existir discriminação?
O que importa não é a cor da pele
Mas sim o caráter e o coração”.
Escreve ele sobre problemas e sorrisos, sobre família e a fugacidade da fama. Textos bem enredados:
“Anão de jardim
Não era brinquedo
E a rosa vermelha
Amava em segredo
Mesmo nunca juntos
Foram separados
Ela para o buquê
Ele, para venda de usados.”
Isso tudo aos 11 anos! Esse é Gustavo, cujo sorriso faz a vida mais alegre, cujo esforço nos faz aplaudir seus educadores.
E tem Matheo. São amigos. Participam do mesmo “Clubinho poético”. Matheo escreve contos, crônicas e poesias. Gosta das galáxias. Navega pelos planetas e neles enxerga o que muitos não enxergam por aqui.
“Até Plutão que é um planeta anão
Tem coração
E tem gente que não”.
Em outro texto, ele faz homenagem a Luiz Gonzaga. Faz poesia com a esperança. Em um pequeno conto, narra as peripécias de um menino diante do fascínio de se ver, pela primeira vez, no espelho. Descrição deliciosa de não saber quem está do outro lado. Matheo leu esse texto para uma plateia repleta de educadores no CEU Curuça. Foi aplaudido com entusiasmo. Disse de sua escrita com elegância.
Depois de ouvi-los, fiquei atento aos dizeres dos educadores sobre caminhos que precisamos percorrer para construir, pouco a pouco, uma educação que, de fato, cumpra o seu papel. Pais também puderam falar. E alunos. Eu os observava. Os dois, Gustavo e Matheo prestavam atenção a tudo. Como convém a um escritor.
Quando falei, disse algumas coisas a eles, aos meus irmãos escritores. Disse que não seria fácil. Que muitas portas se fechariam para esse ofício de cultuar a palavra e de gestar personagens e ideias. Mas que persistissem. Também eu comecei a escrever cedo e cedo decidi que era esse o meu mundo. Escrever para alimentar de amanhãs os meus leitores. Escrever para iluminar cenas do cotidiano, escrever para partilhar minhas loucuras e sanidades, meus ditos e não ditos, meu humano jeito de teimar em humanizar os humanos.
Gustavo e Matheo e outros tantos que nascem por aí. Prossigam! Os caminhos corretos parecem mais trabalhosos, mas são os mais dignos. Em cada letra, palavra ou oração, sentimentos aquecem e enriquecem. Sejam bem-vindos. Fiquei grato de conhecê-los e grato de ler a gratidão que vocês demonstram aos mestres que lhes despertaram esse prazer pelo ler, pelo escrever. Bravos professores, aliados de um combate honesto de um mundo que merece mais.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/12/2015
