Notícias

Trocando ideias em Mauá

Nesta quarta-feira, 27 de fevereiro, Gabriel Chalita faz palestras para 1.200 educadores. Em dois momentos (10 e 15 horas), Gabriel Chalita conversa com professores, gestores escolares, coordenadores pedagógicos, supervisores e coordenadores de ensino da rede municipal de Mauá, na Grande São Paulo, no dia 27 de fevereiro.

Com o tema “Educação – construindo relações de essência e convivência”, as palestras serão realizadas no Teatro Municipal de Mauá e serão dirigidas a educadores e funcionários da rede municipal de ensino de Mauá, composta por s 36 escolas de Educação Infantil (creche e pré-escola), uma Escola de Educação Inclusiva, uma Escola de Educação de Jovens e Adultos e uma Escola de Ensino Fundamental.

Pelos caminhos do coração

PELOS CAMINHOS DO CORAÇÃO

 Josiane Benedet

Sensibilidade, respeito e afeto. É assim que Gabriel Chalita, professor, escritor e secretário de Educação do Estado de São Paulo acredita que deve ser a relação entre mestre e aprendiz. 

Autor de mais de 35 livros, entre eles Educação: a solução está no afeto e Pedagogia do amor, ambos da editora Gente, Chalita é disseminador da educação baseada em valores, ética e amor, para ele, pilares para uma educação sólida.

Em entrevista à Profissão Mestre, o secretário mostra como o ensino através do afeto pode transformar professores e alunos em seres humanos melhores. 

PM – O que é a pedagogia do amor?

GC – Uma pedagogia voltada à formação de seres humanos íntegros, talentosos, críticos, conscientes. Nas salas de aula do mundo, o afeto pode ser traduzido de inúmeras formas, dentre elas, no jeito delicado de o professor corrigir o aprendiz, na forma serena de explicar, de transmitir informações, de tirar dúvidas, de perceber as dificuldades do aluno e tentar, a cada nova aula, contribuir para saná-las.

PM – Como conquistar a atenção e o respeito através do afeto?

GC – Essa é uma resposta presente no coração de todos nós. Se pararmos para refletir, veremos que só se chega ao coração pela estrada do amor, da preocupação real manifestada com o outro. Cabe ao professor realizar um esforço contínuo para compreender seus alunos e, assim, contribuir para que possam empreender uma boa caminhada na vida. É preciso paciência, sobretudo, para dar a atenção necessária àqueles que são muito diferentes de nós, mas, ao mesmo tempo, tão semelhantes em sua busca pela felicidade.

PM – Como um professor pode aprender a utilizá-la?

GC – Esse é um aprendizado que se conquista e se aprimora a cada dia. Uma experiência fundamentada no amor pelo magistério, no entusiasmo com que os professores vêem o progresso cotidiano dos estudantes e percebem, nessa evolução, uma parcela significativa de sua contribuição. O professor deve ser, antes de tudo, um observador atento de seus semelhantes, de seus aprendizes. Para isso, deve olhar seus alunos dentro dos olhos, com o respeito e a admiração de quem olha alguém capaz de surpreender, de crescer de forma contínua. Uma vez que acredita nessa possibilidade, o professor já está utilizando a pedagogia do amor.

PM – A aproximação entre professor e aluno é um dos pilares para se trabalhar a pedagogia do amor. Como fortalecer esse vínculo?

GC – Tratar os alunos de maneira sempre uniforme e nivelada é um equívoco. Aprendizes não são máquinas em linha de produção. Cabe ao professor agir com a sensibilidade capaz de detectar, em cada um desses estudantes, seus dons, talentos e potencialidades – na maioria das vezes sintonizados com suas histórias singulares. Chamar um aluno pelo nome e reconhecer suas qualidades de forma justa faz toda diferença. Da mesma forma, na hora de criticar é preciso utilizar extremo bom senso e, de preferência, não fazer isso na frente de toda a turma. Uma conversa, mesmo rápida, após a aula ou na hora do intervalo será muito mais eficaz do ponto de vista pedagógico. É possível fazer das aulas, das exposições dos temas e disciplinas um momento único. O educador precisa ser movido pela crença de que pode transformar cada um de nossos aprendizes em seres humanos melhores.

PM – Como preparar os educadores para trabalhar com afeto?

GC – Esses conceitos são repassados aos educadores de forma contínua nas capacitações, palestras, congressos, teleconferências e videoconferências destinadas aos profissionais que compõem a rede estadual de ensino de São Paulo. Nessas oportunidades, trocamos experiências sobre o dia-a-dia na sala de aula, discorremos sobre novos programas, projetos e ações, mas, sobretudo, enfatizamos a importância do educador no processo ensino-aprendizagem. Procuramos lembrar nossos mestres sobre seu papel determinante na formação das novas gerações, dos futuros cidadãos. Mostramos a eles que, nesse contexto, o afeto é um componente essencial que serve de base na relação mestre-aprendiz. Entre professores e estudantes deve haver respeito, admiração e amizade – sentimentos e ações contrárias ao autoritarismo e à imposição do respeito pelo medo, pelo grito. Na educação de crianças e jovens, principalmente, o aluno está apenas começando a trilhar a jornada da vida. Um momento especial que demanda exemplos e referências que o auxiliem a construir seu futuro, a identificar talentos e potenciais que o levem a encontrar seu lugar no mundo.

PM – O que acontece quando o professor não consegue estabelecer essa relação de afeto com a classe?

GC – O sintoma mais evidente é um sentimento de perda, tanto para os educadores quanto para os educandos. O processo ensino-aprendizagem tem de ser fundamentado em doses equilibradas de razão e sensibilidade. Na Era da Informação e do Conhecimento, em que os aprendizes têm acesso às fontes mais variadas de informação, é necessário ensinar com amor e afeto, sob pena de o educador não conseguir cativar o aluno para a aventura dessa troca mágica de ensinamentos que deve ocorrer no ambiente escolar. O professor tem de oferecer aos estudantes algo que os computadores, livros, jornais e revistas jamais poderão propiciar: a beleza proveniente do relacionamento humano e todas as possibilidades positivas que vêm no seu encalço.

PM – Quais as diferenças entre o aprendizado de uma criança que usufrui da pedagogia do amor e outra que não encontra essa possibilidade?

GC – A criança que desfruta de uma pedagogia fundamentada no amor passa a ver a escola e o aprendizado como um prazer e não obrigação. Para ela, o professor passa a ser um amigo verdadeiramente interessado em sua evolução como ser humano, em seu crescimento emocional e intelectual. É claro que ela não formula as coisas dessa forma racional, mas, a seu modo, a entende que está recebendo atenção especial. Trata-se da única pedagogia possível de ser bem-sucedida. Já a criança que não desfruta dessa possibilidade perde uma chance valiosa de aprender com prazer e amor. Sua trajetória educacional pode até ser bem-sucedida quando se fala em aprendizado de conteúdos, mas esse caminho será sem dúvida mais árido, menos colorido, menos parecido com o que se espera de um universo propício ao desenvolvimento infantil.

PM – Qual é a importância da proximidade da família com a escola? No que isso pode melhorar o aprendizado da criança?

GC – Uma vez que a família participe da vida escolar do aluno a ponto de comparecer às atividades desenvolvidas dentro da unidade de ensino, a criança passa a ver o ambiente educativo como uma extensão de seu lar. Ela será uma segunda casa que promove a aproximação entre as pessoas que se importam com seu desenvolvimento, com seu aprendizado, com o despertar de seus talentos e habilidades. O aprendiz só tem a ganhar com essa proximidade, essa ação conjunta que facilita, sem dúvida, sua adaptação ao espaço escolar e sua relação com o processo ensino-aprendizagem.

PM – Desde 2003 o Estado de São Paulo investe no programa Escola da Família. Quais foram os principais resultados obtidos até agora?

GC – O resultado de pesquisas realizadas recentemente comprova a aceitação popular do programa por meio da presença maciça da população nas escolas durante os finais de semana. Foram mais de 140 milhões de participações durante esses dois anos. Em muitas localidades, as estatísticas apontam uma redução significativa nos índices de violência e de criminalidade após a implementação do Escola da Família. Uma vitória que nos enche de orgulho e nos presenteia com o ânimo necessário para prosseguir desenvolvendo projetos e ações em prol de uma educação de excelência nas escolas da rede estadual.

PM – Os professores reclamam que as crianças estão cada vez mais rebeldes e alguns partem para o autoritarismo como forma de combater a indisciplina. Tratá-los de forma autoritária é o caminho? Por quê?

GC – O autoritarismo nunca é um bom caminho para nada. Quando o assunto é educação, é preciso conquistar os aprendizes por meio do respeito, do afeto e da troca produtiva de conhecimentos que se estabelece no dia-a-dia entre mestres e aprendizes. O caminho é a conversa franca, a exposição clara das opiniões, das situações positivas ou críticas. O professor tem de ter a capacidade de falar bem, mas, principalmente, a de ouvir, a de perceber o que se passa à sua volta. Alunos são, antes de tudo, seres humanos. Crianças, jovens e adultos repletos de sonhos, desejos, anseios e, às vezes, traumas e revoltas. Não é por meio do autoritarismo que se toca o coração de ninguém.

PM – Na sua opinião, qual é a importância de a escola resgatar valores como ética, respeito, amizade, entre outros?

GC – A ética é a base sobre a qual devem ser apoiadas todas as ações humanas. Uma educação sólida, fundamentada em valores e virtudes, molda o caráter das pessoas com essa consciência, que é uma espécie de argamassa indestrutível, impermeável. A ética passa a ser, então, muito mais do que uma virtude pessoal. Ela se transforma em bandeira, em instrumento de trabalho, em missão de vida. Já o respeito, a amizade e outros tantos valores necessários à edificação de um tempo mais fraterno e solidário são também componentes essenciais que possibilitam a feitura de uma sociedade mais condizente com os nossos sonhos e ideais.

Revista Profissão Mestre

http://www.profissaomestre.com.br/php/verMateria.php?cod=1932

Saúde e música no programa Quarta Viva

O primeiro bloco do programa Quarta Viva desta noite está voltado para a saúde pública. O médico José Luiz Bevilacqua vai falar sobre câncer de mama, abordando causas, fatores de risco e medidas de prevenção, esclarecendo como se dá o tratamento e que novas terapias disponíveis para a população. Jose Luiz Bevilacqua é mastologista e cirurgião oncológico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

É especializado em mastologia pelo Memorial Solan-Kettering Cancer Center de Nova York, e Membro Titular da Sociedade Brasileira de Mastologia. Atende em clínica particular e trabalha no Hospital Sírio Libanês.

O segundo bloco do programa está dedicado à música. Gabriel Chalita entrevista o Duofel, uma dupla de violonistas com 30 anos de estrada. O Duofel é formado pelo alagoano Fernando Melo e o paulistano Luiz Bueno, que começaram carreira tocando em São Paulo, no grupo de rock progressivo Boissucanga, em 1976. Insatisfeitos com a música que faziam, decidiram começar a compor juntos para o formato de um duo de violões. Desde esse momento perseguem a qualidade musical por meio da investigação sonora, com experimentações. Em 2003, criaram a Fine Music, um empreendimento que é um misto de gravadora, editora e distribuidora.

No terceiro bloco, Gabriel Chalita comanda o game, que reúne Paróquia São Francisco (Joelma), Paróquia Santa Cecília (Tiago) e Comunidade Fanuel (Sérgio).

Bullying, o crime do desamor

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

O motorista que, no trânsito, por estar a bordo de um carro novo e possante, encosta no veículo da frente e exige passagem, deseducadamente, piscando os faróis, buzinando, pressionando, está praticando um ato de violência. O político que se acha mais importante do que o resto do mundo e trata as pessoas com arrogância, está sendo, de algum modo, violento.

Podemos dizer o mesmo do empresário que humilha seus funcionários, só porque lhes paga salário. Essas pessoas, com atitudes que agridem ou intimidam, estão praticando o que possivelmente já praticaram em outros ambientes, inclusive na escola: o bullying. A palavra vem do adjetivo bully, que em inglês significa valentão. Quem é mais forte tiraniza, ameaça, oprime, amedronta e intimida os mais fracos. Na escola, essa atitude pode ter resultados drásticos, porque leva a vítima, muitas vezes, ao isolamento e até ao abandono. O bullying agride a alma do indivíduo, o apequena pelo medo ou pela vergonha, pela dor física ou moral.

Esse comportamento agressivo tem sido observado nas escolas, e por isso mesmo é motivo de preocupação de pais e educadores, já há algum tempo, porque demonstra que está faltando afeto nas relações entre crianças e adolescentes, possivelmente em razão de problemas familiares. A falta de diálogo e de respeito parece ser a origem da agressividade infantil e juvenil, um problema que começa a ser discutido com mais intensidade diante do aumento da violência escolar no mundo inteiro.

Em Portugal, por exemplo, pesquisa feita com sete mil alunos revelou que um em cada cinco alunos já foi vítima desse tipo de agressão. Na Espanha, o nível de incidência também já chega a 20% entre os alunos. Na Grã-Bretanha, terra dos hoolligans, aqueles torcedores que saem em grupo pelas ruas, procurando brigas e agredindo pessoas, há mais motivos ainda para apreensão: foi apurado, em pesquisa, que 37% dos alunos do primeiro grau das escolas britânicas admitiram que sofrem bullying pelo menos uma vez por semana. Nos Estados Unidos, o fenômeno atinge também um percentual muito alto – estima-se que até 35% das crianças em idade escolar estão envolvidas em alguma forma de agressão e de violência na escola. Foi nesse país, no estado do Colorado, que recentemente dois adolescentes do ensino médio usaram armas de fogo para matar treze pessoas e ferir dezenas de outras. Depois do ataque, cometeram suicídio. Descobriu-se, mais tarde, que os agressores sofriam constantes humilhações dos colegas de escola.

No Brasil, um estudo feito pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia), em 2002, no Rio de Janeiro, com 5.875 estudantes de 5ª a 8ª séries, de onze escolas fluminenses, revelou que 40,5% dos entrevistados confessaram o envolvimento direto em atos como a humilhação por causa de defeitos físicos, obesidade, cor da pele, que ocasionam seqüelas emocionais nas vítimas e contribuem para que elas não atinjam plenamente o seu desenvolvimento educacional. Como efeito, observa-se a redução do rendimento escolar, e a conseqüência mais nefasta: a vítima de bullying pode se tornar agressiva ou até mesmo passar a reproduzir essas práticas horríveis contra a pessoa e sua dignidade.

Como identificar esse tipo de desvio social?

É fundamental que, tanto em casa quanto na escola, a criança tenha liberdade para dizer o que pensa e o que sofre. O diálogo ajuda a entender o cotidiano do aprendiz. O principal sinal de perigo está naquele aluno que vai ficando apático, e que se tranca na sua dor, sem revelar os sentimentos.

E qual é a saída para corrigir o problema?

Primeiro, é fundamental desenvolver nas escolas ações de solidariedade e de resgate de valores de cidadania, tolerância, respeito mútuo entre alunos e docentes. Estimular e valorizar as individualidades do aluno. Potencializar eventuais diferenças, canalizando-as para aspectos positivos que resultem na melhoria da auto-estima do estudante.

Com toda a certeza, se a escola formar indivíduos melhores, teremos motoristas melhores, políticos melhores, empresários melhores. E cidadãos melhores.

O adeus ao príncipe

Por Gabriel Chalita

Da fazenda Boa Vista tirava inspiração para descrever as belezas físicas e históricas do Vale do Paraíba. Falava de seus expoentes do passado e do presente com a garbosidade de quem se orgulha de viver em boa companhia. Aos amigos tudo. A todos tudo. Vivos ou mortos eram amigos seus que fizeram e fazem a história do Vale. Assim ele ensinava.

A História foi sua grande paixão. Passeava pelas cortes de tempos e culturas diferentes, penetrava nos sentimentos de pessoas que fizeram do amor uma opção.

Amante da literatura. Vale paraibana e universal. Foi mecenas de tantos escritores que se valiam de seu “Pátio das Artes” para sair da toca e ir rumo ao mundo. Eu me incluo entre os beneficiados de sua generosidade.

Suas aulas eram espetáculos de amor em que ele instigava seus alunos a irem um pouco além. “Sejam felizes”, dizia Aristóteles. “Sejam felizes” dizia José Luiz Pasin no Liceu Contemporâneo. Era o seu sacerdócio. Incentivar o vôo alheio.

Suas palestras de temas e assuntos diversos despertavam a atenção pelo charme e pela competência do orador.

Pasin era um homem cheio de amigos. Artistas, escritores, intelectuais, políticos, pessoas de todos os tipos se achegavam para o seu castelo. Embora o cenário fosse sempre convidativo – era bom tomar um café da tarde ouvindo musica erudita e contemplando janela afora a velha figueira – o diferencial era ele. Dizendo coisas, antecipando valores.

Essa semana fui visitá-lo. Alguns minutos juntos no Hospital Frei Galvão. Ele relembrou sua visita no meu aniversário do ano passado. Quantos planos ouvi dele naquela noite de festas, quantos sonhos, quanto futuro ali em ebulição naquela cabeça de menino. E faz tão pouco tempo…

Falamos, sem tristeza, da vida e dos seus ciclos. Ele me disse sobre as surpresas, as interrupções, as pausas, o fim. Eu mudava de assunto e ele seguro, com a dignidade que o marcou em toda a vida se preparava para partir.

Era quarta-feira e havia sol do lado de fora daquele quarto. Desculpou-se por não ter feito a barba. O príncipe se preocupa com detalhes; e, me orientou pela última vez: “aproveite a vida – aproveite a chama que Deus te deu meu amigo”.

Conversei com Deus enquanto voltava pra casa. Conversei com a intimidade de quem não entende o porquê da colheita prematura. Conversei dizendo o que eu sentia e o quanto eu sofria por ter de dizer adeus. Chorei também como choram aqueles que têm fé. Fiquei lembrando os momentos ricos de entardecer e discussões filosóficas. Foi como um filme bom. Porque seus exemplos eram sempre bons. Se há uma coisa que dignifica o ser humano é a sua capacidade de amar. E nisso o nosso príncipe era mestre. Dos seus alunos aos funcionários. Dos enfermeiros dos últimos dias aos que tiveram o privilégio do convívio mais próximo.

A fé me faz crer que ele chega elegante ao castelo celestial. O Criador não nos fez com tanta complexidade e beleza para que acabássemos aqui. Há castelos. Há fazendas. Há jardins. Há Amor eterno para acolher os viajantes.

Boa viagem, meu amigo.

O adeus ao príncipe

Por Gabriel Chalita

Da fazenda Boa Vista tirava inspiração para descrever as belezas físicas e históricas do Vale do Paraíba. Falava de seus expoentes do passado e do presente com a garbosidade de quem se orgulha de viver em boa companhia. Aos amigos tudo. A todos tudo. Vivos ou mortos eram amigos seus que fizeram e fazem a história do Vale. Assim ele ensinava.

A História foi sua grande paixão. Passeava pelas cortes de tempos e culturas diferentes, penetrava nos sentimentos de pessoas que fizeram do amor uma opção.

Amante da literatura. Valeparaibana e universal. Foi mecenas de tantos escritores que se valiam de seu “Pátio das Artes” para sair da toca e ir rumo ao mundo. Eu me incluo entre os beneficiados de sua generosidade.

Suas aulas eram espetáculos de amor em que ele instigava seus alunos a irem um pouco além. “Sejam felizes”, dizia Aristóteles. “Sejam felizes” dizia José Luiz Pasin no Liceu Contemporâneo. Era o seu sacerdócio. Incentivar o vôo alheio.

Suas palestras de temas e assuntos diversos despertavam a atenção pelo charme e pela competência do orador.

Pasin era um homem cheio de amigos. Artistas, escritores, intelectuais, políticos, pessoas de todos os tipos se achegavam para o seu castelo. Embora o cenário fosse sempre convidativo – era bom tomar um café da tarde ouvindo musica erudita e contemplando janela afora a velha figueira – o diferencial era ele. Dizendo coisas, antecipando valores.

Essa semana fui visitá-lo. Alguns minutos juntos no Hospital Frei Galvão. Ele relembrou sua visita no meu aniversário do ano passado. Quantos planos ouvi dele naquela noite de festas, quantos sonhos, quanto futuro ali em ebulição naquela cabeça de menino. E faz tão pouco tempo…

Falamos, sem tristeza, da vida e dos seus ciclos. Ele me disse sobre as surpresas, as interrupções, as pausas, o fim. Eu mudava de assunto e ele seguro, com a dignidade que o marcou em toda a vida se preparava para partir.

Era quarta-feira e havia sol do lado de fora daquele quarto. Desculpou-se por não ter feito a barba. O príncipe se preocupa com detalhes; e, me orientou pela última vez: “aproveite a vida – aproveite a chama que Deus te deu meu amigo”.

Conversei com Deus enquanto voltava pra casa. Conversei com a intimidade de quem não entende o porquê da colheita prematura. Conversei dizendo o que eu sentia e o quanto eu sofria por ter de dizer adeus. Chorei também como choram aqueles que têm fé. Fiquei lembrando os momentos ricos de entardecer e discussões filosóficas. Foi como um filme bom. Porque seus exemplos eram sempre bons. Se há uma coisa que dignifica o ser humano é a sua capacidade de amar. E nisso o nosso príncipe era mestre. Dos seus alunos aos funcionários. Dos enfermeiros dos últimos dias aos que tiveram o privilégio do convívio mais próximo.

A fé me faz crer que ele chega elegante ao castelo celestial. O Criador não nos fez com tanta complexidade e beleza para que acabássemos aqui. Há castelos. Há fazendas. Há jardins. Há Amor eterno para acolher os viajantes.

Boa viagem, meu amigo.

Garoto prodígio

GAROTO PRODÍGIO

Por Edgar Murano – Correio Braziliense (edição de 8 de dezembro de 2007)

 Gabriel Chalita foi um garoto prodígio. Antes dos 10 anos já começou a ler autores difíceis como Clarice Lispector e o filósofo francês Jean-Paul Sartre. Aos 12 anos, escreveu seu primeiro livro e aos 19 iniciou sua carreira política, como vereador de sua cidade natal, Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo.

Ele se formou em direito e em filosofia, além de ter feito outras especializações, mestrados e doutorados nessas áreas. Gabriel foi secretário de Educação de São Paulo por dois mandatos consecutivos (o último terminou em 2006). Nessa época, ele implementou o Programa Escola em Tempo Integral, para que as crianças passassem mais tempo nas escolas.

Hoje, aos 38 anos, ele é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Dá aulas de filosofia, ética, relações interpessoais e educação. Dentre seus 45 livros publicados, há um infantil. A ética do rei menino conta a história de um lugar encantado chamado Reino Mágico da Consciência, onde animais, flores e frutos discutem o respeito às diferenças pessoais e sociais, a necessidade de agir com moderação e usar a razão para fazer escolhas que levem ao bem.

 1- Como começou seu contato com os livros?

Quando criança, freqüentei um asilo na minha cidade natal, Cachoeira Paulista. Lá, conheci uma professora aposentada. Ela me emprestava livros, na verdade bem difíceis para a minha idade.  Mas eu me sentia tão estimulado pela forma com que ela me falava dos livros, que acabava lendo, aguardando as explicações que ela me daria depois. O tempo foi passando e eu passei a ler em voz alta para ela, porque já não enxergava muito bem. À medida que eu ia lendo, comentávamos sobre as histórias. Um dia, ela me sugeriu que eu começasse a escrever. Lembro-me de um texto que fiz sobre liberdade. Li pra ela. E ela me perguntou se meu texto me emocionava ou não. Confesso que, na época, eu nem sabia definir o que era emoção. Ela me explicou, de uma forma bem simples, que a gente se emociona quando tem vontade de rir ou de chorar. E mais, que literatura era a história dos sentimentos. A partir daí comecei a escrever e não parei.

 2- Em seu livro A ética do Rei Menino, você trata vários assuntos como as diferenças, o respeito ao próximo e a ética. Você trouxe esses conceitos de sua formação em Filosofia? Você acha importante que as crianças aprendam esses conceitos nas escolas, desde pequenos? Como você acredita que isso deveria ser feito?

 Como diria Aristóteles, as virtudes vêm do hábito. Se uma criança aprende desde cedo a respeitar, a não ser preconceituosa, a ser educada, gentil, enfim, essa criança, com maior facilidade, terá essa postura no decorrer da vida. A criança recebe influências da família, da escola e da mídia. Por isso, é preciso que cada um desses agentes saiba do poder que tem, de construir ou deformar a mente e o sonho das crianças.

A Ética do Rei Menino é um livro que, em forma romanceada, traça os lindos valores presentes na “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, livro feito pelo filósofo, que naquela época queria explicar ao seu filho Nicômaco o que deveria fazer para ser feliz.

 3- O que o levou a escrever um livro para crianças? Você acha que as publicações infantis hoje falham em atingir e educar as crianças? Por quê?

 Não é a primeira vez que escrevo para crianças. Eu sou apaixonado pela educação, e como tal, acredito que a gente deva começar cedo a ajudar as crianças a trilharem o caminho correto. Há excelentes publicações para crianças, desde o genial Monteiro Lobato até escritores contemporâneos como Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Pedro Bandeira, que conseguiram, sem cair no risco de dar conselhos, educar, por meio de histórias belas.

 4- Como podemos incentivar as crianças a ler? Antigamente os alunos liam desde cedo os clássicos da literatura (muitas vezes leitura obrigatória). Hoje não é mais assim. Você acha que voltar a esse sistema seria uma forma de melhorar a educação literária das crianças? Por quê?

 Acho que há alguns caminhos. Uma coisa que ajudaria muito seria a prática de os pais contarem histórias, ou pelo menos lerem histórias para os filhos em algum momento, por exemplo antes de dormir. Estratégias como o contador de histórias, na escola, a hora do conto, canto da leitura, entre outras, ajudam muito a despertar esse prazer pelo universo do livro.

Tenho acompanhado, também, pelo Brasil afora, como as bienais e feiras do livro têm se preocupado em dar um espaço todo especial para as crianças. Novamente vem a questão do hábito. Se a pessoa começa a ler muito desde criança, tenderá a continuar a ler pela vida afora.

 5- O que você diria a uma criança para despertar nela o prazer pela leitura (em meio a tanta tecnologia)?

 Eu leria alguma história para essa criança, e não contaria o final. Faria suspense. Trabalharia com a criatividade e a curiosidade da criança. O mundo tecnológico não mata o mundo emocional. O ser humano é emoção, e a leitura atinge o universo emocional do leitor. A Internet não prejudica a leitura. Falta é um incentivo  para que essa criança comece a ler.

 6- O que falta nas escolas para incentivar a leitura das crianças?

 Falta entusiasmo. Delicadeza na síntese das palavras saber e sabor. A criança não pode ser incentivada a ler só determinado texto que cai na prova ou no vestibular. Ela tem que gostar de ler por ter sido estimulada, por acreditar que a leitura desenvolve o repertório, a autonomia, a liberdade, e a faz uma pessoa melhor.

 7- Você conseguiu implantar o programa Escola em Tempo Integral durante sua gestão como secretário de educação de São Paulo. De que maneira a maior permanência do aluno na escola é positiva para a educação dele? E quanto a outras atividades, como esportes e artes, de que forma elas contribuem para a educação?

 A Escola de Tempo Integral é a grande alternativa para a educação no Brasil. Infelizmente, na maior parte do nosso país, as crianças têm menos de três de aula por dia. Além disso, poucas são as famílias que acompanham as crianças em casa. O rendimento de uma criança que estuda o dia inteiro é completamente diferente daquela que não estuda. Evidentemente, uma escola de tempo integral tem que diversificar suas atividades. Desde os gregos, esporte e artes são essenciais para formar o caráter do ser humano. Na Grécia antiga, a dança servia para ensinar a arte da guerra, como a música para ensinar a matemática; o teatro servia para desenvolver a capacidade de convencimento e a autonomia. O esporte servia – e serve – para ensinar a trabalha em equipe, a ganhar ou a perder.

A experiência das 500 escolas de tempo integral, em São Paulo, foi fantástica. Pegamos alguns conceitos da educação que hoje é praticada na Espanha, Chile, Coréia, e adaptamos à nossa realidade. Além disso, criamos outro grande programa, chamado Escola da Família. Na nossa visão, se a família estiver longe da escola, o projeto educativo será muito mais difícil de ser efetivado. 

Demanda por educação

A expansão da renda, a maior participação da mulher no mercado de trabalho e o envelhecimento da população deverão alterar os hábitos de consumo, segundo os economistas do banco Credit Suisse. “Esperamos que a demanda por educação, saúde e transporte cresça proporcionalmente mais do que a renda, enquanto a demanda por alimentos e vestuário deve crescer proporcionalmente menos”, diz o economista-chefe do Credit Suisse, Nílson Teixeira.

O relatório do Credit Suisse também mapeia os setores que devem ser favorecidos pelas mudanças de hábito dos consumidores, provocadas por alterações socioeconômicas e demográficas. Teixeira cita um estudo feito por Tatiane Menezes, Fernando Gaiger Silveira e outros pesquisadores, que calcula o impacto da expansão da renda sobre o consumo de diversos grupos de produtos. Para cada variação de 1 ponto percentual da renda, o consumo per capita de educação tende a crescer 1,64%, o de assistência à saúde, 1,27%, o de recreação, cultura e fumo, 1,07%, o de vestuário, 0,91%, e o de alimentos, 0,67%.

Para Teixeira, as mudanças socioeconômicas e demográficas indicam um panorama melhor para a alimentação fora do domicílio do que no domicílio. O aumento da renda, a expansão da população urbana, a redução do número de pessoas por família e a maior participação da mulher no mercado de trabalho tendem a levar ao crescimento da demanda pela alimentação fora de casa e por produtos que requerem menor tempo de preparo, avalia ele.

O segmento de ensino superior também merece destaque no estudo do Credit Suisse. Com base em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e do Censo Escolar do Ministério da Educação, o banco diz que, em 2006, o número de matrículas na rede privada de ensino superior cresceu 15,3% em relação ao ano anterior, quando já havia ocorrido uma alta de 9,3%. “Por enquanto, o ensino superior parece ser o maior beneficiário do aumento do gasto das famílias com educação”, diz Teixeira.

O estudo mostra ainda que o percentual das pessoas entre 18 e 24 anos que fazem um curso superior vem crescendo significativamente desde os anos 90. Em 2006, o número era de 12,6%, quase três vezes mais que os 4,6% de 1992. E há uma demanda crescente por mão-de-obra qualificada.

O envelhecimento da população, por sua vez, deve aumentar as despesas com planos de saúde e consultas médias, aponta Teixeira. Em 1980, os brasileiros com mais de 65 anos eram 4% da população. Hoje, são 6,3% e, para o IBGE, devem ser 18,8% em 2050. “Vários estudos revelam que a presença de idosos na família e a renda são as variáveis mais importantes para se explicar os gastos com saúde. Num cenário de envelhecimento da população e de aumento da renda disponível das famílias, é de se esperar que as despesas com planos de saúde e consultas médicas cresçam mais rápido.”

 

Jornada Pedagógica em Caetité

A abertura da Jornada Pedagógica 2008 de Caetité, na Bahia, está a cargo de Gabriel Chalita, que faz palestra sobre a pedagogia do amor. A realização do evento é da Prefeitura local. Foram convidados 600 educadores da rede estadual e da rede municipal de ensino de vários municípios da região de Vitória da Conquista.

O evento está programado para o Cine Teatro Pax, que fica na Avenida do Contorno, 45.

Palestra no Ceará

Nesta sexta-feira, 25 de janeiro, Gabriel Chalita dá palestra no Ceará, na Semana Pedagógica de Icapuí. O evento tem como tema “Educação de Icapuí: uma ação de todos, construída a cada passo, por cada um!” 

Gabriel Chalita fala às 19 horas sobre a construção de relações de essência e convivência, na Escola de Ensino Fundamental Profª Raimunda Lacerda. Serão 300 educadores no auditório da escola, numa promoção da Secretaria Municipal de Educação e Cultura.

Em resumo, a palestra de Gabriel Chalita aborda a grandeza que existe nas coisas singelas, que nos indica o caminho do que é realmente importante à existência humana. Uma visão apurada da vida é entender que a felicidade é composta pelas ações e sensações presentes nas coisas mais corriqueiras. Esse aprendizado deve ser um dos objetivos primeiros da educação

Nas disciplinas do currículo regular, na abordagem dos temas transversais, nas numerosas atividades que devem configurar o ano letivo das escolas – semanas culturais, gincanas, passeios, comemorações cívicas -, é necessário que os educadores propiciem aos seus aprendizes a consciência do que é o bem, o bom e o belo. Até porque essa tríade, capaz de dotar o espírito e a mente humana do viço e da energia essenciais à edificação de ideais nobres, cria um círculo virtuoso fundamental à convivência social pacífica, ao desenvolvimento do caráter ético e ao fortalecimento de valores como: honestidade, lealdade, respeito, civilidade, fraternidade, solidariedade e senso de justiça. Essas e tantas outras percepções e virtudes provêm do aprendizado adquirido na família e também das influências recebidas pelo meio. Ou seja, é a pedagogia baseada no amor.

Mas há outra família envolvida nesse processo pedagógico. É a família dos educadores, elementos fundamentais da escola, com seu trabalho sensível. Mestres são também maestros. Regentes cuja missão é ensinar aos músicos/aprendizes a ler as partituras da vida equilibrando razão e emoção, competência técnica e amor. Para isso, há que se despertar os educandos para o singelo, para a verdade e para a beleza essencial de todas as coisas. Em seus versos irretocáveis, Manuel Bandeira sintetiza parte dos conceitos filosóficos descritos por Platão a respeito do belo, tanto em seu texto Fedro, quanto em República. No primeiro, o filósofo nos diz: ” (…) na beleza e no amor que ela suscita, o homem encontra o ponto de partida para a recordação ou a contemplação das substâncias ideais”. Já em sua República, Platão compara o bem ao Sol, que dá aos objetos não apenas a possibilidade de serem vistos, como também a de serem gerados, de crescerem e de nutrir-se. O pensamento filosófico e a poesia não oferecem mapas ou guias para a felicidade. Muito melhor do que isso, apontam caminhos para que possamos ter o prazer de encontrá-la pelos nossos próprios esforços.

Assim deve ocorrer também com a educação, cujo compromisso maior precisa ser o de proporcionar escolhas, opções de rota, além de fornecer aos seres em formação os instrumentos básicos para as suas jornadas pessoais. Mestres e aprendizes têm de compartilhar a fascinante aventura da troca e da descoberta, de modo que, juntos, ampliem a capacidade de olhar as paisagens da vida com os olhos de ver… Carlos Drummond de Andrade – outro mestre sagrado da poesia – já falava sobre isso em seu belíssimo poema “A flor e a náusea”, do livro A rosa do povo:

Uma flor nasceu na rua!

(…) Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

(…) É feia. Mas é uma flor.

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.