O adeus ao príncipe

Por Gabriel Chalita

Da fazenda Boa Vista tirava inspiração para descrever as belezas físicas e históricas do Vale do Paraíba. Falava de seus expoentes do passado e do presente com a garbosidade de quem se orgulha de viver em boa companhia. Aos amigos tudo. A todos tudo. Vivos ou mortos eram amigos seus que fizeram e fazem a história do Vale. Assim ele ensinava.

A História foi sua grande paixão. Passeava pelas cortes de tempos e culturas diferentes, penetrava nos sentimentos de pessoas que fizeram do amor uma opção.

Amante da literatura. Vale paraibana e universal. Foi mecenas de tantos escritores que se valiam de seu “Pátio das Artes” para sair da toca e ir rumo ao mundo. Eu me incluo entre os beneficiados de sua generosidade.

Suas aulas eram espetáculos de amor em que ele instigava seus alunos a irem um pouco além. “Sejam felizes”, dizia Aristóteles. “Sejam felizes” dizia José Luiz Pasin no Liceu Contemporâneo. Era o seu sacerdócio. Incentivar o vôo alheio.

Suas palestras de temas e assuntos diversos despertavam a atenção pelo charme e pela competência do orador.

Pasin era um homem cheio de amigos. Artistas, escritores, intelectuais, políticos, pessoas de todos os tipos se achegavam para o seu castelo. Embora o cenário fosse sempre convidativo – era bom tomar um café da tarde ouvindo musica erudita e contemplando janela afora a velha figueira – o diferencial era ele. Dizendo coisas, antecipando valores.

Essa semana fui visitá-lo. Alguns minutos juntos no Hospital Frei Galvão. Ele relembrou sua visita no meu aniversário do ano passado. Quantos planos ouvi dele naquela noite de festas, quantos sonhos, quanto futuro ali em ebulição naquela cabeça de menino. E faz tão pouco tempo…

Falamos, sem tristeza, da vida e dos seus ciclos. Ele me disse sobre as surpresas, as interrupções, as pausas, o fim. Eu mudava de assunto e ele seguro, com a dignidade que o marcou em toda a vida se preparava para partir.

Era quarta-feira e havia sol do lado de fora daquele quarto. Desculpou-se por não ter feito a barba. O príncipe se preocupa com detalhes; e, me orientou pela última vez: “aproveite a vida – aproveite a chama que Deus te deu meu amigo”.

Conversei com Deus enquanto voltava pra casa. Conversei com a intimidade de quem não entende o porquê da colheita prematura. Conversei dizendo o que eu sentia e o quanto eu sofria por ter de dizer adeus. Chorei também como choram aqueles que têm fé. Fiquei lembrando os momentos ricos de entardecer e discussões filosóficas. Foi como um filme bom. Porque seus exemplos eram sempre bons. Se há uma coisa que dignifica o ser humano é a sua capacidade de amar. E nisso o nosso príncipe era mestre. Dos seus alunos aos funcionários. Dos enfermeiros dos últimos dias aos que tiveram o privilégio do convívio mais próximo.

A fé me faz crer que ele chega elegante ao castelo celestial. O Criador não nos fez com tanta complexidade e beleza para que acabássemos aqui. Há castelos. Há fazendas. Há jardins. Há Amor eterno para acolher os viajantes.

Boa viagem, meu amigo.

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