GAROTO PRODÍGIO
Por Edgar Murano – Correio Braziliense (edição de 8 de dezembro de 2007)
Gabriel Chalita foi um garoto prodígio. Antes dos 10 anos já começou a ler autores difíceis como Clarice Lispector e o filósofo francês Jean-Paul Sartre. Aos 12 anos, escreveu seu primeiro livro e aos 19 iniciou sua carreira política, como vereador de sua cidade natal, Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo.
Ele se formou em direito e em filosofia, além de ter feito outras especializações, mestrados e doutorados nessas áreas. Gabriel foi secretário de Educação de São Paulo por dois mandatos consecutivos (o último terminou em 2006). Nessa época, ele implementou o Programa Escola em Tempo Integral, para que as crianças passassem mais tempo nas escolas.
Hoje, aos 38 anos, ele é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Dá aulas de filosofia, ética, relações interpessoais e educação. Dentre seus 45 livros publicados, há um infantil. A ética do rei menino conta a história de um lugar encantado chamado Reino Mágico da Consciência, onde animais, flores e frutos discutem o respeito às diferenças pessoais e sociais, a necessidade de agir com moderação e usar a razão para fazer escolhas que levem ao bem.
1- Como começou seu contato com os livros?
Quando criança, freqüentei um asilo na minha cidade natal, Cachoeira Paulista. Lá, conheci uma professora aposentada. Ela me emprestava livros, na verdade bem difíceis para a minha idade. Mas eu me sentia tão estimulado pela forma com que ela me falava dos livros, que acabava lendo, aguardando as explicações que ela me daria depois. O tempo foi passando e eu passei a ler em voz alta para ela, porque já não enxergava muito bem. À medida que eu ia lendo, comentávamos sobre as histórias. Um dia, ela me sugeriu que eu começasse a escrever. Lembro-me de um texto que fiz sobre liberdade. Li pra ela. E ela me perguntou se meu texto me emocionava ou não. Confesso que, na época, eu nem sabia definir o que era emoção. Ela me explicou, de uma forma bem simples, que a gente se emociona quando tem vontade de rir ou de chorar. E mais, que literatura era a história dos sentimentos. A partir daí comecei a escrever e não parei.
2- Em seu livro A ética do Rei Menino, você trata vários assuntos como as diferenças, o respeito ao próximo e a ética. Você trouxe esses conceitos de sua formação em Filosofia? Você acha importante que as crianças aprendam esses conceitos nas escolas, desde pequenos? Como você acredita que isso deveria ser feito?
Como diria Aristóteles, as virtudes vêm do hábito. Se uma criança aprende desde cedo a respeitar, a não ser preconceituosa, a ser educada, gentil, enfim, essa criança, com maior facilidade, terá essa postura no decorrer da vida. A criança recebe influências da família, da escola e da mídia. Por isso, é preciso que cada um desses agentes saiba do poder que tem, de construir ou deformar a mente e o sonho das crianças.
A Ética do Rei Menino é um livro que, em forma romanceada, traça os lindos valores presentes na “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, livro feito pelo filósofo, que naquela época queria explicar ao seu filho Nicômaco o que deveria fazer para ser feliz.
3- O que o levou a escrever um livro para crianças? Você acha que as publicações infantis hoje falham em atingir e educar as crianças? Por quê?
Não é a primeira vez que escrevo para crianças. Eu sou apaixonado pela educação, e como tal, acredito que a gente deva começar cedo a ajudar as crianças a trilharem o caminho correto. Há excelentes publicações para crianças, desde o genial Monteiro Lobato até escritores contemporâneos como Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Pedro Bandeira, que conseguiram, sem cair no risco de dar conselhos, educar, por meio de histórias belas.
4- Como podemos incentivar as crianças a ler? Antigamente os alunos liam desde cedo os clássicos da literatura (muitas vezes leitura obrigatória). Hoje não é mais assim. Você acha que voltar a esse sistema seria uma forma de melhorar a educação literária das crianças? Por quê?
Acho que há alguns caminhos. Uma coisa que ajudaria muito seria a prática de os pais contarem histórias, ou pelo menos lerem histórias para os filhos em algum momento, por exemplo antes de dormir. Estratégias como o contador de histórias, na escola, a hora do conto, canto da leitura, entre outras, ajudam muito a despertar esse prazer pelo universo do livro.
Tenho acompanhado, também, pelo Brasil afora, como as bienais e feiras do livro têm se preocupado em dar um espaço todo especial para as crianças. Novamente vem a questão do hábito. Se a pessoa começa a ler muito desde criança, tenderá a continuar a ler pela vida afora.
5- O que você diria a uma criança para despertar nela o prazer pela leitura (em meio a tanta tecnologia)?
Eu leria alguma história para essa criança, e não contaria o final. Faria suspense. Trabalharia com a criatividade e a curiosidade da criança. O mundo tecnológico não mata o mundo emocional. O ser humano é emoção, e a leitura atinge o universo emocional do leitor. A Internet não prejudica a leitura. Falta é um incentivo para que essa criança comece a ler.
6- O que falta nas escolas para incentivar a leitura das crianças?
Falta entusiasmo. Delicadeza na síntese das palavras saber e sabor. A criança não pode ser incentivada a ler só determinado texto que cai na prova ou no vestibular. Ela tem que gostar de ler por ter sido estimulada, por acreditar que a leitura desenvolve o repertório, a autonomia, a liberdade, e a faz uma pessoa melhor.
7- Você conseguiu implantar o programa Escola em Tempo Integral durante sua gestão como secretário de educação de São Paulo. De que maneira a maior permanência do aluno na escola é positiva para a educação dele? E quanto a outras atividades, como esportes e artes, de que forma elas contribuem para a educação?
A Escola de Tempo Integral é a grande alternativa para a educação no Brasil. Infelizmente, na maior parte do nosso país, as crianças têm menos de três de aula por dia. Além disso, poucas são as famílias que acompanham as crianças em casa. O rendimento de uma criança que estuda o dia inteiro é completamente diferente daquela que não estuda. Evidentemente, uma escola de tempo integral tem que diversificar suas atividades. Desde os gregos, esporte e artes são essenciais para formar o caráter do ser humano. Na Grécia antiga, a dança servia para ensinar a arte da guerra, como a música para ensinar a matemática; o teatro servia para desenvolver a capacidade de convencimento e a autonomia. O esporte servia – e serve – para ensinar a trabalha em equipe, a ganhar ou a perder.
A experiência das 500 escolas de tempo integral, em São Paulo, foi fantástica. Pegamos alguns conceitos da educação que hoje é praticada na Espanha, Chile, Coréia, e adaptamos à nossa realidade. Além disso, criamos outro grande programa, chamado Escola da Família. Na nossa visão, se a família estiver longe da escola, o projeto educativo será muito mais difícil de ser efetivado.
