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Sem medo de caminhar nas ruas

Por Gabriel Chalita

Dar segurança à população é obrigação do poder público. É a garantia da vida e da liberdade. É inconcebível ter medo de caminhar nas ruas, medo de o filho sair à noite e não voltar.

Olhar a crise de segurança sob uma ótica mais humana é fundamental para enfrentar a violência. Tenho defendido algumas ideias para auxiliar nesse debate: iluminar mais as cidades, criar a Central Olho Vivo de videomonitoramento, investir em equipamentos esportivos e culturais para os jovens etc. Mas é na educação que me vem a melhor analogia para gerir esse problema. Costumo dizer que um bom sistema de ensino público tem de ter professores valorizados na cabeça, no coração e no bolso. O mesmo critério vale para a segurança pública.

Valorizar um policial é oferecer-lhe formação continuada, treinamento com equipamentos de boa qualidade, programas de capacitação no uso das ferramentas tecnológicas contra o crime. E oportunidade de crescimento, levando-o a vislumbrar um futuro de maior qualidade no exercício de sua função e na vida.

A profissão de quem coloca a própria vida em risco tem de ser desempenhada por alguém apaixonado e respeitado pelo que faz. Sentir-se valorizado, estimado e ouvido é basilar no exercício de qualquer função.

Um policial mal remunerado vê-se ferido em sua dignidade, em sua autoestima. Enfrenta dificuldades em manter sua família. Sente-se desestimulado no enfrentamento dos problemas de seu ofício.

Essa tríade cabeça, coração e bolso é um norte, uma atitude, uma marca de gestão responsável e responsiva às angústias da população e desses profissionais. Cuidar da pessoa toda e de todas as pessoas, humanizando as cidades. Assim, avançaremos, com eficiência e rigor, no combate à violência. E não teremos medo de caminhar nas ruas.

Fonte: Diário de S.Paulo

Crueldade animal

Por Gabriel Chalita

“Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?” Essa frase de Guimarães Rosa serve de reflexão para estranhos comportamentos humanos. Violências cotidianas, covardias, traições, humilhações, ódio. Gente destruindo gente. Há um princípio básico da ética, uma regra de ouro: “não faça ao outro o que você não gostaria que fizesse a você”. Mas essa frase de Rosa inspira outras reflexões, como a da crueldade animal, ou melhor, a crueldade humana contra os animais.

Não faz muito tempo que a imprensa denunciou um pet shop no Rio de Janeiro em que animais indefesos eram espancados. Em outra ocasião, uma cadelinha foi jogada pela janela de um apartamento. Em outra, ainda, um cão foi amarrado a uma camionete, esfolando-se pelo asfalto. Inexplicável!
 
Uma conhecida adotou uma cachorrinha que estava amarrada a um poste. Ela viu um homem, acompanhado de uma criança, amarrando o pobre animal. Protestou. O homem disse que voltaria para buscá-lo. E a criança chorava. Com certo desconforto, o homem pegou a cachorrinha e continuou andando. Dobrou a esquina e depois outra. E olhou várias vezes para ver se ninguém estava olhando. Amarrou a cadelinha em outro poste e saiu apressado. E a criança chorando.
 
Fico pensando na atitude contra a cachorrinha e contra a criança. Ensina o pai a insensibilidade. Provavelmente, o filho queria o animal. Com tantas entidades, por que deixar um cão abandonado em um poste ou em um parque ou em uma estrada? Essa não é uma história incomum. Algumas famílias gostam de filhotes. Quando crescem, cansam. E abandonam.
 
Tenho um cachorro labrador que ganhei de um amigo e uma cadelinha que adotei. Chegou ferida e, hoje, é saudável e feliz. Já faz parte da família. Não entendo, sinceramente, como alguém é capaz de tratar com crueldade esses ou outros animais. Volto a Guimarães Rosa: “o que houve, então, com os homens?”

Fonte: Diário de S.Paulo

Os fins da corrupção

Por Gabriel Chalita

“Fim” pode ser finalidade, objetivo, intenção. Nesse sentido, o “fim” da corrupção é o enriquecimento ilícito e o exercício do poder sem compromisso com a ética. E esse “fim” faz com que a corrupção seja uma praga que corrói o Estado e os cidadãos.

Um dos sintomas mais graves da corrupção é a perda da capacidade de indignação. É o discurso no botequim, na esquina, na escola de que sempre foi assim e assim continuará. Surgem frases de efeito, mas ausentes de dignidade: “fulano rouba, mas faz”. Justificando o injustificável. O correto é fazer e não roubar.

A corrupção retira da criança o cuidado essencial na vida escolar; do idoso, o amparo; do jovem, as perspectivas de uma formação profissional digna. A corrupção retira a casa do sem-teto, o tratamento do esgoto, a melhoria da cidade. É um ralo faminto que absorve o que pertence a todos.

Ao denunciar e punir aqueles que têm na vida esse “fim”, a mídia e os órgãos de controle e fiscalização prestam um relevante serviço à sociedade. Mas é preciso trabalhar por outro fim. O fim como término, encerramento. É preciso encerrar as tristes páginas que maculam nossa história. Os caminhos são dois: um, a educação – educar as pessoas para não negligenciarem os valores corretos; dois, a tecnologia – utilizar as ferramentas informáticas para dar objetividade às relações entre o Estado e os cidadãos. Transparência, clarificação dos processos e procedimentos. É disso que precisamos.

A educação dá resultado a médio e longo prazos. A tecnologia é mais rápida. A educação age na formação da consciência. E a tecnologia como uma consciência externa que amedronta aqueles que não a desenvolveram internamente. O medo da punição também é um remédio eficaz para essa praga.

Por mais difícil que pareça, combater a corrupção é possível e necessário. Como diria Aristóteles: é fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer.

Fonte: Diário de S.Paulo

Nada é mais importante do que salvar uma vida

Por Gabriel Chalita

Esse é o lema do Samu de São Paulo. Lá, trabalham mulheres e homens que se dedicam a salvar vidas. Que atendem a população nos momentos mais difíceis. Na dor, na emergência, na vulnerabilidade humana que iguala todos nós, ricos e pobres.

Uma mãe angustiada porque o filho engasgou e não consegue respirar. Um filho desesperado com a parada cardíaca do pai. Um amigo tentando salvar o outro, ferido em um acidente de moto. O colega que vê o outro soterrado. E, assim, problemas humanos vão desafiando os cuidados de cada um dos atendentes do Samu. Ouvi histórias de partos que eles ajudaram a fazer pelo telefone. Recebem cerca de 9 mil ligações por dia.

No Corpo de Bombeiros, as histórias de angústia e de necessidade se repetem. Profissionais absolutamente qualificados tentando amenizar a dor nos incêndios, nos alagamentos e nos desmoronamentos, entre outros. São 15 mil ligações por dia. E ainda há a Política Militar, com 43 mil ligações diárias, atendendo a todos os tipos de chamada. É um ofício nobre, que merece o nosso aplauso.
 
Todos eles se dedicam a este lema: “Nada é mais importante do que salvar uma vida”.
 
Ocorre, entretanto, um problema que é reflexo da falta de sensibilidade e de educação. São os trotes, que representam 37% das ligações para o Corpo de Bombeiros; 19%, para a Polícia Militar e 17%, para o Samu.
 
O que leva alguém a prejudicar o trabalho de salvar vidas?

É preciso conscientizar as pessoas do significado desses profissionais e desses serviços. É esse o caminho para o exercício da cidadania, que se resume em um valor: respeito!

Fonte: Diário de S.Paulo

Palavras não ditas

Por Gabriel Chalita

Fui assistir ao filme “Gonzaga – De Pai pra Filho”, de Breno Silveira. O filme é genial. Conta a trajetória do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, e sua saga na difícil relação com o filho, Gonzaguinha. O pai saiu de Exu (PE) para tentar a vida em outras cidades. Primeiramente, em Fortaleza, onde virou corneteiro em um quartel. E, depois, no Rio de Janeiro, onde, após tentativas fracassadas de tocar tango e valsa, aventurou-se pelo baião.

O filme conta, também, a história de seus amores. Dos preconceitos tantos que sentiu na pele. E narra a história de Gonzaguinha. A mãe morreu de tuberculose e o pai percorreu o Brasil, escravo da canção. O tempo passou. O encontro dos dois compõe a trama maior do filme. A dificuldade de se entenderem. As mágoas. Diálogos doídos. E muitas palavras não ditas. Até que resolvem fazer uma turnê.

É interessante ver como as relações humanas são intrincadas. Essa é uma história de personagens conhecidas. Porém, ela se repete – cotidianamente– nas relações entre pessoas que se amam, mas que têm dificuldade em manifestar o amor.
 
A família é o primeiro espaço de convivência. E esse espaço é sagrado. Quando a família não supre as necessidades fundamentais de uma pessoa, seu desenvolvimento torna-se mais difícil. Pais precisam entender a importância do diálogo. É compreensível a falta de tempo, mas não é compreensível que, no pouco tempo em que pais e filhos estejam juntos, faltem palavras. Nos restaurantes, é possível ver famílias inteiras usando o celular. Um vendo e-mails, outro passando torpedos, outros jogando games. E nada de palavras.

Esquecemos a poética da contação de histórias. Mesmo em famílias com pais analfabetos, era comum contar histórias para as crianças dormirem. Histórias da própria família ou outras, trazidas pela riqueza da oralidade. É no cotidiano da vida que se forja o caráter de uma pessoa. Cuidemos dessas relações.

Fonte: Diário de S.Paulo

O papel do professor na construção da cidadania

Por Gabriel Chalita

Desde os primórdios da cultura grega, o professor encontra-se em uma posição de importância vital para o amadurecimento da sociedade e para a difusão da cultura. As escolas de Sócrates, Platão e Aristóteles demonstram a habilidade que tinham os pensadores para discutir os elementos mais fundamentais da natureza humana. Sabiam o que era importante, porque viviam da reflexão.

No processo de desenvolvimento das habilidades cognitiva, social e emocional dos alunos, o professor deve levá-los a refletir acerca de questões condizentes com os problemas en¬frentados no dia a dia. O grande desafio do educador é estimular e convencer o educando a valorizar o bem comum, a boa convivência, a responsabilidade partilhada. O acesso à informação e à educação conduz à prática da cidadania.

O cidadão consciente respeita os espaços e as pessoas. A educação para a ética prepara o ser humano para o equilíbrio de aceitar que não devem prevale¬cer as vontades individuais; a cidadania, afinal, não é um direito solitário – é a arte da convivência social.

Eis o princípio básico da construção da cidadania: educar para a convivência pacífica, feliz. Educar para o respeito, para a troca de experiências, para o exemplo no trato com o outro e consigo mesmo. Educar para que todas as vicissitudes da vida sejam enfrentadas com galhardia.

A responsabilidade de formar indivíduos que respeitem os direitos e os deveres de cada um e de todos não é, obviamente, apenas da escola. No entanto, o professor tem de dar o exemplo – e o aluno precisa ter limites, ciente de que liberdade não significa permissividade. Esses limites devem ser entendidos como necessários e provenientes da autoridade do professor, para que ele exerça com liderança e com competência seu mister. Também não é admissível que o mestre se valha de gracejos preconceituosos, e faz-se fundamental que utilize o tom adequado ao dirigir-se aos alunos.

Na construção da cidadania, urge que o professor utilize métodos e traga à baila discussões que despertem o interesse dos alunos. As novas tecnologias empregadas pedagogicamen¬te estão à disposição do educador. Da internet à sucata, muito se pode utilizar para envolver o aluno e discutir aspectos contemporâneos que se relacionem com sua capacidade de melhor conviver em sociedade. Forma e conteúdo têm a mesma importância no ambiente educacional.

As práticas democráticas, o envolvimento efetivo dos alunos no processo de aprendizagem, a união entre conhecimento e reflexão conduzem à educação libertadora. Não se pode ensinar a importância da liberdade sem permitir que o aluno seja livre. Do mesmo modo, iniciativas de professores que busquem tornar mais rica sua função social de educar devem ser incentivadas.

Na obra Pedagogia da autonomia, Paulo Freire fala-nos do “sonho viável”, que só pode ser conquistado por meio da educação libertadora. O autor trata da necessidade de o professor avaliar constantemente seu trabalho, o que nos remete, mais uma vez, à reflexão cotidiana: “O sonho viável exige de mim pensar diariamente a minha prática; exige de mim a descoberta, a descoberta constante dos limites da minha própria prática, que significa perceber e demarcar a existência do que eu chamo de espaços livres a serem preenchidos. (…) A questão do sonho possível tem a ver exatamente com a educação libertadora, não com a educação domesticadora”.

Fonte: revista Profissão Mestre

Professor e aluno: uma relação para a vida

Por Gabriel Chalita

O ser humano se forma em meio a um fluxo inexorável de emoções. Cada encontro guarda um registro. Os registros iniciais vêm da família que acolhe o ser que se revela pela primeira vez ao mundo. Depois, a escola. E, na escola, os professores.

Os primeiros professores geralmente têm um preparo especial para tratar com as crianças que chegam desconfiadas diante do novo cenário, que choram por ter de deixar os pais e se assustam com um movimento qualquer que seja diferente dos de casa.

Do mesmo modo, os professores alfabetizadores possuem uma formação direcionada para esse acolhimento. Afinal, o aluno pode apresentar maior ou menor dificuldade para ler e escrever, por questões cognitivas ou de outra ordem.

No caso dos adolescentes, os educadores precisam saber que os alunos estão em um processo constante de transformação, o que lhes altera o humor, o sono e a concentração. Eles têm uma rebeldia natural que, se bem trabalhada, pode se transformar em uma criatividade impressionante.

Às vezes, os professores acreditam que o jovem não precisa do mesmo carinho e da mesma atenção dispensados à criança no processo educativo. Há muitos que na faculdade, por exemplo, decidem não se comprometer, porque pensam que os encontros são tão poucos que não compensa saber mais sobre cada aluno.

Na verdade, os professores marcam toda uma vida, positiva e negativamente. E o ser humano é tão complexo que não consegue controlar as consequências das palavras e dos gestos. Não poucas vezes, as marcas surgem de feridas abertas que os alunos têm no momento em que, sem conhecê-las, o professor toma determinada atitude. Mesmo que a intenção seja boa, falta, nessas situações, certa delicadeza e compreensão.

Os anos passam, mas as lembranças ficam. A timidez, a dificuldade de dizer alguma coisa em público e a falta de criatividade podem estar ligadas a uma escola que não se preocupou com esses “detalhes”.
Não estou dizendo que os professores sejam cruéis e que criam traumas em seus alunos; alguns machucam, invariavelmente, mas sem perceber que deixam dor. Caminham talvez distraídos e não percebem os sonhos de tantos pequenos que terão de crescer. Como afirma Rubem Alves, “a semente do pensamento é o sonho”; assim, “os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos”.

É preciso estar atento para que as lembranças sejam mais libertadoras e menos dolorosas. Vejamos o restaurador. Há obras que são mais frágeis. Se o artista puser a mesma força em obras distintas, poderá acertar em algumas e errar grotescamente em outras. Toda obra tem suas peculiaridades, sua resistência. Deve-se conhecê-la bem antes de iniciar o processo de restauração.

Assim também o é com o educando. Cada indivíduo possui características próprias, que devem ser respeitadas. O tratamento dedicado ao aluno contribui para a formação de sua personalidade. Por isso, é importante que o professor se pergunte: “Que papel, afinal, desejo desempenhar na sociedade? O que posso agregar – a partir de minha vocação – ao meio em que vivo, a cada um destes aprendizes? Que espécie de cidadão pretendo, com meu trabalho, formar?”. De indagações como essas, nascem reflexões, descobertas e ensinamentos para toda a vida. Ou, nas palavras de Cora Coralina, poetisa goiana, “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

Fonte: revista Profissão Mestre

É preciso cuidar de nossas crianças

Por Gabriel Chalita

Sou educador por opção de vida. É esse ofício que tento executar cioso da enorme responsabilidade de ajudar os aprendizes a serem protagonistas de sua própria história.

A educação é o passaporte para a liberdade. Quando se oferece educação, oferece-se autonomia. Direitos e deveres ficam mais claros. Possibilidades se ampliam.

Não acredito que algumas crianças nasçam inteligentes e outras, burras. O fator principal é oportunidade. Algumas têm; outras não.

Cuidar da criança é uma questão de justiça. É triste ver, na mesma sociedade, algumas crianças estudando em boas escolas, aprendendo idiomas, praticando esportes, enquanto outras não têm o mínimo necessário para o seu desenvolvimento.

Na campanha para prefeito de São Paulo, vi crianças, na periferia, brincando nas lajes. E vi crianças brincando em clubes dotados de todo tipo de equipamento esportivo. Vi crianças com fluência em inglês e em espanhol e crianças com dificuldades em português. Repito: não é uma questão de inteligência, mas sim de oportunidade. 

Outra grande preocupação refere-se às drogas. Estamos perdendo nossas crianças. Elas não nascem com propensão à violência ou à drogadição; apenas não são cuidadas, não são educadas corretamente.

Toda política de combate à violência, além dos aspectos de inteligência policial e de organização da cidade, precisa se preocupar com a prevenção, com a geração que estamos construindo, com as cidades do amanhã, com o Brasil do amanhã.

Fiquei impressionado com a ação de institutos de cultura que desenvolvem talentos e preparam para o futuro.

Fui conhecer o Instituto Baccarelli, na comunidade de Heliópolis. Com as canções daquelas crianças e jovens, uma melodia especial enchia a sala de ensaios. Uma melodia de esperança. Ali, no contraturno da escola, as crianças estudam um instrumento, convivem com a cultura, desenvolvem talentos, aprendem a se respeitar e a perceber que nasceram para grandes feitos.

É preciso um trabalho e um esforço conjuntos das famílias, dos governos e da sociedade civil para que nenhuma criança seja privada do desenvolvimento de seus talentos. O futuro agradece.

Fonte: Diário de S.Paulo

Professor: a alma da educação

Por Gabriel Chalita

Eis o grande agente do processo educacional: o professor. Como afirma Cecília Meireles, na obra Crônicas de Educação 3 (Editora Nova Fronteira), “se há uma criatura que tenha necessidade de formar e manter constantemente firme uma personalidade segura e complexa, essa é o professor”.

Há quem diga que o computador substituirá o professor; que, nesta era, em que a informação chega de muitas maneiras, esse profissional perderá sua importância.

O computador nunca substituirá o professor. Por mais modernos que sejam os aparatos tecnológicos, por mais que a robótica profetize evoluções fantásticas, a máquina não reflete e não é capaz de dar afeto, de passar emoção, de vibrar com a conquista de cada aluno. Isso é um privilégio humano.

O professor tem luz própria. Não é possível que ele pregue a autonomia sem ser autônomo; que fale de liberdade sem experimentar a conquista da independência que é o saber; que queira que seu aluno seja feliz sem demonstrar afeto. E, para que possa transmitir afeto, é necessário que ele viva o afeto. O mestre precisa ser o referencial, o líder, o interventor seguro, capaz de auxiliar o aluno em seus sonhos, em seus projetos.

A formação é um fator fundamental para o professor. Não apenas a graduação universitária ou a pós-graduação, mas também a formação continuada, as atualizações, o aperfeiçoamento. Para que um professor desempenhe com maestria as aulas na matéria de sua especialidade, deve conhecer as demais matérias, os temas transversais que perpassam todas elas e, acima de tudo, conhecer o aluno. Ninguém ama o que não conhece, e o aluno precisa ser amado! Para quem teve uma formação rígida, é difícil expressar os sentimentos. Há pessoas que não conseguem elogiar, abraçar, sorrir. O professor tem de quebrar essas barreiras e trabalhar suas limitações, assim como as de seus alunos.

É essencial que o mestre acredite no que diz, que tenha convicção em seus ensinamentos, para que os alunos também acreditem neles e se sintam envolvidos. O mestre necessita de preparo para alcançar os objetivos que almeja. Aquele que não prepara as aulas desrespeita os alunos e o próprio ofício. É como um médico que entra no centro cirúrgico sem saber o que vai fazer, sem a instrumentação adequada. Uma aula preparada, organizada, com o conteúdo refletido, muito provavelmente será bem-sucedida. No entanto, aula previamente preparada não significa aula engessada; o professor não deve deixar de discutir outros temas que surjam apenas porque deseja cumprir o roteiro que preparou. Pode até acontecer de ele dar uma aula diferente da planejada, mas isso acaba sendo enriquecedor.

Mas não há professores perfeitos. A imperfeição é algo inerente ao ser humano. Aliás, aquele que pensa que nada mais tem a aprender acaba se transformando em um grande risco para a comunidade educativa, pois é incapaz de rever seus métodos, de ouvir ideias, de tentar ser melhor.

O professor precisa tornar-se, de fato, um educador que conheça o universo do educando, que tenha bom senso, que proporcione o desenvolvimento da autonomia de seus alunos. Que demonstre entusiasmo, paixão. Que não discrimine ninguém. Que se mostre politicamente participativo, para que suas opiniões possam fazer sentido para os alunos, sabendo sempre que tem nas mãos a responsabilidade de conduzir um processo de crescimento humano. Que seja um profissional, enfim, capaz de ajudar a construir uma educação verdadeiramente cidadã.

 

Fonte: revista Profissão Mestre

Dívida por investimento: uma boa troca

A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) acaba de completar 12 anos de bons serviços prestados à sociedade brasileira. É vital que continue a ser aplicada com rigor. Mas é preciso corrigir o artigo 35, que proíbe a realização de operação de crédito entre os entes da Federação, ainda que sob a forma de renovação, refinanciamento ou postergação de dívida contraída anteriormente. A lei impede a renegociação das dívidas dos Estados e municípios.

Quando a LRF surgiu, 25 Estados e 180 municípios repactuaram as suas dívidas, sob o compromisso de sanear estruturas, ajustar contas e se desfazer de determinados ativos, como os bancos públicos estaduais.

A Prefeitura de São Paulo estava no grupo. Tinha uma dívida enorme, absolutamente impagável.

A duras penas, pagaram-se as parcelas. Mas, no final da gestão Marta, o fardo se tornou pesado. O descumprimento dos termos do contrato elevou a taxa de juros cobrada de 6% para 9%, retroativamente.

Em janeiro de 2005, em editorial, esta Folha alertava para o desastre iminente: sem condições de pagar o devido, São Paulo caminhava para o calote. O prefeito José Serra, que sucedeu Marta, chegou a ameaçar ir à Justiça para revisar os termos do contrato. Ficou na promessa.

Pagamos muito. Se a dívida fosse rateada entre os cidadãos, cada habitante da maior metrópole brasileira já teria desembolsado R$ 1.700. E, no início de 2012, continuaria a dever R$ 4.250. Fosse uma família, São Paulo estaria sendo despejada.

O problema decorre tanto da taxa de juros cobrada quanto do índice de correção adotado. Desde 1997, quando a renegociação foi iniciada, o IGP-DI teve aumento de 224,6%, enquanto o IPCA subiu 140,2%.

Na condição de quem já foi o vereador mais votado da cidade de São Paulo e agora integra a segunda maior bancada no Congresso, alerto para o crime que seria deixar a dívida da nossa maior metrópole fora dessa equação.

Se o município de São Paulo fosse um Estado, sua dívida seria a quarta maior do país. Pelos dados de 2011, o Estado de São Paulo devia R$ 157 bilhões; Minas Gerais, R$ 67 bilhões; Rio de Janeiro, R$ 57 bilhões; e a cidade de São Paulo, R$ 48 bilhões.

Imaginando que a inflação repita o desempenho registrado entre 2007 e 2011, a adoção do IPCA como índice e a volta da taxa de juros aos 6% originais geraria uma economia R$ 9 bilhões pelos próximos quatro anos.

É dinheiro suficiente para construir mais de 200 km de novos corredores de ônibus. Ou para por em funcionamento cerca de 30 km de novas linhas de metrô. Ou ainda para construir e aparelhar seis novos hospitais do porte dos três que a atual administração municipal prometeu construir, mas que ainda nem saíram do papel.

Trata-se de uma questão que está acima dos confrontos entre partido A e partido B, que tão mal fazem a São Paulo. A cidade não quer mero perdão de parte de seus débitos. Proponho que os recursos economizados sejam aplicados exclusivamente em investimentos sociais.

A presidenta Dilma Rousseff já mostrou que podemos enfrentar tabus históricos, como a redução dos juros e a mudança das regras da poupança, em benefício de uma economia mais estável, equilibrada e justa para todos.

Um dos grandes sonhadores brasileiros e um dos políticos mais corajosos e dignos da história, o senador Teotônio Vilela, disse: “A maior tragédia do Brasil não é a dívida externa nem a dívida interna: é a dívida social”.

É essa que queremos abater ao criar condições para que a Prefeitura possa trocar o fardo de uma dívida draconiana para investir mais em programas sociais. 

*Deputado federal e presidente do PMDB da cidade de São Paulo.

Fonte: Folha de S.Paulo por Gabriel Chalita