Por Gabriel Chalita
“Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?” Essa frase de Guimarães Rosa serve de reflexão para estranhos comportamentos humanos. Violências cotidianas, covardias, traições, humilhações, ódio. Gente destruindo gente. Há um princípio básico da ética, uma regra de ouro: “não faça ao outro o que você não gostaria que fizesse a você”. Mas essa frase de Rosa inspira outras reflexões, como a da crueldade animal, ou melhor, a crueldade humana contra os animais.
Não faz muito tempo que a imprensa denunciou um pet shop no Rio de Janeiro em que animais indefesos eram espancados. Em outra ocasião, uma cadelinha foi jogada pela janela de um apartamento. Em outra, ainda, um cão foi amarrado a uma camionete, esfolando-se pelo asfalto. Inexplicável!
Uma conhecida adotou uma cachorrinha que estava amarrada a um poste. Ela viu um homem, acompanhado de uma criança, amarrando o pobre animal. Protestou. O homem disse que voltaria para buscá-lo. E a criança chorava. Com certo desconforto, o homem pegou a cachorrinha e continuou andando. Dobrou a esquina e depois outra. E olhou várias vezes para ver se ninguém estava olhando. Amarrou a cadelinha em outro poste e saiu apressado. E a criança chorando.
Fico pensando na atitude contra a cachorrinha e contra a criança. Ensina o pai a insensibilidade. Provavelmente, o filho queria o animal. Com tantas entidades, por que deixar um cão abandonado em um poste ou em um parque ou em uma estrada? Essa não é uma história incomum. Algumas famílias gostam de filhotes. Quando crescem, cansam. E abandonam.
Tenho um cachorro labrador que ganhei de um amigo e uma cadelinha que adotei. Chegou ferida e, hoje, é saudável e feliz. Já faz parte da família. Não entendo, sinceramente, como alguém é capaz de tratar com crueldade esses ou outros animais. Volto a Guimarães Rosa: “o que houve, então, com os homens?”
Fonte: Diário de S.Paulo
