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Entre jovens

Fui dar uma palestra para jovens universitários. Entre tantas. Entre tantos jovens, reanimei minhas esperanças. Não que seja adepto do pessimismo, do derrotismo, das mágoas acumuladas por decepções com a conduta humana. Mas, vez ou outra, há cansaço. Há tantos desacertos que algumas manhãs parecem padecer de força suficiente para alimentar o dia que virá.

Era uma manhã. O tema da palestra, “A ética na construção do conhecimento”. Logo na chegada, os olhares já apontavam para bons momentos. Jovens apinhados em todos os cantos. Nas cadeiras, no chão, nos espaços próximos ao palco. Tão próximos estavam eles naquela manhã. Agradeci a receptividade e comecei a prosa. Amparei-me em alguns pensadores, filósofos que se debruçaram sobre o tema. Fizemos uma viagem a tempos e espaços diferentes. Há inquietações que fizeram com que produzissem belas teorias sobre o conviver humano, sobre a conduta necessária para a conquista da harmonia.

Chegamos aos tempos de hoje. A amplitude da temática não se esgota em algumas horas. A ética é pauta para qualquer assunto da conduta humana. A ética é alicerce para construções sólidas. É inspiração e é hábito. É o caminho para o bem comum. Na política, nas relações empresariais, nas religiões, nas profissões, no professar crenças de tempos de respeito e encantamento. Ou se é encantado pelo estar no mundo ou dificilmente se buscará compreender as diferenças e a beleza em suas relações. É por isso que o belo e o bom são convivas de um mesmo banquete.

Na atenção e nos olhares dos jovens, nascia a minha oração de gratidão. Era bom estar ali. Era bom saber-me educador. Ofício da generosidade. O professor dá um pouco de si e um pouco do que sabe a cada encontro com os seus aprendizes. Dá e nada lhe falta. Dá e a ele se acrescem novos horizontes.

Lembrei-me do Papa João Paulo II quando, no encontro com os jovens na capital mineira, usou o nome da cidade para expressar o seu contentamento com a multidão que ali estava: “que Belo Horizonte”. Que belo horizonte era aquela visão. Jovens. Sequiosos de vida. De futuro. Alistados no batalhão da esperança.

Terminei a palestra e vieram as perguntas. Profundas. Complexas. Sinceras. E as respostas que geravam outras perguntas. E o tempo foi insuficiente. E prosseguimos desobedientes. Era bom estar ali. Era bom beber nas águas ainda puras de tantas promessas de amanhãs.

Acabado o encontro, encontramos tempo para conversar durante a travessia até os portões da universidade. O diretor dizia que era preciso me liberar, que eu tinha uma agenda repleta. Repleto estava eu pela curiosidade daqueles moços. Linda a “Oração aos moços” de Rui Barbosa. Atravessamos juntos aqueles pátios entreolhando as nossas histórias com o desejo de melhorar as coisas, com o ânimo de animar o país, com a responsabilidade de quem sabe que a ética é coletiva e individual. É decisão de um grupo e de um indivíduo. Não quero entrar na distinção entre moral e ética. Quero apenas aplaudir os jovens. E agradecer.

Não tenho a ingenuidade de julgar que está tudo bem. Não. Definitivamente, vivemos uma crise aguda. Política. Comportamental. De valores. Mas, em outros tempos e em outros espaços, a humanidade já enfrentou esses amargores. E, docemente, prosseguiu. Flores brotaram em áridos caminhos, águas nasceram em regiões desérticas, pássaros rasgaram céus desabitados. Jovens compuseram canções, quando o silêncio forçado nos forçava a viver a ditadura.

Liberdade era o vento que soprava quando nos despedimos naquela manhã.

Ainda hoje vivo o restante daquele dia.

Sobre traição

Os recentes acontecimentos políticos colocaram na ordem do dia a palavra “traição”. Há sempre um sentimento de repulsa em relação ao traidor. Exemplos clássicos na história são as traições de Jesus por Judas, de Tiradentes por Joaquim Silvério dos Reis e do Imperador César por Brutus. As palavras “traição” e “tradição” vêm do latim traditio, derivado de tradere, que significa entregar, passar adiante. Tradição é, assim, passar adiante costumes importantes, valores, hábitos que constituem um grupo. Traição também é passar algo adiante. Mas algo que prejudica alguém, algo que destrói o outro. Informações que podem fazer com que um país perca uma guerra. Daí o rigorismo contra os traidores na vida militar.

Há traição nas relações amorosas. Um homem jura a uma mulher ser-lhe fiel e a trai. Age nos esconderijos para que ela não descubra. Não quer ser desmascarado. Há traição na vida empresarial. Imaginem uma empresa que vai lançar um produto e alguém aceita benefícios de um concorrente para contar as estratégias desse lançamento. Há traição nas amizades. Um segredo que deveria ser respeitado, nascido numa conversa de confiança entre pessoas. O pretenso amigo passa adiante o segredo. Trai o outro por razões de ordem diversa.

E na política? Certamente a política é um cenário propício a traições. A tradição da política, no sentido correto, deveria ser a preservação do bem comum, a verdade do cuidar coletivo que passa de geração a geração. O estudo dos inspiradores do passado, na teoria e na prática. Ao que se assiste, infelizmente, não é isso. Trai-se por vantagens. Trai-se por dinheiro. Trai-se por poder. Quem um dia senta-se à mesa como aliado, no outro fareja o sabor de poder que a outra mesa pode oferecer. E se esquece do jantar de ontem. E se alia ao outro exército sem o menor constrangimento. Trair o povo vem se tornando regra e não exceção. Tristes tempos em que as justificativas nada justificam. Em que amizades e alianças nada valem. Em que a verdade é um detalhe.

O tempo e o tempo

Estava sentando em um parque, lendo, aguardando uma amiga. Uma criança veio correndo em direção à mãe, chorando. Mostrou-lhe o dedo. Ferido por um espinho, talvez. Foi pegar alguma coisa e pegou o espinho. Sangrava o dedo do menino. A mãe o abraçou. Pegou um guardanapo de papel e limpou o sangue. Doeu. O menino reclamou. O sangue ainda jorrava. Vagarosamente, mais jorrava. Não houve corte profundo. O dedo não correria riscos. Mas o menino chorava. E a mãe o acolhia. Estancado o sangue e o choro, a mãe disse que era melhor fazer um pequeno curativo. E que logo ficaria bom.

“Logo, quando?” – perguntou o menino.
“Logo mais” – disse a mãe.
“Logo mais que horas?”.
“Calma filho, não foi nada”.

A criança parecia impaciente. Queria saber o tempo da cicatrização. Queria brincar. Queria ficar livre dos troços que a mãe colocara no dedo para evitar que o sangue voltasse a escorrer.

“Se eu ficar bonzinho, melhora mais rápido?”.

A pergunta parecia ser uma promessa, uma disposição para antecipar as coisas. A mãe respondeu sorrindo:

“Você é bonzinho, mas, para fazer uma pele nova no seu dedo, é preciso um tempo, meu filho, não há como acelerar isso”.
“E por quê?”
“Por quê? Como por quê?”
“Quem é que inventou que precisa de um tempo para melhorar meu dedo”?

A mãe viajou com o pensamento. Pude ver nitidamente isso no seu sorriso sem maquiagem. Ficou pensando. Sorriu novamente. E abraçou o filho que ainda aguardava uma resposta.

Como seria bom se dominássemos o tempo. O tempo nos ensina que é o tempo que domina o que quer. Machucados no dedo ou cicatrização na alma. Quedas na rua ou ruas de solidão construídas por escolhas erradas.

Há um tempo, o qual chamamos tempo da inocência, que é difícil entender o tempo. Mas, depois, vem um outro tempo. E, confesso, continua difícil. Dizem que os orientais entendem o tempo melhor do que os ocidentais. Não tenho tanta certeza, mas acredito que sim. Pelos livros que li. Pelas teorias construídas por seus filósofos. Pelos filmes que tem uma outra relação tempo e movimento.

Era um dia de sol aquele no parque. Ao longe, vi minha amiga caminhando lentamente. Ela tem muito tempo de vida. E o aprendizado que é melhor tomar cuidado, porque o tempo da cicatrização de alguma quebradura, de alguma queda, pode lhe roubar bons momentos de prazer. Como o de encontrar um amigo no parque e conversar sobre o tempo.

Contei a ela o diálogo entre a mãe e o filho. E ela me respondeu: “Alimento-me desses cotidianos, gosto das gentes”. E prosseguiu: “Gasto tanto tempo com essas incursões que não me sobra tempo para envelhecer”.

Fiz a ela a pergunta da criança: “Quem inventou o tempo do ferir e o tempo da cicatrização?”.Ela pediu que eu lhe desse um tempo para responder. Vivia ela o tempo das aprendizagens. Naquela idade.

Foi quando vimos a mãe e o filho indo embora. De mãos dadas. Ela olhando para a frente e sorrindo. Estava, decididamente, feliz. Ele resmungando alguma coisa com o seu dedo. Desejei dar um abraço nos dois. Olhei para minha amiga e prossegui ouvindo suas histórias. Prepara ela um novo livro. Sobre o tempo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/04/2016

Loucura ou sonho?

Nesta semana, comemoramos o aniversário de Monteiro Lobato. Foi ele uma escola de construções de narrativas e personagens. Um louco na arte de desbravar. Seu jeito de fazer do livro um companheiro essencial uniu o talento de escritor e a ousadia do empreendedor. É dele a frase: “Loucura? Sonho? Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira – mas tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum”.

Nesta semana, também, lembramo-nos dos inconfidentes. Foram eles sonhadores ou loucos? Sem uma dose de loucura teriam ficado em casa sem os riscos das mudanças de temperatura – e como elas mudam! Sonhadores? Definitivamente, sim. Sonharam com a liberdade sem nem saber muito bem como era.

Não foi assim com o povo escravo do Egito que ousou seguir uma voz e que, ao se deparar com o fim da escravidão, chegou a dela ter saudade? O sonho teria se convertido em pesadelo? Noites difíceis viveram também os inconfidentes. Certamente. Na solidão e na presença de pensamentos duais. Fizemos o correto? Vale a pena perder a vida pela causa da liberdade? Quando vejo discursos vazios de muitos políticos brasileiros, ausências de sinceridade, dissimulações, fico sonhando com outros tempos.

Precisamos de loucos e sonhadores. De cavalheiro como o criado por Cervantes. De jovens que habitavam os “Miseráveis”, de Victor Hugo. De outros Lobatos. Também esse sofreu as consequências da ousadia, da sinceridade, da coragem.

Os dissimulados estão ganhando terreno. Infelizmente. E aplausos. O que deveria ser vergonha torna-se esperteza. Os homens que fizeram a diferença não foram os espertos. Não. Esses atrapalharam. Ganharam um dinheirinho a mais por entregarem o mestre. O que o mundo, hoje, diz de Judas e o que diz de Jesus? Lobato, o inspirador, optou pelas crianças quando viu como era difícil consertar os adultos: “A mim me salvaram as crianças. De tanto escrever para elas, simplifiquei-me”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/04/2016

Amigos distantes

Recebi uma carta de um homem que, na prisão, leu alguns livros meus. Ao final da carta, antes da assinatura, ele disse que era um dos meus “amigos distantes”. Que não me conhecia pessoalmente, mas imaginava como eu era pelos textos que eu escrevia. A carta me foi entregue em uma palestra. Estava em Minas Gerais e, ao final, sua irmã me entregou a carta. Contou-me que o irmão havia lido muitos livros meus. Que sempre pedia mais um. Que um deles, “O pequeno filósofo”, ele sabia de cor alguns trechos. Aquela confissão encheu-me de alegria. Os livros nascem de nossas mãos, de nossas intenções e ganham vida. Não é possível saber onde eles chegam, que histórias frequentam, que solidões acalentam.

Disse-me ela da recuperação do irmão. As drogas roubaram-lhe a dignidade, enfearam-lhe a vida, mas hoje ele está melhor. Em pouco tempo deixará a prisão e encontrará uma família disposta a acreditar em recomeços. Falamos um pouco mais. Havia outros professores para partilhar da prosa. Guardei com cuidado a carta e, assim que pude, cuidadosamente a li.

Linguagem correta, passeios pelos seus sofrimentos dialogando com personagens que criei. Falou do “abacaxi miúdo”, um triste abacaxi de meu livro “A ética do rei menino”. Falou de minhas cartas. Falou do amor que devoto ao meu pai. E escreveu sobre o seu pai. O sonho de que, um dia, o pai não se envergonhe do filho. Eram algumas páginas em que a vida dele era entregue como uma confissão necessária. Explicou-me que me conheceu por acaso. Um outro presidiário estava lendo um livro meu escrito com o padre Fábio, “Cartas entre amigos”. Ele leu e depois quis ler os outros. Comentou comigo sobre o final de um romance meu e deu sugestões sobre um outro final para um livro infantil que escrevi com Maurício de Sousa.

Gosta ele de finais felizes. O tempo do trancafiamento estava sendo duro. Mas é ainda jovem. Disse que era grato pelo tratamento que recebia. Que ouvia histórias de outros presídios e de seus horrores. Já era duro perder a liberdade. Perder a dignidade seria ainda pior. Ele era bem tratado. Nele, habitavam vários sonhos. Um deles era escrever. Escrever para que outros jovens pudessem fazer escolhas diferentes. O primeiro dia em que experimentou a droga foi para não dizer “não”. Teve medo de não pertencer ao grupo de colegas que ele admirava. Depois quis novamente. Depois teve uma namorada que o levou para festas e nas festas drogou-se como quis. E chegou ao estágio em que já não vivia sem. E teve de buscar dinheiro lícito ou ilícito para honrar os compromissos com os traficantes.

Honrar compromissos? “Justo eu que desonrei minha liberdade e que optei pelos caminhos errados”. Quer ele prevenir os jovens. Dizer que não comecem. Cantar o canto da liberdade que não combina com vícios. Não me pediu nada na carta. Nem ao menos que, concluído o livro, eu o apresentasse a alguma editora. Não deixou sequer o endereço. Realmente o seu único desejo era me dar um presente. E que presente! Fui relendo a sua escritura e agradecendo ao ofício que abracei como vida. Escrever. Escrever com a responsabilidade de quem sabe o poder que tem sua excelência “a palavra”. Palavras que nos conduzem aos derradeiros instantes de decisão.

Somos um somatório de pessoas e livros que nos influenciaram, depositários de emoções alheias que ajudaram a formar as nossas. Na vida ou na literatura, conhecemos amores, vilões e heróis, medrosos e valentes. Nos textos, descobrimos teóricos que debruçaram sobre acontecimentos para neles jogar luz. Para que errássemos menos no futuro, para que compreendêssemos melhor o nosso estar coletivo.

O remetente da carta chama-se Francisco, apenas isso. Francisco, o santo. Francisco, o papa. Francisco, o jovem que, como tantos outros jovens, enfrentou e enfrenta o calvário. Que o desfecho seja feliz, como ele diz que gosta. Que um dia eu entre em uma livraria e encontre um livro de um tal Francisco, meu amigo distante.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/04/2016

A cidade, o cidadão

São Paulo é uma cidade apaixonante. São Paulo é uma cidade pulsante. São Paulo é vida. Vida que não para. 24 horas por dia. Tantas palavras já foram ditas por essa cidade. Tantos amores. Tantos temores. Poemas, traços e canções. Mario de Andrade já a tratou como “Paulicéia Desvairada”. Caetano a cantou em suas esquinas, “De um sonho de cidade à dura realidade”. Adoniram falou dos bairros e das partidas. E do trem. Do último trem. Da cidade, a grande locomotiva. Paulo Bomfim, nosso príncipe,  já a poetizou sem economias. A vibrante cidade carece, entretanto, de cidadãos que dela cuidem.

As críticas aos órgãos públicos, aos gestores de todos os níveis andam na moda. Mas é preciso ir além. E chegar à necessária crítica ao cidadão. Pontos viciados de lixo, pichações, córregos abarrotados de objetos de despejo, rotinas inadequadas, nascidas da ausência da consciência cidadã. Há, ainda, aqueles que despejam o que incomoda pela janela do carro. Seja a casca de uma fruta ou um pedaço de salgado. Uma lata de refrigerante ou um papel de bala. E então? O pensamento errático de que o meu lixo não faz diferença atrapalha o dia a dia da cidade.

Atrapalha, também, o que buzina, o que para em fila dupla, o que não respeita a faixa de pedestre, o que não cuida do que é comum. Do banheiro no metrô à poltrona do ônibus. Da carteira da escola aos espaços das praças. A cidade é de todos. E se, por um lado, a crítica correta ajuda os administradores; por outro, é preciso um senso coletivo de cuidado, de divisão de responsabilidades, de somas de amor.

Uma megalópole como São Paulo só consegue respirar se todos os seus habitantes, sem exceção, fizerem cada um a sua parte. Todos, em coletividade, fazendo valer a sua condição cidadã. E amar sua cidade é o que de mais nobre seu morador pode fazer por ela. Grande parte dos nossos problemas seria resolvida se tivéssemos um comportamento reto, generoso, ético, cidadão.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/04/2016

Pedaço de mim

Um filho morreu e uma mãe chora a necessária dor. Sim, necessária. Não há o que dizer para essa mulher que seja capaz de aliviar o susto, a ausência, a dor lancinante que a toma desprevenida. O filho estava bem. Foi viajar, apenas. Foi e não voltou. Um descuido. Quem sabe? Um caminhão encerrou um destino.

Ouvi o relato da mãe. O doloroso relato. Fui até ela. Abracei-a sem pressa. Disse pouco. Ouvi mais. Ela falou sobre a minha mãe que também perdeu filhos. Dois. Dois irmãos meus morreram na juventude. Ouvi. Não achei que era momento de falar sobre as minhas perdas ou sobre as cicatrizes que há em mim desenhando a saudade dos meus irmãos. O momento de dor era dela. Lembrei-me da canção de Chico Buarque de Holanda: “Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Disse-me a mãe que não conseguiria arrumar o quarto do filho. Seria demais. Remexer em bilhetes que estariam ali. Em documentos. Em pertences que dão vida a um quarto. Em roupas que lembrarão momentos. Festas que não voltarão a acontecer. Abraços que se ausentarão. O filho morreu. A dor não. Ela vive e quem sabe o dia que ela deixará de ocupar aquele cômodo?

A mulher tem fé. Disse que sabe que o filho não acabou. O filho vive no Amor, agora. Mas o beijo acabou. O encontro acabou. A rotina tão boa acabou.

Prossegue com sua indignação justa. “Não é certo”, diz ela. “É a inversão da lógica da vida. Os filhos enterram os pais e não o contrário. Eu não estava preparada para isso”. Que mãe está preparada para perder o filho? Mas não importa. O que importa é permanecer ali. Dizendo pouco, apenas o necessário para fazer nascer alguma esperança.

Haverá outros amanheceres, certamente. O tempo haverá de conversar seriamente com a dor e solicitar a ela que não preencha todas as lacunas da alma. Que parta aos poucos sem partir o que fica. É preciso respirar. De hoje, essa mãe não tem condições de avistar o amanhã. Mas ele virá.

Falou novamente da minha mãe. Quis saber como ela se recuperou. Eu disse sobre o milagre da transformação da dor em saudade. E lembrei-me novamente da canção. Da força da imagem da mãe que arruma o quarto do filho que já morreu.

A saudade vai ocupando as tais lacunas. E, aos poucos, ela vai colorindo um outro quadro. Bonito. Hoje, dói pensar no filho e como é impossível não pensar, apenas a dor existe. Chegará um amanhã em que a lembrança será capaz, inclusive, de roubar algum sorriso, de tempos de brincadeiras bonitas entre mãe e filho.

Mostrou-me o celular. Nas chamadas, lá distante, havia uma do filho. Não haverá mais. Até isso dói. “Um pedaço de mim se foi”, ela balbuciou entre lágrimas. Eu concordei. E delicadamente falei do poder de reconstrução. No inverno, não somos capazes de imaginar que, um dia, amanheceremos com uma paisagem completamente diferente. As árvores secas voltarão a florir. A morte é a primavera da alma.

Voltei para casa pensando nos problemas que criamos desnecessariamente. Nas vidas que complicamos. Nas relações que permitimos serem doentias. Tempos de desperdícios. Chorar por um filho que se foi não é um desperdício, é um humano jeito de dizer a Deus: “Essa perda para mim foi demais.”

Vou visitá-la de novo, certamente. É o meu humano jeito de obedecer a Deus, amando quem mais precisa de amor.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 10/04/2016

Um pouco de calma

Reparem ao lado. Nos acelerados. Não naqueles que, ciosos do dever, não perdem tempo e fazem o que precisa ser feito no tempo certo. Mas nos desnecessariamente acelerados. Nos perturbados. Nos que perturbam. Eles estão por todo lado. No trânsito, irritam-se com uma facilidade de arrepiar. Buzinam. Aceleram. São os senhores das ruas e das estradas. Usam o carro como uma arma. Estão em guerra. Nas filas, também. Quaisquer que sejam elas. Das rodoviárias às padarias. No banco ou no cinema. Estão se movimentando mais do que o necessário como se isso antecipasse os fatos.

Dias desses, fiquei atônito ao ver um jovem brigando com uma senhora na fila do cinema. Ela saiu da fila por alguns instantes para cumprimentar outra senhora e voltou. E o jovem se deu o direito de exigir que ela fosse para o final da fila. Aos berros, deu lições de civilidade. Feito lamentável. Alguns segundos de reflexão antes da ação ajudariam o jovem a lembrar que os lugares são marcados e que diferença alguma faria aquela senhora à sua frente ou atrás. Mas ele estava irascível. Era o dono da fila. Do mundo, talvez.

Em aeroportos, há agressões desnecessárias aos atendentes por atrasos aéreos. Vale lembrar que não são eles os donos das companhias. Que não estão no comando do avião. Nem da torre que autoriza pousos e decolagens. Mas como estão ali, é neles que os perturbadores se aliviam.Há ainda os acalorados debates sobre política ou futebol ou religião ou o que quer que seja. Há tantas certezas nesses discursos. Mentem todos para mostrar a razão. Razão?

Um pouco de calma ameniza a vida. Auxilia-nos a ter menos problemas de saúde e de convivência. Gostar desse ou daquele político não me faz menos ou mais inteligente. Torcer para um time e não para outro não me diminui nem me eleva. Acreditar nos valores religiosos que me iluminam a alma não me obscurece nem me faz melhor do que quem navega sua embarcação em outros mares. Brigar por quê? Para quê? Seja bem-vinda a serenidade. Não sei onde ela foi. Sei que faz muita falta.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/04/2016

Maria Gadú, talento e generosidade

Ela cantou, emocionou, tocou na alma de um jeito tão delicado.

Era um dia chuvoso. Muito trânsito. Chegou esbaforida. Mas não aliviou no intento mágico de acender os faróis da arte que todos têm, mas de que, às vezes, se esquecem. Cantou como menina tímida, um pouco envergonhada. Cantou como mulher, senhora da voz, ciente do ofício de fazer do palco a celebração da vida.

Era o CEU Quinta do Sol, na região da Penha. Ela cantou em vários CEUS, aliás. Ela e outras cantoras incríveis como Monica Salmaso, Alaíde Costa, Vânia Bastos, Fafá de Belém, Lecy Brandão, Jane Duboc, Áurea Martins, Graça Braga, Tata Godoy, Daúde, Virgínia Rosa e Letícia Sabatella. Tudo isso em homenagem à mulher. O “Março Mulher” contagiando a rede municipal de ensino de SP. Poderia falar de todas elas e das pessoas que lotavam os teatros em que elas se apresentavam. Cobraram menos pelos cachês. Aceitaram o nosso pedido de fazer com que as periferias de São Paulo tivessem esse privilégio. E foram deixando um pouco de si mesmas em suas canções.

Quero voltar à Maria Gadú. Assisti ao show dela no CEU Vila Curuçá, região de São Miguel Paulista. Gosto das suas músicas e do seu jeito livre de dizer e viver o que pensa. Admiro sua militância contra os preconceitos e a favor do belo. É bela a sua interpretação, sua composição.

Em um de seus shows, Maria Gadú soube que era tanta gente, naquele CEU, querendo vê-la cantar, que ela nos surpreendeu com sua generosidade. Fez o show. Esperou as pessoas se retirarem. Permitiu que as que não puderam assistir pela lotação do teatro entrassem e repetiu o espetáculo. Esqueceu-se do cansaço, esqueceu que já havia se entregado, como faz sempre, ao seu público, de corpo e alma. E reiniciou seu jeito elegante de fazer da canção o acender do farol. Cantou lindamente:

“Olhe só
Como a noite cresce em glória
E a distância traz
Nosso amanhecer
Deixa estar que o que for pra ser vigora
Eu sou tão feliz Vamos dividir”.

E ela dividiu. Deu o todo de si mesma para cada parte. Naquela noite, fez-se luz. Fez-se farol. Mais de uma vez. Fiz questão de escrever esse relato porque acredito que, em tempos estranhos de interesses estranhos, é saudável ser surpreendido por seres especiais. Generoso desejo de viver aquecendo vidas. Ou esfriando, se necessário for, vidas que deixaram se levar pelo ódio.

A arte é redentora. Ela é capaz de rabiscos certeiros na escritura das nossas entranhas. Rasga-nos a insensibilidade. E, exatamente por isso, tem o poder do êxodo. Nutridos por ela, saímos de nós mesmos em busca do outro. E é o outro o nosso desafio. É o outro, que será sempre diferente de nós, que de nós precisa para caminhar nas ruelas da incompreensão ou da poesia.

A poesia de Maria Gadú é livre como razão de existir. Livres podemos ser, se compreendermos os instantes preciosos que a vida nos proporciona. Todos eles. Mesmo os de dor. Mesmo os de solidão. Mesmo os de dúvidas. Quanto encanto traz essa última, a dúvida. Quanto poder ela tem. O poder de nos fazer mais humildes, o poder de nos preencher de curiosidades, de avidez por novas canções.

Fico pensando qual é minha música preferida na interpretação de Maria Gadú, São tantas. Depende de qual instante estou vivendo. Fico feliz em poder proporcionar esses instantes para essa gente tão especial que frequenta nossas escolas. Educação, arte, talento, generosidade.

Voltemos às escritas e ao seu poder. Escritas que podem traçar um outro destino para aqueles que acreditam que o destino depende dos destinados. Ou, em palavras mais claras, do livre arbítrio, da possibilidade de escolher quem queremos ser. Se tiver escuro demais para decidir, ouça uma música, leia um poema, contemple uma escultura, veja uma dança, chore ou ria em uma peça de teatro ou filme, talvez. No cantar de Maria Gadú, “Sem mais, a vida vai passando no vazio/ Estou com tudo a flutuar no rio esperando a resposta ao que chamo de amor”.

Enfim, não escolha enfrentar a escuridão sem o tal farol da arte. Com luz, fica tudo mais claro. Mais iluminado. Mais bonito.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 03/04/2016

Dia da mentira

Hoje, é primeiro de abril. Dia da mentira. Eu ia pesquisar a razão dessa data ter se estabelecido como dia da mentira. Mudei de ideia. Busquei outra. Imaginem se hoje fosse o dia da mentira pelo simples fato de que, em todos os outros dias do ano, ninguém mentisse. Que as mentiras, de hoje, fossem brincadeiras, apenas. Mentiras inocentes. Há mentiras inocentes? Não sei. Só sei que não termos apenas um dia da mentira está fazendo com que as relações fiquem cada vez mais fraturadas. Há desconfianças por todos os lados.

Com razão. Como é difícil saber se o que o outro diz é verdade ou não. Como é difícil separar o correto do errado. A mentira chega sorrateira, disfarçada de boa amiga. Faz um estrago enorme. E parte. Parte as pessoas. Quebra as relações. Quem nos ensina a mentir? Certamente, não nascemos mentindo. Quem ensina a arte da dissimulação? Quanto mal fazem ao mundo os dissimulados. Como saber se o sorriso é ensaiado ou se brota dos sentimentos da alma? Como saber se as lágrimas são uma estratégia ou se, sinceramente, derramam um pouco do pouco de dores que existem em nós? A verdade deve ser dita com cuidado.

Algumas verdades machucam. E, não raro, o que julgamos ser verdade não necessariamente é. Um pouco de cuidado não faz mal a ninguém. Ser verdadeiro é bem diferente de ser dono da verdade. A verdade não gosta de donos. É senhora de si mesma. É luz que consegue revelar os recônditos das relações, das intenções, das estradas que temos de percorrer.

Como seria bom se, apenas hoje, fosse o dia da mentira. Como seria bom se fosse, uma brincadeira apenas. Ingenuidades que não fariam mal. Contraste com outros dias em que apenas a verdade fosse vitoriosa. Gosto de histórias infantis em que o bem vence o mal porque, em algum momento, a verdade aparece e prevalece. Acho mais educativo. Quem sabe seja este um caminho, o da educação, o das histórias que aqueçam vidas. Vidas que resistam às seduções toscas de dissimulados, mentirosos.

Viva a verdade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/04/2016