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Tempo de leitura

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.” Foi assim que a pequena personagem de um conto de Clarice Lispector traduziu sua felicidade clandestina diante do livro Reinações de Narizinho, que a filha do livreiro segurava. Aquele livro era o objeto de seu maior desejo: tê-lo nas mãos, lendo com vagar cada palavra, cada frase, cada página. Acostumados aos avanços da tecnologia que nos consome a cada segundo, conduzindo-nos por páginas e páginas virtuais de novidade, imaginar uma criança embevecida, sequiosa por ler um livro, parece-nos tão distante. O prazer de ler. Tão esquecido. Tão necessário. Tão desestimulado.

A menina, que esperou ansiosa, dias e dias, até conseguir o livro emprestado, tendo-o em sua posse, nos reconduz à delícia da leitura, à coragem do resgate dessa prática: “Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, […] fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade”.

Cenas como essa têm sido cada vez menos usuais e, segundo uma pesquisa realizada pelo norte-americano Nicholas Carr, o uso excessivo da tecnologia vem distanciando o homem da leitura. É um alerta seriíssimo à sociedade pós-moderna: a internet afeta o funcionamento do cérebro e a capacidade de raciocínio. Uma verdadeira fábrica de distraídos.

Formado em Literatura, Carr percebeu certa dificuldade de concentração durante a leitura de uma obra. Assombrou-se. Sua atividade preferida estava se tornando uma tarefa enfadonha e pouco prazerosa. Atinou que essa insuficiência de centralização do pensamento estava diretamente ligada ao tempo excessivo dedicado à internet.

A ligeireza da informação e a enormidade de estímulos da rede desviam nossa atenção o tempo todo, impedindo-nos de direcioná-la a uma única informação, imagem ou dado. Daí a superficialidade e a brevidade com que lidamos com as questões que envolvem o mundo e as gentes. Da mesma forma, e muito antes, alertou-nos Charles Chaplin, no filme O Grande Ditador: “Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”

Essa situação impõe que pais e educadores orientem o tempo que os jovens passam diante de uma tela de computador. É urgente que se resgate o prazer pe­la leitura do texto impresso, muitas vezes contemplativa e individual. O grande desafio que se apresenta é o de buscar o equilíbrio entre “o novo e o velho”. Os caracteres e as palavras. A frialdade da tela e o calor dos sentimentos. O deletar e o acolher. A razão cibernética e a emoção aviventada. A rede e os laços humanos. A máquina e o homem.

Uma reflexão sobre os caminhos que podem dividir esse curso é capaz de despertar e de redefinir os objetos de interesse dos alunos. A cena de um educador rodeado por aprendizes curiosos e encantados – lendo e interpretando, prazerosamente, uma história e conduzindo suas mentes imaginativas à magia do universo literário – precisa ser reavivada. Há valores, sentimentos, laços humanos, vidas reais, afetos em jogo. E há tempo para isso. Tempo de revalorizar práticas do passado, reinventando-as no presente, para moldar o futuro.

A felicidade clandestina precisa ser revelada. A mesma felicidade descoberta pela pequena garota, ao receber o livro desejado: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Fonte: Revista Profissão Mestre por Gabriel Chalita

Encontro sobre educação em Nova Iorque recebe Gabriel Chalita

Fonte: assessoria de imprensa

Em viagem oficial aos Estados Unidos, Gabriel Chalita foi o convidado especial do evento Brazil’s Challenges in Education (“Desafios do Brasil na Educação”, em tradução livre), na cidade de Nova Iorque. No encontro, realizado por duas organizações sem fins lucrativos – a Americas Society e a Council of the Americas –, em 8 de março, o educador e deputado federal conduziu uma palestra sobre o tema proposto, além de relatar experiências vividas ao longo de sua carreira docente e política.

Chalita também participou de outros eventos importantes durante a visita ao país. Entre eles, de um workshop na Universidade Columbia, onde falou acerca do papel do conhecimento no desenvolvimento brasileiro, e da 15ª edição da conferência anual do Massachusetts Institute of Technology (MIT) a respeito da América Latina, em que discorreu sobre o tópico “Construindo pontes entre a América Latina e outros mercados emergentes”. A Universidade Columbia, uma das mais prestigiosas do mundo, tem entre seus ex-alunos personalidades como o atual presidente norte-americano, Barack Obama. Já o MIT é referência na área de ciência e tecnologia.

Assista à palestra de Chalita no Brazil’s Challenges in Education http://migre.me/8hJ7Z.

Gabriel Chalita conduz palestra em evento do MIT

Fonte: assessoria de imprensa

No dia 10 de março, acontecerá, na cidade norte-americana de Cambridge, a 15ª MIT Latin America Conference. Gabriel Chalita, um dos palestrantes convidados, falará sobre o tema “Construindo pontes entre a América Latina e outros mercados emergentes”.

Realizado por alunos da Escola de Administração do Massachusetts Institute of Technology (MIT) – um dos mais renomados centros universitários do mundo –, o evento é o mais antigo do gênero nos Estados Unidos. Seu objetivo é promover um maior envolvimento da comunidade internacional no desenvolvimento latino-americano, assim como aumentar a consciência acerca das oportunidades de investimento na América Latina e de incentivar futuros líderes a promover, com inovação e ética, mudanças significativas na região.

Todo ano, a MIT Latin America Conference recebe cerca de 300 pessoas, entre lideranças do setor privado, autoridades políticas, profissionais da área acadêmica e estudantes, para a discussão de assuntos como empreendedorismo, sustentabilidade, finanças e política. A página oficial traz mais informações sobre o evento: http://mitlac.com (em inglês).

Sobre pessoas, animais e sentimentos

Recentemente, a grande mídia fez várias reportagens sobre espancamento de cachorros. Em um deles, uma mulher afirmou que não aguentava mais os latidos irritantes da filhotinha e, por isso, “batia mesmo”. Bateu até matar. Em outro, um homem cansado de ter que tratar do cão resolveu enterrá-lo vivo, depois de espancá-lo. Disse que descarregava suas energias batendo no cão. Em uma outra reportagem, um homem amarrou o cachorro em sua camionete, arrastando-o até deixar o pobre animal em carne viva. E o abandonou na rua para que a morte o levasse.

Essas histórias acontecem com mais frequência do que a mídia noticia. Fora os rituais macabros que sacrificam animais e até pessoas. Mas vamos ficar apenas nessas histórias. Por que essas pessoas quiseram ter um cão? Por que não deram para alguém em vez de espancar os animais? Por que enterrar vivo um cachorro? O motorista da camionete disse que não viu o cachorro amarrado e, quando percebeu, já sabia que ele iria morrer. Alguém acolheu o cachorro e tratou dele. Apesar das sequelas, o cachorro não morreu. Alguém desenterrou o outro cão depois de receber denúncias de maus tratos e de procurá-lo por toda parte. Vendo a terra remexida, o benfeitor socorreu a cadelinha. Nessas histórias de horror, apenas um filhotinho morreu. Os outros foram acolhidos em algum lar.

A dualidade desses fatos nos deixa algum ensinamento. De um lado, os agressores; de outro, os acolhedores. Enquanto alguns demonstraram ausência de bons sentimentos, outros se agigantaram para cuidar de uma criatura de Deus. Isso mesmo. Os animais são criaturas de Deus. Descarregar a raiva em um animal significa compreender pouco da relação do homem com a natureza. A insensibilidade com os animais se transforma na insensibilidade com as pessoas. Quem agride um animal é um potencial agressor de uma pessoa. E a sensibilidade caminha na mesma direção. Pessoas carinhosas, respeitosas são assim com animais e com pessoas. Não se descarrega energia raivosa em ninguém. Trabalha-se. Busca-se um equilíbrio interior. Não nascemos para espancar nem para agredir nem para matar. Nascemos para a boa convivência, para os bons sentimentos, para o amor.

Eu tenho dois cachorros. Um labrador, que ganhei de um amigo e uma vira-lata que adotei. Quando chego em casa, os olhares de amizade desinteressada, de afeto incondicional me fazem muito bem. Quantas vezes vi minha mãe com dor e os cachorros ao seu lado, fazendo companhia. Passando sentimentos. Já vi moradores de rua cuidando de cachorros e querendo continuar a viver pelo vínculo com eles estabelecido. Já vi crianças com deficiência aprendendo a sorrir com seus animaizinhos. Fazemos parte de uma mesma natureza. E é preciso respeitar a nossa casa com as outras criaturas que a habitam. Com sensibilidade. Já nos ensinava Guimarães Rosa: “Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?

Fonte: revista Canção Nova por Gabriel Chalita

Gabriel Chalita assina proposta que pode garantir 120 dias de salário-maternidade em caso de adoção

Fonte: Agência Câmara de Notícias (por Leonardo Prado)

A segurada da Previdência Social que adotar ou obtiver a guarda judicial para fins de adoção de criança ou adolescente poderá obter o direito a salário-maternidade pelo prazo de 120 dias. A medida está prevista no Projeto de Lei 2967/11, de autoria conjunta dos deputados Gabriel Chalita (PMDB-SP), Alessandro Molon (PT-RJ) e Reguffe (PDT-DF).

A proposta altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT – Decreto-Lei 5.452/43) e também modifica a Lei 8.213/91, que regula os benefícios da Previdência Social.

O objetivo do projeto é preencher um vácuo hoje existente na legislação. Atualmente, o período de pagamento do salário-maternidade para as trabalhadoras que adotam crianças e adolescentes varia de acordo com a idade do jovem. Assim, quanto mais velho o filho, menor o período de recebimento.

Igualdade

Pelo texto, toda trabalhadora que adotar criança ou adolescente passará a ter direito ao mesmo período de gozo de licença-maternidade e de remuneração do salário-maternidade, independentemente da idade da criança. “A proposta busca exatamente tratar de forma idêntica as pessoas que adotam crianças e adolescentes”, afirmam os autores.

Eles acrescentam que as regras atuais acabam excluindo ainda mais os jovens que precisam de uma adoção tardia. “Acabam desestimulando ainda mais essa prática, que ainda é tão necessária e que deve ser incentivada pelas políticas públicas”, criticam.

Os parlamentares lembram ainda que, quanto maior a idade do jovem, maior costuma ser o tempo necessário para a “institucionalização” da criança e do adolescente, assim como é maior também o desafio de romper os eventuais traumas, adquiridos ao longo de sua trajetória de vida.

Íntegra da proposta: http://migre.me/7W3ku http://migre.me/7W3p0

O mundo que lê

A humanidade nunca leu tanto quanto hoje. Por um lado, a era digital faz com que os textos estejam mais disseminados. De outro, a população mundial é cada vez mais alfabetizada. Nesse cenário, descrito pelo historiador francês Roger Chartier, é papel da escola ensinar aos jovens que existem diferentes formas de ler para diferentes necessidades.

E, se as salas de aula devem incorporar a presença de computadores, internet e tablets como ferramentas, também é fundamental que os professores continuem a trabalhar a leitura de livros clássicos. “Não porque eles são ‘clássicos’, mas porque, com outros, mas talvez melhor do que outros textos, ajudam a pensar sobre o mundo, natural ou social, a compreender as relações com os outros, a fazer as perguntas essenciais da existência e a desenvolver uma crítica às instituições, às informações, às autoridades”, defende Chartier. Profundamente respeitado e estudado no Brasil e no mundo, Chartier é professor da Universidade da Pensilvânia e do Collège de France, diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales (Ehess), uma das mais importantes faculdades de história do mundo, e é considerado atualmente um dos principais pensadores no que se refere à história do livro e dos hábitos sociais de leitura.

O senhor defende que a leitura é muito pessoal e que seu significado depende do formato em que ela se apresenta e da interpretação que se dá ao texto. O que isso significa? 

Toda leitura é um encontro entre um texto e um leitor. Mas, por um lado, o texto lido está sempre em um meio físico de escrita (um livro, uma revista, uma tela), o que contribui para o seu significado. Neste sentido, podemos dizer que formas materiais de escrita afetam o significado dos textos. Esta é a forma do objeto escrito, do formato do livro, do layout, da presença ou não da imagem, etc. Por outro lado, a liberdade de interpretação de cada leitor depende das habilidades, hábitos, normas e práticas de leitura que ele ou ela compartilha com outros leitores que pertencem à mesma “comunidade de leitura”, definida por classe social, idade, sexo, religião, etc. A partir daí, surge a ideia de que um texto se transforma. Mesmo que ele não mude em sua literalidade, ao mudar de formas materiais e ao mudar seus leitores – ou leituras.

Como isso funciona na escola, em que se cobra a aquisição do mesmo conhecimento de todos os alunos?

Aplicada à classe, esta perspectiva deve levar à compreensão de como a materialidade dos textos lidos (no livro, na sala de aula ou na tela do computador) ajuda a indicar o seu status, seu uso, seu significado. E também para compreender o que se espera dessa leitura particular que é a leitura na escola, diferente em suas exigências e seus ensinamentos de outras leituras, feitas em casa ou em um espaço público.

Diz-se que os jovens de hoje são desinteressados pela leitura.  Como a escola pode reverter esse quadro, levando em conta que precisa trabalhar os “clássicos” da literatura?

É seguro dizer que o diagnóstico que afirma a rejeição da leitura entre os jovens deve ser corrigido, tanto pelo sucesso de certas obras ou séries como pelo fato de que telas de computador são telas de texto. A humanidade nunca leu tanto quanto agora. Porque os textos estão em toda parte, porque a alfabetização se tornou necessária devido ao comércio e à administração, porque o mundo digital é basicamente um mundo por escrito. A questão é, portanto, a das práticas que não são mais da tradição literária ou de ensino. Daí o papel da escola. Ela deve ensinar as habilidades necessárias para nossos futuros cidadãos ou consumidores que serão confrontados com a escrita. Deve mostrar que existem diferentes maneiras de ler para diferentes necessidades. Também deve organizar a ordem dos discursos e, assim, manter o lugar dos “clássicos”, não porque eles são “clássicos”, mas porque, com outros, mas talvez melhor do que outros textos, ajudam a pensar sobre o mundo, natural ou social, a compreender as relações com os outros, a fazer as perguntas essenciais da existência e a desenvolver uma crítica às instituições, às informações, às autoridades.

A forma de dar aula vai mudar por conta das mudanças às quais os livros foram submetidos com o advento da plataforma eletrônica?

Não sei. O que eu sei é que as escolas devem ensinar todas as formas da cultura escrita (manuscrita, impressa, eletrônica), conscientizar os alunos de suas diferenças, e os acostumar a usar uma ou outra forma de escrever, para navegar no mundo dos textos como se faz em uma floresta. Sei também que os objetos eletrônicos inventados todos os dias representam um avanço técnico, mas também são mercadorias, que têm um custo abusivo para muitos e que geram lucros (nem sempre justificáveis por sua utilidade). É também uma lição que as escolas devem ensinar em uma crítica sobre a sociedade de consumo. Mas, é claro, um dos deveres das políticas públicas é tornar essas novas oportunidades acessíveis e familiares. Uma última coisa: nas palavras de Emilia Ferreiro, a presença de computadores ou de tablets em sala de aula não resolve por si só os problemas de aprendizagem e transmissão de conhecimentos – e, ao mesmo tempo, pode trazer a “tentação” de reduzir ou excluir o papel essencial dos professores.

Existem hoje experiências digitais com literatura, a exemplo do escritor norte-americano Robert Coover, que encabeça o movimento de “cave writing”, no qual o “leitor” imerge em um ambiente 3D e interage com o cenário e personagens da história como se vivesse em seu mundo. Isso muda para sempre a forma como se faz literatura?

As experiências de escrita eletrônica, com ou sem 3D, ainda são marginais. E isso porque, provavelmente, se um autor espera de seu leitor a compreensão da obra que ele escreveu em sua coerência, sua identidade, sua totalidade (mesmo sem ler todas as páginas), o livro impresso continua até hoje o objeto material mais adequado para permitir este reconhecimento. Como sabemos, a leitura na frente da tela é fragmentada, descontínua, combina texto e hipertexto, mas não foca a obra em si. Daí a importância ainda marginal (menos de 10% das vendas nos Estados Unidos, menos de 5% nos países europeus) do mercado do livro eletrônico no negócio de venda de livros. Mesmo os autores que praticam amplamente a escrita eletrônica (aquela de blogs, sites, redes sociais) permanecem fiéis à publicação impressa. As experiências que você menciona vão mais longe porque o texto desaparece ou pode desaparecer em favor de um espaço habitado tanto pelos personagens da ficção quanto pelo leitor. O risco não é o de matar por esse realismo do irreal um dos mistérios da literatura, ou seja, o trabalho da imaginação a partir das palavras na página? O leitor parece ser mais livre na medida em que pode intervir na história, mas o preço dessa liberdade aparente não é o da mutilação de sua imaginação, inteiramente sujeita ao espaço definido para ele pelo autor?

Qual é a importância de livros que envolvam experiências digitais hoje para a cultura da leitura?

Uma das maiores mudanças no mundo eletrônico é a possibilidade, pela primeira vez, de associar em uma única produção textos, imagens e até sons e celulares, letras ou música. A cultura escrita deve aproveitar esta oportunidade para inventar “livros” novos, tanto de ficção quando para o saber. Não devemos deixar apenas ao mercado de entretenimento, por exemplo aquele dos jogos eletrônicos, a capacidade inédita de articular diferentes linguagens em um mesmo projeto estético ou intelectual, como fazem, por exemplo, as artes do espetáculo.

No Brasil, há certa desconfiança dos professores em relação aos e-books e a outros meios de leitura eletrônica. Por que o senhor acha que isso acontece?

Esta relutância ou resistência é muito compreensível (e ela é em parte minha também), já que o texto eletrônico desafia as categorias que definem a escrita, o livro, a obra. Quando ele é livre, gratuito, imediato, o texto eletrônico é muitas vezes coletivo, apaga o nome do autor, é fora da propriedade literária, e justapõe fragmentos. Quando se trata de escrever em forma de e-books, com textos publicados por edições que não permitem a cópia ou a impressão e que os “fecham” aos leitores, a relação é mais forte com o livro impresso, e não com a leitura descontextualizada de fragmentos, sem poder ou querer relatá-los na totalidade da qual eles fazem parte. A ruptura com a ordem da escrita que herdamos é forte e brutal, pois ela faz vacilar as noções de autor singular, de obra original e de propriedade intelectual. A consequência é, portanto, que se a escola não deve ignorar as plataformas de leitura eletrônica, ela deve ensinar seus usos e mostrar o que pode ser esperado em relação a formas mais convencionais de comunicação e publicação.

O que países como o Brasil, que ainda lutam com questões básicas como a alfabetização, podem fazer para transformar a leitura em uma prioridade?

O Brasil e outros países comparáveis fizeram ou fazem da entrada na cultura escrita de todos os seus cidadãos uma prioridade justa e necessária. Esta é a chave para que seja estabelecida uma cidadania verdadeira e a possibilidade de um desenvolvimento social e econômico. Mas saber ler e escrever não pode se reduzir a exigências utilitárias. Os livros devem também fazer sonhar, divertir, permitir a reflexão, desenvolver o espírito crítico. A escola deve mostrá-lo, assim como devem acontecer campanhas públicas de instalar o livro e a escrita no coração da cidade, por meio de feiras de livro, encontros nas livrarias, programas nos meios de comunicação visual.

Como um estudioso das tendências de leitura, qual é a sua previsão de como as crianças de hoje vão interagir com a leitura e com os livros como adultos?

Os historiadores são os piores profetas, estão sempre errados. Por isso, vou abster-me de qualquer previsão. Prefiro formular um desejo ou um sonho. Com a era digital e os textos eletrônicos, a humanidade possui uma terceira forma de composição, transmissão e apropriação da escrita, em adição aos dois precedentes: a impressão e a escrita manuscrita. Então, só podemos esperar que se estabeleça a coexistência entre essas três formas, que não correspondem nem aos mesmos hábitos de leitura, nem às mesmas necessidades da escrita. A impressão não removeu a publicação manuscrita, que sobreviveu até o século 19, e talvez mais tarde. A invenção do códice não fez os rolos desaparecerem totalmente nos tempos medievais. Por que a escrita eletrônica ou, mais genericamente, o mundo digital, deveria acabar com o controle manual da escrita, ou com as lógicas que controlam a publicação impressa de um livro, uma revista, um jornal, e que não são da web? A resposta depende, também, da nossa vontade coletiva.

Fonte: Revista Educação (Carmen Guerreiro entrevista Roger Chartier )

 

A grandeza e a miséria do ser humano

Dois fatos recentes, veiculados na mídia, remetem-nos a uma reflexão sobre a dualidade humana. Sobre as misérias e as grandezas do ser humano. Pascal, filósofo francês racionalista do século XVII, afirmava que o homem é um ser paradoxal, é um complexo de bem e de mal e cujas ações ora geram desprezo, ora geram respeitabilidade, apreço. Ítalo Calvino, escritor realista da literatura italiana, apresentou-nos, alegoricamente, sua curiosa personagem Visconde de Medardo, na obra O visconde partido ao meio.

A história, aparentemente simples, narra a trajetória de Medardo, um homem que, após levar um tiro de canhão, dividiu-se em dois: uma metade completamente boa e outra absolutamente má. A primeira, por onde passava, semeava amor, bondade, grandeza de caráter. A outra, por sua vez, espargia a guerra, a discórdia, a miséria.

Enquanto um rapaz de 21 anos, Vítor Suarez Cunha, é covardemente espancado por proteger um morador de rua dos ataques brutais de outros jovens, na Ilha do Governador, no RJ; outro, o estudante universitário Henrique Ramos Vieira, também de 21 anos, vitimizado pela drogadição, esfaqueia pai e mãe, em Guarulhos, SP, fugindo à responsabilidade da própria vida. Duas histórias. Duas vidas. Duas faces de uma mesma condição: a condição de existir e conviver na sociedade. A justificativa para as atitudes desses dois rapazes, de futuros tão igualmente possíveis, mas de destinos tão distintos – agora – de responsabilidades está, certamente, relacionada às formas como cada um desses jovens foi acolhido e “preparado” para o enfrentamento da vida e de suas escolhas pessoais.

É na família, primeiramente, que somos formados. Os valores vivenciados, os exemplos de nossos pais, o alimento moral que nos é dado, diária e cuidadosamente, nos guiarão – em geral – ao exercício do bem, ao respeito ao próximo, ao prazer da liberdade, ao direcionamento correto de nossas vidas. No entanto, isso não basta. Há famílias que imaginam ter cumprido seu papel de amor e de dedicação integral aos seus filhos e que servem de palco a tragédias, como a do filho que matou os pais, provavelmente tomado pelo desespero e pela alteração de padrões impostos pelo uso da droga.

A escola, como um centro de luz, também é partícipe nessa formação. Educar para a vida. Aprender a ser e a conviver fazem parte do processo de ensino e aprendizagem. As políticas públicas voltadas à juventude precisam fazer a sua parte no acolhimento e na oferta de oportunidades a esses jovens. Jovens que se perdem, desperdiçam vidas, sacrificados pela ausência de regras, de limites, de chances de crescimento íntimo e social. A juventude é terreno fértil em que, lançadas, as boas sementes darão, indubitavelmente, bons frutos. Não há como os gestores se furtarem às suas responsabilidades na construção de um país digno, justo, correto para todos, ficando ausentes ao desolamento, à alienação.

O jovem necessita de um tema para viver, ensina-nos o príncipe dos poetas brasileiros, Paulo Bomfim. É essencial que haja caminhos bons e diversos, que lhes ofereçam apoio na construção de seus futuros e na superação de seus desafios.

A solução que Calvino dá ao leitor, ao final de sua quase fábula, sobre os extremos humanos, a mutilação de personalidades, as vidas fracionadas, está na coerência do equilíbrio, no desenvolvimento do coração, do espírito, da alma humana. É como a história do velho índio que dizia ter, dentro de si, dois cachorros – um bom e um mau –, mas que alimentava apenas o bom, minimizando a força do outro. Os alimentos desses jovens estão no seio familiar, na boa educação, no investimento público em esporte, lazer e cultura. Sem maniqueísmos nem julgamentos precipitados. Colhamos bons valores para que a bondade de Vítor se multiplique. Quanto a Henrique, triste escolha, desamor. “A neutralidade é impossível: é necessário apostar!”, orientava Pascal.

Fonte: site Brasil 247 por Gabriel Chalita

Projeto permite deduzir do IR doações a orfanatos

O Projeto de Lei 2.966/11, do deputado Gabriel Chalita (PMDB/SP), determina que empresas deduzam do Imposto de Renda doações realizadas a entidades sem fins lucrativos que prestem serviço de atendimento institucional a crianças e a adolescentes.

Em análise na Câmara Federal, a proposta modifica a Lei 9.249/95, que altera a legislação referente ao Imposto de Renda das pessoas jurídicas e à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). A dedução poderá ser de até 2% do lucro das empresas.

Chalita observa que a situação da maioria dos abrigos é crítica. “Faltam recursos para reformas, compra de móveis e contratação de pessoal, entre outros. Nessas condições, torna-se quase impossível oferecer um serviço de qualidade às crianças e aos adolescentes abrigados”, afirma. Assim, se aprovado, o projeto contribuirá para a melhoria do atendimento realizado nesses espaços.

Leia a íntegra da proposta: http://migre.me/7SiTF

O crack e a soberania humana

Vive-se uma epidemia de crack. Isso é fato. A droga surgiu nos anos 1980, nos Estados Unidos. Ela entrou com força em nosso país nos anos 1990. Chegou sorrateira e, aos poucos, foi ganhando as proporções de uma epidemia. O preço reduzido e a imediata dependência foram alguns dos fatores que “popularizaram” essa praga.

Vimos, na última década, crescer o uso do crack nas áreas centrais da cidade de São Paulo. Um caos da miserabilidade humana. Liberdades individuais e coletivas foram devastadas pela droga.

A cracolândia é apenas um pequeno retrato dessa crise. Há vários outros espaços onde a ausência do poder público permite a proliferação daquilo que é ilegal, daquilo que é incorreto, daquilo que rouba a liberdade e a dignidade humana.

Um estudo recente da CNM (Confederação Nacional dos Municípios) revelou que o crack está presente em 91% das cidades brasileiras. Em todos os casos, o número de usuários está crescendo.

Houve muita polêmica em relação à ação do poder público na cracolândia. Vamos esquecer os eventuais culpados. O tema não deve se prestar a disputas ideológicas. Este é um momento de união e de busca de soluções.

A primeira ação deve ser preventiva. Temos que cuidar das nossas crianças e adolescentes para que eles possam compreender os danos à liberdade e à vida que essa e outras drogas acarretam.

Precisamos de educação e de saúde juntas. Esse é um papel da família, do Estado, da mídia, das igrejas, dos clubes de serviços, de toda a sociedade organizada.

Temos que coibir a ação dos traficantes. Temos que cuidar daqueles que, sem políticas de prevenção e sem orientação adequada, entraram nesse círculo vicioso.

A internação de um dependente químico não é simples. É preciso contar com a experiência de numerosas comunidades terapêuticas, que vêm conseguindo realizar um bom trabalho. O tratamento é penoso e exige uma ação generosa de respeito ao próximo, de amor fraterno e de auxílio efetivo a esses cidadãos (infelizmente, tratados como invisíveis) e às suas famílias.

Vimos, com pesar, o lamento das mães em busca dos seus filhos. Com igual pesar, vimos cenas trágicas de grávidas sem a liberdade de abandonar o vício e de crianças com o futuro esvaziado pela ausência de possibilidades.

Não podemos correr o risco de implementar políticas higienistas. Pessoas não são coisas. Expulsas de um lado, elas continuam a existir em outro, com os mesmos problemas. Se forem cuidadas, entretanto, elas podem construir a própria história. E é nisso que acreditamos.

Uma grande cidade é aquela que sabe cuidar dos grandes projetos que dão base ao progresso e à melhor qualidade de vida, mas é também aquela que não abandona os seus filhos.

Avancemos na construção de uma nova e forte aliança com a vida. Vamos nos unir na reconquista do direito de cada um de viver e de conviver em sociedade. Dignamente. Livremente. Somos responsáveis uns pelos outros.

Fonte: Folha de S.Paulo por Gabriel Chalita

2012 – o ano da honestidade

Os anos vão passando e novas promessas vão surgindo. É sempre assim. No início de um novo ano, as pessoas fazem propósitos. Brigar menos, estudar mais, começar um regime, praticar atividade física, estudar outro idioma, rezar mais etc. Quero sugerir um propósito: “Que 2012 seja o ano da honestidade.” Diz a profecia de Malaquias: “Acaso não é um só o Pai de todos nós? Acaso não fomos criados por um único Deus? Então, por que cada um de nós é desonesto com seu irmão, violando o pacto de nossos pais?” (Mal 2:10).

Esta é uma assertiva que deveria conduzir nossa vida cristã: somos irmãos. E, como irmãos, não podemos ser desonestos uns com os outros. Isso viola o pacto da nossa natureza social e viola o pacto da nossa irmandade, filhos de um mesmo Pai.

Ser desonesto é desrespeitar o nosso irmão. Falamos muito da honestidade na política. E reclamamos a sua ausência. E não sem razão. Há muitos que fazem da política um negócio próprio, mesquinho. Falamos de profissionais liberais e de empresários cuja insensibilidade assusta. São capazes de enganar, de trapacear, de iludir para levar vantagem. E, com isso, destroem o próprio irmão. Falamos de maridos que são desonestos com suas mulheres, e de mulheres que são desonestas com seus maridos. Uma relação de amor só tem sentido se fundamentada na verdade. Falamos de filhos que mentem para os pais, e de pais que enganam os próprios filhos. Falamos de amigos interesseiros que mentem sem nenhum constrangimento.

Insisto nesse “falamos” porque, aqui, também pode morar uma desonestidade. Passamos uma falsa impressão de que somos perfeitos e de que nos impressionamos com a imperfeição dos outros. E, na desonestidade com nós mesmos, usamos máscaras. Talvez, porque ainda não tenhamos sido descobertos nas nossas misérias humanas e, por isso, ousamos falar das misérias alheias.

Ninguém está imune ao erro. É preciso, para ser honesto, abandonar a hipocrisia, a crítica fácil ao nosso irmão. Jesus nos ensina a amar em vez de julgar e, mais do que isso, a vivenciar o que “falamos”. Certa feita, referiu-se aos mestres da lei e aos fariseus dizendo: “Deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam”.

Amigos queridos, que, neste novo ano, possamos perseguir o caminho da honestidade. Que possamos olhar no espelho e reconhecer a nossa face. Que possamos amar mais do que julgar. Enfim, que enxerguemos o nosso irmão, não com a miopia de quem busca prazer em desconstruir o outro, mas com os olhos abertos, puros, de quem sabe viver a profecia de Malaquias e os ensinamentos de Cristo. Nascemos para viver como irmãos e para amar. Amemos, então. Feliz 2012!

Fonte: revista Canção Nova por Gabriel Chalita