Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.” Foi assim que a pequena personagem de um conto de Clarice Lispector traduziu sua felicidade clandestina diante do livro Reinações de Narizinho, que a filha do livreiro segurava. Aquele livro era o objeto de seu maior desejo: tê-lo nas mãos, lendo com vagar cada palavra, cada frase, cada página. Acostumados aos avanços da tecnologia que nos consome a cada segundo, conduzindo-nos por páginas e páginas virtuais de novidade, imaginar uma criança embevecida, sequiosa por ler um livro, parece-nos tão distante. O prazer de ler. Tão esquecido. Tão necessário. Tão desestimulado.
A menina, que esperou ansiosa, dias e dias, até conseguir o livro emprestado, tendo-o em sua posse, nos reconduz à delícia da leitura, à coragem do resgate dessa prática: “Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, […] fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade”.
Cenas como essa têm sido cada vez menos usuais e, segundo uma pesquisa realizada pelo norte-americano Nicholas Carr, o uso excessivo da tecnologia vem distanciando o homem da leitura. É um alerta seriíssimo à sociedade pós-moderna: a internet afeta o funcionamento do cérebro e a capacidade de raciocínio. Uma verdadeira fábrica de distraídos.
Formado em Literatura, Carr percebeu certa dificuldade de concentração durante a leitura de uma obra. Assombrou-se. Sua atividade preferida estava se tornando uma tarefa enfadonha e pouco prazerosa. Atinou que essa insuficiência de centralização do pensamento estava diretamente ligada ao tempo excessivo dedicado à internet.
A ligeireza da informação e a enormidade de estímulos da rede desviam nossa atenção o tempo todo, impedindo-nos de direcioná-la a uma única informação, imagem ou dado. Daí a superficialidade e a brevidade com que lidamos com as questões que envolvem o mundo e as gentes. Da mesma forma, e muito antes, alertou-nos Charles Chaplin, no filme O Grande Ditador: “Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”
Essa situação impõe que pais e educadores orientem o tempo que os jovens passam diante de uma tela de computador. É urgente que se resgate o prazer pela leitura do texto impresso, muitas vezes contemplativa e individual. O grande desafio que se apresenta é o de buscar o equilíbrio entre “o novo e o velho”. Os caracteres e as palavras. A frialdade da tela e o calor dos sentimentos. O deletar e o acolher. A razão cibernética e a emoção aviventada. A rede e os laços humanos. A máquina e o homem.
Uma reflexão sobre os caminhos que podem dividir esse curso é capaz de despertar e de redefinir os objetos de interesse dos alunos. A cena de um educador rodeado por aprendizes curiosos e encantados – lendo e interpretando, prazerosamente, uma história e conduzindo suas mentes imaginativas à magia do universo literário – precisa ser reavivada. Há valores, sentimentos, laços humanos, vidas reais, afetos em jogo. E há tempo para isso. Tempo de revalorizar práticas do passado, reinventando-as no presente, para moldar o futuro.
A felicidade clandestina precisa ser revelada. A mesma felicidade descoberta pela pequena garota, ao receber o livro desejado: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Fonte: Revista Profissão Mestre por Gabriel Chalita
