O hábito de ser cidadão

Uma senhora de 89 anos está no metrô. Em pé. Segura-se com dificuldade. Há espaço reservado para idosos. A lei garante e a placa sinaliza. Dois jovens estão sentados nesses espaços e fingem estar dormindo. Assim, a consciência pesa menos. Um homem abre o vidro de seu carro, em uma grande avenida, e joga na rua algum lixo que o incomoda. Fecha o vidro e prossegue.  E o pior. Há uma criança no carro. Sentada no banco da frente. Tudo errado. Um casal chega a um restaurante onde há uma fila de espera. O homem saca, discretamente, uma nota de vinte reais do bolso e entrega ao maitre para que providencie rapidamente uma mesa. Não gostam de esperar. Nem de respeitar os outros. Uma mãe para o carro em fila dupla esperando o filho sair da escola. Fala ao celular enquanto disfarça o estrago que faz no trânsito. Ignora as buzinas e o olhar atravessado dos outros motoristas. Um motorista fecha o cruzamento atrapalhando uma fila de carros. Buzinam de raiva. Ele finge que não é com ele. Tem pressa. E é folgado.

Quantos outros fatos do cotidiano poderíamos citar que demonstram o quanto estamos longe de exercer o hábito de ser cidadão? Cidadania não é um conceito distante. É prático. Trata de direitos e deveres. Trata do sagrado direito de ser respeitado e de respeitar. Com alguma frequência, lascamos frases como “Este país não tem jeito”, “Eita povo mal educado”, “O que falta é ética, é vergonha na cara”. Frases que dizem alguma coisa quando são coerentes com quem as diz.

Há um ditado antigo que reza: “As palavras comovem, mas os exemplos arrastam”. A construção da cidadania depende do exemplo cotidiano. De todos. Ou isso ou seremos uma sociedade hipócrita que exige do outro o que não é capaz de fazer. E mais ainda, será difícil formar uma geração cidadã com exemplos tão erráticos. Não se colhe laranjas de um abacateiro.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/06/2015

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