Valéria estuda em uma escola pública. É falante. Expressiva. Tem luz nos olhos. Fomos apresentados pela diretora da escola, logo depois de ela recitar um lindo poema. Disse-lhe que o poema era lindo. Ela concordou: “Sim, porém, triste”. Perguntei, então, a razão do poema. Respondeu-me que o mundo era assim. Ela, aos 7 anos, foi tecendo seus comentários sobre a vida. Vida dura a de Valéria. Muitos irmãos. Poucos recursos. O pai não consegue deixar de beber. Com ar de quem entende das coisas, explicou-me que ele não tem o mesmo empenho para trabalhar como tem para ir ao bar. Ouvi atento. Ela prosseguiu falando da mãe. A mãe era seu laço maior com o futuro. A sua inspiração. A mãe trabalha muito. Nem sempre consegue ir à escola ver a filha dizer seus poemas. Foi o que entendi. “Quando pode, vem”, explicou. Mas os laços no cabelo são feitos pela mãe. Logo cedo. Antes do trabalho. Ela arruma filho por filho. Os dois meninos. E as três meninas. Todas com laços e fitas alegres. Encaminha-os para a escola. E vai trabalhar. Quando voltam da escola, ficam com a avó. Que gosta de contar histórias. E que incentiva Valéria a ser professora. A profissão mais nobre do mundo.
À noite, volta a mãe. Deixa na entrada os embates duros da vida. No despedir do dia, só tempo para curtir os filhos. Vez ou outra, vai até o bar e traz o marido. Ainda não desistiu dele. Explica que beber tanto assim é uma doença e que, um dia, há de vir a cura. Tudo isso ela me falou olhando nos olhos. Gostaria de conhecer sua mãe. Maria. Maria é forte e suave. Fiquei imaginando o seu amanhecer. O seu cuidar. O seu labor. O seu prazer. Há de ter algo de muito especial essa tal Maria. Valéria não me disse o nome do pai. Também ele deve ter seus acertos. E a avó, como será?
Cada aluno traz para a escola seu mundo, que é sempre interessante. Seria bom se pudéssemos conhecer. A diretora estava emocionada com a desenvoltura de Valéria. E eu feliz em estar ali, alimentando-me de esperança.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/02/2016
