Sou da teoria de que homem chora. E é bom que chore. Que chore de dor. Que chore de emoção. Que chore de saudade.
Um homem, um menino, de nome Sérgio dos Santos Santana, do interior do Piauí, filho de um pedreiro e de uma empregada doméstica, entrou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Piauí. Imaginem os três chorando juntos! Sérgio acreditou na própria capacidade e foi em busca de seu sonho. Ser médico. Amenizar a dor de tantos que choram. Um outro choro. Um choro que, também, haverá de acompanhá-lo. Nunca me esqueço de uma vez que entrevistei o Dr. Adib Jatene e lhe perguntei se ele chorava quando tinha que, por exemplo, dizer a uma mãe que o seu único filho havia morrido. Ele me respondeu que sim, que chorava nessa e em outras situações. Quando um paciente ficava curado, também chorava. Dizia que um médico sem emoção não é capaz de exercer, dignamente, o seu ofício.
O jovem Sérgio começa uma nova etapa de sua vida. Valente, não aceitou limitações que as condições financeiras ou as distâncias de centros maiores pudessem impor. Foi além. Estudou com afinco. Estudará com afinco para que sua vida mude muitas vidas.
Assim que soube da aprovação, ligou para o pai. Choraram juntos. A simplicidade daquela família ajudou a forjar o caráter do futuro médico. Que ele continue assim. Orgulhoso dos pais que não tiveram a oportunidade de estudar, mas que o criaram para o voo certo.
Há um longo caminho, ainda, a ser percorrido para que a nossa educação melhore, mas histórias como essas nos enchem de esperança. Estamos mudando. É o que narra o lindo filme da Anna Muylaert , “Que horas ela volta?”, quando a filha da empregada entra em uma universidade. Já o filho da patroa, que estudou em colégios renomados, não. A diferença é que, assim como Sérgio, a garota estudou. O filho da patroa, não. Parabéns Sérgio. Parabéns senhor Hamilton Santana e senhora Marizete dos Santos. Que as lágrimas de alegria aqueçam vocês.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/01/2016
