Asilos são cenários privilegiados de acúmulos de histórias.
Histórias, enredos de vidas reais. Amores de ontem. Tempos delicados de encantamentos. Encontros. Despedidas. Os anos acumulados acumulam perdas. Quantos estão ali revivendo momentos que aquecem o presente! Fotografias belas de um outro tempo. Falam de descobertas do mundo que foi se transformando, das aprendizagens que se fizeram necessárias. Falam dos seus que já não são mais seus. Ou porque partiram ou porque partiram. Assim mesmo. Partiram para a eternidade ou partiram os sentimentos dos que ali esperam um amor, uma presença como antes, um convívio. Histórias de filhos que não visitam os pais. Que por razões, sem razão, negam as raízes. As mais absurdas desculpas são usadas para justificar o injustificável. Aguardam, os que estão ali, um aceno, um encontro, um instante de revivida celebração. Mas os filhos se ocupam de outras tarefas. O passado talvez os incomode. Mas é de presente que falamos. De presença.
Em terras pedregosas, sempre há uma teimosa flor que brota para lembrar a cor do belo. Nas ausências desses asilos, aparecem pessoas dispostas a ouvir e a conviver. A ser voluntário da partilha. Gostam, os que têm histórias, dos que têm paciência de ouvir histórias.
Certa feita, um adolescente chegou triste a um asilo. Não estava triste por estar ali. Estava triste por uma ausência. Por um amor adolescente que o adoeceu. Estava triste pela insegurança diante da vida sem o tal amor que parecia eterno. Um namoro se findara. Apenas isso. Apenas isso? Isso é muito. Dói mais do que imagina quem nunca teve o privilégio de sofrer por amor.
O adolescente estava assim, nebuloso, mas foi, com outros adolescentes, ao projeto que faziam de conviver com os moradores do asilo.
Cada qual sentava onde queria e conversavam. Pedro, o adolescente, sentou-se ao lado de Carmen, uma senhora em quem o tempo acumulou felicidades. Problemas, ela sempre teve. Mas não foram suficientemente fortes para diminuí-la. Carmen foi dançarina. Viveu amores intensos. Perdeu o que tinha, quando não tinha o discernimento necessário para fazer as escolhas corretas. Reencontrou-se. Amou o seu amor, mas dele se despediu em um dia frio de junho. Ela conta, como em uma novela, os detalhes do velório do marido. Não tiveram filhos. Tentaram, mas não conseguiram. Tiveram, entretanto, razões suficientes para viver de amor. Carmen é falante. E fala sorrindo. E gosta dos detalhes. “Os detalhes enfeitam a vida”, ensina ela. Pedro era só ouvinte. Fechado em si mesmo, pela dor da despedida, ouvia. Contava Carmen de quando conhecera o seu amor. E um sorriso lindo a tomou desprevenida. Foi quando Pedro pediu: “Empresta o seu sorriso?”.
Carmen compreendeu. Falou que também havia sofrido por amor. E que era lindo ver um homem chorando por uma mulher. Chorando por amar. O tempo agradeceria essas experiências. Mesmo as dolorosas. Vidas são assim. Choraram juntos aqueles dois. E, ao final, depois do pranto dos desabafos, Pedro saiu sorrindo. Disse ela ao menino, “Fique com o sorriso para você, não precisa me devolver”. Bem melhor do que chegou, porque boas ações nos fazem assim, Pedro respondeu: “Faço questão de devolvê-lo, será um motivo a mais para nos reencontrarmos”.
Tenho o hábito de visitar asilos e sempre saio com uma penca de sorrisos emprestados. Toda pessoa deveria fazer um trabalho voluntário. É o ensinamento de Francisco de Assis, “Quem dá é ainda mais feliz do que quem recebe”.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/01/2016
