“Trabalho nesta escola desde menina. Já poderia me aposentar, mas quero continuar aqui, ver de perto os filhos do meu filho”. Foi assim o início da conversa com uma mulher de vassoura na mão e muita disposição para o cuidar. Ela nunca estudou. O filho estudou até o ensino médio. Casou cedo. Cedo, deixou a mulher para viver com outra. Cedo, fez-se ausente com os filhos. Cedo, partiu em uma briga que não consegui saber ao certo porque as lágrimas daquela funcionária não permitiram. Com a voz embargada, ela optou por algum silêncio. Mas, depois, prosseguiu: “O que foi, foi. Não há como refazer o passado”. Cuida agora dos netos. Dos três. Todos estudam na escola e vivem com ela. A mãe dos meninos arrumou outro companheiro e se mudou.
A funcionária não tem marido. Faleceu de doença. Não viu a morte do filho. “São maravilhosos meus netos, mas gosto de cuidar de perto, o mundo está muito hostil, muito hostil”, insistiu.
Eu quis conhecê-los. Dois gêmeos, uma menina e um menino e mais um com diferença de um ano, apenas. Adolescentes. Cheios de possibilidades. Educados, cumprimentaram-me e pediram uma foto.
Disseram-me rapidamente os seus sonhos. Os gêmeos querem ser médicos. “Vão cuidar de mim”, disse ela sorrindo. E o outro neto quer ser juiz de direito. “Quer corrigir as injustiças”, explicou-me a falante avó.
O carinho daquela mulher com seus netos era enternecedor. Sabe o significado do descuido. Sente-se um pouco responsável pelos erros do filho. Da nora que partiu, não disse muito. Com os netos não quer errar. Não dá para saber tudo num encontro apenas. Pareceu-me que ali o plantio está correto. Plantios corretos florescem paisagens corretas, belas, encantadas.
Dois médicos e um juiz – sonham eles. Sonha aquela senhora que não quer se aposentar. Melhor assim. Com tanta disposição para cuidar, ela limpa sujeiras que podem roubar vida de seus netos, de outros adolescentes que ali se preparam para prosseguir.
Funcionários da limpeza, da cozinha, da secretaria também educam. Também plantam. Também preenchem espaços de aconchego.
Aconchego, é disso que precisam os que se preparam para assumir o comando. Escolas são espaços de preparação. “Volte sempre, professor, a casa é sua”. Foi assim que nos despedimos. Foi assim que ela permaneceu.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/12/2015
