Vou com ela

Era uma vez uma senhora muito solitária. Vivia em uma grande cidade, São Paulo, sozinha. Já havia criado a filha. Já havia ficado viúva. Já havia resolvido ser um pouco mais reservada. Resolveu ou aconteceu. No prédio em que morava, sentia-se bem tratada, respeitada, mas, como ninguém tem tempo, não cobrava visitas nem visitava as pessoas.

Certa vez, essa senhora ia andando pelo bairro, quando viu uma cadelinha atropelada. Cadelinha de rua. Não havia ninguém para com ela se preocupar. Ouviu os gritos contínuos e resolveu socorrê-la. Levou-a ao veterinário. Cuidou dela. E ali nasceu sua última história de amor. Passeavam juntas. Preocupavam-se uma com a outra. Isso mesmo. 

 Um dia, a cadelinha latiu tanto que fez com que o porteiro fosse ao apartamento e abrisse a porta. A mulher estava desmaiada. Caiu. Bateu a cabeça. Socorrida a tempo, foi salva. A cachorrinha passou dias de solidão. Emagreceu. Adoeceu, esperando a amiga. Ela voltou e os dias bons voltaram. Mas as histórias têm fim. Tempos depois, a doença veio decidida. E, com ela, a morte. E a morte levou a mulher. E a cachorrinha? Não ficou abandonada. A filha da mulher decidiu cuidar dela. Levou-a para casa depois do enterro. E depois? A história ainda não acabou. Mas vai acabar. A cachorra sofreu dois dias. Não comeu. Ficou em um canto da casa e, sem avisos, morreu. A filha da mulher que havia cuidado da cachorra não entendeu nada. Chorou mais uma vez.  Pelos sentimentos da cachorrinha de rua por sua mãe. Pelas suas ausências na vida da mãe. Falou sozinha, algumas vezes, querendo entender como pode um animal nos amar tanto. A história acaba aqui. 

Fiquei pensando na cachorra conversando com a morte. Primeiramente, reprovando o que ela fizera. Levar sua amiga. Depois, sua decisão: “Vou com ela”. Mistérios do que não sabemos.  Sabemos é que cachorros têm sentimentos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/10/2015

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