Cássia é uma contadora de histórias. Professora dedicada, encontrou nas histórias um caminho para despertar sentimentos e atitudes. Muitas histórias começam com “Era uma vez”. Há, na esfera dos afetos, espaços para acolher essas histórias. Lembranças de embalos infantis ou adultos. De marcas que foram ficando. De pessoas, talvez, que nos surpreenderam com seus ditos fabulares ou reais. “Era uma vez” poderia, vez ou outra, não ser. Como é o caso da história contada por Cássia dia desses. Éramos um grupo de educadores sentados, atentos ao seu enredo. E ela começou. Poeticamente, entoou seu canto de misericórdia, lembrando a dor de um índio Pataxó que foi morto em Brasília.

Isso já faz algum tempo, mas ainda mora em nossa memória. Um índio de nome Galdino Jesus dos Santos foi até Brasília para a comemoração do dia do Índio, no dia 19 de abril de 1997. Conversou com autoridades, fez as suas reivindicações, cantou o seu canto em defesa dos seus e, depois, escolheu um canto para descansar. Sem grandes exigências, adormeceu em um ponto do ônibus. Poderia ter sonhado um sonho tranquilo. E a história poderia começar assim: Era uma vez um índio que foi até a capital do país para tratar dos direitos do seu povo ou, então, era uma vez um índio que foi celebrar o seu dia e depois adormeceu para recobrar as forças e voltar para os seus. Mas a história não foi essa. Um grupo de jovens que estava desocupado, segundo eles próprios, resolveu se divertir. E buscaram uma diversão que consideraram original: colocar fogo em quem dorme em algum canto. Disseram que a intenção não era a de matar. Era apenas a de assustar. De incomodar. De queimar. Disseram tantos ditos contraditórios e desnecessários!

 

E continuou Cássia emocionando a todos nós e supondo ter sido ela a professora desses jovens e se perguntando o que ela poderia ter feito e não fez na educação desses moços para evitar atitude tão horrenda. Emília, professora, formadora de professores, também estava lá. Tomou a palavra e confidenciou que, na época, era aluna de Paulo Freire. E que o mestre chorou quando soube da morte do índio. Chorou por pelo menos duas razões. Chorou por um irmão seu, da mesma natureza humana, que partiu prematuramente diante da criminosa ação, mas chorou, também, por ser educador e por se perguntar onde estamos errando ao não conseguir educar nossos alunos para os valores mais significativos da vida humana. Sim, a esses jovens faltou o respeito à vida, o respeito ao outro, a misericórdia. Misericórdia é uma palavra belíssima que se origina do latim. Misericórdia vem de “miseratio” que é derivado de “miserere” e significa compaixão, piedade. E vem de “cordis” que é derivada de “cor” e significa coração. Um coração compassivo ou piedoso. Um coração que tem compaixão ou, em outras palavras, que sofre com a dor do outro. Se tivessem sido educados corretamente, esses jovens chorariam antes com a simples ideia de colocar fogo em alguém. Onde estavam os seus educadores? Pais, professores, inspiradores de vida?

Muitos outros acontecimentos perversos marcaram e marcam os nossos tempos. Mas a lembrança de Paulo Freire, querendo entender a nossa função de educar corretamente, é muito significativa.

Não podemos mudar o passado. Mas a vida segue. Quem sabe no amanhã, quando contarem histórias dos nossos dias, o “Era uma vez…” tenha cores menos foscas. Quem sabe sejamos nós, educadores, os responsáveis por mudar o mundo. O mundo que habita cada aprendiz. Que também nos ensina. E que de nós é dependente na construção de suas escolhas e aspirações.

A professora Cássia nos tocou em um canto sagrado em que habitam razão e sentimento. É esse o papel da arte da contação das histórias. Comover e mover. Saí daquele encontro, encontrando mais razões para prosseguir, fazendo história e provando, a mim mesmo e aos meus irmãos, que as rasuras não podem destruir o lindo texto que é a escritura da vida. E que nós, professores, somos escritores por excelência. Das vidas que hoje, preparam-se para o hoje e para o sempre. 
         Era uma vez um grupo de professores que resolveu resistir aos perversos e prosseguir professando o amor como a mais linda profissão de fé. Paulo Freire, o mestre que inspirou Cássia, que foi professor de Emília e que deixou um legado para o mundo já nos ensinou “Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo”. Misericórdia, portanto!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) l Data: 25/10/2015

 

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