Nesta semana, estive na Brasilândia em um evento de escuta com a rede pública. Estamos fazendo isso em todas as regiões de São Paulo. Rica experiência de aprender com os profissionais que fazem o dia a dia acontecer nas nossas escolas. Terminado o evento com centenas de professores, pais, alunos, funcionários, uma professora veio falar comigo sobre um artigo que escrevi quando da minha outra visita na DRE Freguesia/Brasilândia. O artigo chamava-se “O perfume de Yasmin”, sobre uma linda menina com Síndrome de Down. Escrevi neste mesmo espaço, no Diário de São Paulo. A professora me abraçou e me contou: “Yasmin morreu”. Olhei os olhos marejados e bebi daquela emoção. Yasmin havia pedido para ficar mais tempo no meu colo. E me fez lembrar meu irmão que também tinha Down e que também partiu. Yasmin era muito menina para partir – mas quem somos nós para decidir? Era uma menina meiga. Feliz por conviver em espaços em que era amada, respeitada. Lembro-me do seu jeito espontâneo, características das crianças com Síndrome de Down – não negam afetos, não escondem sentimentos, não disfarçam verdades.
A partida de Yasmin mexeu comigo. Quis saber o que aconteceu. Ouvi com atenção os relatos da doença que, prematuramente, a levou. Outros professores queriam conversar. Dei atenção a eles. Afinal, eles me alimentam de ideias e de entusiasmo. Mas naquele entardecer da Brasilândia a imagem que me frequentava era a de Yasmin, do seu sorriso, do seu abraço prolongado, de sua cabeça jogada nos meus ombros e de sua decisão ao não concordar com a professora que queria tirá-la do meu colo. A resposta decidida foi: “Está bom aqui”.
Pequena Yasmin, você perfumou um pouco a minha vida e outras vidas. A fé que comungo me faz ter a certeza de que você está bem. Perfumando outros mundos. E sei que, aí onde você está, você pode dizer com ainda mais convicção: “Está bom aqui”.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/10/2015
