O meu pai, por favor!

Era a inauguração de mais uma escola. Inauguração de escolas é sempre uma festa. Crianças, famílias, educadores. Vida que se manifesta por todo lado. Mães, pais e responsáveis felizes porque poderão confiar àquela escola o que têm de mais precioso: seus filhos.
Havia, antes da fala das autoridades, um coral pronto para cantar e para dizer com os olhos e os gestos e as vozes quanto estavam felizes. Antes que a apresentação iniciasse, uma menina olhou para mim e disse: “O meu pai, por favor!”.  Eu quis saber melhor. “Seu pai não veio, está trabalhando, é isso?”.  Ela respondeu enfática: “Não! Ele está aqui. É que ele está lá atrás. Deixe ele vir aqui na frente, por favor, por favor!”. Concordei: “Claro, quem é seu pai?”. Ela o apontou, e eu fiz sinal para que ele se aproximasse. Ele pareceu tímido e agradeceu com as mãos, permanecendo no mesmo lugar. Eu disse, então, à menina: “Vá até lá, pegue nas mãos do seu pai e o traga até aqui. Ele pode sentar aqui na frente”. A menina não se conteve de alegria e foi saltitando buscar o pai. O pai, muito jovem, chegou, agradeceu e ficou sentado vendo a filha cantar.

Outros pais estavam ali vivendo, com seus filhos, um dia feliz. Lembrei-me da alegria dos olhos de meu pai nas muitas ocasiões em que ele me acompanhou. Fiquei olhando para a menina que cantava, olhos fitos apenas no pai. Ela queria cantar para ele.
Filhos gostam de cantar para os pais. Pena que muitos não tenham essa percepção. As ausências dos pais na vida dos filhos cobram um preço caro. Escolas não substituem famílias. Por melhores que sejam. E estamos falando de sementes. De seres em formação. De alicerces para o mundo com que ainda ousamos sonhar. Com mais respeito, mais beleza, mais bondade.
Em cada inauguração, agradeço a Deus pelo privilégio de ser educador e de viver, no meu dia a dia, esta experiência humana de cuidar do humano jeito de crescer.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/12/2015

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