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Raízes

Estou no Líbano. Terra dos meus avós. Terra tantas vezes arrasada pela ação errática dos homens. Guerras. Ódios fermentando uma massa amarga que não alimenta a ninguém. Alimento-me aqui nesses dias. De uma saudade estranha. Bonita. Encantada.

Entrei na casa em que meus avós viveram. Em Baakafra. A mais alta cidade do Líbano. Meu pai nunca esteve aqui, mas contou-me tudo o que sabia do que os seus pais contavam. As montanhas geladas da cidade que fica próxima do Cedro do Líbano. A cidade de São Charbel, o santo que optou pela bondade, pelo amor incondicional, pela experiência de ser inteiro de Deus. Do seu interior brotava Deus. Brotam inspirações desse lugar.

Meus avós precisaram partir. Partiram partidos, deixando amores por aqui. Partiram em busca de vida, e vidas foram geradas no país em que nasci. O Brasil acolheu a eles e a tantos outros que chegaram entre lágrimas e sonhos. Corajosos. Trabalhadores. Amorosos.

 Não conheci meus avós. Minha avó morreu antes de eu nascer. Meu avô só teve tempo de celebrar minha chegada e partir. Agradeceu a Deus por mais um neto e, um ano depois, foi encontrar sua amada no reino dos céus. 

O céu de Baakafra é céu de montanha. Mais puro. Mais limpo. Mais poético. 

Meu pai fez da sua vida uma poesia. Singelas eram suas palavras. Seu sofrimento não o embruteceu. Fez-se homem amoroso e semeou em nós os valores que de seus pais recebeu.

Saudade do meu pai.

Vim ao Líbano convidado para uma série de encontros educacionais, culturais e políticos. Conversas proveitosas sobre um país que investe em educação. Aqui todas as crianças estudam em escola de tempo integral e, além do árabe, aprendem inglês e francês. Aqui, eles valorizam a educação como a grande oportunidade para serem quem decidirem ser. 

Lancei meu primeiro livro em árabe. Uma editora traduziu o meu livro “Sócrates e Tomas More – correspondências imaginárias” para o árabe. Não leio árabe. Mas fiquei virando as páginas do livro como se lesse as páginas da minha história até chegar à minha raiz. Minha mãe leu a capa e chorou de emoção. Ela nasceu na Síria. Também partiu partida por ter que deixar a terra, por ter que irem busca de um porto seguro. 

Quis trazê-la comigo. Preferiu não vir. Vieram o meu irmão e meus sobrinhos. Encontrei parentes por aqui. Amigos. Experiências de acolhimento.

Os libaneses têm três características que me fascinam: a coragem, o trabalho e o amor. Amam sem economias, choram os seus ausentes e abraçam os que chegam. Servem do que têm para alimentar os seus. Trabalham como necessidade e opção. Gostam de empreender. E o fazem com coragem ímpar.

Já lancei outros livros meus em outros países. Cada um me trouxe uma emoção diferente. É uma honra. Um privilégio. Mas aqui. Aqui foi diferente. Gostaria de olhar na plateia e ver meu pai. Meu pai estava na plateia. Ouviu o que eu falei. Nesta semana, ele completaria 99 anos de vida. 

Árvore que nega raiz tem vida frágil. Tenho orgulho das minhas raízes. Dos meus antepassados. Do colo que me alimentou de esperança e que me apresentou a vida como um presente de Deus e uma missão de não deixar as páginas em branco. 

Escrevo porque assim contribuo modestamente para o mundo que acredito. Escrevo porque creio no ser humano e em uma educação que amplie a sua visão fazendo com que enxergue que o amor é mais nobre que a perversidade, que a fraternidade é mais livre que o egoísmo, que o cuidar é o exercício que nos realiza e que a saudade nos faz muito bem.

Saudade dos meus avós que não conheci, saudade do meu pai que está em mim, saudade de um tempo que poderia ser melhor se as pessoas tivessem raízes. Raízes boas. Raízes belas. Belo Cedro do Líbano.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/12/2015

Os filhos do meu filho

“Trabalho nesta escola desde menina. Já poderia me aposentar, mas quero continuar aqui, ver de perto os filhos do meu filho”. Foi assim o início da conversa com uma mulher de vassoura na mão e muita disposição para o cuidar. Ela nunca estudou. O filho estudou até o ensino médio. Casou cedo. Cedo, deixou a mulher para viver com outra. Cedo, fez-se ausente com os filhos. Cedo, partiu em uma briga que não consegui saber ao certo porque as lágrimas daquela funcionária não permitiram. Com a voz embargada, ela optou por algum silêncio. Mas, depois, prosseguiu: “O que foi, foi. Não há como refazer o passado”. Cuida agora dos netos. Dos três. Todos estudam na escola e vivem com ela. A mãe dos meninos arrumou outro companheiro e se mudou.

A funcionária não tem marido. Faleceu de doença. Não viu a morte do filho. “São maravilhosos meus netos, mas gosto de cuidar de perto, o mundo está muito hostil,  muito hostil”, insistiu.

 Eu quis conhecê-los. Dois gêmeos, uma menina e um menino e mais um com diferença de um ano, apenas. Adolescentes. Cheios de possibilidades. Educados, cumprimentaram-me e pediram uma foto.

Disseram-me rapidamente os seus sonhos. Os gêmeos querem ser médicos. “Vão cuidar de mim”, disse ela sorrindo. E o outro neto quer ser juiz de direito. “Quer corrigir as injustiças”, explicou-me a falante avó. 

O carinho daquela mulher com seus netos era enternecedor. Sabe o significado do descuido. Sente-se um pouco responsável pelos erros do filho. Da nora que partiu, não disse muito. Com os netos não quer errar. Não dá para saber tudo num encontro apenas. Pareceu-me que ali o plantio está correto. Plantios corretos florescem paisagens corretas, belas, encantadas.

Dois médicos e um juiz – sonham eles. Sonha aquela senhora que não quer se aposentar. Melhor assim. Com tanta disposição para cuidar, ela limpa sujeiras que podem roubar vida de seus netos, de outros adolescentes que ali se preparam para prosseguir.

Funcionários da limpeza, da cozinha, da secretaria também educam. Também plantam. Também preenchem espaços de aconchego.

Aconchego, é disso que precisam os que se preparam para assumir o comando. Escolas são espaços de preparação. “Volte sempre, professor, a casa é sua”. Foi assim que nos despedimos. Foi assim que ela permaneceu.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/12/2015

Para Gustavo e Matheo

Gustavo tem 11 e Matheo, 12. Dois jovens talentos da rede pública municipal de São Paulo. Tive a honra de conhecer os dois nesta semana. Recebi de presente os seus livros. Sim. São escritores. O livro de Gustavo Gomes chama-se “Meu universo” e o de Matheo Angelo, “Via Láctea e Andrômeda”.

Li os dois. Com curiosidade. Com esperança. Nos seus textos, há dizeres sérios e há experiências intrigantes para tão pouca idade. Gustavo diz que “escreve um poema por dia, para criar alegria”. O mundo anda triste demais, segundo o jovem autor. E combate a discriminação racial com  competência e convicção. Gustavo é negro e tem orgulho disso.

 

“Se por dentro somos todos iguais

Por que existir discriminação?

O que importa não é a cor da pele

Mas sim o caráter e o coração”.

 

Escreve ele sobre problemas e sorrisos, sobre família e a fugacidade da fama. Textos bem enredados:

 

“Anão de jardim

Não era brinquedo

E a rosa vermelha 

Amava em segredo

 

Mesmo nunca juntos

Foram separados

Ela para o buquê

Ele, para venda de usados.”

 

Isso tudo aos 11 anos! Esse é Gustavo, cujo sorriso faz a vida mais alegre, cujo esforço nos faz aplaudir seus educadores.

E tem Matheo. São amigos. Participam do mesmo “Clubinho poético”. Matheo escreve contos, crônicas e poesias. Gosta das galáxias. Navega pelos planetas e neles enxerga o que muitos não enxergam por aqui.

 

“Até Plutão que é um planeta anão 

Tem coração

E tem gente que não”.

 

Em outro texto, ele faz homenagem a Luiz Gonzaga. Faz poesia com a esperança. Em um pequeno conto, narra as peripécias de um menino diante do fascínio de se ver, pela primeira vez, no espelho. Descrição deliciosa de não saber quem está do outro lado. Matheo leu esse texto para uma plateia repleta de educadores no CEU Curuça. Foi aplaudido com entusiasmo. Disse de sua escrita com elegância.

Depois de ouvi-los, fiquei atento aos dizeres dos educadores sobre caminhos que precisamos percorrer para construir, pouco a pouco, uma educação que, de fato, cumpra o seu papel. Pais também puderam falar. E alunos. Eu os observava. Os dois, Gustavo e Matheo prestavam atenção a tudo. Como convém a um escritor. 

Quando falei, disse algumas coisas a eles, aos meus irmãos escritores. Disse que não seria fácil. Que muitas portas se fechariam para esse ofício de cultuar a palavra e de gestar personagens e ideias. Mas que persistissem. Também eu comecei a escrever cedo e cedo decidi que era esse o meu mundo. Escrever para alimentar de amanhãs os meus leitores. Escrever para iluminar cenas do cotidiano, escrever para partilhar minhas loucuras e sanidades, meus ditos e não ditos, meu humano jeito de teimar em humanizar os humanos.

Gustavo e Matheo e outros tantos que nascem por aí. Prossigam! Os caminhos corretos parecem mais trabalhosos, mas são os mais dignos. Em cada letra, palavra ou oração, sentimentos aquecem e enriquecem. Sejam bem-vindos. Fiquei grato de conhecê-los e grato de ler a gratidão que vocês demonstram aos mestres que lhes despertaram esse prazer pelo ler, pelo escrever.  Bravos professores, aliados de um combate honesto de um mundo que merece mais.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/12/2015

O meu pai, por favor!

Era a inauguração de mais uma escola. Inauguração de escolas é sempre uma festa. Crianças, famílias, educadores. Vida que se manifesta por todo lado. Mães, pais e responsáveis felizes porque poderão confiar àquela escola o que têm de mais precioso: seus filhos.
Havia, antes da fala das autoridades, um coral pronto para cantar e para dizer com os olhos e os gestos e as vozes quanto estavam felizes. Antes que a apresentação iniciasse, uma menina olhou para mim e disse: “O meu pai, por favor!”.  Eu quis saber melhor. “Seu pai não veio, está trabalhando, é isso?”.  Ela respondeu enfática: “Não! Ele está aqui. É que ele está lá atrás. Deixe ele vir aqui na frente, por favor, por favor!”. Concordei: “Claro, quem é seu pai?”. Ela o apontou, e eu fiz sinal para que ele se aproximasse. Ele pareceu tímido e agradeceu com as mãos, permanecendo no mesmo lugar. Eu disse, então, à menina: “Vá até lá, pegue nas mãos do seu pai e o traga até aqui. Ele pode sentar aqui na frente”. A menina não se conteve de alegria e foi saltitando buscar o pai. O pai, muito jovem, chegou, agradeceu e ficou sentado vendo a filha cantar.

Outros pais estavam ali vivendo, com seus filhos, um dia feliz. Lembrei-me da alegria dos olhos de meu pai nas muitas ocasiões em que ele me acompanhou. Fiquei olhando para a menina que cantava, olhos fitos apenas no pai. Ela queria cantar para ele.
Filhos gostam de cantar para os pais. Pena que muitos não tenham essa percepção. As ausências dos pais na vida dos filhos cobram um preço caro. Escolas não substituem famílias. Por melhores que sejam. E estamos falando de sementes. De seres em formação. De alicerces para o mundo com que ainda ousamos sonhar. Com mais respeito, mais beleza, mais bondade.
Em cada inauguração, agradeço a Deus pelo privilégio de ser educador e de viver, no meu dia a dia, esta experiência humana de cuidar do humano jeito de crescer.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/12/2015

Arrume o relógio

Perguntou-me um senhor se eu sabia onde havia um relojoeiro. Disse-lhe que sabia e expliquei como chegar até ele. Agradeceu e explicou-me que, ultimamente, ninguém se preocupa em arrumar as coisas. Jogam-nas no lixo e querem novidade. O relógio que precisava de conserto era do filho. O filho queria comprar outro, e ele disse que não. “Arrume o relógio, meu filho!”.

Ouvi aquele senhor que parecia precisar de algum ouvinte. Como estava atento, ele colocou-se a falar de outros temas. Reclamava, com elegância, dos que não gostam de arrumar as coisas. “Antigamente, havia um valor afetivo em cada bem que possuíamos. Guardávamos objetos dos nossos avós, dos nossos pais com algum respeito.”

Fez gestos agradecidos pela atenção e seguiu, em passos vagarosos, rumo ao relojoeiro. Afinal, tinha um objetivo naquela manhã, quase um compromisso, arrumar um relógio.

Saí da despretensiosa prosa pensando na sua calma e no seu comedimento ao criticar a sociedade dos descartáveis em que vivemos hoje.

 Arrumar um relógio. Não. Não se tratava apenas de arrumar um relógio. Tratava-se de um olhar para os costumes, para os valores que damos às coisas. Para o tempo dispensado a recuperar um bem e não a , simplesmente, substituí-lo.

Passemos das coisas às pessoas. O que é mais fácil, arrumar uma pessoa nova e descartar a que está, em nossa opinião, estragada, ou dar-lhe a chance de consertar o que não vai bem? Arrumar pessoas é mais complexo do que arrumar relógios. Requer mais tempo. Tempo que não se mede olhando para relógios, mas para o tempo das pessoas.

Namoros são descartados com muita facilidade. Há desculpas de todas as ordens. Necessidades de conhecer outras pessoas, liberdade de curtir a vida, falta de paciência de estar na rotina do mesmo enlace. Amigos também são descartados se dão trabalho. Não há lojas que consertem amigos nem lojas que consertem relações. Não se pode deixar lá e pegar depois como se faz com um relógio. Relações são consertadas em concertos de amor. É como uma orquestra de barulhos bons que nos remete à música composta por nossas histórias comuns. Baladas tristes e alegres. Caminhos que nos fizeram desejar estar juntos. 

Descartar um amor, um amigo, um alguém, por imperfeições, demonstra desconhecimento da natureza humana. Somos imperfeitos como condição de existência. Não fosse assim, nada precisaríamos aprender. Não fosse assim, nasceríamos prontos. 

Nos relógios em que vemos as horas, contamos as que desperdiçamos com bobagens e as que usamos para cultivar os afetos que nos sinalizam os caminhos da perfeição, Somos imperfeitos em busca da perfeição. E isso é bom. É bom quando sabemos. Não apenas onde ficam os relojoeiros, mas onde ficam as aprendizagens que nos ajudam a perceber o que devemos fazer com as horas que temos para existir.

No poema “Ah! Os relógios”, roga o poeta Quintana a seus amigos:

 

Amigos, não consultem os relógios 

quando um dia eu me for de vossas vidas 

em seus fúteis problemas tão perdidas 

que até parecem mais uns necrológios… 

 

Porque o tempo é uma invenção da morte: 

não o conhece a vida – a verdadeira – 

em que basta um momento de poesia 

para nos dar a eternidade inteira. 

 

Inteira, sim, porque essa vida eterna 

somente por si mesma é dividida: 

não cabe, a cada qual, uma porção. 

 

E os Anjos entreolham-se espantados 

quando alguém – ao voltar a si da vida – 

acaso lhes indaga que horas são… 

 

(Mário Quintana, in ‘A Cor do Invisível’ )

 

Bobagem viver consultando as horas. Bobagem descartar pessoas. Farão falta. Muitas partem sem que possamos decidir. As que ficam que fiquem nos ajudando a prosseguir. Prosseguir de mãos dadas, com ou sem relógios.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/11/2015

Dormir para sonhar

Assisti ao filme que trata das numerosas quedas de Walt Disney antes de criar seu famoso personagem Mickey Mouse: Walt antes do Mickey (2014). O filme é biográfico e conta a história do menino Walt que se realizava ao desenhar. Desde os tempos da fazenda do pai. Desenhava onde conseguia. A família teve suas quedas econômicas. Dias difíceis para todos eles. Mas Walt persistia. Persistia desenhando. Persistia montando seus estúdios. Era despejado por falta de pagamento. Era ridicularizado pelos fracassos. Era explorado por intermediários. Era enganado por pessoas próximas. Desânimos não deixaram de surgir, mas ele era maior. 

 Em uma das quedas, em um dos despejos, em uma rua, vê um ratinho, brinca com ele, alimenta-o. E dele se alimenta sua imaginação criativa. E cria um rato especial em homenagem ao animalzinho amigo. Mickey Mouse. Sua história serve de inspiração para tantos que desistem nos primeiros tombos. Em qualquer carreira, em qualquer profissão, as portas não se abrem com sopros frágeis. É preciso mãos decididas e um olhar que vê além. Fracassos em negócios e em iniciativas não podem ser maiores do que a aspiração de construir algo que tenha significado na vida das pessoas. Erros de rotas também fazem parte. Quantas pessoas ao mudarem de profissão ou de emprego ou de atividade conseguem se realizar. O ruim é esperar acomodando-se no ruim para ver se algo melhora. 

Mesmo um ratinho surgido do nada em uma calçada de desesperança pode inspirar um homem a ser um dos maiores empresários do entretenimento de todos os tempos. Walt Disney é um entre tantos que não aceitaram passivamente as quedas. Vale a pena ver o filme e refletir. Afinal, dizia ele: “Um dia aprendi que sonhos existem para tornarem-se realidade. E, desde aquele dia, já não durmo pra descansar. Simplesmente durmo pra sonhar”. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/11/2015

 

Os olhos de Ana

Ana é do interior do Ceará. Ouvi sua história na viagem que fiz com Laércio que me levou de Fortaleza até Itapipoca. Belo povo o de Itapipoca. Bebi a água da esperança naquele chão encantado. Milhares de professores professando a crença nas consequências do que fazem. Educar com olhos de ver. Nenhum aluno pode passar despercebido. Nenhum aluno pode ser deixado de lado. A cada um deve ser dado o poder de ser o condutor da própria história.

Histórias são composições do cotidiano. Entoamos cantos diversos nos cantos que frequentamos. Ana frequentou uma escola como tantas outras crianças, mesmo naquele tempo em que a maior parte estava fora.

Era uma menina que não conseguia ser alfabetizada. Não por falta de esforço. Ia sempre. Sem falta. Mesmo em dias de humilhação. E esses dias não eram poucos.

 Um dia, alguns meninos que se achavam no direito de brincar fazendo do outro um brinquedo empurraram Ana de um barranco. Ela rolou por alguns metros e parou em um pé de espinhos. E se feriu. No corpo e nos afetos. Ferida, teve tempo de algum choro e de se levantar para ir à escola. Não perderia aula. Mesmo sangrando. A professora era nova. Olhou-a com preocupação. Como deve ocorrer com todos os alunos, sangrando ou não. Olhou-a e quis entender. Balbuciou Ana alguma coisa para justificar o injustificável. Ela não conseguia ler, e isso dava a eles o direito da chacota. A professora acolheu sua dor e olhou-a com respeito.

E percebeu que Ana não havia sido alfabetizada por uma razão simples, ela não enxergava. Providenciou uma consulta. Ana tinha 13 graus de miopia. E nem ela e nem os seus familiares sabiam disso. Desde menina, ela via desse jeito. Desde menina, ela não via.

Os óculos abriram o futuro para aquela menina. Guimarães Rosa deve ter ouvido histórias semelhantes para criar Miguilim. O menino que tem sua vida mudada quando chega o doutor e lhe coloca óculos. Metáfora do que precisa ser visto, das cicatrizes que vêm depois que o sangue deixa de jorrar. Da vida dura do sertão ou até do mar. Onde há gente, há gente que olha e gente que finge não ver, e há gente que tenta destruir.

Conta Rosa que “Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia”.

Assim foi com Ana. Ana viu as letras, viu os números, os olhos de seus irmãos. Seus irmãos. Fez-se irmã. Pelos olhos atentos e acolhedores de sua professora.

Ana estudou muito. Virou professora, também. Depois, diretora. É freira. Irmã Ana faz da sua vida um serviço aos seus irmãos. Repete, na sua vida, o que aquela professora lhe fez. Olhou os seus olhos e viu que eles precisavam ver. E um mundo novo se abriu. Gosto dessas histórias e gosto de reproduzi-las. São inspiradoras. Nos livros e na vida. Vida longa é essa. Ou não. Mas o mesmo Guimarães nos ensinava que o que importa não é a chegada ou a partida, é a travessia.

Atravessemos como Irmã Ana. Se cairmos em espinhos empurrados por desavisados, levantemos. Há de haver uma professora em nossa vida que nos olhe nos olhos e que nos ajude a ver. A ver o que estava embaçado. A ver a travessia que se ressignifica quando somos cuidados ou quando cuidamos de alguém. Belos olhos os da professora. Belos olhos os de Irmã Ana.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/11/2015

Os porões dos navios negreiros

Hoje é o dia da consciência negra. Data escolhida em memória de Zumbi dos Palmares. Tem gente que acha desnecessário esse tipo de comemoração. Afinal, os negros não são uma pequena minoria. Será?

Numericamente, certamente, não são. Mas o são nos cargos de comando, nos poderes constituídos, nas direções de empresas e organizações. E por quê? São os negros menos competentes do que os brancos? Certamente que não. Não querem eles assumir também o comando? Seria ingênuo imaginar isso.

Mas o que há, então, se nossa constituição e nossas legislações infraconstitucionais são abundantes na proibição dos preconceitos e de toda forma de racismo?

 As leis vieram para corrigir um erro histórico, mas as mentalidades ainda demoram a mudar. Foi ontem que vieram esses nossos irmãos em porões de navios. Castro Alves põe sua alma para denunciar a ausência de alma com que foram tratados mulheres e homens, feitos escravos, arrancados de suas terras, e que atravessam os mares com esperanças nenhumas.

Como eram aqueles porões? Quanta dor presenciaram? Quantas lágrimas incontidas? Porões do horror e da ausência de humanidade.

Transcorridos tantos anos, ainda há porões de preconceitos nas mentes de nossa gente. Piadas desnecessárias, comentários chulos, atitudes incorretas;  já poderíamos ter superado esses erros. Mas os porões do racismo persistem. Vez ou outra, aparecem, nas mídias sociais, criminosos querendo lançar achincalhes. Elegem negras e negros que têm visibilidade, que romperam grilhões para viver a esperança e saem em decisão de ataque. Feias posturas de quem pouco entende das belezas da convivência, da pluralidade, do respeito, do amor.

Um dia, talvez, a data da consciência negra seja apenas um registro de feitos heroicos do passado. Hoje, ainda temos muito trabalho. Muitas limpezas nesses porões da consciência que persistem nos erros de ontem. Humanos é que somos. E então?

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/11/2015

Lygia e as meninas

Lygia Fagundes Telles foi homenageada, na última quinta-feira, na Academia Paulista de Letras, dentro da programação do EMIL – Encontro Mundial da Invenção Literária. Mais de 120 autores dos quatro cantos da Terra e de todos os cantos de nosso país participam desse evento que termina hoje. Conferências, diálogos, debates, saraus, contação de histórias trazendo o universo do livro e dos autores. A obra e os criadores. Sentimentos que nascem das tramas da vida e percorrem as páginas dos livros. E o caminho inverso, também.

Lygia é uma das maiores escritores da nossa língua. Seus contos e romances preenchem nosso imaginário. Sua ousadia, sua antevisão, trouxe temas leves e agudos. Escreveu sobre sentimentos nobres como a compaixão, a piedade, a cumplicidade e, sobretudo, o amor. Escreveu também sobre traição, perda, morte, medo, separação.

Leio e releio seus escritos e encanto-me como se os lesse pela primeira vez. Que água ela bebeu para saciar sua sede inspiradora? Quais os alimentos que a fortaleceram para dizer o que deveria ser dito em enredos e personagens marcantes? Lygia foi homenageada. Escritores falaram sobre sua obra. Os contos preferidos. Ela mesma já publicou um livro com esse título. E, depois, um outro chamado “Meus contos esquecidos”. Não sei qual o meu predileto. Confessei isso. Depende do dia. Depende do que estou sentindo. Acho que não esqueceria nenhum. Todos eles merecem um altar no oráculo da palavra: Biruta, Venha ver o pôr do sol, Natal na Barca, Antes do baile verde, O moço do saxofone, Papoulas em feltro negro e tantos outros escritos maravilhosos. 

 Lygia usou a palavra, sua majestade, para agradecer a homenagem. E resolveu falar sobre as meninas. Não falou sobre “As meninas”, seu romance. Falou sobre as meninas que precisam assumir o comando da própria vida.

Disse, lembrando Miguel Reale, que a revolução da mulher foi a mais importante do século XX. E continua no XXI.  Abriu o seu legado afetivo ao compartilhar as chamas que a aqueceram em vez de queimá-la. Sofrera ela preconceitos, certamente. A mãe, naquela época, separou-se do pai, que perdera tudo no jogo. Ela entrou para a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Uma universidade de homens, disse ela. E teve de responder, várias vezes, as perguntas sobre o que levava uma mulher a ingressar naquele curso. “Quer estudar Direito ou arrumar marido?”, perguntou uma tia. Brincalhona, respondeu: “As duas coisas, por que não?”. E casou-se com um de seus professores, Goffredo da Silva Telles Júnior.

Lygia era amiga de Clarice Lispector. Conviveu com muitos escritores. Conta que se encontrou três vezes com Monteiro Lobato. Uma vez, foi visitá-lo na prisão. Outra, Lobato foi agradecer sua gentileza e foi à sua casa no dia do aniversário da jovem Lygia. E, na terceira vez, no enterro do escritor.

Disse Lygia, na homenagem:  “Sempre quis comandar o meu destino, por isso estudei, por isso resolvi sair dos espaços que me queriam reservar e fui construir o meu próprio”. E disse isso às meninas que estavam na Academia Paulista de Letras, olhos atentos na escritora. “A mulher tem de ser protagonista. Não pode ser relegada. Não pode se acovardar!”. Usou a metáfora do polvo que, quando tem medo, solta no mar uma mancha: “Em pleno mar, quando se sente perseguido, o polvo solta uma tinta negra para que a água fique escura e assim ele possa fugir. A negra tinta do medo, tão viscosa e morna.” Conclamou as mulheres a vencer os medos e, de cabeça erguida, construir os espaços desejados, com coragem.

Lygia, a eterna menina, terminou pedindo: “Eis que então, hoje, aqui na Academia Paulista de Letras, durante este evento tão importante para a literatura, esta escritora que está sendo homenageada faz um convite ao jovem e ao velho leitor: ‘ Me leia, não me deixe morrer. Repito: Me leia, não me deixe morrer!’”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/11/2015

Ruth e Maurício e os contadores de história

Na quarta-feira, tivemos a abertura do EMIL, Encontro Mundial da Invenção Literária.

O evento ocorreu no Museu da Língua Portuguesa e continua em vários pontos da cidade de São Paulo até o domingo próximo. São mais de 200 horas de atividades voltadas a palestras, conversas, saraus literários, contação de histórias entre outros. É sobre contação de história que gostaria de partilhar com vocês.

A abertura fez uma homenagem aos geniais escritores Ruth Rocha e Maurício de Sousa. Os dois completaram 80 anos. Os dois escrevem com a responsabilidade de ampliar os mundos de seus leitores. Os dois tratam a criança com respeito. Os dois são leitores ávidos que percorreram vários estilos literários de tempos e espaços diferentes.

 Os dois tiveram, em suas primeiras descobertas do fascinante mundo  em que vivem, contadores de história. Também Machado de Assis teve uma contadora de histórias. Também Goethe. E tantos outros que desenvolveram a capacidade imaginativa com contadores de história.

No passado, era comum que, nas famílias, alguém contasse histórias. Mesmo as pessoas que não tiveram a oportunidade de aprender a ler e a escrever traziam as magias encontradas na tradição oral. Pais, avôs, avós, tios, amigos da família sentavam-se em torno de algum aconchego e contavam histórias.  E por que, em tempos de informações tecnológicas, é importante resgatar esse fazer? Nas telas dos computadores ou nos televisores, temos as imagens prontas. Ao ouvirmos uma história ou lermos um livro, imaginamos. E precisamos desenvolver nossa capacidade imaginativa. Além de desenvolver os afetos mais profusamente brotados de encontros com os contadores. Quanta beleza há em uma criança que pede à mãe ou ao pai que conte, novamente, a mesma história e, vez ou outra, ainda os corrige quando esquecem algum detalhe. A história, a criança já sabe, mas o som da mãe, ao dizer a história, significa muito.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/11/2015