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Os direitos das crianças

Dados recentes da UNICEF chamam a atenção para uma canção triste na voz de milhões de crianças que orquestram a dor nos territórios atingidos por conflitos. São 250 milhões de crianças – ou 1 em cada 9 –  que moram em áreas em que a paz não tem autorização para permanecer.

Têm essas crianças o dobro de chances de morrer de doença antes dos 5 anos. Morrem também das armas fabricadas pelos homens. Morrem, também, ao verem morrer seus pais, seus parentes, seus amigos. Ao verem o quintal dos sonhos devastado pela ambição dos homens. Infâncias desperdiçadas. Brincam com utensílios de destruição, ouvem histórias de ódio, falam sobre os inimigos, choram as invasões. E são apenas crianças.

 E os direitos das crianças? Aqueles aprovados pela Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 20 de novembro de 1959? Envelheceram sem nascer? Foram esquecidos antes de mostrar a face? Seus 10 princípios são tão significativos. Vida, liberdade, educação, saúde, cuidado, proteção, narram direitos que não podem ser negligenciados. A narrativa, entretanto, não alcança quem é de direito. As crianças padecem do jardim propício para a formação das raízes. Raízes que exigem condições mínimas de uma vida digna. Se as raízes estiverem fincadas em terrenos corretos, crescerão com menos problemas e alcançarão os patamares que ousarem de acordo com os impulsos das próprias escolhas.

Escolhas? Em territórios de guerra, o que se escolhe? Em ausências de paz, as outras ausências vão se apresentando. Não há educação, não há saúde, não há equilíbrio, não há bondade. O que se vê e o que se aprende é a combater. Não o bom combate, o que exige valentia para fazer tremular os valores em que se acredita. Falamos, aqui, do combate para a sobrevivência. Ou mato ou morro. E isso na infância. Onde as raízes ainda não têm história. Terrenos de guerra são pouco férteis. Difícil de ver brotar frutos bons.

Toda criança deve crescer em um ambiente de amor. Em um ambiente de compreensão, de segurança. É linda a imagem do filme “A Vida é Bela”, em que o pai inventa uma história bonita para amenizar os horrores dos traumas nascidos em um campo nazista para os poucos que sobreviveriam. Há pais que conseguem fazer isso nesses territórios de conflito. Mas é difícil. É difícil saber que se pode morrer amanhã e, na noite de hoje, deitar na cama do filho e embalar os seus sonhos contando uma história de amor. É difícil brincar ao amanhecer se há barulhos de bomba eclodindo como primeira refeição. Nutrientes ruins esses. Nossos jardins foram invadidos por estranhos que, por razões econômicas ou religiosas ou quaisquer outras, se acham no direito de nos desconsiderar.

Até quando conviveremos com isso? Até quando as nossas diferenças serão resolvidas com a eliminação de vidas? Que racionalidade é essa que nos faz ostentar algum orgulho? Somos animais racionais, não é assim que ensinamos? Como uma criança aprenderá sobre isso nessas áreas tristemente violentas?

Estamos falando de episódios com os quais convivemos em nossos tempos. Este dado da UNICEF, de 250 milhões de crianças que vivem em áreas de conflito, é de agora. E então?

E, talvez, seja pior. Há territórios nos quais os conflitos não são contabilizados. Lares violentos, brigas entre os pais, espancamentos de mulheres, de crianças. E os direitos das crianças?

Não quero deixar uma mensagem de pessimismo, mas, para ousar a utopia, é preciso conhecer a realidade. A realidade é a de um jardim devastado. Ainda acredito nos semeadores. Nas mulheres e homens que percebem a complexidade do que fazem e que não desistem. Valentes educadores que ousam desafiar o ódio e implementar o plantio do amor. Vencem o medo com o canto certo. O que se afina dia a dia para que a orquestra dos que vêm chegando continue a ser executada.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/01/2016

Lágrimas de alegria

Sou da teoria de que homem chora. E é bom que chore. Que chore de dor. Que chore de emoção. Que chore de saudade. 

Um homem, um menino, de nome Sérgio dos Santos Santana, do interior do Piauí, filho de um pedreiro e de uma empregada doméstica, entrou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Piauí. Imaginem os três chorando juntos! Sérgio acreditou na própria capacidade e foi em busca de seu sonho. Ser médico. Amenizar a dor de tantos que choram. Um outro choro. Um choro que, também, haverá de acompanhá-lo. Nunca me esqueço de uma vez que entrevistei o Dr. Adib Jatene e lhe perguntei se ele chorava quando tinha que, por exemplo, dizer a uma mãe que o seu único filho havia morrido. Ele me respondeu que sim, que chorava nessa e em outras situações. Quando um paciente ficava curado, também chorava. Dizia que um médico sem emoção não é capaz de exercer, dignamente, o seu ofício.

 O jovem Sérgio começa uma nova etapa de sua vida. Valente, não aceitou limitações que as condições financeiras ou as distâncias de centros maiores pudessem impor. Foi além. Estudou com afinco. Estudará com afinco para que sua vida mude muitas vidas. 

Assim que soube da aprovação, ligou para o pai. Choraram juntos. A simplicidade daquela família ajudou a forjar o caráter do futuro médico. Que ele continue assim. Orgulhoso dos pais que não tiveram a oportunidade de estudar, mas que o criaram para o voo certo.

Há um longo caminho, ainda, a ser percorrido para que a nossa educação melhore, mas histórias como essas nos enchem de esperança. Estamos mudando. É o que narra o lindo filme da Anna Muylaert , “Que horas ela volta?”, quando a filha da empregada entra em uma universidade. Já o filho da patroa, que estudou em colégios renomados, não. A diferença é que, assim como Sérgio, a garota estudou. O filho da patroa, não. Parabéns Sérgio. Parabéns senhor Hamilton Santana e senhora Marizete dos Santos. Que as lágrimas de alegria aqueçam vocês.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/01/2016

Empresta o seu sorriso

Asilos são cenários privilegiados de acúmulos de histórias.
Histórias, enredos de vidas reais. Amores de ontem. Tempos delicados de encantamentos. Encontros. Despedidas. Os anos acumulados acumulam perdas. Quantos estão ali revivendo momentos que aquecem o presente! Fotografias belas de um outro tempo. Falam de descobertas do mundo que foi se transformando, das aprendizagens que se fizeram necessárias. Falam dos seus que já não são mais seus. Ou porque partiram ou porque partiram. Assim mesmo. Partiram para a eternidade ou partiram os sentimentos dos que ali esperam um amor, uma presença como antes, um convívio. Histórias de filhos que não visitam os pais. Que por razões, sem razão, negam as raízes. As mais absurdas desculpas são usadas para justificar o injustificável. Aguardam, os que estão ali, um aceno, um encontro, um instante de revivida celebração.  Mas os filhos se ocupam de outras tarefas. O passado talvez os incomode. Mas é de presente que falamos. De presença.

 Em terras pedregosas, sempre há uma teimosa flor que brota para lembrar a cor do belo. Nas ausências desses asilos, aparecem pessoas dispostas a ouvir e a conviver. A ser voluntário da partilha. Gostam, os que têm histórias, dos que têm paciência de ouvir histórias.

Certa feita, um adolescente chegou triste a um asilo. Não estava triste por estar ali. Estava triste por uma ausência. Por um amor adolescente que o adoeceu. Estava triste pela insegurança diante da vida sem o tal amor que parecia eterno. Um namoro se findara. Apenas isso. Apenas isso? Isso é muito. Dói mais do que imagina quem nunca teve o privilégio de sofrer por amor.
O adolescente estava assim, nebuloso, mas foi, com outros adolescentes, ao projeto que faziam de conviver com os moradores do asilo.

Cada qual sentava onde queria e conversavam. Pedro, o adolescente, sentou-se ao lado de Carmen, uma senhora em quem o tempo acumulou felicidades. Problemas, ela sempre teve. Mas não foram suficientemente fortes para diminuí-la. Carmen foi dançarina. Viveu amores intensos. Perdeu o que tinha, quando não tinha o discernimento necessário para fazer as escolhas corretas. Reencontrou-se. Amou o seu amor, mas dele se despediu em um dia frio de junho. Ela conta, como em uma novela, os detalhes do velório do marido. Não tiveram filhos. Tentaram, mas não conseguiram. Tiveram, entretanto, razões suficientes para viver de amor. Carmen é falante. E fala sorrindo. E gosta dos detalhes. “Os detalhes enfeitam a vida”, ensina ela. Pedro era só ouvinte. Fechado em si mesmo, pela dor da despedida, ouvia. Contava Carmen de quando conhecera o seu amor. E um sorriso lindo a tomou  desprevenida. Foi quando Pedro pediu: “Empresta o seu sorriso?”.
 
Carmen compreendeu. Falou que também havia sofrido por amor. E que era lindo ver um homem chorando por uma mulher. Chorando por amar. O tempo agradeceria essas experiências. Mesmo as dolorosas. Vidas são assim. Choraram juntos aqueles dois. E, ao final, depois do pranto dos desabafos, Pedro saiu sorrindo. Disse ela ao menino, “Fique com o sorriso para você, não precisa me devolver”. Bem melhor do que chegou, porque boas ações nos fazem assim, Pedro respondeu: “Faço questão de devolvê-lo, será um motivo a mais para nos reencontrarmos”.

Tenho o hábito de visitar asilos e sempre saio com uma penca de sorrisos emprestados. Toda pessoa deveria fazer um trabalho voluntário. É o ensinamento de Francisco de Assis, “Quem dá é ainda mais feliz do que quem recebe”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/01/2016

Onde mora Deus

Uma criança pergunta para sua mãe:
– Onde mora o Papai do Céu?
 E ela responde:
 – No Céu. Se é Papai do Céu, mora no Céu.
A criança fica pensando, pensando. E não satisfeita com a resposta prossegue:
– Mas onde, no Céu? Em cima ou embaixo dos aviões?
A mãe não sabe o que responder. E, enquanto ensaia dizer alguma coisa, entra a avó.
A criança repete a pergunta  e explica a resposta da mãe. Quer saber o que pensa a avó.
– Onde mora o Papai do Céu?

A avó, experiente nesses assuntos de extrair o que a criança tem de melhor, devolve a pergunta:
– Onde você acha que mora o Papai do Céu?
A criança, sem titubear, responde:
– Em todo lugar.
– Em todo lugar? – Insiste a avó.
– Em quase todo.
A avó aproveita e quer saber mais:
– E onde, então, não mora o Papai do Céu?
Com uma certeza definitiva, responde a criança:
– Onde tem maldade.
A conversa prossegue. A mulher observa sua mãe conversando com o seu filho.
Deus mora onde não mora a maldade. Não que a maldade seja mais forte do que Deus. É que Deus respeita as escolhas humanas. É que Deus autoriza o homem a querer ou não sua morada.
A avó abraçou o neto e disse com carinho:
– Obrigada pela oportunidade de aprender algo tão bonito com você.
O menino piscou para algum lugar em que ele sabia que Deus estava ouvindo tudo e gostando do que ouvia.
Podemos aprender muito com as crianças.
Elas sabem onde mora Deus.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/01/201

Misericórdia

O Papa Francisco nos convida a viver o Ano Santo da Misericórdia.
Por meio da Bula Papal Misericordiae Vultus (O Rosto da Misericórdia), Francisco fala da missão do cristão em ser misericordioso.

O que significa a misericórdia? A origem da palavra nos remete a, pelo menos, duas possibilidades que se complementam:
Miser  (pobre) e  cordis (coração), portanto, coração de pobre.
Miseratio (compaixão) e cordis (coração), coração compadecido.

O sentido de “coração de pobre” é ter a consciência de que todos nós somos pobres, necessitados, carentes de algo. Todos nós. Não há ninguém que viva sem carências. As carências são diferentes. Há carências materiais, afetivas, espirituais e outras. Carecemos do outro como essência da nossa existência. E careceremos sempre. Ninguém chegará ao patamar da satisfação absoluta.

Da mesma forma que, por mais que já tenhamos nos alimentado fisicamente todos os dias, precisaremos continuar a nos alimentar, isto é, careceremos de alimentos, assim também acontece nas relações humanas. Ninguém poderá dizer que já foi muito amado, e isso o alimentou de tal forma que nunca mais precisará de amor. Careceremos de amor para sempre. Essa é uma boa condenação. Estamos condenados a precisar de amor e de amar. Sem isso, nossos dias perderão o significado e fenecerão. Há várias formas de amar. O que não há é a possibilidade de viver dignamente sem amor.

A primeira reflexão de misericórdia refere-se, portanto, ao universo individual. A consciência de que essa boa limitação é para todos. Somos limitados às nossas necessidades. Pobres. Carentes. Necessários de alimentos físicos e afetivos.
A segunda reflexão, como consequência da primeira, refere-se ao coletivo. Se sou carente e o outro também é, é preciso que nos unamos em nossas carências e que fortaleçamos os nossos vínculos. Um coração compadecido é um coração que sofre com o sofrimento do outro, que enxerga o outro que, portanto, não lhe é indiferente. A indiferença é uma falha grave no tribunal dos afetos. Deixar de enxergar, de compreender, de acolher o outro é prova de ausência de humanidade. Vivemos tempos de cobranças, de julgamentos, de achincalhes. Criticamos quem nem conhecemos. Empenhamo-nos em exercer o triste ofício de carrascos de irmãos nossos. Sim, somos irmãos, independentemente de origens, crenças, religiões. Somos irmãos no sentido humano. Nascemos da mesma terra e nutrimo-nos das mesmas necessidades.

A abertura do Ano Santo da Misericórdia coincide com os cinquenta anos do encerramento do Concílio Vaticano II. O Papa do Concílio – hoje,  São João XXIII – declarou que: “em nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade…”. Redescobrir o valor do perdão, dos ensinamentos da parábola do filho pródigo, do pai que acolhe o filho que errou e o encoraja a corrigir a rota e a seguir no caminho do bem. Redescobrir o valor do cuidar, a bela história do bom samaritano, que para, que enxerga o irmão ferido e que cuida dele.
Quantos ensinamentos há para serem incorporados no nosso dia a dia para vivermos a misericórdia! Palavras ganham significado quando são vividas. Eis a bela expressão da caridade que nos ensina São Paulo. Precisamos de uma fé com obras. Com obras de misericórdia, com obras de amor.

Algumas pessoas se diminuem quando imaginam que, em um mundo tão errático, fazer o bem não faz a diferença. O mundo é formado por muitos mundos. Cada ser humano é um mundo que convive com outros mundos. Antes de pensarmos no mundo inteiro, pensemos nos mundos com os quais os nossos mundos convivem. É assim, na simplicidade de um cuidar, que mundos se elevam e que a misericórdia se realiza.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/01/2016

“Acabou o meu mundo”

Essa foi a frase proferida pelo índio Arcelino Pinto. Esse foi o grito que brotou do coração de um pai desolado. Mataram seu filho. Um menino de 2 anos e meio. O curumim Vítor.  Era forte o sol do meio-dia. Brincava Vítor sob uma árvore, na companhia da mãe que, pacientemente, o alimentava. O pai havia saído com os dois filhos mais velhos para vender o produto do seu trabalho. São índios artesãos. Vivem da sua arte. Da sua cultura. Das suas tradições. No verão, deslocam-se para o litoral a fim de vender seu artesanato. Neste ano, a família sonhava em comprar uma geladeira com o dinheiro das vendas.

 Hora do almoço. Arcelino parou com os filhos para comer algo. Soube da tragédia pela TV pendurada no teto de um bar. Olhos fitos na tela, ficou atônito diante da reportagem que falava sobre o brutal assassinato de uma criança indígena, sem se dar conta de que a vítima era o seu pequeno Vítor. Sentiu dor ao imaginar o que a família daquela criança estaria sofrendo. Mal sabia que era a sua família que vivia aquele drama. Seu filho apenas brincava feliz, à sombra daquela árvore. Alguém se aproximou, acariciou a criança e a degolou com um estilete! A mãe, em desespero, pegou o filho no colo, chorou o choro mais doído de sua vida. Conseguiu alguma ajuda, mas não evitou a morte de seu filho. Conta a pobre índia que tudo pareceu um sonho. Não era. Era um pesadelo. Os irmãos sentem falta do caçula. O povo Kaingang chora a partida prematura de seu membro. Indignado. Ferido. Revoltado.

Como pode alguém ser capaz de uma atrocidade dessas?  Para onde vamos? Não é só o mundo desse pai que acabou. Os mundos nossos acabam quando vivemos essas experiências. Tristes experiências de ausência de amor. Horrores gerados no horror do ódio. Infelizmente, o mal existe. Mas ainda há bondade por aí. Naquelas tribos e nas nossas. Continuo acreditando que o bem é mais forte do que o mal. Apesar de tudo o que vejo, continuo acreditando. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/01/2016

Recomeços

O que é um recomeço?

Diz a canção de Ivan Lins: “Começar de novo e contar comigo, vai valer a pena ter amanhecido”. Fala o compositor sobre um amor que talvez não tenho amado o suficiente. Prossegue ele em seu grito de satisfação pelo recomeço da vida sem o incômodo do tal amor não amado:

“Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido”.

As dores de amor são dolorosas demais. Quem já passou sabe. Há funduras na nossa alma que parecem não ter fim. Vazios. Pensamentos roubados de outros assuntos quaisquer. O fio condutor dos nossos dias acaba sendo a busca desse amor, de alguma atenção, de algum sinal luminoso na escuridão dos nossos sentimentos. Por vezes, um aceno, apenas, ameniza as dores que sentimos. Mas passa. E é isso que diz a canção quando fala em “ter me debatido”, “ter sobrevivido”, “ter me conhecido”, “ter me socorrido”.

Os sofrimentos nos ajudam a nos conhecermos melhor. As dores podem nos humanizar se soubermos com elas conviver. A solidão nem sempre é um mal. Abandonados a nós mesmos, socorremo-nos. E, por tudo isso, “vai valer a pena ter amanhecido”.

Talvez fosse uma reflexão interessante a de nos perguntarmos por que vale a pena amanhecer? Para encontrar um amor? Para cuidar dos filhos? Para trabalhar? Para tomar o café da manhã? Para sair com um amigo? Para viajar a viagem dos sonhos? Sonhos?! E quem já não sonha mais? Valerá a pena amanhecer?

Os recomeços necessários em histórias de amor sem amor também servem para outras razões dos nossos amanheceres. Há amigos que provaram não serem amigos. Talvez valha a pena recomeçar com outros. Há trabalhos que não nos realizam e que nos emaranham em fios sem fim de desânimos. Vale a pena continuar? Não seria melhor administrar a própria carreira, estudar um pouco mais, buscar outra alternativa? O trabalho nos dignifica, se não nos sentimos dignos no que fazemos é melhor buscarmos outro caminho. Um pouco de coragem e sabedoria nos ajuda a decidir e a mudar.

É preciso valer a pena cada amanhecer. É preciso recomeçar a gostar de viver. Em cada relação, em cada profissão. Não que não tenhamos de conviver com pessoas e situações que, às vezes, não nos agradem. Isso faz parte do nosso viver. Mas não pode ser só isso. Há uma necessidade real de nos encontrarmos nos nossos encontros, sejam eles pessoais ou profissionais. Faz toda a diferença sentirmo-nos amados por pessoas com as quais convivemos. Como pode um amor ridicularizar o seu amor? Desprezá-lo? Compará-lo a outros? Como pode um profissional ser humilhado no seu espaço sagrado de trabalho? Como pode se sentir inútil com tantas utilidades necessárias?

Recomeços são necessários. “Virar a mesa”, “virar o barco” e prosseguir de um outro jeito. No mundo dos negócios, há muitos que faliram em algumas tentativas e, depois, deram certo. Nas relações de trabalho, há muitos que se sentiam incompetentes pelo tratamento que recebiam e pelas poucas oportunidades de criar e, depois, encontraram a realização; na vida amorosa, também. Depois de algum término, de algum conhecimento, de alguma coragem, um novo encontro ajudou a encontrar o que de mais bonito havia e que ainda ninguém havia encontrado, a própria essência.

O que é um recomeço?

É uma ação de corajosos. Dos que não aceitam o que não realiza. Dos que se rebelam contra o que desumaniza. Dos que sabem que podem mais e, mesmo machucados, cantam no seu dia a dia: está valendo a pena ter amanhecido. É desse sabor que precisamos junto com a primeira refeição. O alimento que nos faz sorrir com sinceridade pelo dia que ainda está espreguiçando. E será o mesmo sabor da última refeição do dia que se despede, cansado talvez, mas satisfeito. Vai valer a pena ter adormecido. Com a boa sensação de que fizemos alguma diferença no dia que se foi. Cansaços não nos diminuem. Ausências de sonhos, sim.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 10/01/2016

Os reis e o rei

A tradição da festa de reis é antiga. Há países, no Oriente, em que a troca de presentes se dá no dia de reis e não no natal, porque foi nesse dia que o Menino Jesus recebeu os presentes carregados de simbolismo: o ouro, o incenso e a mirra.
Quem eram esses reis?  Seus nomes eram Belchior, Baltazar e Gaspar. Vieram do Oriente. Dentro deles, havia sonhos. Não se sabe muito sobre os seus povos, os seus reinados, sabe-se que, guiados por uma estrela, perseguiam eles a esperança.
Esses reis do Oriente se encontraram com um outro rei, Herodes. Quem era esse rei? Fraco, medroso, cruel, perverso. Herodes, quando soube que os reis vieram adorar um Menino e que esse Menino não pertencia a sua família e que aquele desconhecido poderia colocar em risco o seu poder, resolveu matar o Menino.
Disse aos reis que, se encontrassem o Menino, lhes comunicassem porque também ele queria prestar sua homenagem. Eis outras características de Herodes: dissimulado, falso, mentiroso.

 Esse encontro é muito significativo. Ele se repete nos nossos dias. Esqueçamos a coroa. Falemos de pessoas.
Quantas são aquelas que vibram pela novidade de alguém que traz alguma boa nova, uma boa notícia? E quantas gostariam de eliminar aquela boa notícia porque não advém de seu poder, e temem que outros o roubem? Quantas têm a generosidade de vibrar pelo sucesso do outro e quantos se incomodam com isso? Quantos aplaudem e quantos buscam apequenar?

Esses sentimentos, os bons e os ruins, vivem com a gente. É melhor saber cultivar os que, de fato, nos elevam. O tempo é um bom juiz. O que diz a história sobre Herodes? A estrela que guiou aqueles reis ainda existe. Mora alto, não nas baixezas dos falsos poderes, mas na simplicidade, na generosidade de quem acredita que um Menino bom nasce todos os dias para nos lembrar de que ser bom ainda é o melhor reinado.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/01/2016

Agradecer

É início de mais um ano.

As culturas diferentes propõem diferentes comemorações.

Celebramos rituais desejando ter um ano melhor. O ano velho já se foi. Agora, é o ano novo que nos desafia. É isso o que dizem.

Mas é bom olhar para trás e agradecer.

Permitam-me, neste primeiro domingo do ano, fazer alguns agradecimentos a vocês que me dão a honra de ler histórias e ideias que escrevo por aqui.

2015 foi um ano muito bom.

 Agradeço o privilégio de escrever duas vezes por semana no Diário de São Paulo.

Agradeço a toda equipe do Jornal.

Agradeço a Rede Vida de Televisão pelo meu programa. É bom entrar na casa das pessoas e conversar com elas. E saber que, modestamente, podemos contribuir para que elas sejam mais felizes.

Nesse ano, lancei 5 novos livros, a coleção “Filosofia e Vida” para crianças.

Lancei o meu primeiro livro traduzido para o árabe, “Sócrates e Tomas More – correspondências imaginárias”.

Tive a honra de ser um dos escritores convidados para escrever uma carta a Deus na obra “CARTAS A DIOS DESDE AMÉRICA LATINA”, de CÁRITAS AMÉRICA LATINA Y EL CARIBE.

Vivi a emoção de ter duas peças minhas em cartaz. Uma, no Rio de Janeiro, a adaptação de um conto meu chamado “O menino que queria ver o sol”, e a outra, em São Paulo, “O Semeador”, dirigido pelo competente Hudson Glauber e que teve as atuações impecáveis de Genézio de Barros e Thiago Mendonça.

Nesse ano, recebi o convite do prefeito Fernando Haddad para ser secretário da educação do Município de São Paulo. Cargo que já foi ocupado, além de outros grandes nomes, por Paulo Freire. Percorri a cidade ouvindo e aprendendo com os professores, dialogando com pais e alunos, trabalhando por uma educação melhor. Conseguimos quase 40 mil novas vagas de creches. O número é surpreendente. 40 mil crianças que estavam fora das escolas agora podem estudar. E não descansaremos enquanto não tivermos condições de cuidar de todas. Criamos programas significativos como o “Na mesma mesma” em que professores e alunos partilham juntos a refeição e o “Canta São Paulo” que traz a música para todas as escolas da rede municipal. Construímos juntos um currículo de tempo integral. Mais de 100 escolas (entre EMEFs e EMEIs ) serão de tempo integral neste novo ano. Há muito a se fazer para melhorar a educação, e o único caminho é um agir coletivo, democrático,.

Na Academia Paulista de Letras, conseguimos, com vários outros parceiros, criar o EMIL  – Encontro Mundial de Invenção Literária,  com mais de 200 horas de programação em 4 dias com 120 escritores de quatro continentes.

Agradeço aos amigos que partilharam comigo esses e outros projetos. Nada é possível se não caminharmos de mãos dadas. Para um programa ir ao ar, é preciso tanta gente. Para um livro ser feito, também. Para construirmos projetos, são reuniões e equipes e debates e sonhos se realizando.

Também tive dias difíceis nesse ano. Os perversos são incansáveis. Sofri mentiras que verdades já haviam enterrado. As injustiças são dolorosas. Mas estão aí. Não apenas comigo. Não sou melhor do que ninguém para  passar ao largo dos maus. Eles existem, mas continuo acreditando na bondade como decisão de vida.

Nesse ano, tive também a honra de acompanhar o prefeito Fernando Haddad em um encontro com o papa Francisco. Pude estar ao lado dele, ouvi-lo falando sobre a “globalização da indiferença” e sobre a destruição de nossa casa comum. Bebi de sua simplicidade e sabedoria. Que homem bom!

Foi um ano de amizades boas, como todos os anos. Um ano em que, por causa da secretaria de educação, viajei menos para dar palestras. Mas as que pude dar foram gratificantes. O Brasil é incrivelmente fascinante. Que honra saber que as pessoas saem de casa para me ouvir falar. E quantas. E quanto carinho.

Perdi amigos queridos nesse ano. As ausências são sempre dolorosas. Amigos que deixaram o seu legado e partiram para a eternidade.

Aprendi muito com as gentes que me surpreendem no cotidiano. Gosto de observar as pessoas, de conviver com elas, de ouvir suas histórias e suas impressões sobre o mundo.

Agradecer é um valor do qual não podemos abrir mão. É bom olharmos para trás e compreendermos os caminhos necessários para chegarmos até aqui. E os caminhantes que nos fizeram companhia. E prosseguir.

Que nesse novo ano, continuemos juntos. Sofrendo. Sorrindo. Celebrando a vida. E preenchendo o tempo com o que dá, ao tempo, significado.

Para, quem sabe, dizermos como Clarice Lispector: “Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito”.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 03/01/2016

 

Ano novo

Que seja um ano bom.

Que saibamos ressignificar gestos simples que nos trouxeram e nos trarão alegria.

Que encontremos mais razões para fincar raízes na solidez dos afetos que nos mantêm firmes.

Neste novo ano, também teremos dores, também sofreremos ausências, também choraremos as despedidas ou as emoções. Mas será diferente. Sempre é diferente.

Que estejamos mais maduros. Esse é um presente que o tempo nos dá.

 Que sejamos mais fortes depois de termos experimentado o que parecíamos não suportar. Suportamos.

Que compreendamos mais as nossas limitações. Sem perder a ânsia de voar.

A liberdade é uma experiência que precisa ser vivida todos os anos. Quebrar correntes ou gaiolas ou grades que nos prendem é essencial.

Que tenhamos a coragem de dizer palavras de amor.

Que tenhamos a delicadeza de abrir as portas de nosso recanto e convidar outros amigos para a celebração da vida.

Que tomemos a água da bondade, todos os dias, sem comedimentos.

Vencer o mal é uma necessidade que urge. Eles estarão por aí, neste novo ano, tentando roubar nossa preciosa paz. Resistamos.

Que amanheçamos decididos a caminhar, mesmo em dias de ausência de sol.

Que compreendamos os entardeceres e até agradeçamos o dia que se despede.

Que possamos dormir sonos bons e que sonhemos com cirandas de gente.

A arte pode ser uma boa companheira para resgatarmos a sensibilidade perdida. Para que encontremos prazer no ver, no sentir, no experimentar.

É mais um ano e isso importa muito.

Estamos aqui.

Permanecemos.

Permaneçamos com as boas aprendizagens e reinventemos o que for necessário para prosseguir.

Feliz 2016.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/01/2016