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Bibi Ferreira, a dama do encantamento

No último domingo, fui ao Teatro Frei Caneca assistir ao espetáculo em que Bibi revive uma das mais extraordinárias cantoras de todos os tempos, Edith Piaf. Bibi faz Piaf há 30 anos. Já vi o mesmo espetáculo dezenas de vezes. E confesso: quero ver outras mais.

Ela entra em cena e é aplaudida de pé. E começa a cantar. E canta puxando para si a atenção total da plateia, que lota o teatro. Ela conta uma ou outra passagem da vida de Piaf. E o faz com um gracejo especial. É aplaudida de pé mais duas vezes durante a peça. Fato raríssimo na história do teatro.

Ao final, é ovacionada por uma plateia que, de pé, grita e aplaude. 

Bibi é a dama do encantamento. Em sua trajetória, deu vida a muitas personagens. Começou cedo. Foi conquistando seu lugar no palco e na história. Emociona sabendo controlar as próprias emoções. Tem medo de avião e de dentista, conta sem cerimônia, quase dramatizando. Em compensação, de gente, não tem medo nenhum. Ao contrário. Entrega-se no palco. Com a voz, com os gestos, com a interpretação perfeita de uma mulher que, aos 91 anos de idade, mostra-se jovem, vigorosa, porque ama a vida e ama o ofício de fazer da arte sua razão de viver.

Ao final, Bibi presenteia o público cantando algumas músicas do próximo espetáculo, em que viverá Frank Sinatra.

Na saída do teatro, conversei com um casal. A mulher me confidenciou, ao lado do marido, que a primeira vez que ele disse “Eu te amo” foi há 20 anos, durante a interpretação de La Vie en Rose.  Depois disso, casaram-se e tiveram três filhos. “Tudo por causa da Bibi”, completou o marido, sorrindo.

A arte tem esse poder, o poder de despertar sensibilidade e de gerar vida. Para quem ainda não viu e mesmo para quem já viu o espetáculo, Bibi fica em cartaz, no Teatro Frei Caneca, até 1º de setembro. Imperdível.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)  | Data: 2/8/2013

A janela pela qual o futuro entra no mundo

Jovens de todo o mundo circulam pelo Rio de Janeiro. Trazem na bagagem sonhos e angústias. Falam línguas distintas. Pertencem a grupos diversos. São motivados por diferentes formações e informações. E representam um pouco do muito que o Papa Francisco tem proclamado ao povo, por todo canto: “A juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo”.

Essa frase, dita no primeiro pronunciamento de Francisco em solo brasileiro, reflete sua certeza de que a Igreja pode ser um importante canal para a união das forças vivas dos governos e da sociedade em prol do jovem. Do jovem que precisa de formação, de emprego, de chances para que seja protagonista de sua história. Do jovem que precisa de um tema para viver, lembrando o príncipe dos poetas, Paulo Bomfim.

Ainda no avião, o Papa falou de sua preocupação com uma geração de jovens desempregados que têm os talentos desperdiçados por falta de oportunidades para manifestá-los.

Andar nestes dias da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), pelas ruas do Rio de Janeiro, é sentir a beleza e o entusiasmo vivo desses jovens. Há, por todo canto, rodas de moças e moços cantando, rezando, sorrindo, namorando. Uma juventude que tem a consciência de que a violência, as drogas, os exageros acabam por fechar essa janela de futuro a que são vocacionados. Quantas vidas desperdiçadas em acidentes que interrompem o caminho! Uma arma de fogo, um racha, um acidente provocado por embriaguez, uma seringa com substâncias tóxicas. Tudo que vai contra a vida e contra a liberdade é rechaçado por essa geração que “bota fé” no futuro.

Que a JMJ persista, despertando responsabilidade para que cuidemos da janela de garantia do futuro. E para que cuidemos desses jovens plenos de possibilidades, mas carentes de formação.

É a atualidade do que escreveu São Paulo a Timóteo, jovem cheio de coragem que anunciava o amor de Deus: “Ninguém te despreze por seres jovem. Ao contrário, torna-te modelo para os fiéis”. Esse é o sonho do Papa. É o nosso sonho.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)  | Data: 26/7/2013

O difícil encontro do meio-termo

A educação começa em casa. Esse conceito está pacificado. Os pais são os educadores por excelência. São as primeiras referências na vida de uma criança. Depois, vem a escola. E a vida em sociedade. É essa a definição clássica. Só que, agora, há outro grupo de influência poderoso: a sociedade virtual.

Dia desses, uma mãe me perguntou o que fazer com o filho, que perde boa parte do tempo diante do computador: “Ele não conversa, não gosta de almoçar comigo, não sai de casa. Quando eu cobro, ele diz: ‘Enquanto as mães ficam preocupadas com os filhos porque não voltam para casa, você briga comigo porque não saio de casa’”.

O que fazer para chegar ao meio-termo, conceito filosófico defendido por Aristóteles, que, dentre outras razões, dizia ser esse o caminho para a felicidade? Nada de exageros, afirmaria o filósofo. Nem a falta. Nem o excesso.

Proibir os filhos de usarem o computador não é o caminho do meio-termo. Deixá-los o dia todo diante dele também não. Há um fator que precisa ser resgatado: o diálogo. Os pais conversam pouco com os filhos. A razão pode ser a falta de tempo ou, pior, de assunto. Os mundos são diferentes e, como não há muita disposição para compreender o desconhecido, a prosa fica empobrecida: “Tudo bem, filho?”, “Tudo”; “Tudo bem na escola?”, “Tudo”;  “Almoçou?”, “Já”.

O diálogo começa na infância, quando os pais contam histórias para os filhos, quando brincam com eles. É desde cedo que se educa para o “sim” e para o “não”. É desde cedo que os limites são recebidos. Mesmo contrariada, a criança vai aprendendo. E a presença dos pais é fundamental. Muitas vezes, a família acha que é a escola que tem a obrigação de ensinar os valores essenciais para a criança. Por melhor que seja uma escola, ela nunca preencherá a lacuna de uma família ausente.

Em tempos de tecnologia, vale lembrar a boa imagem de quando a criança dormia no colo do pai ou da mãe ouvindo histórias. Isso faz bem para os afetos e para a inteligência. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Globalização da indiferença

O papa Francisco vem surpreendendo desde o início de seu pontificado. Sua simplicidade e seu sorriso – expressão de bondade – têm conquistado católicos e não católicos do mundo todo. Seu discurso e suas ações transbordam ternura, acolhimento, amor.

Nesta semana, o papa esteve na ilha de Lampedusa, na Itália, uma porta de entrada para imigrantes ilegais na Europa. Na arriscada travessia pelo mar, em frágeis embarcações, muitos morrem em busca do sonho de viver numa pátria por eles considerada melhor. Quantas tristes histórias de imigração clandestina são conhecidas de todos – muitas delas, convertidas na desumana escravização da pobreza.

O papa lamentou essas mortes, de vida ou de liberdade. E lamentou, também, a falta de responsabilidade, de fraternidade, pela desgraça de um irmão, a ausência do choro pela dor alheia. Lamentou, enfim, a indiferença humana: “Caímos na globalização da indiferença. Nós nos habituamos ao sofrimento do outro. ‘Não nos diz respeito, não nos interessa, não é tarefa nossa!’”.

Francisco está certo! Este é um dos mais graves problemas contemporâneos: a indiferença. Somos “seres de convivência” e, portanto, a indiferença é a negação da nossa essência. Nós, seres humanos, precisamos uns dos outros. É na solidariedade, na fraternidade, que nos realizamos.

“A globalização da indiferença nos torna anônimos, responsáveis sem nome e sem face.” Quem só se interessa por si mesmo desperdiça a felicidade que vem do servir. Outro Francisco, o santo de Assis, ensinou que o servir traz mais felicidade do que o ser servido. Basta experimentar. Há muitas mulheres e muitos homens que realizam trabalhos voluntários e tentam melhorar o mundo. Há profissionais que fazem de seu ofício uma construção de pontes, para que, na engenharia da vida, ninguém seja deixado para trás. Toda vez que enxergamos o outro, diminuímos a indiferença e ajudamos a globalizar o respeito e a fraternidade.

Seja bem-vindo ao Brasil, papa Francisco.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Choro, dor e adeus

Há seis meses, os Capchas, imigrantes bolivianos, chegaram ao Brasil para iniciar uma nova vida. Essa pequena família deslocou-se de sua terra natal à procura de oportunidade, de um futuro pleno – pessoas simples, humildes e esperançosas.

No entanto, a esperança foi interrompida por uma tragédia, no dia 28/6, na casa onde moravam, na periferia de São Paulo. Homens armados renderam a família, para levar alguns de seus poucos bens. Como se isso não bastasse, cometeram uma crueldade ainda maior. Um dos criminosos, irritado em razão do choro do pequeno Brayan, filho de 5 anos do casal, assassinou-o com um tiro, calando-lhe o choro e a vida. Em sua inocência, o menino, assustado, havia suplicado pela vida, oferecendo aos malfeitores algumas moedas, para que poupassem sua família de mais sofrimento. Soube-se depois que as moedas estavam sendo guardadas, por Brayan, para comprar um refrigerante, que seria dividido entre os amiguinhos no dia de seu aniversário.

A esperança da chegada perdeu-se. Foi substituída pela dor na partida. Partiram para enterrar o filho morto em sua aldeia. Olhos baixos, mudos, tristes, quase sem vida. Vida resiliente.

O assassinato de Brayan provocou reações por toda parte. Da comunidade boliviana, da polícia e, inclusive, de bandidos – que juraram o criminoso de morte. As pessoas, sensibilizadas, ofereceram ajuda e doaram-se da forma que puderam, tentando aliviar o calvário dos pais. Uns, com dinheiro; outros, com orações ou mensagens de solidariedade. Amor ágape.

Sentimos, juntos, a dor da barbárie contra essa criança. Uma história que nos fere só de ser ouvida. Somos humanos, amamos nossos próximos e imaginamo-nos vítimas também. É o amor ágape que nos move rumo ao acolhimento doído e indignado. A tragédia é inominável. O olhar assustado da mãe iluminou-se, por segundos, quando lhe perguntaram se teria outro filho. Num sorriso de tristeza, ela disse que sim, embora a dor perdure com a tristeza da ausência. E, assim, deixou o Brasil. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Aplausos para o cinema nacional

Ao longo de sua história, o cinema brasileiro experimentou períodos de glória e declínio. Cenário de interessantes produções – como do belo Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, ou do pungente Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha –, ele foi, por algum tempo, solenemente desprezado pelo grande público. O problema nunca se referiu à falta de capacidade de roteiristas, diretores, atores e todos os outros profissionais envolvidos na produção dos filmes. A questão era outra: a insuficiência de recursos.

Felizmente, no entanto, a gradual elevação dos investimentos no setor rompeu esse difícil ciclo, fazendo com que as produções crescessem em número e em qualidade. Profissionais como Guel Arraes, Walter Salles e Fernando Meirelles contribuíram para o renascimento do cinema nacional, coroado aqui e no exterior. As listas dos filmes mais vistos no País, antes dominadas pelas superproduções estrangeiras, passaram a trazer, lado a lado, títulos brasileiros.

No último fim de semana, pude comprovar esse fato ao assistir ao filme Minha Mãe É uma Peça. A comédia de Paulo Gustavo, baseada em um monólogo que ele mesmo levara ao teatro, é sensacional. A aceitação do público foi tamanha que, numa cena pouco comum, os espectadores aplaudiram a produção de pé.

O filme conta a história de uma típica família brasileira. Dona Hermínia, interpretada pelo próprio diretor, resolve sair de casa após o divórcio e uma vida de devoção aos filhos. Está criada a confusão. 

Com obras de forte caráter experimental, ou engajadas em questões sociais, ou despretensiosas e divertidas, o cinema brasileiro vive uma fase de ouro – gerando cultura, empregos e desenvolvimento para o País. Minha Mãe É uma Peça comprova essa rica diversidade de temas e estilos, capazes de agradar às mais diversas plateias. Que o cinema nacional tenha vida longa e próspera. Nós, espectadores, agradecemos.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

A importância da democracia participativa

Rui Barbosa, um dos grandes brasileiros, afirmou certa vez: “O Brasil (…) é o povo, em um desses movimentos seus, em que se descobre toda a sua majestade”. Defensor incansável da democracia, sempre lutou por um país justo e humano. Assim, foi também um entusiasta da prática efetiva da cidadania – direito que, irrevogável, contribui imensamente para a construção de uma realidade em que a população tenha, de fato, voz e vez.

Despertar para a importância da participação popular, em diferentes situações, é fundamental. O poder público, quando ciente disso, trabalha mais e melhor; a sociedade, por sua vez, torna-se mais forte e crítica, o que leva esperança a mulheres, a homens e a crianças de todas as biografias sociais.

A indignação é o primeiro passo para a busca de soluções referentes aos problemas de uma comunidade, de uma cidade, de um país. Juntos, os cidadãos favorecem o bem comum e contribuem para o seu próprio amadurecimento, político, social, cultural. E essa verdade, além de atingir resultados imediatos, pode levar a conquistas de médio e de longo prazos. A conscientização coletiva e o acompanhamento popular das medidas dos gestores públicos são essenciais.

No entanto, é indiscutível que liberdade pressupõe responsabilidade. Cumprir nossos deveres é tão importante quanto exigir nossos direitos. No dia a dia, pequenas atitudes promovem grandes mudanças. Respeitar os idosos (e todos os benefícios que lhes são garantidos), não furar fila, contribuir para a limpeza e para a conservação do patrimônio público, devolver o troco que veio a mais e cumprir as leis de trânsito, entre tantos outros fatores, também faz parte da atuação democrática.

Há um sentimento crescente de que o país pode mais, e não devemos nunca duvidar disso. Que a indignação, a visão crítica e o espírito participativo permaneçam constantemente vivos entre os brasileiros.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Democracia e responsabilidade

Quem acompanha a história política de nosso país sabe quanto esforço foi feito para que pudéssemos respirar os ares da liberdade. Mulheres e homens foram cruelmente torturados e mortos na ditadura. Pensar contra o regime era um perigo. Agir, então, pior ainda. Época de silêncios inquietos. Vozes sufocadas. Ideias contidas. Vidas interrompidas. “Pai, afasta de mim esse cálice (…)/Quero lançar um grito desumano/Que é uma maneira de ser escutado”; “Que sonha com a volta/Do irmão do Henfil/Com tanta gente que partiu/Num rabo de foguete” – arriscavam artistas, poetas, cidadãos, na ânsia do protestar.

O Brasil vive hoje a mais plena democracia. Cada cidadão tem direito à livre expressão. Partidos políticos, entidades religiosas, grupos organizados da sociedade civil proclamam seus valores e têm a liberdade de criticar os governantes. Isso é bom. É o resultado de uma sociedade que acredita no pluralismo e na participação responsável. E é este o ponto: “participação responsável”.

As cidades vêm assistindo, atônitas, a grupos desorganizados que querem manifestar sua contrariedade com relação a alguns atos de governos. Um exemplo recente é o aumento de passagens do transporte público.

O direito de manifestar é sagrado. A destruição e a violência são lamentáveis. Há aqueles que estão sempre à espreita para ver a manifestação do dia e causar desordem. Isso não é democracia. O governo precisa respeitar o povo. E o povo também tem de respeitar o povo. As cenas das crianças amedrontadas, do policial temendo ser linchado, dos trabalhadores receosos de voltar para casa – nada disso combina com os apaixonados brasileiros que, um dia, sacrificaram-se para que pudéssemos ir e vir, livremente. 

Do exílio ditador, compositores e poetas narravam nossa saga, artistas sonhavam com outros tempos. Das ruas de hoje, mulheres e homens gozam a liberdade de fazer ouvir suas vozes, de participar com responsabilidade. É essa valentia atemporal que nos engrandece. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Pela liberdade

“A liberdade (…) é um dos mais preciosos dons que aos homens deram os céus. (…) Pela liberdade, assim como pela honra, pode-se e deve-se aventurar a vida (…).” Esse pensamento, extraído de Dom Quixote – aclamada obra de Miguel de Cervantes –, é de uma força extraordinária. O direito à vida e à liberdade constitui-se em um dos mais importantes pilares da ética e da democracia. No entanto, infelizmente, em plena era da informação, a violação desse direito é latente.

Nesta semana, realizamos, na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, uma audiência pública a respeito da gravíssima questão do tráfico humano. Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, mais de 2 milhões de pessoas são aliciadas em todo o mundo anualmente; um mercado criminoso que movimenta cerca de 32 bilhões de dólares, o equivalente a mais de 65 bilhões de reais. 

O Brasil ocupa a sexta posição em número de casos, segundo levantamento da ONU realizado em 181 países. Entre 2005 e 2011, mais de 2 mil vítimas foram identificadas, em 514 inquéritos conduzidos pela Polícia Federal. Desses, 344 são relativos ao trabalho escravo, e 13, ao tráfico interno de pessoas. No mesmo período, realizaram-se 381 indiciamentos, com 158 prisões. A maioria das vítimas foi encontrada no Suriname, na Suíça, na Espanha e na Holanda.

É vergonhoso e bárbaro que a maldade de alguns subjugue o sonho de tantos. Aproveitam-se da inocência, da esperança, da busca por uma vida mais feliz, para coagir, raptar, enganar. Um abuso inadmissível. Uma situação que precisa ser enfrentada com afinco. Quanta falta de humanidade!

Abordado, recentemente, em uma novela de grande audiência, o assunto ganhou a atenção do País. Porém, esse tipo de crime ainda é classificado como invisível ou subterrâneo, pois, muitas vezes, acaba sendo mascarado. Cabe a todos nós continuar o debate, a fim de combatermos esse mal.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Civilidade

O padrão básico da vida em sociedade é uma trama com múltiplos laços de relacionamento. Nutrir uma sociedade é cuidar das relações. E o alicerce dessa trama, chamada convivência, é o respeito. O respeito é um valor essencial para harmonizar as relações, e a violação desse princípio enfraquece o convívio humano.

Cada vez mais comuns, casos como a tragédia ocorrida entre vizinhos num condomínio em Santana do Parnaíba devem não só ser lamentados, mas, principalmente, servir como alerta. Uma briga de condomínio, uma discussão no trânsito, uma desavença em casa, entre outras situações, não podem desencadear atitudes violentas. O grupo social se enfraquece quando um membro decide resolver (ou interromper) a própria vida desconsiderando a vida das outras pessoas. Não há culpados, não há julgamentos exatos, não há argumentos absolutos. Há violência. Há vítimas. Há tristeza. 

Como dizia Mahatma Gandhi, “a lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos”. Isto é, conflitos angustiam a alma humana, desde sempre. Impedir que eles sejam resolvidos com o emprego da violência é a chave. 

Esses acontecimentos vêm, não raro, acompanhados de justificativas: falta de tempo, cansaço, estresse. O grande risco é que a incivilidade vire um hábito, e maus hábitos violam os direitos dos outros.

Conviver bem se aprende com a educação. Na família. Na escola. Nos diversos espaços sociais. Há muitas receitas para o convívio humano, mas a educação é a ponte. A educação conduz a comportamentos mais amistosos, pois fortalece o respeito à liberdade alheia. 

A educação tem a magia de engendrar pessoas e processos para encontros. Cada encontro é, em semente, uma nova amizade. Em um mundo onde a violência salta aos olhos, contamina as relações e deteriora os sentidos, a amizade é um bem a ser preservado. E o respeito mútuo, uma regra sem exceção.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)