Quem acompanha a história política de nosso país sabe quanto esforço foi feito para que pudéssemos respirar os ares da liberdade. Mulheres e homens foram cruelmente torturados e mortos na ditadura. Pensar contra o regime era um perigo. Agir, então, pior ainda. Época de silêncios inquietos. Vozes sufocadas. Ideias contidas. Vidas interrompidas. “Pai, afasta de mim esse cálice (…)/Quero lançar um grito desumano/Que é uma maneira de ser escutado”; “Que sonha com a volta/Do irmão do Henfil/Com tanta gente que partiu/Num rabo de foguete” – arriscavam artistas, poetas, cidadãos, na ânsia do protestar.
O Brasil vive hoje a mais plena democracia. Cada cidadão tem direito à livre expressão. Partidos políticos, entidades religiosas, grupos organizados da sociedade civil proclamam seus valores e têm a liberdade de criticar os governantes. Isso é bom. É o resultado de uma sociedade que acredita no pluralismo e na participação responsável. E é este o ponto: “participação responsável”.
As cidades vêm assistindo, atônitas, a grupos desorganizados que querem manifestar sua contrariedade com relação a alguns atos de governos. Um exemplo recente é o aumento de passagens do transporte público.
O direito de manifestar é sagrado. A destruição e a violência são lamentáveis. Há aqueles que estão sempre à espreita para ver a manifestação do dia e causar desordem. Isso não é democracia. O governo precisa respeitar o povo. E o povo também tem de respeitar o povo. As cenas das crianças amedrontadas, do policial temendo ser linchado, dos trabalhadores receosos de voltar para casa – nada disso combina com os apaixonados brasileiros que, um dia, sacrificaram-se para que pudéssemos ir e vir, livremente.
Do exílio ditador, compositores e poetas narravam nossa saga, artistas sonhavam com outros tempos. Das ruas de hoje, mulheres e homens gozam a liberdade de fazer ouvir suas vozes, de participar com responsabilidade. É essa valentia atemporal que nos engrandece.
Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)
