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Ele disse bom-dia

Frequento, há algum tempo, uma academia de ginástica  do meu bairro. As pessoas que lá trabalham são extremamente competentes e simpáticas. Nesta semana, quando cheguei, bem cedo, os funcionários da portaria diziam: “Ele disse bom-dia”. E repetiam quase que atônitos: “Ele disse bom-dia”. Entrei na sala de musculação, e os comentários de alguns professores iam na mesma direção: “Que estranho. Ele disse bom-dia”. Gosto da prosa, mas não dedico muito tempo a investigar vidas alheias; entretanto, curioso, quis saber. Contaram-me que um homem, que nunca cumprimentava ninguém, entrou na academia dizendo bom-dia. Apenas uma vez. Mas pegou todos de surpresa. Uma funcionária havia dito que, no início, todos diziam bom-dia a ele. Depois, acharam deselegante incomodá-lo, já que ele não respondia. E, naquele dia, ele, enfim, dissera bom-dia.

Parece estranho um simples dizer causar tanto movimento nos movimentos cotidianos. A ausência de polidez é um desperdício na arte do convívio. As pessoas não fazem parte da paisagem. Elas existem. Gostam de ser acolhidas. O que leva alguém a não retribuir um simples “bom-dia”? Superioridade? Timidez? Contenção de sentimentos?

Ao sair da academia, parei para conversar com os atendentes. Todos muito simpáticos, como já disse. Foi justamente quando o homem estava indo embora. Um atendente lhe disse, “Tenha um bom-dia”. Ele não respondeu. Não olhou para trás. E saiu decidido a viver sem essas interferências desnecessárias. Um olhou para o outro e tentaram entender o que acontecera. “Será que ele não disse e nós pensamos ouvir? Será que ele ganhou na Mega-Sena e resolveu, então, dar bom-dia? Mas foi apenas um! Não, o ganhador da Mega- Sena desta semana é de Sorocaba. Certamente, essa não foi a razão”. Estranhos comportamentos de quem convive com pessoas. Gestos de gentileza, mesmos os mais singelos, têm muito poder. O poder de nos sabermos frutos da mesma espécie. Da que precisa de afeto.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/01/2015

 

 

Ignácio de Loyola Brandão – o interior e seu menino

José Maria Ferreira Brandão foi marceneiro, seleiro, barbeiro e delegado de polícia. Foi, também, avô de um dos maiores nomes da literatura contemporânea, Ignácio de Loyola Brandão. 

Com mais de 40 livros publicados em diversas línguas, Ignácio, saído de sua querida Araraquara, ganhou o mundo. Morou fora do Brasil. E viaja muito. Vive de cidade em cidade cumprindo sua agenda com a palavra. Onde quer que esteja, leva consigo sua história. E ela começa em um lugar de onde ele nunca saiu. De um lugar que vive no tempo. Nas rodas de cadeira e de conversa que se espalhavam pelas calçadas. No cheiro do café e do bolo que se misturava às aventuras da infância na sua terra natal. Época em que via caminhão, casas e chafariz nos pedaços de madeira do barracão do avô, o José de tantos talentos. Pai de seu pai. 

Nesse “lugar mágico que cheirava a madeira”, havia de tudo. Lixas, porcas, lápis quadrado vermelho de marceneiro, alicates, limas, verniz. E lá no fundo, uma caixa vermelha. Vermelha, empoeirada. Coberta pela fuligem e repleta de memórias. Tantas e tão importantes que ninguém podia chegar perto. E isso era o bastante para despertar a curiosidade das crianças. Principalmente a do menino Ignácio, o preferido de seu avô. Em uma manhã, o velho José entrou na oficina, pegou a chave, abriu a caixa vermelha e gritou. A caixa estava vazia. Alguém a abrira e retirara de dentro “os olhos cegos dos cavalos loucos”, os olhos de vidro dos cavalos do carrossel. Um carrossel de madeira que girava pelas cidades e que trouxera alegria à vida de seu José. Das lembranças dos melhores anos vividos pelo avô, sobrara o que estava naquela caixa. Agora, só memórias. Agora, as majestosas memórias. E a vida toda para recordá-las. Memórias registradas nas histórias que Ignácio de Loyola Brandão, o menino e o escritor, compartilha conosco em seu novo livro “Os olhos cegos dos cavalos loucos” (Moderna, 2014) e em tantos outros. 

O menino e seu interior

A infância é um terreno sempre fértil. Vive para sempre em nossa maneira de ver o mundo.  Em nosso olhar curioso de criança que quer sempre mais do mundo e dos homens. Passa o tempo, mas não se perde o que passou. São as memórias que nos mantêm vivas as sensações, as emoções e aqueles que se vão, sem nunca nos deixar. 

O menino Ignácio perdeu, em um jogo com os amigos, as bolinhas brancas, os olhos dos cavalos do carrossel. Entristeceu seu avô. Mas Ignácio, o escritor, publicou, neste livro, seu pedido de desculpas ao velho José. Mostrou o seu menino. A sua infância. O seu interior. Mundo de menino vivido e revivido pelo homem Ignácio, menino que nasceu com nome de santo.  Santificou e santifica a sua vida rendendo homenagens à sua excelência, como gostava de dizer Tatiana Belinky, a palavra. Sua prosa encanta crianças e adultos. Seu humor tributa a vida. E tudo nasceu no interior. No circo, na cerca, na roda de conversa.  “Do circo de cavalinhos de pau sobraram os olhos. E agora os olhos se foram. Se foram como todos nós vamos.” As memórias ficam. Do avô. De Ignácio. De todos nós.

 

Principais obras de Ignácio de Loyola Brandão

Bebel que a cidade comeu 

Zero 

Dentes ao sol 

Não verás país nenhum 

O verde violentou o muro

O beijo não vem pela boca 

O homem que odiava a segunda-feira

O anônimo célebre 

Veia bailarina

O menino que vendia palavras

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/01/2015 | Foto: André Brandão (divulgação)

 

Respeite minha memória

Em um restaurante, uma filha mostrava impaciência com a mãe que repetia as histórias. A filha a interrompia, grosseiramente, dizendo: “Mãe, você já contou isso, você está muito esquecida, você não está bem. Que pena, mas você não está bem!”. 

A mãe, olhar ao longe, ficava em silêncio, parecia triste, mas voltava ao assunto. A filha a interrompia, começava uma história, falava do marido, falava mal do marido. A mãe tentava ajudar, dizendo que tivesse paciência, pois as pessoas eram diferentes. Falava vagarosamente. E a filha a interrompia, mais uma vez, dizendo: “Mãe, você está muito lenta, está sem cabeça, você não é mais a mesma. Que pena, mas você não está bem!” A mãe não retrucava. Calava-se, obediente. Voltava ao seu silêncio, como se buscasse, dentro de si, o conforto da própria companhia.

Como aquela conversa me incomodou! Quantas vezes a filha disse para a mãe que ela estava sem cabeça, que não estava bem! Repetir histórias, todos nós fazemos, independentemente, da idade. Quando percebemos que o outro está esquecido, que o tempo trouxe alguma dificuldade à memória, é preciso respeitar. 

Tratar os pais com respeito. Compreender as limitações que todos nós temos em qualquer idade. Não expor as ausências, não ridicularizar, não diminuir quem nos alimentou de vida nos mais fortes anos de suas vidas e que, agora no entardecer, já não têm o mesmo vigor são formas de fortalecer os laços de família, de amor, de acolhimento. Laços que lhes parecem tão fragilizados nessa etapa da vida. 

Ao final, a filha, impaciente, não esperou a mãe terminar de comer. “Vamos, tenho que ir embora, você está comendo muito devagar. Também, você não faz nada. Vamos, eu cuido de você”. Cuidar não é isso. Nas palavras, estão instrumentos poderosos de diminuir ou elevar as pessoas. Há gestos que fazemos sem refletir. Tempos que perdemos por não compreender. Pessoas que machucamos por não respeitar. Que pena. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/01/2015

 

A idade de aprender

Encontrei, no final do ano, uma senhora sorridente em uma das calçadas de São Paulo. Apresentou-se, desejou-me boas festas e falou de seu orgulho de ser recém-formada. Julia, é esse o seu nome, formou-se aos 72 anos de idade. É, agora, nutricionista. Falou-me de alimentação, de cuidados que precisamos ter para que as crianças adquiram bons hábitos, do comer apressado, da falta de tempo para prestar atenção às coisas e às pessoas. Disse-me que quer muito escrever um livro. Um livro simples sobre o que aprendera. Foi além, afirmando ser o escritor um generoso em essência. Porque partilha o que sabe. Porque permite que outras pessoas participem de suas ideias e de seus conceitos.

Eu a incentivei. E quis saber o que a levara a cursar a faculdade. Ela falou-me de um programa de rádio em que uma senhora que havia se formado aos 90 anos estava dando uma entrevista, contando da sua emoção e dizendo que a idade de aprender, para ela, era qualquer idade. Julia, na época com sessenta e poucos anos, sentiu-se uma menina e decidiu concluir o ensino médio e cursar a faculdade. “Gostaria de um dia encontrar essa senhora para lhe agradecer. Ela mudou minha vida com seu depoimento”. Conversamos mais um pouco. Ela falou, novamente, sobre o primeiro livro que não quer demorar a escrever e a lançar. Porque quer publicar outros. Tem muitos planos. Muita vontade de viver. Falou-me do marido que morreu cedo. Da ausência de filhos, mas da presença de tantos amigos que ela fizera na faculdade, que ela faz na vida. Conversamos mais um pouco, caminhando. Fui bebendo de sua alegria e ouvindo seus tantos projetos que faziam seus olhos de menina, de menina de 72 anos, brilhar.

Convidou-me para uma festa naquela noite. Agradeci. “Festa”, repetiu ela, pronunciando sorridente e com vagar essa palavra cheia de significados. E concluiu: “A vida é uma festa”. Concordei. Depende da nossa disposição. E, para isso, não há idade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/01/2015

Compaixão e generosidade, da literatura para a vida

Compaixão é ter a capacidade de se colocar no lugar do outro e de sentir a sua paixão, a sua dor. É compreender o estado emocional daquele que padece e, em outras palavras, enxergá-lo.

A generosidade é a virtude de acrescentar algo ao outro, de partilhar, de deixar um pouco de si para preencher o que falta na outra pessoa. São complementares. Filhas do amor. Irmãs da bondade. A literatura é rica em personagens que nos desconcertam pelo onírico concerto de afinar o mundo.

Um dos meus livros preferidos da literatura universal é “Os miseráveis”, de Victor Hugo. Uma obra recheada do melhor fermento de sonhos e canções de vida em um mundo destroçado por guerras, autoritarismos e violência.

A obra, composta de cinco volumes, foi publicada quando Victor Hugo tinha 60 anos, mas o fio da narrativa começa a germinar quando, aos 22 anos, o jovem escritor se incomoda com a situação dos prisioneiros da colônia penal de Toulon, de onde saíam os remadores para os trabalhos forçados nas galés, onde remavam com os pés atados em correntes. Tristes cenas. Restos humanos lambuzados de humilhações e dor.  

O tema social, a miséria dos excluídos, marcou a trajetória política e literária de Victor Hugo. Charles Dickens já havia mostrado uma Inglaterra diferente das cortes. Sua denúncia chegava aos que viviam invisivelmente nos submundos de Londres. 

Victor Hugo faz o mesmo em “Os miseráveis”. Dramas chocantes de mulheres e homens alijados de bens materiais e de amparos humanos.

A personagem central é Jean Valjean, órfão de pai e de mãe, que foi criado por uma irmã mais velha que tinha sete filhos. Quando ela enviuvou, o menino Jean passa a ser o homem da casa. Em um dia, desesperado, sem ter dinheiro para comprar pão para a irmã e para os seus filhos, Jean furta um pão, o que lhe rende dezenove anos de prisão (cinco pelo pão e quatorze por tentar fugir). Jean passa sua juventude na prisão.

Quando, enfim, deixa o cárcere, perambula por vilarejos em busca de trabalho. É humilhado e temido por ser considerado um bandido perigoso. As portas se fecham na frieza de uma sociedade que não tolera erros alheios, embora seja farta de erros próprios, escondidos. Na sarjeta do abandono, um homem o acolhe, o Monsenhor Bienvenu (que significa bem-vindo). Ele o retira das ruas e o traz para casa para que tenha uma refeição decente e uma cama limpa para dormir. Jean come como um bicho esfomeado e fica arredio. Não acredita que alguém pudesse ser, com ele, generoso. Compaixão, ele certamente só conhecera nos idos da infância quando a irmã o acolhera.

Durante a noite, resolve furtar o Monsenhor. Recolhe o que estava à vista e sai pelas ruas frias de uma noite angustiante. É preso e os soldados o trazem para a casa do Monsenhor para que devolva o que ele furtou. Jean sabia que ficaria o resto da sua vida na prisão. Seria agora um reincidente. Se já era considerado um homem perigoso por ter furtado um pão para alimentar os sobrinhos, imagine agora que teve a ousadia de furtar um homem que lhe dera abrigo, que lhe dera alimento e conforto. Um homem importante. 

Jean está apavorado, amarrado, humilhado pelos guardas quando chega a casa do Monsenhor. Percebendo a situação, o Monsenhor agradece o trabalho dos guardas, mas diz que a prataria que o homem carregava não fora objeto de furto, mas de um presente que ele havia lhe dado. Jean arregala os olhos, desconcertado com a bondade do Monsenhor que pega mais algumas peças que, supostamente, Jean havia “esquecido”. “Use a prata para se tornar um homem honesto”, foi o que Jean Valjean ouviu daquele homem e o que remoeu para sempre em sua consciência.

Aqui, nesse ato de compaixão, dá-se a transformação de muitas vidas. A de Jean Valjan e a de todos os que, posteriormente, foram abraçados por sua generosidade. 

 

Da compaixão, nasce uma nova história

 

A compaixão é um sentimento essencial da convivência. Olhos de ver. Paciência. Tempo de silêncio para que a voz do outro tenha alguém onde depositar sua necessidade. Tempo de fala para que o silêncio do outro não se transforme em solidão. Presença que ameniza ausências. É como estar no deserto da dor e ver surgir o cortejo da esperança.  

Foi assim que floresceu um novo homem. Quem é Jean Valjan? Depois de conhecer o Monsenhor, é um homem sempre pronto para revelar a nobreza dos sentimentos.

Há muitas outras personagens e tramas nesse enredo fantástico de Victor Hugo. E a generosidade de Jean permeia todos os núcleos dessa narrativa. Há uma mãe solteira, Fantine, que fora abandonada pelo homem que tanto amou e que confia a criação de sua filha a um casal que, aparentemente, proporcionaria mais conforto em sua criação. Ela trabalha para pagar esse casal. Para que cuidem bem de sua filha. Somente para isso. Imaginem o que era ser mãe solteira naquela época. A filha, Cosette, na verdade, vive frágil e assustada, porque é maltratada.  Mesmo assim, canta ela a canção da esperança. Quando Fantine morre, Cosette é criada por Jean Valjan até se casar com o idealista Marius Pontmercy, um jovem que sobrevive ao sonho e à utopia de destronar o rei. Aliás, a narrativa de “Os miseráveis” ocorre entre dois episódios históricos: a batalha de Waterloo e os motins de junho de 1832, em que jovens morreram sonhando com um mundo sem privilégios nem preconceitos.

A obra é extensa, mas há um filme recente, de 2012, dirigido por Tom Hooper, que é fiel a essa linda história. Um elenco de peso com atuação irretocável: Hugh Jackman, Russell Crowe, Amanda Seyfried, Samantha Barks, Anne Hathaway, Eddie Redmayne, entre outros. 

Outros filmes e peças de teatro no mundo inteiro mostraram a ousadia de Victor Hugo em revelar a miséria humana, o abandono, a saga dos invisíveis e, mesmo assim, alimentar-nos de esperança. No final, a canção de uma vitória que não cabe nesse mundo. 

Jean Valjan aprende com o lindo gesto do Monsenhor e transforma sua vida em uma vida capaz de cuidar de outras vidas. Até mesmo diante de seu maior perseguidor, o inspetor Javert, consegue ser generoso, compreende as amarras que o impedem de entender o verdadeiro sentido da justiça. Javert se desconcerta frente ao olhar compassivo do homem que ele perseguiu a vida toda. “Ninguém pode ser tão bom quanto Jean Valjan”, rumina ele. Pode sim, especialmente se tiver em seu caminho um Monsenhor Bienvenu.

Bem-vindas a compaixão e a generosidade neste início de mais um ano. Incomodemo-nos com o aprendizado que a literatura nos proporciona. E que mais livros nos aqueçam e ampliem o nosso repertório e a nossa capacidade de contemplar e de transformar o mundo. Feliz 2015.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/01/2015

 

O dia da paz

Ontem, foi o dia da paz. 

Essa dada foi instituída, em 1968, pelo Papa Paulo VI. O Dia Mundial da Paz. Por que precisamos de um dia da paz? Porque ainda estamos longe de compreender o seu significado e de viver a sua plenitude. Paz não é ausência de guerras, apenas. Paz é presença de amor. É crença e ação.

O papa Francisco propôs, em mensagem especialmente escrita para essa data, uma reflexão sobre os conflitos, sobre a perversidade e sua superação: “já não escravos, mas irmãos”.  

Perversidade. O que fazer para aplacar essa fúria que permite que irmão destrua irmão?

Ainda há escravidão. Ainda há exploração de toda ordem. Ainda há violência, opressão. Ainda não aprendemos a conviver com as diferenças. E o que dizer da miséria em um mundo rico ou do abandono em meio a tanta fartura? E os “invisíveis” que parecem filhos de outra espécie, porque preferimos não os enxergar. Estão sujos de ausências, carentes de quem lhes estenda a mão para um novo caminhar.

A paz é atitude de boa vontade. É compreensão de que somos atores de um espetáculo, sem ensaios, que se encadeia dia a dia, podendo descortinar a tragédia ou a comédia. Depende de nós. A dor ou o riso. As mãos que agridem ou as que acolhem. Os pés que nos levam para longe ou os que servem para nos aproximar. 

Sem pretensões de mudar o mundo, mudemos o mundo em que vivemos, a nossa aldeia, como diria Pessoa. O rio de sua aldeia, os próximos da nossa aldeia. Pessoas que me veem e que eu deveria vê-las também. 

Paz é presença de amor. É crença e ação. Repito. Quando temos os valores corretos, é mais fácil agir corretamente. Basta não nos acomodarmos. Paz no nosso silêncio e paz no necessário ruído de nosso agir. Que o que vemos nos comova e que a comoção nos mova para cuidar. Do próximo. Esse é um bom começo para que o dia da paz não seja apenas o dia de ontem. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/01/2015

O primeiro amor

Há livros, à exaustão, que falam do primeiro amor e que nos enveredam pelos mais auspiciosos sentimentos do romantismo. Há canções de amor para todos os gostos. Canções que nos ajudam a atar os olhares e as promessas de amanhãs. Há canções e poemas de recomeços, desabafos exagerados de vida que segue sem as amarras de um amor que findou ou que nem chegou a existir. Embalava o amor em versos, Drummond, nosso poeta:

“Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer,

amar e malamar,

amar, desamar, amar?

sempre, e até de olhos vidrados, amar?”

(…)

“Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.”

O primeiro amor não se trata apenas de Eros, o deus brincalhão que nos fere com sua flecha e nos impede o raciocínio. Paixão que nos embriaga de necessidades, de reciprocidades, de dizeres que nos acalmem. O primeiro amor trata-se, também, de primeiro desejo ou mais profundamente de primeira aspiração.

Imagine um cantor que foi trocando os chuveiros pelos palcos. Mesmo os modestos. E que, a cada show, se lembrava da impressão primeira de subir em um palco e cantar. Ou o artista em sua estreia e nas tantas outras apresentações que se sucederam em sua carreira. Mas sempre com o sabor da primeira impressão, do primeiro amor ao palco.

Sou um artesão das letras e sou grato a todas as pessoas que me deram oportunidade de juntar palavras expressando os significados que brotam das minhas crenças. Crenças que aprendo com os meus irmãos de ofício, lendo os que se foram e os que ainda estão por aqui. Meu primeiro amor, meu primeiro livro, meu primeiro contato com alguns leitores que comentavam as personagens que eu criava e crio.

Sou grato a este jornal, O “Diário de São Paulo”, por permitir que, nestas linhas, eu me comunique com leitores que generosamente usam parte do seu tempo para ler os meus escritos. Honra minha. Responsabilidade também.

Neste espaço, durante este ano, falei algumas vezes sobre um homem que, com sua simplicidade e decisão, vem nos servindo de referencial. O Papa Francisco. E, nesta semana, ele falou em “primeiro amor” quando usou algumas incisivas reflexões para os seus irmãos no sacerdócio. Falou o papa em “Alzheimer espiritual” ou esquecimento do primeiro amor de um religioso com a história da sua entrega ao Senhor. Um sacerdote que se distancia do Senhor transforma suas atividades em atos mecânicos. Repete como uma máquina, sem refletir sobre o significado de suas orações. Foi mais a fundo o Santo Padre, falou dos que se sentem imortais ou insubstituíveis e os convidou a visitarem os cemitérios para se lembrarem de que “somos pó e ao pó voltaremos”. Falou em empedernimento ou perda da sensibilidade. “É perigoso perder a sensibilidade humana necessária que nos faz chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram! É a doença dos que perdem os ‘sentimentos de Jesus’ porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece e torna-se incapaz de amar incondicionalmente ao Pai e ao próximo”. Falou em esquizofrenia espiritual, em hipocrisia, em rivalidade e vanglória. Criticou a sisudez e elogiou o bom humor. Criticou as torpes palavras que servem para destruir o outro, a fofoca, o maldizer e abençoou os encontros generosos.

Há tanto de sabedoria nos dizeres desse homem que impressiona o mundo com sua capacidade de fazer pontes, de dialogar, de unir os homens nos mais elevados sentimentos de compaixão e amor.

O primeiro amor é combustível para que os vícios nos abandonem. Se o discurso do papa se dirigia aos membros da cúpula do Vaticano, é útil para qualquer cidadão que se esquece do primeiro amor e vive das migalhas que sobram dos ódios lançados contra o seu irmão. 

Quão nobre é o ofício do médico ou do enfermeiro que cuidam de vidas e quão tosca é sua atuação quando se transformam em burocratas de procedimentos e se esquecem das razões que os motivaram a dedicar a vida a amenizar a dor. 

O fim do ano é tempo de agradecimentos e de propósitos. Para agradecer, é preciso recordar. Lembrar o que se foi e que merece ser revisitado. Agradecer o que se conquistou e às pessoas que foram essenciais nessa conquista. Agradecer o que se perdeu porque talvez não coubesse junto com outras conquistas que vieram. Lembrar os inícios. Do primeiro amor que gerou uma família ou uma amizade ou uma profissão ou uma incursão por uma ação que mudou a vida de pessoas. E ter propósitos. Que o primeiro amor se converta em um eterno amor. “O amor é uma companhia. Já não sei andar só pelos caminhos”, poetizou Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Nos enlaces de Eros, a paixão vai se transformando em cumplicidade que desafia o tempo. Como é lindo ver um casal que se reinventa nos ditos românticos depois de 20, 30, 40 anos ou mais de relação. Como é bonito ver um juiz que, depois de 30 anos de carreira, ainda se lembra do primeiro amor em um primeiro julgamento em que foi capaz de fazer justiça. Ou de um construtor que nunca esquece a primeira edificação. 

Edifiquemos no próximo ano, junto ao altar das nossas capacidades, a nossa disposição de vencer as doenças da alma que nos afastam do outro e de nós mesmos. 

Ao primeiro amor, o brinde de ano novo! 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/12/2014

As crianças que não voltaram

Não conheço as crianças mortas em uma escola no Paquistão. Não sei sequer os seus nomes. Não conheço suas famílias, suas casas. Como não conheço os professores também mortos nesse horrendo atentado. Mas sei de algumas coisas. Vivemos em um mesmo mundo, em uma mesma época. O Sol que aquece esse lado é o mesmo que aquece o outro lado. A Lua que nos inspira a escrever, a namorar, certamente inspirou os seus pais, em algum momento, mas não inspirará essas crianças que, em um dia comum, saíram de casa para aprender algo bom e não voltaram.

A dor dessas famílias não se descreve em pedaços de papel. Os quartos com os ausentes. As lembranças de ontem, quando eles ainda estavam ali, alimentando de vida os seus, prometendo cumprir o ofício de crescer e de prosseguir, mesmo diante de alguns percalços em uma região tão triturada pelo desamor. Crianças, apenas. É o que eram. Vítimas de radicalismos, de ódios que segregam, de bestialidade humana. Não há religião que justifique ações dessa natureza.

Imagino os professores em suas salas de aula. Cada qual ensinando o que lhe competia. Dizendo sobre histórias, geografias, letras, números, gentes. Olhando para os seus alunos e oferecendo a eles o conhecimento como passaporte para dias melhores. Escolheram ser professores por fazerem uma opção pela vida, por acreditarem na generosidade dos saberes e dos encontros. Foram-se eles também. Prematuramente, partiram sem entender as razões. Razão não há para atitudes assim. Nem lá. Nem aqui. Nem em qualquer tempo ou espaço. É de vida que precisamos. E a vida se plenifica na paz. A paz que nasce no coração dos homens e que harmoniza a convivência.

Que as crianças que não voltaram nos alimentem de intenções e de ações de amor. Ou isso ou a barbárie.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/12/2014
 

 

 

 

A educação de todo dia

Um carro passa com a janela aberta. Alguém joga algo na rua. Fato do cotidiano. Fato feio do cotidiano. Não importa se o carro é de luxo ou não. Se seus ocupantes têm mais ou menos dinheiro, se têm formação universitária ou não. O que chama a atenção é a ausência de cidadania. É o descuido com o espaço público. É o desrespeito ao outro.

Quantas vezes, ao dar a última aula, pedi aos alunos que olhassem ao seu redor. Eram papéis espalhados pelo chão, restos de lápis, papéis de bala, entre outras coisas. Pedia-lhes que pensassem no pessoal da faxina vendo aquela sujeira. Seria correto deixar para o outro o dever de cada um de nós de jogar o próprio lixo no lixo? E, então, juntos, recolhíamos tudo. O resultado era surpreendente. Nas aulas seguintes, não se via mais sujeira pelo chão. Acredito na educação que provoca reflexão e transforma atitudes. Quando nos preocupamos em ensinar as teorias matemáticas ou geográficas, estamos certos. Ou teorias de química e física. Ou o apuro para a compreensão das múltiplas linguagens que a arte nos proporciona: teatro, cinema, música, artes plásticas, etc. Tudo isso é fundamental para preparamos os profissionais que comandarão pessoas e organizações. Mas a educação vai além. É o hábito de fazer o correto, no dia a dia, em qualquer situação. É a riqueza de ensinar pelos bons exemplos.

Carros em filas duplas, vagas de pessoas com deficiência ou de idosos ocupadas de forma inadequada, comportamento violento nos esportes, descumprimento das regras, zombaria às pessoas, piadas preconceituosas, ausência de civilidade no trato com o outro. Tudo isso deseduca e compromete as relações humanas. Um filho que assiste a uma atitude não cidadã de seus pais vai imitá-los, certamente. É preciso lhes oferecer, com amor e responsabilidade, água limpa e cristalina para ser absorvida. É nosso dever optar pela verdade, pelo ético, pelo bem comum. Sempre. Pelos bons exemplos que educam, que elevam, que enriquecem a convivência.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 5/12/2014

 

Tempo de delicadeza x Tempo de horror

De tempos em tempos, surgem pesquisas mostrando dados alarmantes sobre a violência contra a mulher. E, de tempos em tempos, crio a expectativa de que o tempo da delicadeza vença o tempo do horror, da covardia, mas não é isso o que vem ocorrendo. Infelizmente.

Dados recentes da ONU mostram que uma a cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual. Mais de 100 milhões de mulheres e meninas sofreram mutilação genital. No Brasil, segundo dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres, a cada 12 segundos, uma mulher sofre violência sexual. Há outro dado, também assustador, que aponta que mais de 70% das agressões contra a mulher ocorrem no domicílio da vítima: pelos pais, irmãos, tios, padrastos etc. Não raro, os abusos desses homens são de conhecimento até mesmo de outra mulher da família que, por medo ou por vergonha, encobre o agressor. Muitos desses homens violentos justificam sua ação perversa e covarde como ato de amor. Amor? Quem ama respeita. Quem ama cuida. 

Quem decide partilhar a vida com alguém precisa compreender que momentos de instabilidade surgirão, mas que não serão resolvidos pela violência. Somos seres inteligentes, capazes de dialogar, aptos a compreender as nossas diferenças. É preciso acabar com essa história de maldade, de dor, de desrespeito. E as mulheres também têm um papel fundamental nessa batalha. Tolerar qualquer gesto de violência, por menor que ele pareça ser, é abrir as portas para agressões mais sérias. Brincadeiras em que o outro se torna o brinquedo não devem frequentar o convívio humano. É bom ver ONGs se mobilizando, a mídia alertando, a sociedade compreendendo e agindo.

Toda atitude machista é vergonhosa. Uma atitude violenta, além de criminosa, é horrenda. Mostremos a nossa melhor face. A face dos que caminham de mãos dadas, sem tempo nem disposição para atirar pedras.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/11/2014