Nas aulas de geografia, os alunos ficam sabendo dos casos de Aids em todos os países do mundo. Na aula de matemática, são abordados índices, como o de gravidez ou de doenças sexualmente transmissíveis. Desse jeito, estudantes da rede estadual de Poá e Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, estão tendo “aulas” de educação sexual, simultaneamente de acordo com os programas Saúde e Prevenção, preparado pelo Ministério da Saúde, e o Prevenção Também se Ensina, do Governo estadual. Nas duas cidades, os números de gravidez na adolescência vêm caindo.
O programa federal também prevê a distribuição de preservativos e é ministrado para alunos de 13 a 18 anos de 455 escolas do estado de São Paulo, nas cidades de Campinas, Catanduva, Itaquaquecetuba, Jundiaí, Limeira, São José do Rio Preto, São Paulo, São Vicente e Vargem Grande Paulista. Em outros estados, 170 escolas já adotaram o projeto. O Governo do estado, por sua vez, colocou educação sexual no currículo de 6 mil escolas que atendem a quase quatro milhões de alunos.
Com os programas, os educadores têm buscado despertar o debate sobre gravidez na adolescência, abuso de drogas (inclusive o álcool e o tabaco), uso do preservativo, dentre outros assuntos. “O que se busca é qualificar o processo de tomada de decisão pelos adolescentes a favor de um estilo de vida saudável e prazeroso”, afirmou Luiz Vieira Pita Neto, coordenador dos dois programas nas cidades de Poá e Itaquaquecetuba.
“A base do trabalho federal e estadual é a mesma: tirar as dúvidas dos alunos e orientar a respeito do perigo de não se cuidar. Tratamos também do lado psicológico e social do aluno para não banalizar o assunto”, contou Pita.
Sexo antes dos 15 anos
Uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em novembro de 2004 reafirma a importância da educação sexual. O levantamento mostrou que 74% da população brasileira entre 15 e 24 anos já fez sexo e 36% começaram a atividade sexual antes dos 15 anos. E 16% já tiveram mais de 10 parceiros na vida. “Esse número é alarmante e mostra que os costumes mudaram. Ele confirmou nosso projeto, que condiz com a necessidade de incluir o assunto sexo na sala de aula”, afirmou Ricardo Pio Marins, diretor-adjunto do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde.
Outro dado da pesquisa: entre jovens de 15 e 24 anos, 57% disseram ter usado preservativo na última relação sexual. E 74% desse número usou com parceiro eventual. “A porcentagem foi a maior de todas as faixas etárias”, disse Marins.
Confiança dos pais
Os pais são peças importantes dos dois projetos. “Muitas vezes a maior resistência é dos pais. Seja pela religião ou mesmo por achar que falando de sexo a escola está incentivando o aluno a praticá-lo. Por isso, antes de começarmos o ano letivo fazemos uma reunião com todos para explicar o nosso objetivo”, diz a coordenadora Cláudia Cristina Maria dos Santos, de 30 anos, da Escola Estadual Ercília Algarve, em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo.
Não constranger o aluno também é uma preocupação do professor. “Nas minhas aulas peço para cada um colocar sua dúvida no papel e não obrigo ninguém a se identificar. Ajuda no debate e acaba a inibição do aluno e possíveis gozações dos colegas”, disse o professor de biologia, Rogério Soares Cordeiro, de 35 anos, que dá aula para alunos de 15 a 18 anos.
Na escola Ercília Algarve, explicações sobre educação sexual são incluídas em todas as disciplinas, não só nas aulas de ciências e biologia. Como os casos de Aids no mundo que são discutidos nas aulas de geografia e gravidez e doenças sexualmente transmissíveis em matemática. “Fica muito mais fácil do aluno entender, pois associa o assunto com outras áreas de interesse”, afirmou o professor de Geografia, Celso Faria da Silva, de 42 anos.
Programas são aplicados em conjunto em 5 unidades
Nos municípios de Itaquaquecetuba e Poá, na Grande São Paulo, cinco escolas aplicam os programas de educação sexual dos governos estadual e federal. Enquanto 63 escolas aplicam apenas o programa do Governo do estado. Números significativos de queda no índice de adolescentes grávidas foram registrados na região, de 2001 a 2003, em 20 escolas que fazem parte do projeto Prevenção Também se Ensina. Em 2001, foram registrados 180 casos; em 2002, esse número caiu para 157; em 2003, chegou a 126. “Isso é resultado que nosso trabalho faz diferença”, conclui Luiz Vieira Pita Neto, coordenador dos dois programas.
Com 23% das adolescentes grávidas, Itaquaquecetuba registra índice acima do considerado aceitável no estado, que é de 21%. Poá, no entanto, registrou 19% em 2004. A Aids também é preocupante em Itaquaquecetuba, pois é a terceira cidade com maior número de casos na Grande São Paulo.
Alunos
A vergonha foi o motivo mais apontado por alunos da escola Ercília Argarves, em Itaquaquecetuba, como barreira para falar de sexo com os pais e professores. Por isso, alguns alunos foram escolhidos para intermediar o contato entre os estudantes. “Eu mesmo tinha muita vergonha quando a minha mãe queria me orientar. Ia logo mudando de assunto. Desde a 8ª série, quando comecei a ter aulas sobre sexo aqui na escola, percebi o quanto seria importante saber para explicar aos outros. E foi isso que eu fiz”, conta Ivanildo Júnior da Silva, de 16 anos, hoje estudante do segundo ano do ensino médio.
A procura dos colegas de classe é grande, ainda mais na hora de pegar o preservativo. “Muitos preferem retirar com a gente do que na diretoria. Se sentem mais à vontade”, conta Naiara de Jesus Fernandes, de 15 anos, também estudante do segundo ano.
Meninas
Outra curiosidade é que as meninas também preocupam-se em ter o preservativo. “Não só os meninos pegam com a gente, pelo contrário. A gente percebe que as meninas estão preocupadas com o próprio corpo. E isso é muito legal”, afirma Lorrayne Suelen Compre,de 16 anos.
Os alunos vivenciam aquilo que aprendem na sala de aula e aplicam no dia a dia. Ciro José Dias, de 16 anos, aluno do segundo ano do ensino médio é um deles. “Comigo ninguém transa sem camisinha. E se a pessoa quiser saber porque, eu explico”. E não é só ele que pensa assim. “É necessário gostar do próprio corpo, se amar, porque engravidar não é o único problema. A grande preocupação é pegar uma doença. É isso que todo adolescente precisa pensar”, afirma Luana Farias Barreto, de 16 anos.
Uma preocupação comum entre as meninas é o dia seguinte. “Eu não tenho vários parceiros, pois acho que sexo não é assim. Eu me preocupo com o depois”, diz Naiara. Sua colega Luana pensa da mesma maneira. “É importante os meninos saberem que a maioria das meninas pensa no sexo como algo especial”.
Pita Neto, coordenador dos programas estadual e federal de educação sexual, nas cidades de Poá e Itaquaquecetuba, diz que a preocupação com o bem-estar do jovem e a não banalização do ato sexual são trabalhados constantemente com os alunos.
Pita Neto explica que o preservativo é apenas um complemento do trabalho e é entregue depois de o jovem ser muito bem orientado. “Aproveitamos para mostrar, principalmente para o menino, que mais do que se sentir homem é necessário respeitar a companheira, que na maioria das vezes tem um sonho atrás do ato sexual”.
