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A construção do conhecimento

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

Tenho vivido lindas experiências de construção de conhecimento a partir das vivências dos meus alunos. Acredito que todo professor deva se preparar para as aulas. Deva ter um caminho previamente refletido para caminhar com seus alunos. Por outro lado, todo professor deve ter a abertura para o novo. No caminho, surgem paisagens inesperadas. E não há por que ter medo delas.

Em uma aula para o curso de direito, uma aluna, logo no início, disse que estava muito triste. Eu ouvi o lamento, mas continuei o que havia preparado. Falava de Kelsen e de alguns aspectos do positivismo jurídico. A aluna, inconformada, protestou: 

– Poxa, Chalita! Você não se incomodou com a minha tristeza?
– Sim, vamos falar depois sobre isso.
– Depois, não. Eu quero falar agora!
– Agora?
Olhei para os quase 90 alunos que lotavam a sala.
– Agora!
Ela insistiu. E prosseguiu.
– Para de falar o que você está falando e fale o que todo mundo quer saber. O que todo mundo quer entender.
Perguntei:
– E o que todo mundo quer saber?
Ela foi taxativa:
– Por que é que homem não presta? Sim, por que homem não presta?
– Homem não presta?
– Não presta, professor! Posso contar o que o meu namorado fez comigo?
Sem que eu dissesse ‘sim’ ou ‘não’, ela se entusiasmou a falar e, ao final, exclamou:
– E o pior é que é o oitavo namorado que faz isso comigo. O oitavo!
– Sei.
Antes de qualquer reflexão, um aluno pediu a palavra e eu consenti.
– Tudo bem que tem homem que não presta. Mas tem mulher que não presta também. Posso falar da minha ex-namorada?

Àquela altura, só podia dizer que sim.
Passados esses desabafos, aproveitei para explicar a paixão. A aula era de filosofia do direito. E o tema da paixão interessa tanto à filosofia quanto ao direito. Dez mulheres são assassinadas por dia no Brasil em crimes passionais. São maridos, amantes, ex-maridos, ex-amantes, namorados, padrastos, tios, amigos que se acham no direito de “matar por amor”.

Convidei os alunos a fazer uma reflexão sobre o conceito de paixão na obra “O Banquete” de Platão. Falamos de Penia, deusa da penúria, e de Poros, deus do engenho. Da fragilidade e da fortaleza da paixão. Falamos de algumas histórias de paixão da literatura e da vida. O triste desfecho de Tristão e Isolda. O amor projetado de Dante em Beatriz. As cartas de dor e de amor de Soror Mariana do Alcoforado. Trouxemos exemplos recentes amplamente divulgados pela mídia para compreender o que dá a alguém o direito de destruir o outro ou os sentimentos do outro. E, ainda, o que faz com que alguém insista em repetir os erros do amor, sem amor.

Brinquei com minha aluna. Seriam os homens que não prestam ou suas escolhas que não prestam? Por que insistir nos mesmos erros? Por que mendigar afeto?

Falamos de Sartre e da genial obra “Entre quatro paredes”. “O inferno são os outros”, porque projetamos nos outros a nossa realização. E isso é injusto conosco mesmos.

E voltamos para Kelsen. Para o conceito de justo e de injusto. Para o diálogo tão necessário entre o saber e o viver.

Os professores não têm de temer essa fascinante experiência de construir o conteúdo a partir da vida. Evidentemente, não se pode vulgarizar o conhecimento. Não teria sentido se eu colocasse em votação as questões iniciais: homem não presta? mulher não presta? O conteúdo ajuda a percorrer com mais pertinência esses tênues caminhos da vida.

É preciso usar o conhecimento para iluminar a vida!

A fé e a saudade convivem

Por Gabriel Chalita (Revista Canção Nova)

Dias desses, fui ao velório da mãe de um amigo. Ela morreu apos meses de internação. Tinha mais de 90 anos. Meu amigo abraçou-me demoradamente e chorou em meu ombro a saudade. Disse, entre prantos: “Meu pai já foi, meus dois irmãos morreram e, agora minha mãe”. Ouvi seu lamento sem praticamente nada dizer. Apenas a linguagem do abraço e do olhar. “Nos momentos mais difíceis da minha vida, era no colo dela que eu deitava. E ela calmamente brincava com os meus poucos cabelos.” E prosseguiu: “Será difícil voltar para casa e arrumar as suas coisas”.

Meu amigo é padre. Logo depois chegou o bispo e mais alguns padres. E rezaram juntos. E cantaram. E, cheios de fé, entregaram aquela mulher aos braços do Pai. Meu amigo padre tem muita fé. E tem saudade também. A fé e a saudade convivem. A experiência da despedida é sempre dolorosa. A riste consciência de que os abraços, os olhares, as conversas, a convivência, enfim, acabaram.

Vivi isso nas tantas despedidas de minha vida. Meu pai, meus irmãos, meus avos, tios, amigos. Chorei com os meus. Consolei os meus e, por eles, fui consolado. Muitas vezes, ofereci o colo para que minha mãe chorasse. E depois revezamos. E depois levantamos. E, apesar da dor prosseguimos.

A dor é uma experiência humana. É necessária. Ela tem um poder impressionante de melhorar algo em nós se nos abrirmos para esse aprendizado. Quando saí do velório, liguei para minha mãe e renovei todo carinho e amor que tenho por ela. Fiquei imaginando que as palavras não ditas se perdem em algum lugar difícil de encontrar.

Quantas historias de remorso, arrependimento tardio das despedidas que não aconteceram! Brigas tolas. Problemas acidentais. Emoções travadas. E desperdiçamos o tempo de delicadezas.

Faço um convite a você que tem pai e mãe, que tem irmãos e amigos, que tem filhos. Não economize nos sentimentos de afeto. Convide o perdão a morar em sua casa. Peça à vingança, ao egoísmo e a raiva que se retirem. Aproveite o tempo precioso para dizer “eu te amo” a quem você realmente ama.

Meu amigo padre voltou para sua casa. Com certeza, rezou para que Deus acolhesse sua mãe. Talvez tenha sentado no sofá em que tantas vezes ela o acolheu e chorou a saudade incômoda. É assim mesmo! Até a eternidade.

Chalita escreve mensagem de final de ano em artigo

Por Gabriel Chalita

Coração Novo

Estamos acostumados aos rituais, às comemorações, às celebrações. Quando um ano se encerra e outro se inicia, celebramos o dia da paz, a confraternização entre os povos. Quando um novo ciclo se inicia, somos convidados a renovar algo em nós. Quem sabe, neste novo ano, possamos ter um coração novo.

O coração é a metáfora dos sentimentos, das intenções. Um coração envelhecido é aquele que desistiu de amar, que não acredita na humanidade e que, consequentemente, se fecha. E é, por isso, solitário. A solidão pela ausência do amor envelhece o coração.

As desculpas para um coração envelhecido recaem nas decepções com as pessoas que amamos. Reclamamos dos erros dos outros, lamentamos as atitudes incorretas dos nossos irmãos e, assim, optamos pelo fechamento. Vivemos condenando nossa triste situação. Pais, filhos, amigos, parece que não há ninguém de valor ao nosso lado. Pensamos como seria bom se eles mudassem, se eles melhorassem.

No ano que passou, vivi momentos de muita emoção. Um deles ao lado do meu querido irmão Dunga. Eu fazia uma pregação em um grupo de oração em Presidente Prudente. Enquanto isso, ele compunha o refrão de uma música. A reflexão era sobre as mudanças que temos de fazer para que nosso irmão seja mais feliz.

E o refrão diz exatamente isso: Quem tem que mudar sou eu para que você seja mais feliz.

Eu escrevi o restante da música que fala em aprendizado, em perdão, em saber ouvir, em lembrar que não há ninguém perfeito. E que, talvez, precisemos do tempo da boa ingenuidade de volta, do sorriso leve, dos sonhos dos primeiros encontros.

O tempo pode ser uma boa escola. A tolerância, o respeito às limitações do outro e às nossas próprias limitações, a bondade no julgar. É uma lição de vida a reflexão de Madre Teresa de Calcutá: Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las.

Às vezes, os pais exigem dos filhos algo que não podem dar. O inverso é verdadeiro. E na relação entre o casal também. Cada ser é único. E talvez grande parte dos erros, dos equívocos, não sejam intencionais. Meu irmão, não espere que o outro mude. Mude você. Diga à pessoa que você ama:
Quem tem que mudar sou eu para que você seja mais feliz.

E se precisar, complete com Madre Teresa: não vou perder tempo te julgando, quero gastar esse tempo te amando. E é esse o convite para o novo ano. A consciência de que a sua família será melhor se você for melhor. Que o seu trabalho será melhor se você for melhor. Que o mundo, esse grande coração que pulsa, será renovado se o seu coração for renovado.

Feliz ano novo, feliz coração novo.

Respeito às diferenças

Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

O cinema é uma fonte inesgotável de situações para discussão de questões educacionais em sala de aula. No filme My fair lady, por exemplo, um professor de fonética aceita a aposta de transformar uma florista maltrapilha em uma dama preparada para freqüentar as altas rodas sociais, apenas por ensinar-lhe a falar corretamente. Para as aulas, a florista vai morar na casa do professor. O filme, de 1964, é baseado no livro Pigmalião, de George Bernard Shaw. Sob a direção de George Cukor, estão no elenco Audrey Hepburn, Rex Harrison, Stanley Holloway e Wilfrid Hyde-White. 

O enredo começa, mesmo, na praça do mercado central de Londres, numa noite chuvosa e fria do início do século 20. Sob a marquise, bem em frente a uma casa de ópera, pessoas da alta sociedade esperam carruagens para voltarem para casa. A florista pobre reclama em altos brados de estar sendo observada por um senhor bem vestido que anota cada palavra que ela pronuncia. Imagina ser um policial que a vigia para expulsá-la do seu ponto de venda. O homem, porém, é um professor de fonética, que se gaba de reconhecer a origem de uma pessoa pelo som de sua voz, com margem de erro inferior a seis quilômetros. Ele a acusa de “assassinar, a sangue frio, a língua inglesa”. Curiosos se aproximam para ouvir a conversa, e testemunham uma estranha aposta. O professor Henry Higgins (interpretado por Rex Harrison) aceita o desafio de transformar a rude florista (interpretada por Audrey Hepburn) em uma dama.

Depois dos desastres dos primeiros dias, o professor se dá conta de que não será possível ensinar a língua sem ensinar, primeiro, a importância das atitudes. De professor inflexível, George muda para uma atitude de mais compreensão. A partir desse ponto, a relação avança, e Elisa começa a aprender com mais facilidade.

Elisa é levada, enfim, ao baile do embaixador. O baile é uma homenagem à rainha da Transilvânia, que visita Londres. Elisa é apresentada à sociedade e encanta a todos, pela elegância, postura, educação e boa conversa. A própria rainha manda um emissário pedir-lhe que dance com o filho, o príncipe Gregor. Mas um especialista em línguas, o húngaro Zoltan Karpathy, assessor da rainha, se aproxima para travar conversação com Elisa, e a sua origem humilde pode estar prestes a ser desmascarada. Mas eis o diagnóstico que Zoltan leva para a rainha: 

– “O inglês dela é muito bom, o que indica que é estrangeira. Os ingleses não costumam ser muito instruídos em sua própria língua. E, apesar de ter talvez estudado com um perito em dialética e gramática, posso afirmar que ela nasceu húngara. E de sangue nobre! Seu sangue é mais azul do que a água do rio Danúbio.”

Higgins e Pickering voltam exultantes para casa. Elogiam-se mutuamente pelo triunfo. Mas se esquecem de sequer mencionar Elisa e seu esforço, e ela fica magoada. Henry acaba percebendo o abatimento dela e pergunta o que há de errado.

– Com você nada, não é? – ela diz. – Ganhei a aposta para você, não foi? Já basta.
– Fui eu quem ganhou a aposta, sua presunçosa!
– Seu bruto egoísta! Agora que tudo terminou, vai poder me jogar de volta na sarjeta. O que será de mim?
– Você está livre agora. Vai poder fazer o que quiser.
– Fazer o quê? Você me preparou para quê? Eu era mais digna antes. Vendia flores, não a mim mesma. E, agora que você fez uma dama de mim, eu não sirvo para mais nada.

Eles a acusam de ingrata. E Elisa foge, voltando à praça onde vivia. Nenhum dos velhos amigos a reconhece, deixando-a ainda mais triste. É uma pessoa presa entre dois mundos, sem pertencer nem a um nem a outro.

Desnorteada, resolve visitar a mãe de Henry. Num depoimento a Sra. Higgins, Elisa diz a frase que é o verdadeiro corolário da sua história:

– Deixando de lado o que se aprende, a diferença entre uma dama e uma florista não é como se comporta, mas como é tratada.

Henry (que ali chegara) franze a testa, ao ouvi-la, reconhecendo que sempre a tratara como uma florista e jamais como uma dama.

Eis, em resumo, um conjunto de valores que pode ser trabalhado em sala de aula, por meio desse filme. Uma atividade simples, mas que pode conduzir a resultados significativos, frutos de uma aprendizagem efetiva.

A dor da injustiça

Por Gabriel Chalita (Revista Canção Nova)

A dor da injustiça

Todos os dias aprendemos e ensinamos. Estamos todos matriculados na escola da vida. E nessa escola, com humildade, amadurecemos. Basta que prestemos atenção no outro, na sua dor e na sua capacidade de superação. E que prestemos atenção em nós mesmos e na necessidade de sermos justos. Certa vez ouvi um depoimento de uma cozinheira acusada de ter furtado uma pulseira de ouro. Entre lágrimas, ela tentava convencer a patroa de que jamais em sua vida havia cometido esse delito.

A patroa dizia que as lágrimas eram uma forma de esconder o furto. A funcionária, em prantos, dizia que era uma mulher de fé, religiosa. E a patroa, aos gritos, exigia que Deus fizesse, então, a pulseira aparecer na frente dela, se é que Ele existia.

A funcionária não mais insistiu. Na solidão da injustiça, entrou no quarto para arrumar as suas coisas. Lamentou a situação. Chorou a sua história de dor e necessidade.Enquanto ouvia explicações da patroa de que não a denunciaria desde que ela não a atormentasse na justiça, entrou a filha pedindo um sanduíche. Na mão esquerda, estava a reluzente pulseira. Foi neste momento que a funcionária chorou ainda mais. Como dói a injustiça! A patroa, rispidamente, disse a ela que parasse com o choro e voltasse ao trabalho. E, com autoridade, decidiu que fora apenas um mal entendido. Recomposta, a cozinheira agradeceu a confiança e disse que nada mais tinha a fazer naquela casa. A patroa insistiu que o melhor era esquecer tudo. E a funcionária sorridente agradeceu a Deus e lembrou a patroa de que Ele não desampara quem O ama.

Sem muito alarde, a cozinheira saiu e no dia seguinte arrumou emprego em um restaurante. Tudo aconteceu em uma missa. Muito triste, ela foi à Igreja como sempre e, na acolhida, o padre pediu que as pessoas se cumprimentassem e se apresentassem. A senhora ao lado disse que tinha um restaurante e ela disse que era cozinheira. A partir daí, uma nova vida começou.

Ela não foi à missa em busca do emprego nem querendo que Deus desse a ela a recompensa dos que são humilhados. Foi rezar. Foi chorar. Foi agradecer. Foi viver o mistério do Amor que é a Eucaristia. E, nesse mistério, encontrou Amor. Coincidência estar precisando de um emprego e a outra ter um emprego para oferecer? Pode ser. Como pode ser também providência. Deus cuida de nós, como diz em canção nossa irmã Salete Ferreira.

Assim como ouvi esse testemunho em meu programa de rádio na Canção Nova, ouço tantos outros que servem de inspiração para que aprenda a ser justo e experimente a presença de Deus.

A história dessa mulher nos ensina a termos mais delicadeza em nossas relações. É triste sofrer a dor da injustiça, da incompreensão.

Todos nós erramos, mas se tomarmos um pouco de cuidado, nosso erro não será tão doloroso ao nosso irmão nem a nós mesmos. Ninguém faz mal ao outro impunemente.

O papel do líder

Por Gabriel Chalita (Jornal Bom Dia ABC)

Tema para viver Há quem pense que os líderes surgem ao acaso. Engano. Os líderes se formam naturalmente. Um líder se revela pelo tema que escolhe, por Amor, para a sua vida. Não de forma obsessiva e fanática, mas determinada e apaixonada. São aqueles que assumem para si a responsabilidade da transformação da sociedade, abraçados às suas causas, às suas lutas na promoção do bem. Um líder gerencia sonhos comuns a toda a humanidade.

O professor é um líder e igualmente necessita de um tema para ressignificar a sua vida, o seu ofício de fazer caminhar os aprendizes. Educadores são líderes que conduzem e não impõem. São líderes que apontam novos caminhos e não apenas persuadem a seguir o caminho que lhes parece o certo. São líderes que abdicam de suas escolhas pessoais em nome das vontades coletivas, para amainar os conflitos. São aqueles que criam possibilidades, a partir de um valor ou sentimento comum ao grupo, para a descoberta de novos caminhos, em comunhão com seus alunos, como queria Paulo Freire. Enfim, o educador líder torna as suas ações significativas, conduzindo seus aprendizes ao conhecimento de fato, pois é natural o interesse humano por aquilo que lhe faz sentido. Um educador deve, acima de tudo, ser exemplo. É o exemplo que determina a liderança e não o poder.

Que poderes especiais teriam líderes como Mandela, Gandhi, João Paulo II, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá e outros tantos para mover multidões em busca do Amor e da paz? Não seria qualquer ser humano capaz de se transformar em um líder? Basta ter respeito, Amor, paixão por uma causa, crença na humanidade, generosidade, humildade. São todos esses valores que possuem aqueles que se decidem pela Educação. Responsabilidade e compromisso com a mudança.

Uma senda na inclusão do deficiente visual

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

O ser humano tem cinco sentidos. E uma alma. Dorina Nowill não tinha um dos sentidos, mas era uma mulher de alma especial, o que amplificou o seu espírito e a sua noção de solidariedade. Sem a visão desde os 17 anos, foi a primeira aluna cega a matricular-se em São Paulo, numa escola comum. Abria, assim, a senda da inclusão do deficiente visual no país. Em 1945, ainda estudante, conseguiu que a Escola Caetano de Campos implantasse o primeiro curso de especialização de professores para o ensino de cegos.

Em 1946, com um grupo de amigas, criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil – organização que, em 1951, receberia seu nome: Fundação Dorina Nowill para Cegos. Uma entidade que dirigiu, pessoalmente, até o momento de sua morte, neste ano de 2010.

Toda sua história é composta de uma pedagogia essencial, baseada no amor incondicional pelas pessoas. Foi uma amorável realizadora, desde os tempos de colégio. Depois de uma temporada nos EUA, voltou ao Brasil e iniciou uma luta incansável pelas pessoas com deficiência visual. Implantou a primeira imprensa braille de grande porte no país. Foi responsável pela criação do Departamento de Educação Especial para Cegos, em SP. Trabalhou para que a educação para cegos fosse regulamentada em nível federal. Entre 1961 e 1973, dirigiu o primeiro instituto nacional de educação de cegos no Brasil, criado pelo MEC.

Seu trabalho foi intenso, inclusive em organizações internacionais, numa saga que é impossível dissociar da história de Hellen Keller, a norte-americana cega e surda que se tornou exemplo mundial de superação de limitações físicas. Hellen Keller dizia que “nunca se deve engatinhar quando o impulso é voar.” Pois Dorina Nowill voou. Mas ela era um pássaro solitário, uma só alma. Sabia que, sem iniciativas oficiais consistentes, o atendimento necessário seria insuficiente. O país tem 8 milhões de deficientes visuais, entre cegos e pessoas com baixa visão, que devem ser sujeitos de inclusão no processo educacional, e as iniciativas de governo ainda são tímidas para esse contingente de pessoas. Apesar de a educação inclusiva constar do Artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, e de a declaração de Salamanca, da UNESCO, comandar, em 1994: “As escolas devem ajustar-se a todas as crianças, independentemente das suas condições físicas, sociais, linguísticas ou outras.”.

A Lei nº 10.753, de 2003, conhecida como “Lei do Livro”, que obriga a edição de livros em braille, foi um avanço. Mas há algo que a lei não supre: a falta de informação com relação à deficiência, que acaba sendo fator inibidor da inclusão social. A compreensão das deficiências como diferença, e não como limitação insuperável, é algo que apenas a educação logrará obter.

Uma repórter perguntou uma vez a Dorina Nowill o que ela desejaria poder enxergar em sua vida. Ela enumerou duas: o sorriso de uma criança e o pôr do sol na praia. E completou: “Mas não tem nada para suprir a falta de não ver. Só com o que tenho dentro de mim.”

Em toda a sua trajetória, essa mulher, entusiasmada pela vida, lutou pelas mãos do acaso e pela grandeza de seu caráter em defesa dos direitos dos deficientes visuais. O Brasil também teve a sua Hellen Keller, a doce visionária chamada Dorina Nowill que sempre dizia: “Se um dia eu me sentir cansada, acredito que vou parar. Mas eu não me canso.” Permaneceu incansável até os 91 anos.

A pobreza é produto de escolhas e de políticas humanas

Por Gabriel Chalita (Revista Canção Nova)

Há muito se discute sobre a vontade de Deus e a vontade dos homens. É comum ouvir pessoas confortando outras, dizendo que tudo o que acontece é vontade de Deus. Mas, e as tragédias que nascem da falta de amor ou de cuidado com o outro? Um homem armado se descontrola no trânsito e mata outro motorista. Um ladrão invade uma casa e se assusta, disparando o revólver em duas crianças. Um pai joga seu filho pela janela e se joga depois.

Um país decide entrar guerra com outro país e manda os jovens soldados para a frente da batalha. Um político rouba o dinheiro que deveria ser utilizado para o bem das pessoas. Um outro político desconsidera a existência dos pobres. Um adulto destrói a inocência de uma criança. Deus faz isso tudo?

A vontade de Deus se renova todos os dias na criação e na liberdade dos homens. Não somos robôs programados para fazer isso ou aquilo. Somos livres. E é essa liberdade que nos permite acolher Deus em nossa vida e, ao acolhê-LO, acolher o nosso irmão ou simplesmente optar pela negação do amor. Deus respeita a escolha dos seus filhos.

Na Idade Média, dizia-se que um governante era escolhido por Deus e, portanto, não se questionavam suas atitudes, muitas vezes desprovidas de qualquer compaixão. Reis que matavam, roubavam e não cuidavam de seu povo. A ação era dos reis e não de Deus. A escolha é humana. Com isso, não queremos dizer que Deus abandona o seu povo. Mas que ele respeita a inteligência que é fruto da criação. No Antigo Testamento, o povo pediu a liberdade e Deus abriu mares para que a escravidão fosse coisa do passado e, mesmo assim, adoraram a um bezerro de ouro. Por vontade de Deus? Não. Por decisão humana. Os leprosos eram tratados como a escória da sociedade e também as mulheres e as crianças. Por vontade de Deus? Não. Por vontade dos homens.

Vivemos em um país rico e pobre. Somos uma nação gigante que tem moradores de rua, trabalho infantil, pedofilia e escravidão. E não é essa a vontade de Deus. Seu reino de Amor começa aqui e agora quando todos os Seus filhos forem tratados com dignidade. Sem preconceitos. Sem arrogâncias. O Papa Bento XVI, em sua mais recente Encíclica “Caridade na Verdade”, diz que é essencial cuidarmos da pessoa toda e de todas as pessoas. É esse o desafio que mulheres e homens têm no momento de escolher e no momento de agir.

Sempre que você tiver de decidir, peça a Deus que o abençoe, o ilumine, mas não se esqueça, a escolha é sua. A não ser que você faça como a criança na canção do Padre Zezinho que queria saber o que fazer para ser feliz e a resposta é essa:

Amar como Jesus amou, Sonhar como Jesus sonhou,
pensar como Jesus pensou,viver como Jesus viveu.
Sentir o que Jesus sentia,sorrir como Jesus sorria.
E ao chegar o fim do dia eu sei que eu dormiria muito mais feliz.

Ser Cristão é ser um novo Cristo. Essa é uma escolha humana inspirada na bondade Divina. Se isso de fato acontecesse, corrupção, violência, miséria dariam lugar ao mundo do acolhimento e do amor. É difícil? Vamos dar o primeiro passo…

Ação, filha da reflexão

Por Gabriel Chalita (Livro O Mito das Academias)

Em 388 a. C., Platão fundava, nos arredores de Atenas, sua Academia. O local era mais precisamente nos jardins do herói ateniense Academos, daí o nome. Outras denominações de Academia ou Nova Academia podem ser encontradas ainda na antiguidade nas escolas céticas de Arcelisau e Carnéades. A partir do século XV, início da Idade Moderna, do antropocentrismo, do espírito renascentista, Academia passa a designar os diversos tipos de sociedades literárias, filosóficas ou cientistas. A Royal Society of Sciences, de Londres e a Académie des Sciences, de Paris, datam respectivamente dos anos de 1962 e 1966.

Platão queria que, em sua Academia, seus discípulos tivessem contato com o saber e a partir desse mudassem a forma de viver e conviver. O mestre dos ombros largos creditava aos prazeres exacerbados do corpo os males que envolviam a humanidade. Desprezava a incontinência por ser uma ação desprovida de reflexão. Esse era o grande ponto da antiga Academia: a reflexão. Os homens erram muito mais por não pensarem do que por decidirem pelo erro. Sem reflexão, não há ação humana propriamente dita. Há atabalhoamentos, acidentes, irritações desnecessárias, julgamentos preconceituosos, mas não ação humana. Seu conceito de elevação fazia com que os ousados habitantes da caverna, como ele narra na alegoria, saíssem para experimentar a luz.

Os tempos são outros nessa pauliceia desvairada. Aqui também temos a nossa Academia. Centenária Academia. Palco de tantas histórias. Vidas em convivência. Saborosas conversas e dolorosas despedidas. As reflexões são colocadas em temas variados. Olhares diferentes que visam à convivência saudável e o cultivo e proteção de nossa língua. Amamos a palavra e dela somos cúmplices. O nosso ofício é significar ao outro e a nós mesmos o registro do que fomos, somos e arriscamos o que seremos. Escrevemos. Por gosto e profissão. Decidimos lançar mão de pincéis, penas, lápis, canetas, teclas para refletirmos e partilharmos nossas verdades. Erramos, certamente muitas vezes, acertamos outras. Confrontamos nossas opiniões com os nossos pares. Evoluímos. E assim é o entra e sai da caverna. Não sabemos ainda se estamos ou não aprisionados como as personagens platônicas. O mundo dos livros nos abre, ou deveria abrir, as páginas de uma história mais rica de significados. Sem preconceito algum contra aqueles que não tiveram a oportunidade do entranhamento da cultura, pregamos a obrigação de refinamento e elegância pelo que aprendemos com os cultos. Não há homogeneidade nesses espaços das letras. Somos diferentes. Trazemos bagagens diferentes. Alguns mais leves, outros mais pesados. Alguns mais sorridentes, outros mais taciturnos. Aprendemos a respeitar e, na diferença, a amar os nossos confrades. Shakespeare, em Romeu e Julieta, nos empresta essa preciosidade:

Minha bondade é tão ilimitada quanto o mar,
E tão profundo como este é o meu amor.
Quanto mais te dou, mais tenho, pois ambos são infinitos.

O amor entre amantes é Eros. Arrebata e mata outras visões. Cega. Incendeia de luz as frestas das possibilidades. Assim mesmo. Paradoxal. Deliciosamente paradoxal.

Na amizade, também damos e recebemos. A ação do amor ao outro é atávica, portanto necessária à nossa existência.

A natureza nos criou relacionados uns aos outros, a partir da mesma matéria, e para o mesmo objetivo. Por isso, em algum ponto dentro de nós todos existe um amor mútuo pelo próximo. Isso é de Sêneca. Isso é nosso.

Nos espaços sagrados da Academia Paulista de Letras, experimentamos esse amor partilhado. Louvamos as glórias de nossos pares e nos solidarizamos com as dores tão comuns em uma jornada. Temos erros. Certamente os temos. Faz parte dessa humanidade tão rica e tão frágil. Por vezes permitimos que sentimentos menores como a vaidade e a inveja sentem conosco em nosso chá semanal. Por vezes esquecemos de que o outro carece da quentura de nossa prosa e esfriamos por falta de reflexão. Refletir é permitir que o percurso entre a razão e a emoção venha antes da palavra, sim da palavra nossa companheira de ofício. Sem reflexão, agredimos aquele que deveríamos cuidar. Sem reflexão, cultuamos a nós mesmos e as nossas inglórias, porque não há abraço individual.

É de Tolstói este lembrete:

O pensamento é a glorificação da verdade; portanto, os maus pensamentos são aqueles que não foram raciocinados até o fim.

Os escribas egípcios tinham a função de registrar os feitos heróicos dos faraós, além das normas por eles determinadas. Ainda contratos, contabilidades. Aí estava a continuação da identidade de um povo.

Somos os escribas contemporâneos. A nós foi dado o privilégio de registrar esse tempo em que estamos por aqui. Tempo do centenário. Tempo de restaurações. Tempo de encontros menos sólidos do que gostaríamos. Passaremos. E é essa consciência que deveria nos tornar melhores. O que lemos e escrevemos nos faz responsáveis pelo repertório ampliado que tivemos e temos a oportunidade de usufruir. Não consigo compreender o conhecimento fechado no diletantismo de se saber que se sabe. O conhecimento é instrumento para melhorar as pessoas e o mundo. A poesia, o conto, o romance, as filosofias não servem a nada e ao mesmo tempo servem para que a humanidade seja mais sensível. Não passamos imunes pelos textos. A não ser que nos tranquemos na caverna. Se dermos uma pequena oportunidade para as letras elas nos instigarão a sair e a enfrentar a adversidade com mais altivez e galhardia.

A Academia Paulista de Letras cumpre seu ciclo de cultivar pessoas e palavras como queria Platão em seu templo do saber. O nosso jardim cultiva espécies diferentes e aqui os aromas são agradáveis e alimentam nossas intenções. Que sejam as melhores!

A harmonia no ambiente escolar

Gabriel Chalita (Revista Educacional)

Cecília Meireles, em sua saborosa poética, assim escreve: “Ensinar é acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação – mas por uma contemplação poética, afetuosa e participante.” Quando se lê a educação com esse olhar de Cecília, parece que o dia a dia na relação professor-aluno é encantado. Muitos dirão que essa elevação afetiva só funciona no plano das idéias e que, na prática, se assiste a um aviltante processo de destruição das relações humanas.

A violência nas escolas se materializa em agressões verbais e físicas. É a prática do bullying que destrói as relações e os seres humanos. O professor se sente vítima de um sistema que não o valoriza, portanto não o entende bem, nem o protege. Os alunos parecem prontos para a batalha. Padecem de amor e de limites. A ausência familiar se faz sentir na postura agressiva ou apatia em sala de aula. Além disso, e talvez por isso, tentam disputar poder com os professores que, por sua vez, se deixam levar em um debate desnecessário. Há um axioma essencial na relação entre professor e aluno: autoridade harmonizada pelo afeto. O aluno precisa de limite e precisa compreender o papel do educador. O educador não pode impor sua autoridade, mas deve conquistá-la. Sem brigas nem ameaças. Sem histeria nem parcimônia.
Com o respeito de quem sabe ensinar e aprender e de quem harmoniza as relações. É imprescindível o resgate das relações harmoniosas no universo escolar. Evidentemente, são a experiência e a disposição do professor que farão com que ele toque na alma do seu aluno – sem isso não há educação. Alguns cuidados em nossas atitudes são de extrema importância. O primeiro deles é que professor não brigue com aluno, mesmo que tenha razão. Se isso acontecer, parte da sala torcerá pelo aluno e a outra pelo professor, assim, ele deixa de ser referencial. Um segundo cuidado seria o professor não colocar apelido em aluno. Outra precaução seria a de não comparar um com o outro – é preciso lembrar que não há homogeneidade no processo educativo, mas heterogeneidade. E, por último, o professor não pode se mostrar arrogante nem subserviente.
O meio termo é amoroso. E aí voltamos à Cecília Meireles. A harmonia no ambiente escolar há de ocorrer quando se consegue quebrar a carcaça que envolve alguns alunos, pela falta de algo que deveria ter vindo antes. É esse sonambulismo, essa postura incorreta frente à vida e frente a si mesmo. Trata-se de ajudá-lo a viver essa contemplação poética, ou, em termos aristotélicos, a buscar uma aspiração para a vida. Ou ainda, em Paulo Freire, ajudá-los a desenvolver autonomia para sonhar. Aí sim, o professor mostrará autoridade. Autoridade generosa de quem confia e cobra.
De quem educa pelo exemplo, pelo respeito, pela admiração de seus alunos. E é nesse bom caminho que entra o afeto como instrumento de poder e participação. É do olhar do mestre que saem essas virtudes. O olhar que acolhe e que constrange quando necessário. O olhar que se faz cúmplice nas boas conquistas e que lamenta docemente pelo que se perdeu. O olhar que mantém o silêncio na sala de aula, sem gritos ou lamentações, mas que é capaz de chorar pela emoção de mais um aprendiz que encontrou seu caminho. A harmonia no ambiente escolar não é uma utopia. É talvez uma tarefa complexa que exige o que de melhor podem dar os educadores: competência, coragem e muito, muito amor!