Por Gabriel Chalita (Livro O Mito das Academias)
Em 388 a. C., Platão fundava, nos arredores de Atenas, sua Academia. O local era mais precisamente nos jardins do herói ateniense Academos, daí o nome. Outras denominações de Academia ou Nova Academia podem ser encontradas ainda na antiguidade nas escolas céticas de Arcelisau e Carnéades. A partir do século XV, início da Idade Moderna, do antropocentrismo, do espírito renascentista, Academia passa a designar os diversos tipos de sociedades literárias, filosóficas ou cientistas. A Royal Society of Sciences, de Londres e a Académie des Sciences, de Paris, datam respectivamente dos anos de 1962 e 1966.
Platão queria que, em sua Academia, seus discípulos tivessem contato com o saber e a partir desse mudassem a forma de viver e conviver. O mestre dos ombros largos creditava aos prazeres exacerbados do corpo os males que envolviam a humanidade. Desprezava a incontinência por ser uma ação desprovida de reflexão. Esse era o grande ponto da antiga Academia: a reflexão. Os homens erram muito mais por não pensarem do que por decidirem pelo erro. Sem reflexão, não há ação humana propriamente dita. Há atabalhoamentos, acidentes, irritações desnecessárias, julgamentos preconceituosos, mas não ação humana. Seu conceito de elevação fazia com que os ousados habitantes da caverna, como ele narra na alegoria, saíssem para experimentar a luz.
Os tempos são outros nessa pauliceia desvairada. Aqui também temos a nossa Academia. Centenária Academia. Palco de tantas histórias. Vidas em convivência. Saborosas conversas e dolorosas despedidas. As reflexões são colocadas em temas variados. Olhares diferentes que visam à convivência saudável e o cultivo e proteção de nossa língua. Amamos a palavra e dela somos cúmplices. O nosso ofício é significar ao outro e a nós mesmos o registro do que fomos, somos e arriscamos o que seremos. Escrevemos. Por gosto e profissão. Decidimos lançar mão de pincéis, penas, lápis, canetas, teclas para refletirmos e partilharmos nossas verdades. Erramos, certamente muitas vezes, acertamos outras. Confrontamos nossas opiniões com os nossos pares. Evoluímos. E assim é o entra e sai da caverna. Não sabemos ainda se estamos ou não aprisionados como as personagens platônicas. O mundo dos livros nos abre, ou deveria abrir, as páginas de uma história mais rica de significados. Sem preconceito algum contra aqueles que não tiveram a oportunidade do entranhamento da cultura, pregamos a obrigação de refinamento e elegância pelo que aprendemos com os cultos. Não há homogeneidade nesses espaços das letras. Somos diferentes. Trazemos bagagens diferentes. Alguns mais leves, outros mais pesados. Alguns mais sorridentes, outros mais taciturnos. Aprendemos a respeitar e, na diferença, a amar os nossos confrades. Shakespeare, em Romeu e Julieta, nos empresta essa preciosidade:
Minha bondade é tão ilimitada quanto o mar,
E tão profundo como este é o meu amor.
Quanto mais te dou, mais tenho, pois ambos são infinitos.
O amor entre amantes é Eros. Arrebata e mata outras visões. Cega. Incendeia de luz as frestas das possibilidades. Assim mesmo. Paradoxal. Deliciosamente paradoxal.
Na amizade, também damos e recebemos. A ação do amor ao outro é atávica, portanto necessária à nossa existência.
A natureza nos criou relacionados uns aos outros, a partir da mesma matéria, e para o mesmo objetivo. Por isso, em algum ponto dentro de nós todos existe um amor mútuo pelo próximo. Isso é de Sêneca. Isso é nosso.
Nos espaços sagrados da Academia Paulista de Letras, experimentamos esse amor partilhado. Louvamos as glórias de nossos pares e nos solidarizamos com as dores tão comuns em uma jornada. Temos erros. Certamente os temos. Faz parte dessa humanidade tão rica e tão frágil. Por vezes permitimos que sentimentos menores como a vaidade e a inveja sentem conosco em nosso chá semanal. Por vezes esquecemos de que o outro carece da quentura de nossa prosa e esfriamos por falta de reflexão. Refletir é permitir que o percurso entre a razão e a emoção venha antes da palavra, sim da palavra nossa companheira de ofício. Sem reflexão, agredimos aquele que deveríamos cuidar. Sem reflexão, cultuamos a nós mesmos e as nossas inglórias, porque não há abraço individual.
É de Tolstói este lembrete:
O pensamento é a glorificação da verdade; portanto, os maus pensamentos são aqueles que não foram raciocinados até o fim.
Os escribas egípcios tinham a função de registrar os feitos heróicos dos faraós, além das normas por eles determinadas. Ainda contratos, contabilidades. Aí estava a continuação da identidade de um povo.
Somos os escribas contemporâneos. A nós foi dado o privilégio de registrar esse tempo em que estamos por aqui. Tempo do centenário. Tempo de restaurações. Tempo de encontros menos sólidos do que gostaríamos. Passaremos. E é essa consciência que deveria nos tornar melhores. O que lemos e escrevemos nos faz responsáveis pelo repertório ampliado que tivemos e temos a oportunidade de usufruir. Não consigo compreender o conhecimento fechado no diletantismo de se saber que se sabe. O conhecimento é instrumento para melhorar as pessoas e o mundo. A poesia, o conto, o romance, as filosofias não servem a nada e ao mesmo tempo servem para que a humanidade seja mais sensível. Não passamos imunes pelos textos. A não ser que nos tranquemos na caverna. Se dermos uma pequena oportunidade para as letras elas nos instigarão a sair e a enfrentar a adversidade com mais altivez e galhardia.
A Academia Paulista de Letras cumpre seu ciclo de cultivar pessoas e palavras como queria Platão em seu templo do saber. O nosso jardim cultiva espécies diferentes e aqui os aromas são agradáveis e alimentam nossas intenções. Que sejam as melhores!
