Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)
Tenho vivido lindas experiências de construção de conhecimento a partir das vivências dos meus alunos. Acredito que todo professor deva se preparar para as aulas. Deva ter um caminho previamente refletido para caminhar com seus alunos. Por outro lado, todo professor deve ter a abertura para o novo. No caminho, surgem paisagens inesperadas. E não há por que ter medo delas.
Em uma aula para o curso de direito, uma aluna, logo no início, disse que estava muito triste. Eu ouvi o lamento, mas continuei o que havia preparado. Falava de Kelsen e de alguns aspectos do positivismo jurídico. A aluna, inconformada, protestou:
– Poxa, Chalita! Você não se incomodou com a minha tristeza?
– Sim, vamos falar depois sobre isso.
– Depois, não. Eu quero falar agora!
– Agora?
Olhei para os quase 90 alunos que lotavam a sala.
– Agora!
Ela insistiu. E prosseguiu.
– Para de falar o que você está falando e fale o que todo mundo quer saber. O que todo mundo quer entender.
Perguntei:
– E o que todo mundo quer saber?
Ela foi taxativa:
– Por que é que homem não presta? Sim, por que homem não presta?
– Homem não presta?
– Não presta, professor! Posso contar o que o meu namorado fez comigo?
Sem que eu dissesse ‘sim’ ou ‘não’, ela se entusiasmou a falar e, ao final, exclamou:
– E o pior é que é o oitavo namorado que faz isso comigo. O oitavo!
– Sei.
Antes de qualquer reflexão, um aluno pediu a palavra e eu consenti.
– Tudo bem que tem homem que não presta. Mas tem mulher que não presta também. Posso falar da minha ex-namorada?
Àquela altura, só podia dizer que sim.
Passados esses desabafos, aproveitei para explicar a paixão. A aula era de filosofia do direito. E o tema da paixão interessa tanto à filosofia quanto ao direito. Dez mulheres são assassinadas por dia no Brasil em crimes passionais. São maridos, amantes, ex-maridos, ex-amantes, namorados, padrastos, tios, amigos que se acham no direito de “matar por amor”.
Convidei os alunos a fazer uma reflexão sobre o conceito de paixão na obra “O Banquete” de Platão. Falamos de Penia, deusa da penúria, e de Poros, deus do engenho. Da fragilidade e da fortaleza da paixão. Falamos de algumas histórias de paixão da literatura e da vida. O triste desfecho de Tristão e Isolda. O amor projetado de Dante em Beatriz. As cartas de dor e de amor de Soror Mariana do Alcoforado. Trouxemos exemplos recentes amplamente divulgados pela mídia para compreender o que dá a alguém o direito de destruir o outro ou os sentimentos do outro. E, ainda, o que faz com que alguém insista em repetir os erros do amor, sem amor.
Brinquei com minha aluna. Seriam os homens que não prestam ou suas escolhas que não prestam? Por que insistir nos mesmos erros? Por que mendigar afeto?
Falamos de Sartre e da genial obra “Entre quatro paredes”. “O inferno são os outros”, porque projetamos nos outros a nossa realização. E isso é injusto conosco mesmos.
E voltamos para Kelsen. Para o conceito de justo e de injusto. Para o diálogo tão necessário entre o saber e o viver.
Os professores não têm de temer essa fascinante experiência de construir o conteúdo a partir da vida. Evidentemente, não se pode vulgarizar o conhecimento. Não teria sentido se eu colocasse em votação as questões iniciais: homem não presta? mulher não presta? O conteúdo ajuda a percorrer com mais pertinência esses tênues caminhos da vida.
É preciso usar o conhecimento para iluminar a vida!
