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”Fazer o bem” está sempre na moda

“Meus amigos, nunca digam que há plantas más ou homens maus. O que há são maus cultivadores.” Esse pensamento é do genial escritor francês Victor Hugo, autor consagrado em vida que teve uma extensa obra, que vai do teatro à poesia, da ficção aos ensaios políticos.

Em 1862, Victor Hugo escreveu “Os Miseráveis” – obra que foi adaptada para o teatro. Mais de 60 milhões de pessoas, em 42 países, aplaudiram a história, que, agora, tem nova versão para o cinema.

O filme está em cartaz e obteve oito indicações ao Oscar. Dirigido por Tom Hooper, conta com um elenco impecável. A história se passa durante a Revolução Francesa. Jean Valjean é preso por furtar um pedaço de pão. Passa anos fazendo trabalhos forçados. Quando é solto, depois de perambular pelas ruas, consegue hospedagem na casa de um bondoso monsenhor. No entanto, foge de madrugada, furtando pratarias da casa.  

Preso pela polícia, é levado ao monsenhor, que afirma que as pratarias foram um presente para Jean. Diante da bondade do religioso, Jean Valjean resolve mudar de vida e aí se desenrola a linda história de quem recebeu o bem e quer viver fazendo o bem. O antagonista é o inspetor Javert, que o persegue durante toda a vida. As músicas são majestosas, e a produção, embora não consiga traduzir toda a riqueza de detalhes do livro, é fantástica. 

A trama, atualíssima, retrata a dualidade da vida. Experiências dolorosas de traição, de inveja, de desprezo, de mentira podem endurecer os sentimentos. O que é uma pena. Porque, de fato, há por aí gente de muito valor, que cultiva os bons princípios e que respeita a si mesmo e ao outro. 

Essa é a grande lição da prática do amor. Ontem e hoje. Afinal, “fazer o bem” está sempre na moda. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Grávidos de futuro

A expressão é de Clarice Lispector na genial obra “A hora da estrela”. Macabéa, que sonhava em ser uma estrela, foi atropelada por um requintado Mercedes Benz amarelo e morreu prematuramente. Estava grávida de futuro.

Estavam grávidos de futuro os jovens de Santa Maria. Uma tragédia que comoveu o país e o mundo. Jovens que saíram para brindar a vida e encontraram a morte. Jovens que foram da festa ao luto, inadvertida e precocemente.

Muito se falou e se escreveu sobre o fato. Todos os olhares se voltaram à casa incendiada da Rua dos Andradas, em Santa Maria. Forte emoção com o toque dos celulares incessantes de pais ávidos por falar com seus filhos. Os filhos já não tinham como atender. Mães reconhecendo filhos mortos. Casais que partiram juntos. 

Encontrar os culpados, fazer valer a justiça, é fundamental. Mas é preciso mais. É preciso aprender com os erros de hoje para que eles não se repitam. Boates como a de Santa Maria se multiplicam pelo Brasil. No caso de São Paulo, a grande maioria não tem alvará de funcionamento. São riscos não medidos. Parece que a tragédia só acontece no quintal alheio. E isso não é verdade.

Os jovens são geralmente apontados como inconsequentes. Aristóteles diria “incontinentes”. Nunca acham que vão morrer e, por isso, não tomam as devidas precauções. A prova disso são os altos índices de jovens mortos em acidentes. Mas o Estado não pode ser inconsequente, nem incontinente. É dever do Estado fazer o que é correto. Criar procedimentos adequados de segurança e mecanismos que impeçam os conhecidos “favores” para este ou aquele.

Fazer o que é correto. Esse é o caminho para que os jovens grávidos de futuro tenham direito a vê-lo se realizar. Macabéa morreu, sussurrando o que lhe era mais importante: “Quanto ao futuro.” Nesse momento, tornou-se o centro de todas as atenções. Imaginou-se como uma luz, a luz de uma estrela. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Uma cidade mais humana

São Paulo, que hoje completa 459 anos, convida-nos a uma reflexão: o que queremos e o que temos feito pela maior e mais rica cidade do país? É preciso lembrar sempre que cuidar da metrópole é cuidar também de seus moradores.

O grande desafio de São Paulo é que ela não é uma, mas muitas cidades. Cidades que se complementam, opõem-se, confundem-se e que fascinam. Seus habitantes vão, aos poucos, traçando, nesta sedutora complexidade urbana, a parte que lhes cabe, a sua cidade, a desejada, a que lhes pertence, a que os acolhe. São travessias interiores de um povo que constrói cidades ocultas dentro de São Paulo, megalópole inesgotável de caminhos e de possibilidades que se cruzam e se interligam, revelando o aqui e o ali que sempre surpreendem. Cidades invisíveis, como as de Italo Calvino. “É uma cidade igual a um sonho: tudo o que pode ser imaginado pode ser sonhado, mas mesmo o mais inesperado dos sonhos é um quebra-cabeça que esconde um desejo, ou então o seu oposto, um medo.”

E, assim, convivem, lado a lado, a cidade tranquila e a caótica. A segura e a violenta. A central e a periférica. A que acelera rumo ao futuro e a que trava nos congestionamentos. 

São Paulo vive, sonha, respira e aspira a ser mais humana. Um esforço que cabe a nós, paulistanos, realizar. E isso começa com detalhes que afetam o dia a dia de cada um de nós. Arrumar as calçadas, iluminar as vias, enterrar os fios que confundem a beleza, retirar o lixo das ruas e impedir as depredações são alguns dos desafios que governantes e população devem enfrentar juntos. Cuidar das pessoas, renovar o olhar, revelar o oculto, derrubar muros.

Trata-se de um sonho possível. Que, em 2014, nos 460 anos de São Paulo, possamos celebrar uma cidade mais justa, mais humana e mais feliz, com a satisfação de termos colaborado também. Lembrando Fernando Pessoa, “e tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero”. Parabéns, São Paulo!

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Dor de mãe

Mais um crime. Mais uma dor. Mais uma ação incompreensível. Uma mãe e o seu filho morto.
O fato aconteceu em Guarulhos, no Parque Alvorada. Um jovem de 26 anos saiu do carro e foi abordado por dois adolescentes que, segundo a mãe, aparentavam menos de 15 anos.

O jovem levou um tiro no rosto. E correu. A mãe, ouvindo o barulho, saiu de casa e foi ao encontro do filho. O jovem ensanguentado aproximou-se da mãe, quando foi atingido por mais um tiro, dessa vez, nas costas. É esse o fato. 

É possível imaginar o sofrimento dessa mulher? E de tantas outras que passaram por situações semelhantes? Mais do que buscar culpados pela onda de violência, é preciso agir. Evidentemente, o papel das polícias é fundamental, mas não o bastante. Estamos falando de adolescentes que deveriam estar na escola, que deveriam estar se preparando para o mercado de trabalho e que ingressaram na criminalidade como um caminho aparentemente fácil para obter dinheiro e status.

Governo federal, governos estaduais e municipais precisam agir em duas frentes. Uma, no combate à marginalidade, com uma polícia bem treinada, bem equipada. Com centrais de inteligência, monitoramento das cidades etc. A outra frente é a da prevenção. Não é possível que um país com a força de 6ª economia mundial não invista pesadamente nas escolas em tempo integral, no cuidado integral da criança e do adolescente. O país do amanhã depende da educação de hoje, do cuidado de hoje, das ações de hoje. 

Ou isso ou continuaremos “enxugando gelo”. Ou isso ou agiremos pelo impulso desses trágicos acontecimentos. Combater a violência vai além de medidas midiáticas. Precisamos de medidas estruturais. E a educação, com ações integradas de esporte e cultura, é que dará às nossas crianças e adolescentes o direito a ter dinheiro, status, bons valores e oportunidade, bem longe da criminalidade. 

Quem sabe um dia esses exemplos frequentem apenas os livros de história.

Por Gabriel Chalita (Fonte: Diário de S. Paulo)

Nenhum cidadão é invisível

A invisibilidade humana é um dos mais severos crimes da sociedade. Omitir-se da triste condição alheia, negar um gesto solidário, abandonar o próximo à própria sorte são atitudes causadoras de injustiça.

Temos, hoje, uma cidade dividida: a rica e a pobre. A cuidada e a abandonada. De acordo com o último Censo, de 2011, realizado pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), a cidade tinha quase 15 mil pessoas vivendo nas ruas. No entanto, uma mudança positiva desponta na relação entre a Prefeitura de São Paulo e essas pessoas.

O secretário municipal de Segurança Urbana, Roberto Porto, responsável pela Guarda Civil Metropolitana, anunciou a intenção de criar um novo protocolo de abordagem aos moradores de rua. O objetivo da medida, que inclui a participação de assistentes sociais, é diminuir drasticamente a truculência que marcou essa ação na gestão anterior.

Em julho do ano passado, o Ministério Público do Estado ingressou na Justiça contra a Prefeitura, questionando a constitucionalidade da lei que dá à GCM o poder de interpelar e lidar com essas pessoas. Vale lembrar que 70% dos moradores de rua apresentam problemas mentais, de drogadição ou de alcoolismo. Sem uma política municipal de acolhimento, a ação do poder público se limitava à apreensão de seus poucos pertences e documentos e à dispersão desmedida dessa população.  

São Paulo não pode mais admitir que esses cidadãos vivam em condições de vulnerabilidade. Como disse o prefeito Haddad, este é o início de um novo tempo, que derrubará o “muro da vergonha” que separa ricos e pobres, com a implementação de uma política de respeito e de diálogo.

Há muito a ser feito para que a maior e mais rica cidade da América Latina tenha um olhar de esperança para tantos que, por alguma razão, já a perderam. 

E isso vale para outras cidades do nosso país. Grandes ou pequenas. Nenhum cidadão pode ser tratado como invisível.

Por Gabriel Chalita (Fonte: Diário de S. Paulo)

2013: mãos à obra

Por Gabriel Chalita

Ao contrário do que costumamos ouvir repetidamente nesta época, o ano não começa depois do Carnaval. Especialmente o de 2013. Este será um ano de grandes desafios e oportunidades. Depende de nós transformá-lo em vitórias e em conquistas para o povo brasileiro. Com muito trabalho, desde os primeiros dias.

Logo de início, já tivemos a instalação das novas administrações municipais. A julgar pelo que foi dito por prefeitos novos ou reeleitos, o sentimento é de otimismo. A preocupação em cortar gastos e em melhorar as finanças das cidades mostra que o Brasil está no caminho certo. Isso permitirá que o dinheiro público seja direcionado a investimentos na área social e na de infraestrutura. Enquanto o mundo sofre com a crise econômica, nós podemos consolidar a trajetória de crescimento sustentável que vem dando às pessoas a chance de sair da miséria e da pobreza.

Este será também um ano em que o país atrairá ainda mais a atenção do mundo. A começar pela Copa das Confederações, em junho, o primeiro teste para a Copa do Mundo de 2014 e para os Jogos Olímpicos de 2016. Mais do que os gastos dos turistas estrangeiros que aqui desembarcarão, estará em jogo o legado que essas competições deixarão para o Brasil.

Em julho, ocorrerá a Jornada Mundial da Juventude, que será coroada com a presença do Papa Bento 16 no país. A última edição, em 2011, na Espanha, reuniu cerca de 2 milhões de pessoas. A expectativa é a de um público ainda maior este ano, e  não só no Rio de Janeiro, palco principal da celebração. Com as pré-jornadas espalhadas pelo Brasil, outras cidades também deverão se preparar para receber os jovens. Em São Paulo, por exemplo, são esperados mais de 40 mil, contingente superior ao de eventos tradicionais da cidade, como o Grande Prêmio de Fórmula 1.

Com as energias renovadas pelas festas de fim de ano, é hora de arregaçarmos as mangas e começarmos a construir um 2013 de glórias.

Fonte: Diário de S. Paulo

Gratidão ao eleitor

Por Gabriel Chalita

Em primeiro de janeiro, novos prefeitos e vereadores tomam posse em todo o país. Alguns foram reeleitos. Outros ocupam pela primeira vez um mandato eletivo. O que se deve esperar deles? Simples: gratidão ao eleitor. 

E o que significa ser grato ao eleitor? Trabalhar incansavelmente para honrar os votos, cumprir os compromissos de campanha, melhorar a vida das pessoas. Nas grandes e nas pequenas cidades, os candidatos saíram às ruas, analisaram problemas, fizeram promessas, buscaram votos. E convenceram o eleitor. Agora, o trabalho é outro.

O prefeito é o administrador mais próximo das pessoas. É ele o responsável pelo dia a dia da cidade. Infelizmente, muitos se esquecem disso e misturam o público com o privado, transformando a prefeitura em um “negócio”. É o que temos visto pelo país afora. Denúncias de desvio de recursos da merenda, dos hospitais, das obras. Triste fim de quem mereceu a confiança do povo. O vereador, além de legislar e fiscalizar, é um agente político de grande importância. É a voz da cidade e do cidadão.

Ser vitorioso nas urnas significa muito, mas não é tudo. A vitória maior precisa vir agora. Combater as desigualdades, acabar com a injustiça de um país que cuida bem das crianças ricas, mas se esquece das crianças pobres. O segredo está na educação de qualidade, nas escolas em tempo integral, na preparação para o mercado de trabalho. A saúde é outra chaga que angustia a população mais necessitada. Moradia, transporte, limpeza urbana etc. 

Os desafios são muitos. Ninguém espera que os administradores tenham uma vara mágica para resolver problemas, mas que trabalhem com afinco, desde o primeiro dia, e sejam fiéis aos eleitores que, mesmo com tantos desmandos, ainda confiam e votam. Que sejam honestos. Que não se esqueçam de que o poder é transitório e de que será muito bom terminar seus mandatos com a consciência limpa por não ter enganado o eleitor nem a si próprios.

Fonte: Diário de S. Paulo

Um Natal solidário

Por Gabriel Chalita

Há um conto de Hans Christian Andersen, “A Menina dos Fósforos”, que narra a tristeza de uma menina pobre, em época natalina. O final é triste e é lindo. A reflexão também. O Natal é a celebração do nascimento de Cristo, o homem que marcou a história pregando a revolução do amor. Jesus cuidou dos que mais padeciam, dos que eram marginalizados: os leprosos, as mulheres adúlteras, os estrangeiros, os pecadores, as crianças.

No aniversário de seu nascimento, renasce o fazer voluntário. Há muitas pessoas que se mobilizam para ajudar uma creche, um orfanato, um asilo, uma clínica, entre outros. Há aqueles que saem a cuidar dos que vivem nas ruas. Ações louváveis, mas que não podem ficar restritas a esta época.

Uma pesquisa realizada em 2011,  pelo Ibope, mostrou que um em cada quatro brasileiros fez algum tipo de trabalho voluntário ao longo do ano. Segundo outro estudo, da ONU, também divulgado em 2011, o número de voluntários no Brasil passou de 22 milhões para 42 milhões desde a instituição do Ano Internacional do Voluntariado, em 2001. Trata-se de um avanço. Mas é preciso mais.
 
Atento a essa realidade, apresentei à Câmara dos Deputados uma proposta para que as instituições de ensino superior sejam agentes indutoras da participação dos universitários em atividades solidárias. O Projeto de Lei 1838/2011 prevê o registro do serviço voluntário no histórico do aluno, como acontece em muitos outros países. A intenção é a de levar mais e mais jovens a participarem ativamente da construção de um país mais justo, humano e mais respeitoso diante do sofrimento e da privação do próximo.
 
Afinal, educar não é apenas ensinar números, fórmulas e regras. É ajudar, como dizia Sócrates, a desenvolver o que cada um tem de melhor. E o melhor é fazer o bem, para que, um dia, as histórias tristes recheiem apenas as lindas páginas da literatura. Já a vida real, que seja mais justa.

Fonte: Diário de S. Paulo