Grávidos de futuro

A expressão é de Clarice Lispector na genial obra “A hora da estrela”. Macabéa, que sonhava em ser uma estrela, foi atropelada por um requintado Mercedes Benz amarelo e morreu prematuramente. Estava grávida de futuro.

Estavam grávidos de futuro os jovens de Santa Maria. Uma tragédia que comoveu o país e o mundo. Jovens que saíram para brindar a vida e encontraram a morte. Jovens que foram da festa ao luto, inadvertida e precocemente.

Muito se falou e se escreveu sobre o fato. Todos os olhares se voltaram à casa incendiada da Rua dos Andradas, em Santa Maria. Forte emoção com o toque dos celulares incessantes de pais ávidos por falar com seus filhos. Os filhos já não tinham como atender. Mães reconhecendo filhos mortos. Casais que partiram juntos. 

Encontrar os culpados, fazer valer a justiça, é fundamental. Mas é preciso mais. É preciso aprender com os erros de hoje para que eles não se repitam. Boates como a de Santa Maria se multiplicam pelo Brasil. No caso de São Paulo, a grande maioria não tem alvará de funcionamento. São riscos não medidos. Parece que a tragédia só acontece no quintal alheio. E isso não é verdade.

Os jovens são geralmente apontados como inconsequentes. Aristóteles diria “incontinentes”. Nunca acham que vão morrer e, por isso, não tomam as devidas precauções. A prova disso são os altos índices de jovens mortos em acidentes. Mas o Estado não pode ser inconsequente, nem incontinente. É dever do Estado fazer o que é correto. Criar procedimentos adequados de segurança e mecanismos que impeçam os conhecidos “favores” para este ou aquele.

Fazer o que é correto. Esse é o caminho para que os jovens grávidos de futuro tenham direito a vê-lo se realizar. Macabéa morreu, sussurrando o que lhe era mais importante: “Quanto ao futuro.” Nesse momento, tornou-se o centro de todas as atenções. Imaginou-se como uma luz, a luz de uma estrela. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

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