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Justiça seja feita

Recentemente, o Congresso Nacional deu um importante passo em direção ao desenvolvimento do País e a uma sociedade igualitária. A promulgação, na terça-feira (2/4), da Emenda Constitucional 72/2013, que estabelece uma série de direitos às empregadas e aos empregados domésticos, corrige uma iniquidade relativa a esse grupo de trabalhadores, privado durante anos de garantias oferecidas a outros profissionais.

Estima-se que, no Brasil, haja entre 8 e 9 milhões de empregados domésticos, sendo quase a totalidade composta por mulheres. Gente que acorda cedo, que passa horas e horas no transporte público, que deixa suas próprias casas e famílias para cuidar das casas e das famílias dos outros.

Alguns dos direitos começaram a valer já na quarta-feira (3/4), como a jornada máxima de 44 horas semanais – e não superior a 8 horas diárias – e o pagamento de hora extra, de férias e de 13º salário. Parte das novas determinações, porém, necessita de regulamentação do Ministério do Trabalho e Emprego e do Ministério da Previdência Social. 

É importante lembrar que todo esse esforço depende, também, da correção de outra deformidade, que as leis anteriores não conseguiram debelar: a falta de regularização dessa mão de obra. Estima-se que apenas 3 em cada 10 empregadas ou empregados domésticos tenham carteira assinada no País. Assim, se nada for feito para ampliar a fiscalização e identificar essas situações, entre 5,6 e 6,3 milhões de trabalhadores da categoria continuarão expostos à ausência de direitos elementares.

A aprovação da Emenda Constitucional 72/2013 representa mais uma vitória na jornada que pretende incluir milhões de brasileiros na economia moderna. No entanto, ainda há muito a fazer no valoroso caminho da justiça social. Somando esforços, poder público e sociedade serão capazes de garantir a esses brasileiros a igualdade que lhes foi negada por tanto tempo.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

A autonomia como meta da educação

A autonomia é uma importante meta da educação. Denominada por Jean Piaget como “um poder que não se adquire senão de dentro e que não se exerce senão no seio da cooperação”, ela é uma conquista, que não acontece no ambiente escolar sem que o aluno tenha efetivamente a oportunidade de participar dela.

Da autonomia, surge a capacidade que qualquer pessoa tem de definir as leis para si mesma. Essa deliberação não toma como ponto de partida simplesmente a subjetividade, os gostos e os caprichos do indivíduo, mas adota como referência o que se poderia desejar para qualquer pessoa.

Na dinâmica escolar, todos devem ter o direito de opinar e de participar dos processos decisórios. É participando que se aprende a participar. Uma escola que mantém o monopólio da verdade, que não aceita a intervenção dos agentes que a integram, desconsiderando diferentes visões de mundo e culturas, e que não se abre para as negociações é um verdadeiro desastre educativo, pois não permite que os alunos desenvolvam habilidades de negociação para tratar seus conflitos pessoais e sociais.

A escola é um lugar que reúne muita gente. Diversos olhares, gostos, talentos, sentimentos, sonhos, necessidades, histórias de vida, contextos. E esse lugar tão especial guarda uma missão igualmente especial: fazer toda essa gente feliz, com princípios de justiça e de equidade social.

A missão pode parecer óbvia, mas não é nada simples, pois cada pessoa tem uma maneira peculiar de ser feliz. Todos desejam ser felizes, mas ninguém alcança a felicidade sozinho. Um depende do outro. Essa é a trama que faz do espaço escolar algo genial e que pode torná-lo fascinante para os aprendizes. Isso se mostra possível, por exemplo, se o ambiente for organizado com a participação dos alunos em atividades artístico-culturais e esportivas; com a presença da família, para o envolvimento dos pais na dinâmica escolar; com a promoção do encontro de gerações, para que haja uma rica troca de experiências, além da valorização e do respeito pelas diferentes etapas da vida; e com a participação protagonista dos estudantes em projetos sociais e de melhoria da escola e da comunidade.

O importante é saber que sempre há uma solução. Nada é definitivo ou permanente, desde que a transformação seja um compromisso assumido por todos. Esse é o grande diferencial da profissão do docente. Seu trabalho não se resume ao conteúdo, como o de quem presta um serviço a um grupo, oferecendo conhecimentos. Na ação pedagógica, o professor estabelece profundas relações de confiança e respeito e se torna responsável pelo destino de seus alunos.

A autonomia faz-se fundamental para a formação de cidadãos conscientes e atuantes. No entanto, é importante que os alunos entendam que ter autonomia não significa fazer o que se quer, como e quando se quer, mas, sim, usar a liberdade com responsabilidade. Já afirmava Paulo Freire que “uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade”. Com acolhimento, cuidado e ética, o educador é agente maior no processo de conquista da autonomia. E a escola apresenta-se como um espaço propício para que isso se dê sem a perda da essência e da razão desse delicado e complexo caminho.

Por Gabriel Chalita (fonte: Revista Profissão Mestre)

Adoção a favor da vida

Albertinho luta pela vida. Internado no Hospital e Maternidade Albert Sabin, em Salvador, ele contraiu uma infecção e seu quadro de saúde é grave. Albertinho é o apelido dado pela equipe médica ao recém-nascido abandonado na semana passada dentro de uma caixa de sapato, ainda com o cordão umbilical, em um ponto de ônibus da capital baiana.

Sem o amor da família, ele enfrenta essa triste batalha com a ajuda de profissionais para os quais a vida se faz prioridade. Pequeno ainda, já é um vencedor. Lamentavelmente, muitos outros bebês não são encontrados a tempo de, mesmo debilitados, terem a chance de descortinar um novo mundo, repleto de possibilidades.

Milhares de crianças como Albertinho vivem em abrigos espalhados por todo o país. São, além de vítimas do abandono, fugitivas de maus tratos. Atualmente, cerca de 4,5 mil delas estão na fila de espera da adoção. Paradoxalmente, o número de famílias que, cadastradas, aguardam a possibilidade de adotar uma criança soma mais de 27 mil.

Para combater essa dura realidade, fui o proponente, em 2011, da Frente Parlamentar Mista Intersetorial em Defesa das Políticas de Adoção e da Convivência Familiar e Comunitária. Formada por deputados e por senadores de diferentes partidos, ela elaborou e debateu projetos que, hoje, tramitam nas duas Casas. Além de abordar os aspectos da adoção, a Frente tratou de um tema muito importante dentro dessa problemática: a questão do apadrinhamento afetivo. Por meio dele, as crianças passam a ter modelos de convivência social fundamentais para seu desenvolvimento e para a formação de seus valores.

É preciso conscientizar as pessoas acerca das condições de apoio garantidas às mães e aos pais que desejam entregar seus filhos para adoção – o que poderia evitar o abandono ao qual são submetidas tantas crianças. Essa, entre outras ações, mostra-se fundamental para que todos tenham respeitado seu direito à vida e à cidadania.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

”A falta de amor é a maior de todas as pobrezas”

A dignidade humana é das conquistas mais preciosas de uma sociedade. No entanto, esse bem está longe de ser uma prática constante. Embora a Declaração Universal dos Direitos Humanos contemple, já no primeiro artigo, o espírito de fraternidade entre as pessoas, falta muito para que o atinjamos em sua plenitude.

Nos últimos meses, o mundo direcionou sua atenção para a Índia, mas não de modo a atestar a coragem de figuras como Mahatma Gandhi ou Madre Teresa de Calcutá, defensores incansáveis dos direitos humanos. Desta vez, nossos olhos se voltaram para o que os olhos não querem ver: a covardia, a crueldade, a barbárie.

O fato é que uma onda de estupro coletivo parece assolar o país. O primeiro caso a ser noticiado ostensivamente foi o de uma universitária indiana, vítima desse crime dentro de um ônibus, em Nova Déli. A jovem, após três meses, morreu.

Nesta semana, uma turista britânica foi hospitalizada depois de pular da janela de seu quarto de hotel. Em depoimento à polícia, ela explicou que arriscou a vida para impedir que o filho do dono do local a estuprasse. O caso aconteceu em Agra, no norte da Índia, região onde uma suíça, também turista, havia sido vítima de um estupro coletivo dias antes. 

Obviamente, as agressões sexuais não são uma exclusividade da Índia. No entanto, a visibilidade que ganharam os casos de estupro – em particular, os coletivos – naquele país não deve ser ignorada. É necessário um olhar ainda mais atento, consciente e indignado sobre a gravidade do problema. Precisamos nos mobilizar contra essa prática ignóbil, além de outras que banalizem a vida.

Disse, certa vez, Madre Teresa, religiosa que se naturalizou indiana: “A falta de amor é a maior de todas as pobrezas”. Esperamos que, um dia, esse pensamento seja exercitado por todos, para que a fraternidade e a dignidade humana se tornem, de fato, uma realidade universal.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Francisco, um olhar de esperança

Habemus Papam! E o mundo viveu a expectativa de quem seria o sucessor de Bento XVI. Um cardeal argentino, Jorge Mario Bergoglio. Um homem acostumado à simplicidade. Defensor dos indefesos.

Sua aparição com a tradicional roupa branca fez com que o mundo parasse para conhecer quem comandaria a Igreja Católica e, além disso, quem é o homem que terá poder para lutar pela paz, pela fraternidade, pela justiça social.

O papa, antes de abençoar o povo, pede para que o povo ore por ele. Sorri com simplicidade. Brinca com o fato de ser de longe, da América Latina. Transmite serenidade. É consciente da árdua missão que terá pela frente, mas confia em Deus. 

O novo papa escolhe o nome de Francisco. Os analistas e os observadores têm sua opinião sobre a qual Francisco ele se refere. Há muitos santos de nome Francisco. Um deles é Francisco de Assis. “O noivo da dona pobreza”, o jovem que abriu mão de tudo para cuidar dos pobres. O protetor dos animais. O sinônimo da fraternidade, da humildade. O revolucionário que compreendeu o ensinamento de Cristo. Cuidar dos que ninguém cuidava, amar os que ninguém amava. 

Francisco de Assis é um símbolo para os que frequentam a religião e para os que não a frequentam. É um santo que permanece jovem e que continua sendo fonte de inspiração para os que não desistem do amor, mesmo enfrentando a dor.

“Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver discórdia, que eu leve a união…” Assim começa a oração de Francisco de Assis.

O mundo carece de esperança. “Onde houver desespero, que eu leve a esperança.” Nossos Franciscos, o santo, o papa, têm um olhar de esperança. Que Sua Santidade seja um instrumento de paz. Que ele seja um peregrino do amor.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

A complexidade da educação

A educação é a arte do coração. Essa frase não é nova. Não se sabe quem foi o primeiro a dizê-la. Mas ela está na essência de Sócrates e no fundamento de Dom Bosco. Sócrates instigava os jovens de seu tempo a colocarem para fora o potencial que tinham.

Era como um “parto de ideias”. Dom Bosco, o jovem padre italiano, queria mostrar quanto era importante para os jovens que não apenas fossem amados, mas que se sentissem amados.

O termo “educação” deriva do vocábulo latino educare, que significa criar, nutrir, amamentar, cuidar, ensinar. Porém, a palavra tem relação estreita com a forma verbal latina duco, que quer dizer conduzir. Além disso, “educar” também está ligado a educere, que significa, ao pé da letra, conduzir para fora, isto é, preparar a pessoa para viver no mundo, fora de seu universo individual.

Percebe-se, com isso, que a educação, já na origem da palavra, é algo mais complexo do que pode parecer à primeira vista. Está sempre ligada ao conceito de permitir ao ser humano que ele seja, que realize, que aconteça, que tenha atitude. Em outras palavras, instrumentalizá-lo ou, ainda mais, instigá-lo, para que ele consiga desenvolver suas habilidades. Assim, é preciso que o educador acredite que seu aprendiz tem potencial. Desconsiderar a bagagem que cada pessoa traz é um equívoco de quem não se predispõe a conhecer o universo alheio. Não é possível ajudar alguém a ser condutor sem antes conhecê-lo, sem antes perceber as limitações e as amarras que o impedem de caminhar com os próprios pés.

Se necessário, o aprendiz saberá levantar-se de uma queda, moral ou profissional, individual ou familiar, porque aprendeu a fazê-lo. Foi preparado para que, durante a travessia, não fuja ao sinal do primeiro obstáculo. O educador deve buscar o sonhado meio-termo aristotélico – prevenia o filósofo grego sobre o fato de que, tal como um arqueiro, na vida é possível errar de muitas maneiras, mas acertar o centro é para aqueles que foram educados. Na época, a educação era restrita aos poucos que frequentavam a Ágora ou o Liceu. Hoje, o desafio é atingir todos, sem distinção, como estabelece a Constituição Federal de 1988.

A tarefa afigura-se monumental, complexa. Todos não são alguns. O universo de pessoas é rico e, ao mesmo tempo, penoso de ser trabalhado. Existe, entretanto, uma forma de superar essa dificuldade – agir com a maior simplicidade possível. Nisto reside a sabedoria: tratar coisas complicadas de maneira simples.

E qual é o segredo? É a amizade. Porque a amizade simplifica as coisas, direcionando o relacionamento entre pais e filhos e entre professores e aprendizes para o afeto.

Separar processo educativo de afeto é mais ingênuo do que acreditar no poder do afeto para mudar comportamentos e gerar aprendizagem. É preciso dizer isso, porque há muitos que apregoam ser ingênuo querer acreditar que o professor, com tantos dissabores, haverá de ser afetuoso. Mas, se não o for, não será educador.

Paulo Freire, na obra Pedagogia da autonomia, afirma que “a afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade”. Para ele, seriedade docente e alegria são perfeitamente conciliáveis, e o processo de ensinar e aprender não deve ignorar, além da alegria, a boniteza. Assim, cabe a nós, educadores, mesmo com os dissabores da vida, mesmo com os altos e baixos da profissão, construir diariamente uma relação de respeito e amizade no complexo ambiente da sala de aula.

Por Gabriel Chalita (fonte: Revista Profissão Mestre)

Mulheres: poesia cotidiana

“Eu sou aquela mulher a quem o tempo muito ensinou./Ensinou a amar a vida e não desistir da luta, recomeçar na derrota, renunciar a palavras e pensamentos negativos./Acreditar nos valores humanos e ser otimista.”

Cora Coralina, autora desses versos, foi uma mulher de força e coragem. Doceira de profissão, teve pouco estudo, mas muita sabedoria. Publicou seu primeiro livro aos 76 anos de idade e tornou-se um dos principais nomes da literatura brasileira.

Tal qual a escritora, muitas e muitas mulheres são merecedoras de reconhecimento, no Dia Internacional da Mulher e em todos os outros. Afinal, cada uma delas, à sua maneira, extrai do cotidiano a poesia que lhe cabe – e como viveríamos sem o encanto de suas estrofes?

Mas temas dolorosos também permeiam parte do dia a dia de mulheres de todo o mundo. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), sete em cada dez mulheres serão vítimas de agressões ao longo da vida. No Brasil, uma mulher é agredida a cada cinco minutos, segundo o Ministério da Justiça. Em 70% dos casos, o agressor é o próprio marido, o ex-companheiro ou o namorado. Uma violência silenciosa, invariavelmente, dentro de casa. 

A Lei Maria da Penha, que aumentou o rigor das penas contra os que praticam a violência doméstica no País, fez com que o número de denúncias e de punições aos agressores crescesse. Esse fato já é uma vitória, mas ainda há muito a ser feito. O poder público precisa oferecer serviços cada vez mais bem estruturados para a identificação dos abusos e as punições respectivas, ao mesmo tempo que protege as vítimas.

O Dia Internacional da Mulher, uma das tantas conquistas do público feminino, lembra-nos de que é preciso lutar, ainda mais, pela igualdade, sem violência. Mesmo com as adversidades que permeiam as relações, não se deve esmorecer na busca de uma sociedade mais justa e na crença dos “valores humanos”.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Do sonho à tragédia

Realizar um sonho é singrar os mares do possível. É atestar a veracidade da esperança, sentimento tão complexo quanto nobre. É dar-se de si para si, em nome de uma existência venturosa.

O boliviano Kevin Espada tinha um sonho: o de assistir a um jogo de seu time do coração, o San José, ao vivo. E, aos 14 anos, pôde realizá-lo. Em Oruro, no interior de seu país, entrou pela primeira vez em um estádio.

A partida era contra o Corinthians, atual campeão do mundo, o que só aumentou a expectativa do adolescente. No entanto, seu sonho terminou cinco minutos após o apito inicial. Um sinalizador disparado da torcida do clube visitante atingiu o olho de Kevin. O garoto morreu ainda no estádio. Mais uma vida perdida em um cenário que deveria ser marcado pelo esporte e pela alegria. 

A polícia logo agiu. Durante a partida, 12 torcedores do Corinthians foram detidos. O grupo permanece preso em Oruro, e diplomatas brasileiros dirigiram-se para lá, a fim de garantir que todos tenham seus direitos preservados. As investigações estão em andamento. 

Paralelamente, a Justiça Desportiva determinou que o Corinthians jogue com portões fechados quando mandante e que, como visitante, não tenha torcedores presentes nas partidas. Embora muitos não estejam satisfeitos com essa decisão, é mister que se faça algo para coibir ações como a que levou à morte do jovem boliviano. A medida, ainda que impopular, vale ao menos para que se reflita sobre a irresponsabilidade que culminou em tamanha tragédia.

A violência nos estádios deve ser combatida, independentemente de sua natureza. Não se pode deixar que ela faça novas vítimas. Kevin Espada – recém-saído de uma infância feliz, com pais que, hoje, sentem na alma a amarga dor da perda de um filho – entrou no estádio de Oruro com um sonho, mas deixou-o sem a chance de cumprir um futuro pleno de possibilidades. Não há justificativa que se equipare ao valor de uma vida.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Um Brasil de oportunidades

O empreendedorismo está em alta no Brasil, especialmente entre os jovens. É o que aponta o estudo divulgado, este ano, pelo Sebrae e pelo Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP).

Numa reversão do que se via em um passado recente, apenas 24,7% da população economicamente ativa deseja construir carreira como empregada de uma empresa. Ser dono do próprio negócio virou o principal sonho de 43,5% dos brasileiros com idade entre 18 e 64 anos. 

A mudança não decorre da falta de vagas no mercado de trabalho. Pelo contrário, já que o país vive o que se convencionou chamar de “pleno emprego”. Uma média de 7 em cada 10 empreendedores decide trabalhar por conta própria ao perceber uma oportunidade – e não por necessidade. E a maior parte dos empreendimentos com menos de três anos e meio de vida está nas mãos de pessoas com até 34 anos.

Mas, para que o Brasil seja o real país das oportunidades, é preciso investir ainda mais pesadamente em educação. Segundo o diretor-presidente do IBQP, Sandro Vieira, quanto maior a escolaridade do empreendedor, maior a tendência de o empreendimento trazer inovação e, portanto, maior valor agregado. No mundo de infinitas potencialidades da internet, por exemplo, inovação e criatividade são palavras-chave.

Em todos os campos do conhecimento, a criatividade do jovem é indispensável para que o novo aconteça. Assim, empresas que não dão espaço a esses inovadores em potencial erram duas vezes. Primeiramente, porque demonstram falta de generosidade e não estão abertas para ensinar novos navegadores a conduzir a nau. Em segundo lugar, porque correm o risco de envelhecer, embotadas em padrões escassos de ousadia, de paixão e do olhar entusiástico dos marinheiros de primeira viagem.

Criatividade não falta aos nossos jovens. Com educação de qualidade e um ambiente descomplicado e livre de burocracia, é possível transformar novos talentos em empreendedores de sucesso.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

O poder, a coragem e a humildade

Há uma tentativa de buscar explicações para a atitude do Papa Bento XVI, única, nos nossos tempos. Por que um Papa renunciaria? Por que alguém que tem o poder vitalício abriria mão desse poder? Por que se o poder é tão sedutor, tão envolvente?

E aí surgem analistas dizendo das disputas internas do Vaticano, outros falando que o Papa usa marca-passo ou que descobriu uma nova doença ou dos problemas do banco do Vaticano ou outro “achismo” qualquer.

O fato é que a busca pelo poder é tão desesperada que a coragem de ser humilde parece não convencer. É o imponderável. Sair dos holofotes para viver da oração, da reflexão, dos estudos. E fazer isso com sinceridade. Reconhecer que a idade avançada e os problemas de saúde são obstáculos para o vigor que o cargo exige. Apenas isso. O Papa Bento XVI entrará para a história por várias razões. E uma delas é esse ato de coragem, de desprendimento, de humildade.

Sua primeira Encíclica foi sobre o Amor. O amor é inspirador. É a maior virtude, porque do amor surgem as demais. É o amor pela sua Igreja, pelo seu rebanho, pela humanidade sedenta de uma ação intensa em favor da própria humanidade que moveu o Santo Padre. 

E é isso. O resto é especulação. É a incompreensão diante da compreensão de que há algo mais nobre e belo do que o poder. É a sabedoria que, aliás, faz com que o poder seja um serviço e não um objetivo em si mesmo.

Que essa atitude inspire outros governantes. O apego ao poder faz mal a quem governa e a quem é governado. Seja na Igreja, na política ou nas organizações e empresas. A humildade é o antídoto contra o que corrói o homem, a humanidade. Parabéns, Papa Bento XVI. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)